Portas fechadas…

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As tempestades de janeiro vistas do sótão…

E lá vai o mês de janeiro… Consegue ver? Apoie a mão direita sobre os olhos para fazer sombra. Aperte os olhos. Olhe firmemente ao longe. E então? Nada ainda? Talvez seja assim porque ainda reste algumas horas, minutos, segundos. O ponteiro ainda irá dar muitas voltas. Quando eu era criança costumava perguntar “ele não fica zonzo?” e o nono dava aquela “gargalhada balançante” (sua barriga grande chacoalhava quando ele ria”) e eu ria com ele durante alguns minutos, depois fazia bico por não ter uma resposta a minha altura (um metro e meio, eu acho). “risos”.

Janeiro trouxe muitas chuvas, mas escolheu sair de cena com o calor dos trópicos. São Paulo arde em demasia. Quase não saio de casa. O calor me deixa cansada e a disposição vai dar voltas na esquina.

Mas janeiro também trouxe a dona Borboleta até ao meu sótão. Brincamos de tecer cartas sem selo aos olhos uma da outra. Sem folhas, mas os sorrisos ficaram impressos na lembrança que se fez de papel para colher palavras novas e antigas. E essa gente letrada insiste com essa história de acordo ortográfico. Gente, perguntem a moça da Borboleta nos olhos – eu a interrompi várias vezes para saber o significado das suas palavras. Não há acordo que dê jeito nas regionalidades…

Janeiro também trouxe montanhas que as vezes se escondiam por entre nuvens esbranquiçadas, e as vezes se exibiam em um grito de dor “o homem está subindo a montanha”. O que antes era verde vida, agora é vermelho tijolo em boa parte. O que fazem eles por lá? Perguntou eu e a resposta fica feito um nó na garganta. Não me atrevo e como sei que uma hora a natureza se cansa: sei que eles escorregaram de lá com suas casas, suas histórias e suas vidas. E na certa, irão culpar alguém por isso, mas nunca a si mesmos.

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A beleza do céu de Janeiro vista do sótão…

Enfim, janeiro trouxe poemas novos, alguns antigos, encontrados em baús que há tempos eu não mexia; algumas receitas com suas 04 colheres de manteiga pra derreter na panela, 01 xícara de leite misturado com uma colher de pau depois da manteiga fria. Meia lata de leite condensado, 04 colheres de chocolate em pó e 01 xícara de trigo. Tudo misturado lentamente. Sem pressa porque é fato, a pressa quase sempre nos atrapalha, ainda que a gente não acredite nisso. O segredo dessa receita está na forma como misturamos os ingredientes. Depois que o creme se forma, a mistura fica de lado, descansando – enquanto isso preparo a forma com manteiga e trigo e acendo o forno que deve ser pré-aquecido. De volta a massa, salpico um bom punhado amendoim  torrado e moído e por fim acrescento uma colher de sobremesa de fermento em pó. Pronto. É só levar ao forno e enquanto espera assar, prepare a cobertura com 02 tabletes de chocolate ao leite derretido em banho Maria, uma lata de creme de leite sem soro e meia lata de condensado. Misture tudo enquanto o chocolate ainda estiver quente e depois e só espalhar por cima do brownie que quando estiver frio, deve ser cortado em pedaços. Eu gosto de dar banho de cobertura nos brownies pra que eles fiquem molhadinhos.

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Janeiro está ficando para trás e o mais interessante, eu não percebo a urgências das horas. Eu disse que andava cansada de horas inteiras… Lembra-se? Aposto que se esqueceu. Tudo bem, eu não me importo. Agora eu vou lá pra fora deixar alguns brownies na janela e você vai ficar aí com a boca cheia de água contando as suas horas inteiras… Cuidado para não errar na conta ou o seu mês pode acabar tendo menos dias do que já tem…

Agora vou fechar as janelas!

