Meu sótão…
“Pensar no tempo… / pensar retrospectivamente, /
Pensar no hoje… e nas eras e eras que estão por vir.
Teve a impressão que não seguiria em frente?
Já teve medo daqueles escaravelhos terrestres?
Teve medo do futuro não ser nada pra você?”
Walt Whitman – Flores da relva (leaves of Grass)
Pensar no tempo (to think of time)
Acho que entendo porque Fernando Pessoa, na pessoa de Campos encontrou um eco próprio nos escritos de Whitman – eu mesma me vejo ali em suas linhas. Percebo uma espécie de espelho a dizer-me certas verdades, aquelas que as vezes eu recuso… “pensar que o sol se ergueu no leste… / Que homens e mulheres eram ágeis e reais e vivos… / Que cada coisa era real e estava viva; / Pensar que você e eu não vemos, sentimos, pensamos, / nem fazemos nossa parte / Pensar que agora e aqui estamos fazendo a nossa parte (…) – Ao ler essas linhas todas percebo que o poema é imenso. Sei que Whitman levou uma vida inteira para escrevê-lo porque é preciso tempo para domar nossas próprias figuras. Aquelas que guardamos no fundo do poço: a alma. É preciso tempo para observar a escuridão na qual vivemos. É preciso atenção. Cuidado, mas não pode faltar entusiasmo… Não dá pra escrever linhas inteiras logo no primeiro contato. É preciso antes de tudo um pouco de ausência… Eu realizei o movimento por inteiro. Fui em direção ao abismo – mas uma vez estando prestes a cumprir com o ritual do passo seguinte – não fui além. Só fiquei olhando pra baixo enquanto imaginava o movimento para dentro “pensar em quanto prazer existe! / você sente prazer quando olha pro céu? / sente prazer com poemas? / você se diverte na cidade? / ou metido em negócios? / ou armando uma indicação e eleição? / ou com sua mulher família? (…)
E por ser assim é que preciso me recolher as minhas trevas. Compreender meus silêncios e meus espaços em branco para me organizar porque eu preciso pensar e não escrever.
Real ou imaginário?
Hoje eu levei um susto, me senti um personagem (uma vez mais) de um filme francês. Gosto de filme franceses. Estava voltando pra casa – descobri uma padaria cujo pão tem casca crocante e massa apetitosa. Aqui os pães são franceses e eu não sei dizer a razão. São feitos com água, sal e trigo.
Enfim, ao entrar com o meu saquinho de pães dentro de uma sacola de pano – o senhor da portaria sorriu e disse “há tempos não vejo um embornal assim“. Eu sorri pra ele. Coisa de C. – eu trouxe na bagagem para “trazê-la” comigo. Há de se preservar certas memórias.
Ele então citou Auden e eu pensei estar ouvindo coisas. Mas ele havia citado um pequeno verso de Auden e comecei de imediato a questionar a realidade uma vez mais. Assusta-me quantas vezes eu fiz isso nos últimos tempos:
“Os versos eram uma doença específica do ouvido:
A integridade era de menos ; parecia
O inferno da infância: devia tentar de novo”.
Eu sei que não devo julgar uma pessoa – só os burgueses o fazem, mas isso de fato não importa porque lá estava eu de fronte aquele homem a imaginar como ele conheceu Auden. Ele franziu o cenho e disse-me “do lado de baixo do equador também se lê signorina. Bem menos, mas se lê”.
E eu me afastei porque ou eu estou transparente ou ele simplesmente não existe…
Geografias poéticas, 3
Meio da tarde.
Horas passando em pares,
Famílias inteiras em movimento!
E eu desaparecendo, no canto de minha existência.
Desatenta as coisas que tenho.
Não levo bagagem.
Apenas lembranças, somadas em maços!
Tudo sombra que me visita
nas horas de movimentos circulares!
Sei do mar e seu azul indigesto;
Sei do céu e seu azul ingrato;
Sei de mim mesma
e da falta de azul em minhas memórias,
Sei das paredes de amarelecido tempo!
E do carrilhão que só toca de madrugada. Alto.
Pela casa inteira…
Horas esquecidas no tempo de ontem!
Cantadas em pares por ponteiros quebrados.
Sei daquela gente que não sabe mais de mim!
E da rua descendo para o porto,
com suas esquinas desafiando o destino…
Sei da casa que a essa hora vive em paz!
Sem minha presença…
E sem minhas ausências também!
Sei desse alguém que me puxa pelo braço, acena.
