Dias atrás alguém me enviou um e-mail dizendo que “se eu conhecesse de fato Caio Fernando Abreu não o leria, tão pouco o citaria”. Já estava lendo “triângulo das águas” – “limite branco” e “fragmentos” do autor. Há tempos não o lia porque não suporto modismos e a internet fez de Caio Fernando Abreu uma espécie de vírus, com dúzias de citações atribuídas ao autor.
Tinha lido “limite branco” em 2003 – foi quando eu o (re) descobri enquanto autor, mas confesso que nunca fui atrás do homem Caio Fernando Abreu porque pra mim, as biografias são na verdade uma espécie de mapa, obrigando-nos a certas direções.
O homem por trás do autor não me interessa. Não sei seus caminhos. Seus passos. Não tomo para mim suas direções. O que me interessa é o autor. A figura emblemática que olha para o mundo em busca de si mesmo e acaba por descobrir-se no outro, um personagem que surge sem que ele procure por isso.![]()
Enfim, fico eu com suas palavras “queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi”.
O livro “Fragmentos” da LPM reúne contos de Caio Fernando Abreu, os primeiros são excelentes. Te levam para dentro da história. “Os sapatinhos vermelhos” é de longe o melhor conto do livro e sem dúvida alguma, um dos melhores de Caio. Adoro a narrativa que nos leva de encontro a uma mulher que se transforma ao calçar aqueles belos sapatos vermelhos.
“Segunda-feira no escritório, quando a viram caminhando com dificuldade, cabelos presos, vestida de marrom, gola fechada, e quiseram saber o que era – um sapato novo, ela explicou muito simples, apertado demais, não é nada. Voltavam a doer, os ferimentos, quando ameaçava chuva. E ao abrir a terceira gaveta do armário para ver o papel de seda azul-clarinho guardando os sapatos, sentia um leve estremecimento. Tentava – tentava mesmo? – não ceder. Mas quase sempre o impulso de calçá-los era mais forte. Porque afinal, dizia-se, como num conto de Sonia Coutinho, há tantas sextas-feiras, tantos luminosos de néon, tantos rapazes solitários e gostosos perdidos nesta cidade suja. Só pensou em jogá-los for quando as varizes começaram a engrossar, escalando as coxas, e o médico então apalpou-a nas virilhas e depois avisou quê”… pág. 30
Os contos seguem, alguns são mais interessantes que outro. Como a vida, que as vezes nos manda vestir bons e maus momentos. A gente traga tudo como se fosse um cigarro velho, encontrado no bolso da calça, todo amassado…
Nota. Antes que alguém pergunte, eu não fumo. Mas as vezes, quando eu escrevo, elevo meus dois dedos ao ar e sinto como se houvesse um cigarro por lá. Até repito o gesto conhecido. Levando o cigarro imaginário até a boca. Tragando a fumaça e soltando-a em seguida. Não, eu nunca quis fumar… (risos)
Já “limite branco” é um livro sobre um jovem amedrontado. Que tem tanto medo de crescer quando de existir. Os diários do personagem no livro são sem dúvida alguma a parte mais interessante, porque é exatamente quando ele dialoga com o leitor e impõe a ele o seu ritmo de jovem com medo do próprio destino – de fazer a escolha errada e não ser aquilo que dele esperam…
Deixei por último “triângulo das águas” porque é o meu favorito. É uma leitura contínua. E por isso, deixo aqui um trecho que em muito se assemelha comigo. Já cheguei a escrever em tempos outros sobre as xícaras que adquiri ao longo dos anos e o simbolismo dela pra mim, mas jamais, até ler esse livro, encontrei uma definição tão perfeita quando ao tema.
“Eu acompanhava com a cabeça a música vinda da sala, ao mesmo tempo em que esmagava as ervas para jogá-las dentro do bule. Esperando a água chiar, determinava com cuidado, e para sempre, a cor da xícara de cada um de nós, colocando-as em círculo ao redor do bule.
Escolhi a vermelha para Arthur, que dá ordens, prega pregos, corta fios e sem parar faz coisas pela casa. Separei a azul celeste para Isis, azul no tom exato de sua voz aguda quando canta, cristal retinindo na luz. Determinei que a verde mais clara pertenceria a Júlio, que se enreda em palavras, movimentos, e me parece – pelo menos agora, em plena noite – que o movimento tem exatamente essa cor, sobretudo às três horas das tardes de sol quente. Hesitei um pouco até encontrar minha própria cor, mas acabei escolhendo o branco, não só porque assim me visto sempre, mas também porque é meu ofício fazer coisas brancas, preparar os chás, assar os pães, lavar a louça. Para Ricardo, cujos cabelos claros às vezes brilham, ouro, com uma inspiração separei certeiro a amarela. Não tive dúvidas ao destinar a Martha, que tira a poeira da casa e lava o chão, a xícara verde escuro. Para Linda, por sua dança de meneios harmoniosos, mansa curvaturas, separei a cor-de-rosa”.(…) págs. 20 e 21
Antes de encerrar, um aviso, eu continuo não sabendo “Caio Fernando Abreu”. O homem pra mim é apenas uma figura pálida, ora de óculos, ora sem óculos. Ora cabisbaixo. Isolado. Perdido. Debruçado sobre sua velha máquina de escrever. É isso. No mais é pura geografia descartada como se nada fosse. Então, é pouco provável que eu deixe de ler ou citar Caio nos dias que seguem meus passos…
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