 

 

 

Selos

A queridíssima Long Haired Lady do blog 2 + 2 = 5 presenteou o meu sótão com este selinho. O primeiro do meu sótão.  Caríssima, eu demorei a postar, mas cá está. Grazie pelo carinho…

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Agora, vamos às Regras do selo:

1. Repassar o selo a 15 blogs e avisar.  (feito)
1 – Saia Justa
2 –
Atalhos Urbanos
3 – Entre mares
4 – Eucaliptos na Janela
5 –
Crônicas e devaneios
6 – Os ecos do tempo
7 – Fragmentos d´Amelie
8 –
A vida não vale um conto
9 – Camélia de Pedra
10 –
Francy´s Oliva
11 – A casa do mago
12 – Uma vida em palavras
13 – Hiperestesia
14 – Flor de lis 
15 –
Rasuras

2. Responder as perguntas:

(feito)

Nome: Lunna Montez´zinny Guedes ou simplesmente Lu (rs)
Uma música: Depende do dia, essa semana por exemplo, estou ouvindo I´ll Never Fall in Love Again com Dione Warwick por causa da novela que estou escrevendo.
Humor: Sou uma pessoa de humor colorido, pode ficar negro, dependendo de quem está perto. Ou pode ficar azul. Tudo depende das emoções que chegam…
Uma cor: Preto
Uma estação: Outono, com folhas caindo pela calçada e eu tentando agarrá-las para fazer a mágica ser parte integrante da minha vida. 
Como prefere viajar: De moto, de cara pro vento.
Um seriado: Law and Order SVU e alguns outros também. rs
Frase ou palavra mais dita por você: “é preciso entender a solidão”…
O que achou do selo: Amei!

E o segundo selinho também veio da mesma paisagem. Lá das terras da caríssima Long Haired Lady . Adorei…

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Lua Minguante

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Agora penso na morte,
para encontrar o que sou,
antes de tornar-me outra

A lua chega ao seu momento de descanso. Como tudo na vida, ela atinge seu auge e então entra em declínio. Se esvai… O círculo total vai se desfazendo a partir do terceiro dia até minguar plenamente no quarto dia de lua minguante. Esse período também é conhecido como Lua Negra e ao contrário do que se imagina ou diz por aí, esse é o momento mais intenso para os humanos, pois é o momento de recolher-se em si mesmo, encarando-se no espelho da vida. Olhar para dentro nunca é fácil e talvez por essa razão seja uma das fases lunares mais contestadas e as vezes, esquecidas. Porque leva o ser o humano de encontro a ele mesmo…

Mas o assunto aqui é a lua minguante.
Nessa fase as mulheres não sobem a colina. Elas fecham suas portas e janelas e celebram o encontro consigo mesmas. Acendem suas velas, incensos, preparam o chá e fazem preces silenciosas. O círculo de pedras é “desfeito” pois buscam os quatro cantos importantes da casa onde se vivem. Afinal, sua casa é sua fortaleza e é com pedras que se ergue essa estrutura forte. O restante do “castelo” deve ser feito com energia: sensações diversas, sentimentos vários e emoções todas.

A fase minguante da lua é o inverso da lua nova, no círculo, nos pedidos. É exatamente quando se usa o punhal ou a foice, para simbolicamente cortar tudo o que nos perturba ou que é motivo de ilusão. Nessa fase se pede à lua: sabedoria para tecer nosso destino e virtude para compreender a solidão. As mulheres também pedem o dom da magia.

“Converta-me a minha última magia
Numa estátua de mim em corpo vivo!
Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
Anônima presença que se beija,
Carne do meu abstrato amor cativo,
Seja a morte de mim em que revivo,
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!”
Fernando Pessoa

O mistério dessa fase lunar está em compreender a si mesmo. Saber que a morte é parte integrante da vida. Tudo se acaba e de alguma forma recomeça. Não estou conclamando aqui a reencarnação. Tema um tanto controverso e cada um tem sua própria opinião. Estou apenas lembrando que muitas crenças (religiões e culturas) pregam a continuidade. Tudo ao nosso redor segue o esquema natural: nascimento, crescimento, evolução, multiplicação e fim. A roda da vida tem seus próprios movimentos, sua dança – a lua nos mostra isso em seus muitos ciclos.