E me manda ir com deus
Para esse lugar que eu não sei onde fica…
Fico pelo caminho, entre um passo e outro!
Meio da tarde.
Horas passando em pares,
Famílias inteiras em movimento!
E eu desaparecendo junto desse tempo
que já não se conta mais!
Não perdi o hábito de escrever missivas, 4
Carissimo,
Confesso que já estava começando a ficar inquieta com a ausência de um lugar para a minha mortalha. Às vezes eu preciso apenas me esquecer num canto sem luz e ficar ali, em estado de abandono, por horas inteiras para me desconstruir e ver o que sobra e se de fato sobra…
Eu sai para as ruas. Sem mapas ou destinos. Apenas caminhos. Virei esquinas. Atravessei ruas e sem saber como, lá estava eu diante daquele prédio. A combinação dos números em se somando dava SETE e esse número é meu diagrama. Minha tradução.
A placa dizia “aluga-se” e eu fui para dentro – mergulhando naquela geografia. Um Studio por assim dizer.
Uma gentil senhora “concierge” me apresentou o local cheio de histórias para mais tarde. Devidamente mobiliado. Não sei se será o lugar da minha alma, mas gostei dos contornos cheios de expressões diversas. Gostei do tom das paredes. Um amarelo gasto. A cozinha antiga com móveis dos anos setenta: geladeira vermelha e um fogão com botões de girar…
A sala tem espaço para livros e uma poltrona entre o sofá. A gentil concierge disse “tem TV a cabo” como se essa notícia fosse capaz de fazer a diferença na minha vida… Eu sorri para ser simpática e ela gostou do fato de eu não ser brasileira. Aluguel pago adiantado. Contrato feito mediante apresentação de documentos. Tudo tão simples. Tão agradável…
O prédio é pequeno, duas faces apenas. O elevador antigo sobe pelo meio. Não se permite animais. Não se permite crianças. Tive vontade de rir, mas me contive e disse “tutte benne” e ela ficou satisfeita. Improvisou um italiano para ser simpática. Me falou do marido dela que era descendente de calabreses, mas lembrou entre um suspiro e outro que ele não teve tempo para conhecer a Itália…
De fato eu gostei daquele cenário com seu sofá azul, tapetes vermelhos e uma concierge que parecia empolgada com uma pessoa jovem no prédio.
Enquanto ela falava, eu preparava “listas mentais” do que poderia fazer. Coisas simples como: comprar tomate, cebola, massa, panelas, talheres e pratos. Ervas. Ir à feira uma vez por semana. Chamar alguém para um jantar. Preparar refeições no meio da madrugada ou uma simples xícara de chá pela manhã… E ela ali falando. Enaltecendo o sossego do prédio e do fato de apenas pessoas “velhas” morarem no prédio…
Ao sair, eu já estava pensando em você. Passei pela porta e pensei que poderia voar para São Paulo e então eu teria a ilusão de cozinhar para um homem. Seria engraçado. Nós dois sentados naquela mesa quadrada (eu prefiro redonda, você sabe disso) com taças de vinho e queijo picado, regado a azeite e orégano. Pães cortados e dourados no alho. Ficaríamos bêbados ou fingiríamos a bebedeira. Daríamos risadas espaçadas e iríamos para a varanda brindar a cidade. Meia noite inteira… Seríamos felizes outra vez.
Então, diga-me, você vem?
bacio
Não perdi o hábito de escrever em diários, 9
Recebi um telefonema no meio da tarde. Ainda não me acostumei com esses telefones móveis que nos acham em qualquer lugar onde se esteja. E sei que nunca irei me acostumar a eles…
Era F. – ligou apenas para me lembrar de seu aniversário. Há tempos não falava com ela. Ouvi dúzias de reclamações. Fiquei a maior parte do tempo em silêncio, nem tive espaço para dizer “parabéns”. Ela é sempre assim. Tagarela. Não sei onde aprendeu tantas palavras e em tantos idiomas diferentes. Ela reclama em cinco línguas e eu não entendo nenhuma…
De tudo que disse, pouca coisa me alcançou. Deu para saber que esta vindo a São Paulo.
Enquanto ela falava certos versos faziam fila em minha mente:
“E as árvores mortas já não mais te abrigam,
nem te consolam o canto do grilo” (…)
T.S.Eliot
Não perdi o hábito de escrever em diários, 8
Nuvens
Houve um tempo em que minha janela
Se abria sobre uma cidade que parecia
Ser feita de giz.
Perto da janela havia
um pequeno jardim quase seco.
(…)
Quando falo dessas pequenas
Felicidades certas, que estão diante de
Cada janela, uns dizem que essas coisas
Não existem, outros que só existem
Diante das minhas janelas, e outros,
Finalmente, que é preciso aprender a olhar,
Para poder vê-las assim.
Fernando Pessoa
Não reconheço os lugares. Não há nada aqui que me obrigue a visitar o meu passado – nem mesmo estar na rua que durante algum tempo foi o meu endereço por aqui. As coisas simplesmente me escapam e talvez seja assim porque eu vivia dias de ausências. Estava tão dentro de mim que não sobrava espaço para as coisas que viviam do lado de fora.
Olho para os lados e vejo cenários urbanos e isso é tudo – eu tenho um passado nessa cidade – mas é qualquer coisa que não se orienta… Não se sustenta. São coisas vagas. Passageiras. Desorientadas. Completamente fora de foco…
Hoje, pela primeira vez andei na Avenida Paulista – de um lado ao outro e me lembrei da música do Caetano “alguma coisa acontece no meu coração” – e foi tudo. Desci a Brigadeiro. Tudo memória gasta. Não alcancei absolutamente nada. Dobrei esquinas, me perdi em ruas longas, estreitas, curtas. Visitei lugares conhecidos. Adentrei casarões. Observei espaços sem sentido. A arte contemporânea pra mim é isso: um combinado de alucinações que só faz sentido para quem vive as alucinações, afinal, quem alucina se orienta a partir de si mesmo.
A arte está cada vez menos sentimento – cada vez mais para fora. Tudo é cenário comprimido. Coisa que não se explica. O momento presente. Não é para amanhã. O que saberemos dizer amanhã sobre essa arte que ocupa espaços inteiros sem elegância ou maturidade. Aliás, a palavra maturidade não tem espaço nos cenários nos quais vivemos…
Depois de meia hora de caminhada em absoluto contemplar do vazio, cheguei a Mário de Andrade. Meia dúzia de palavras de T. que está preparando algo espetacular. Ele é antigo. Figura antiquada que não pensa no tempo presente – talvez por isso goste tanto de ouví-lo… Deixei com ele um combinado de palavras minhas e me surpreendi quando estava descendo as escadas. Ele veio ao meu encontro com suas palavras afáveis “menina, me esqueci de entregar esse livro”. Poemas de Mário de Andrade. Era pra mim. Ele deu um beijo em meu rosto e desapareceu. Dentro do livro um bilhete “para os anos que você não conta – mas que eu bem sei que guarda”. Adorei – mas agora preciso descobrir como ele sabe que hoje era meu aniversário… Real ou imaginário? Impossível não questionar.
Nota. Vinte e um anos e guardando.
Estranho esse sentir que alimento em meu íntimo. Sinto que tenho mais anos em minha pele do que ela realmente consente.
Não perdi o hábito de escrever em diários, 7
Um lugar para chamar de casa…
Sai por aí sem destino para encontrar um lugar que combinasse com minha atmosfera.
Vi de tudo um pouco. Me ofereceram muita coisa e eu não quis (absolutamente) nada do que me foi oferecido. Recusei quase tudo. Mas não tenho pressa porque há coisas que precisam de tempo.
Eu gosto de casas velhas, com histórias para contar. Gosto de sobrados com assoalho que resmunga lembranças e deixam pelo caminho o rastro de pessoas que “inventaram” suas histórias entre um passo e outro… Gosto de móveis velhos para arrastar por cima do piso e deixar marcas eternas que servem para narrar pretéritos tantos… Gosto de saber as pessoas que viveram nessas casas e imaginar seus movimentos, repetindo-os como se me apoderasse de suas geografias…
Não encontrei um lugar assim ainda – essa cidade tem muitos prédios e as pessoas custam a entender que você não quer ser como livros empilhados um por cima dos outros, por mais que goste de livros – um lugar para morar precisa ter os seus fantasmas e suas muitas paredes brancas que em determinado momento vão querer falar com você, mesmo sabendo que é preciso cuidado para que a loucura não seja percebido por outras figuras que não a sua…
Paulicéia Desvairada
Eis a cidade nada periférica às sete e cinco da noite. O trânsito lento (parado) angustiante.
Tantos querendo voltar para casa.