O corpo é sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
(…)
Fernando Pessoa

Nota. Nessa fase, as mulheres não acendiam as velas do altar. Também não ateavam fogo no caldeirão que era coberto com um pano para representar o recolhimento. Elas entoavam cantos simples, como se fosse um mantra “ela está em todos, ela a tudo cobre. Ela é a mestra dos mistérios. Ela esta em todos, ela a tudo cobre” era uma forma de revelar a voz interior, como se estivessem caminhando para dentro de si.

Nota 2. Curiosamente quando o calendário usado era o  lunar e era composto de 28 dias e algumas horas, sendo 13 luas ou lunações durante um ano. Era justamente nessa fase que as mulheres menstruavam. O que ajuda a compreender a reclusão. Estar em si. Era o momento delas, a maior de todas as intimidades. Em tempos antigos, era um momento sagrado para as mulheres. Era muito comum as mulheres recolherem seu sangue e consagrarem a terra com ele numa espécie de ritual da fertilidade.

Nota 3. As meninas eram iniciadas na magia a partir da primeira menstruação, pois só então estavam completas. Era o momento de compor o grande círculo, convidando-nas a participar dos rituais. As vestimentas ficavam de fora e um banho mágico era feita com água das fontes representando a pureza, a Deusa Virgem que aqui não tem nenhum contato com a questão sexual.

Nota 4. Na Lua minguante celebra-se a Deusa Anciã que se recolhe nas sombras para entender sua evolução, para refletir e estar em contato consigo mesmo. Nesse momento, ela é Cerridewen e caminha lentamente, com toda paciência que a vida lhe permite para o Vale das Sombras, o interior do caldeirão, o Vale Sagrado, o Ventre acolhedor de Gaia onde permanecerá até ressurgir novamente na Lua Nova, mostrando novamente que o fim também é o começo.

 

 

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Paulicéia Desvairada

Cidade de Desejos Insólitos

E a escuridão tomou conta da cidade. As luzes se acenderam em centenas de janelas… Emoldurou-se um novo horizonte na metrópole… Eu esperei até o último segundo pra festejar teus mistérios porque depois de te cantar de tantas formas: minhas e de outros, era preciso um pouco de silêncio para observar-te “metrópole” e fazer um novo desenho.

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Poema de Sombra

Se perdem gestos, cartas de amor, malas, parentes
Se perdem vozes, cidades, países, amigos
Romances perdidos, objetos perdidos, histórias se perdem.

Se perde o que fomos e o que queríamos ser.
Se perde o momento, mas não existe perda, existe movimento.
Bruna Lombardi, no filme “o signo da cidade”

 

Eu moro na cidade com sons de selva: tomo conta do meu jardim. Arranco ervas daninhas, o mato. Planto as flores coloridas e pequenas árvores que um dia serão grandes. Vejo o dia amanhecer de um lado e adormecer do outro. Vejo montanhas que somem às vezes entre as nuvens e quase sempre em meio às sombras…

Tudo me dá alegria. São pequenas coisas que vão colorindo as páginas de minha história contada por mim mesma em poucas linhas.

O grandioso e o majestoso anda por aí nas ruas de asfalto quente onde atropelam-se rodas e passos. É tão fácil desenhar uma cidade: pega-se meia dúzia de prédios, uma dúzia e meia de ingratos, muito lixo, ruas, vilas, toma para si o que é do outro e dá um nome cheio de pompa. Pronto: temos uma cidade.

Para essa daqui onde vivo, deram o nome de São Paulo… Disseram que seria grande, mas acho que não imaginavam tudo isso. Tenho medo de imaginar como tudo isso será amanhã. Então me apego ao passado e lembro-me de coisas que eu não vivi. Sei que alguém contou e depois de tanto ouvir, tomei para mim como se fosse a minha verdade.

Enfim, a cidade de pequenas multidões, onde se caminha tranquilamente pelas ruas está aqui em mim: há noites de gala no Municipal e manhãs de sorrisos na avenida que divide espaço com as charretes. Um aceno se faz necessário. O chapéu vai ao ar, mostrando a careca do doutor; a menina que procura um namorado em todo par de olhos que encontra, exibe seus dentes no sorrir desgovernado. Ela ainda é menina, vai crescer, vai casar e ajudar a aumentar a população de uma cidade que eu só conheço em preto e branco. Pois o passado de São Paulo não tem cores. Não pra mim…

A São Paulo das cores tantas é atual e esbanja modernidade por suas vias. É uma cidade mambembe onde palhaços se exibem no picadeiro e todos se equilibram na corda bamba. Como cantar essa metrópole? Caetano tentou, disse certa vez em seus versos “alguma coisa acontece em meu coração” mas ele não falava da cidade, falava de si mesmo. Mário também fez o mesmo e em seus versos se esparramou pela cidade. “meus pés enterrem na rua Aurora/Na Paissandu deixem meu sexo/Na Lopes Chaves a cabeça/Esqueçam”…

Mas eu quero mesmo é cantar seu avesso: “sem sons ou frenesi. Nem bolo de metro ou festa na Paulista. Nada de correria no Ibirapuera”. Quero apenas o silêncio das ruas e a ausência das casas. A solidão das esquinas frias e o sexo das meninas. Nenhum menino no farol a pedir trocado para a cola. Não deixem o sol entrar, mandem a garoa, aquela que há tempos foi embora. Talvez seja permitido uma noite inteira de sussurros e nada de falar em idade. São Paulo não se encaixa dentro dos anos que lhe acusam…

Vamos resgatar a simplicidade, diretamente: nada de ser moderna, tão pouco antiga. Vamos apenas perceber os caminhos que estão por aí, os monumentos e toda a sua gente. Daqui, dali, de lá… Não importa. Se está aqui é de cá… Vamos ser pássaros a sobrevoar por cima de todas as coisas humanas – silenciando todas as vozes. Nada de culpar a cidade pelos erros que nós cometemos. O dedo não deve apontar em outra direção. Ainda é tempo. Vamos esquecer os enganos e deixar de lado os preconceitos, os medos, a insegurança. Isso não é coisa da cidade. É coisa nossa, dessa gente que se esquece do direito do outro e da própria cidade.

Antes de nós, a cidade estava aí com sons e elementos vários. Nós é que inventamos de pintá-la como esta cor e se seus rios transbordam é porque de certa forma a cidade chora sua gente que faz pouco de tudo que ela foi, é e ainda será.

São Paulo é assim: cores muitas, cantos inúmeros e rezas várias… Não importa qual é o seu credo, a sua raça, a sua poesia, a sua diferença. Aqui você é apenas paulista, da Gema, do Ceará, da Lapa, Gênova, Paris, de Nova York, Londres, Berlim e de São Joaquim. Paulista da Ilha Mansa, Barra Bonita, Fernando de Noronha, Mesquita, Belém do Pará, Pequim, Bangladesh e tantas outras mais. Pode chegar, a mesa está posta: só estava mesmo faltando você…

 

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São Paulo 457 anos

Parte desse texto foi publicado publicado originalmente aqui.

Vagando além dos nós…

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E nas esquinas dessa cidade se erguem sombras e inventam temporais. Eu sou pura semântica e passo por tudo isso como se ainda fosse aquela menina de poucos anos e meia dúzia de fios de cabelo.