Nos bares, bocas desafinadas tentam diálogos impossíveis onde se grita quase tudo e se diz quase nada. As mesas são atropeladas por movimentos desorientados. As garrafas se acumulam em grupos de dois ou três – quatro ou cinco, talvez seis…
No alto, as luzes de tons pálidos começam a rezar por nós. São pequenas velas acesas nesse templo de todos nós…
Eu soube há pouco que no dia de hoje há tantos anos atrás o desenho dessa “cidade” começou a ser traçado – quiçá inventado. É impossível saber ao certo por quem. História por aqui é coisa para livros – os lugares não falam. As pessoas sim, mas essas só possuem palavras para falar de si mesmas e assim sendo – tudo vai em paralelo.
Não perdi o hábito de escrever em diarios, 6
Eu que já tive dúzias de agendas, diários, cadernos e um combinado de folhas amarradas por fitas – hoje me sinto nua. Sozinha. Eu sei que a escolha foi minha, mas ao me sentar aqui para escrever qualquer coisa, dei pela falta de tudo isso – e acabei recordando todo aquele gesto de revolta quando joguei tudo fora.
Naqueles dias eu não queria mais os escritos em “terceira pessoa do singular” porque sentia que de alguma maneira todas aquelas linhas inteiras não mais pertenciam a mim.
Era como se o meu existir, de repente tivesse se partido ao meio e eu tivesse me subdividido em dois momentos: o antes e o depois. Só que dentro do depois não cabia o antes e por assim o ser “para o fogo com tudo”…
Eu despi a pele de todos os meus pretéritos – os mais antigos e os mais recentes também…
Só que agora, olhando para dentro daqueles dias, eu percebo que não havia para todas aquelas coisas. A passagem já estava comprada e o dia do embarque definido… A mala estava pronta e não havia espaço para mais nada. Dois pares de meia. Duas ou três camisetas. Calças. Tênis. Dois ou três livros – apenas os mais lidos. Um pequeno baú com uma tranca nova.
Os anos seguintes vieram e o silêncio se apoderou do meu ser. Não escrevi uma só palavra – em idioma algum. Era preciso viver intensamente o vazio daqueles dias. Mas agora, depois de todos esses dias passados por mim, sinto vontade de retomar certos rituais. Embora, de certa maneira, eu já o tenha feito, mas sinto falta mesmo é do caderno vermelho sempre ao alcance da mão para o dizer tardio… Foi um presente que chegou e partiu em silêncio – mas agora, anos mais tarde, a vontade faz o vermelho ser um alarde junto a mim…
Jardim de Girassol
Caríssima M.
A noite foi longa. Difícil. Improvisei minha substância. Tentei agarrar-me em qualquer coisa e foi justamente tua lembrança que floresceu em meu íntimo. Abraçou-me. Deu a mim o tom que eu precisava para suportar esse vazio. Imagine a minha surpresa…
Ainda agora, permaneço em suspenso. Não sei para onde vou. Sai para as ruas e segui para o Parque Ibirapuera. Queria estar em algum lugar confortável e não consegui pensar em outra paisagem que não aquela, diante do lago.
As horas passavam em pares, uma depois da outra.
Eu tenho na mente a lembrança de um carrilhão e ele canta. Hora cheia. Hora vazia… Hora para os humanos. Tolos. Horas para todos, menos pra mim. O meu tempo é o de ontem – esse que vive no pulso dos homens não me diz coisa alguma. Eu confesso que peguei tudo que eu tinha e pensei milhares de vezes em afogar-me naquele copo de veneno. Mas o efeito é tão lento. Seria dolorosa demais a espera. Então lembrei-me de ti uma vez mais. Figura tão nítida. Confesso, nunca antes havia pensado em ti como hoje. Não me lembrava de sua figura. Tudo névoa. Da noite dentro do dia. Da manhã dentro da vida.
Busquei por teus formatos todos, mas só encontrei sombras sem expressão. Nada me diziam e agora anseio rever-te para poder enfim ter uma imagem na qual me sustentar. Sou grata a ti por tuas mãos e teu socorro imediato. Salvou-me. Sem saber que o estava fazendo…
Como carrego em meu intimo o hábito de jamais agradecer, porque aprendi nos dias da infância a retribuir – ofereço-te essa prece celta, antiga, de tempos outros que me foi ensinada por minha querida avó.
”Que a estrada se abra à sua frente…
Que o vento sopre levemente às suas costas…
Que o sol brilhe morno e suave em sua face…
Que a chuva caia de mansinho em seus campos…
E até que nos encontremos de novo,
Que os deuses lhe guardem nas palmas de suas mãos”…
(Antiga Prece Celta)
L.