Eu vou mais além: atropelo poças e tento saber quem sou. O espelho não diz absolutamente nada. Mas os pássaros cantam meu nome lá fora e eu vou com eles pelo infinito, passando por entre nuvens de cor cinza, feito fumaça…

Lá do alto vejo o telhado de casas antigas e me perco em possíveis cenários. Adoro interiores. Dizem tanto sobre essa gente estranha que vive por aí: móveis cor de mogno e objetos espalhados pelo cantos. tantas coisas escolhidas ao acaso…

Tic tac… Tic tac…
Ando cansada das horas inteiras, daqui pra frente só quero saber das meias horas!

 

…desde outono de outubro
resgato-me
de tudo que em mim eu mesma rasguei
embora
cinza o mar
cinza o céu
cinza que piso
embora primavera aí
outono aqui
resgato-me
sirvo-me bolachas pardas
café claro
muita é a fome
deixo-lhe aí
uma nesga de pensamento meu
numa xícara do mais puro chá
claro feitos os dias aqui
mas em pétalas.

(suzana guimarães)

 

Já reparou baby que alguns poemas parecem terem sido escrito especialmente pra você? 
Fica parecendo que a moça escreveu sobre você, pra você…

 

 

 

Lua Cheia…

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Elegia
Rilke

Por que de estranhas terras eu te acompanho lua solitária
E durmo ouvindo os teus passos de anjo pela noite
Quando os velhos desejos desaparecidos voltam à flor das ondas
E a noite do exílio levanta as suas árvores de sonho,
De um tempo imemorial eu acompanho as tuas viagens,
Tu que vestes os mortos com o que cai do coração dos vivos
Eu te acompanho pelo céu escuro
Sentindo como tua a vertigem da morte que anuncia

Trad.Paulo Plínio Abreu

Velas tremeluzentes indicam as quatro direções. Ao centro uma chama contínua que representa a vida em todas as suas formas. Se fechar os olhos, pode se ouvir um coração pulsando ali… Cada um dos elementos completam o círculo: terra, fogo, água e ar. Os passos seguem no sentido horário e os primeiros sinais de dança são do vento que se manifesta no alto das folhas. A Lua plena de luz atinge o ponto máximo do céu noturno. Nuvens não impedem seu brilho… Diziam que iria chover, mas a chuva não se manifesta durante os minutos em que o cálice é erguido e seu líquido consagrado em nomes das forças naturais. Enquanto isso o incenso perfuma o ar numa espécie de saudação aos antigos espíritos que sempre são invocados por aquelas mulheres de aparência humana. Nada ali se assemelha aos mitos da Disney e tão pouco aos preceitos erguidos ao longo dos tempos pelos padres cristãos.

Tudo é intenso. A energia que é invocada na palavra daquelas mulheres que se despem, deixando a mostra a pele, os sentimentos, as verdades pessoais, as crenças cotidianas. Não há nada de demoníaco. Há apenas um canto sendo repetido como mantra de forma incansável “ela está em tudo, ela a tudo cobre” e por fim o licor é passado de mãos em mãos e um grito surge ao longe: uma coruja. Sinal de que a natureza está satisfeita. Elas dizem que a magia se manifesta da forma mais simples possível. Então um simples vento é visto com uma mensagem dos Deuses. E para que questionar essas verdades?

Hoje é quarta-feira, lua cheia, período da plenitude, da maré cheia de poder, quando a senhora com seu círculo completo e iluminado atravessa o céu, desfilando seu encanto sobre os humanos que ainda encontram tempo para olhar as estrelas. É a época das frutas, da maçã cheia de amor, da colheita. É o auge dos desejos, das vontades da pele, da alma e da mente. Na lua cheia a pergunta a ser feita é “você já colheu o que plantou?” e a resposta vem apenas com um aceno – enquanto um pequeno objeto é atirado as chamas que ardem e celebra junto com você a sua conquista.

lua que ilumina as trevas,
feminino a vagar no negro véu,
bailarina de campos e oceanos.
Senhora da magia, menina das primeiras horas.
Tu fazes transbordar a maré dos amores.
Tu fazes a verdade ser prece que se entoa ao cair da noite
Tu que foste menina e hoje é mulher, mas não se esquece
dos primeiros passos, das primeiras vontades, dos primeiros desejos
Porque tu és um ciclo que se completa ao longo das estações
Eu te celebro grande Dama das trevas”

 

Nota. Ainda hoje muitos rituais (inclusive os da lua cheia) são praticados em segredo, embora atualmente muitos sejam feitos ao ar livre em praças e parques das principais cidades do mundo. A maioria destes pertencem a uma nova ordem, conhecida com o wicca que não é uma religião antiga, muito pelo contrário, ela se fundamenta no paganismo, mas sua existência data de meados de 1950 e é atribuída a Gerald Gardner.

Nota. 2 Acredita-se que o paganismo tenha surgido no exato momento em que o homem descobriu a agricultura, uma vez que a maioria dos rituais pagãos são festivais agrícolas, onde se celebra as sementes, o plantio, a colheita e a própria terra que é considerada o grande útero, de onde tudo provém. Nesses rituais também são celebrados os quatro elementos naturais e as quatro direções do planeta: norte, sul, leste e oeste.

Nota. 3 Ser pagão significa estar em contato com a natureza, respeitando seus ciclos, seus movimentos e interagindo com ela de maneira racional. Ao contrário do que continua sendo dito pela Igreja Católica – não basta não ser cristão para ser um pagão.  Se você apenas não acredita no Deus cristão e em toda a legião de santos que provêm dessa ideologia religiosa, significa que talvez você seja ateu, mas não pagão. Porque para ser pagão é preciso estudo, dedicação e respeito acima de tudo com as leis naturais do paganismo que expõe aos seus praticantes a lei do retorno “não faça ao outro o que não gostaria que fizessem a você”.

“Ao homem é dado o direito de escolha, mas há tempos criaram um deus e um demônio, todos filho do mesmo homem que semeou sua verdade; colhida por muitos, mas não por mim.  A minha verdade segue em meu coração e sempre que olho pra frente sinto sua chama arder em meu peito. Sei do sol durante os dias e da lua durantes as noites. Ouço o canto dos pássaros, o pio das corujas, sinto a força das águas e do sabor de cada uma das estações. Essa é minha prece, minha lei, minha verdade e é ela que eu ensino aos que vierem depois de mim. Se também será a verdade deles, não há como saber, porque eles são livres para caminhar tanto quanto eu.”. Trecho de “O caminho do mago”

Profissão? Escritor? Será mesmo?

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Edgar Allan Poe, em um de seus ensaios sobre o ato de escrever, afirmou “não creio que qualquer pensamento propriamente dito não possa ser exposto pela linguagem. (…) Quando experimentamos dificuldade em traduzi-lo em palavras é porque há na inteligência uma falta de método ou de deliberação”.

Essa afirmação contempla a maior dificuldade de um escritor e também sua maior conquista, pois exemplifica o desejo de se chegar ao resultado, ou seja, a exposição do pensamento por meio da criação. No caso, através da escrita.

Mas para responder essa questão, precisamos ir além das palavras de Poe. Acho que cometemos alguns equívocos, como pensar que só é escritor aquele que tem um livro publicado. Definitivamente esse é um pensamento equivocado. O livro publicado é o momento que põe fim a carreira de um escritor. Sim, porque ele pode ter alcançado seu momento de glória ou de fracasso. E talvez, apenas talvez, ele pode nunca mais reviver todos aqueles devaneios. Pode num momento ter alcançando a perfeição e essa nunca mais voltar a lhe fazer companhia, dando de ombros para seus entusiasmos.

“Uma obra de arte é boa se nasceu sob o impulso de uma necessidade íntima”. disse Rilke em cartas a um jovem poeta – primeira carta.

Acertar o passo na hora de escrever é tarefa árdua. Solitária. Que pode ou não reunir muitos anos em volta de uma missão que pode nunca vir a ser completada. A escrita é antes de tudo um ensaio. Um processo lento que não se atêm a calendários e ponteiros…

Mas é fato que os dias atuais exibem uma pressa insana nos movimentos dos jovens que se “inventam” escritores. As pesquisas são deixadas de lado. Tomou-se o estranho hábito de se escrever sobre o que não se sabe. E a maioria se diz pronta porque acreditam que “escritores nascem prontos” e não aceitam nenhuma forma de crítica quanto aos seus escritos. Há também aqueles que se lançam no mercado literário com as famosas publicações pagas. Esses recebem seus quinhentos livros em casa, sem se preocupar com correções, edições e nem sempre coletam o melhor de si. Mas a maioria leva seus livros na sacola e quase implora para os amigos e parentes comprá-los. São escritores? Claro que a resposta depende da concepção individual de cada um. Pra mim são apenas pessoas comuns com um livro em mãos que dão sentido aquele termo “nascer, crescer, multiplicar, plantar uma árvore e escrever um livro”.

Ser escritor antes de tudo, é sentir uma vontade incontida de se manifestar através das palavras. O silêncio é substituído pelo som do teclado do computador, da máquina de escrever ou por aquele mísero barulho da esfera da caneta sobre o papel. É ver sobre tudo o branco desaparecer porque as palavras dão um colorido especial a existência. É como ver um campo de margaridas azuis se exibindo em meio ao campo. É o horizonte distante se fazendo presente como se houvesse passos suficientes para alcançá-lo. É revisitar todas as sensações e se comover ao perceber que o mundo inteiro se limita a meia dúzia de páginas.

E sim, você pode nunca vir a publicar um livro. Mas não se atenha a esse fato. Porque a escrita independe de publicações. Ela existe para que as nossas superfícies sejam interpretadas. Emily Dickinson, uma poeta estadunidense passou a vida escrevendo. Em vida publicou apenas meia dúzia de versos. Mas se manteve fiel a sua aventura, escrevendo mais de mil poemas e centenas de cartas. Após a sua morte, sua irmã, Lavínia encontrou uma gaveta cheia de papéis em desordem. eram cadernos e folhas soltas com uma grande quantidade de papéis que interpretavam a vida daquela mulher que amava os pássaros, as abelhas e as borboletas que eram descritos por ela como seres que despertavam em sua alma uma estranha forma de curiosidade.  Ela escrevia sobre o que via e sentia. Era seu grito. Seu relato sobre suas dores e sabores.

“Ela é, sob vários aspectos, um gênio. Veste-se sempre de branco (…) Ninguém a viu em todos esses anos, com exceção de sua própria família (…) Ninguém sabe a causa de seu isolamento.” disse Mabel Todd em carta escrita após visita feita a casa de Emily.

Um escritor não precisa de livros publicados. Precisa sim do desespero que se agiganta em sua pele, impondo a ele uma dor tão grande que só finda quando a palavra é capaz de traduzir tudo. Então, experimente. Viva cada segundo de sua existência. Sinta tudo excessivamente e busque compreender a si mesmo. Esteja sempre atento para que uma vez estando diante do espelho, seja capaz de ser reconhecer por lá.

 

 

Não tente compreender…

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“Escrevo porque preciso respirar”
Anaïs Nin

Acho que no fundo, o pior pesadelo de um escritor é ser compreendido. É como se o inferno realmente existisse e se abrisse pra você. É o principio do fim – nada mais no mundo inteiro é capaz de te devolver a vida.

E se alguém te pede para explicar a sua natureza criativa. Pronto. Um abismo se abre e você é tragado para dentro da terra de onde nunca mais irá sair.

O escritor só pertence a sua obra e a ela está totalmente condenado. Feito um refém que não será solto no dia seguinte. Não há deus, nem demônios, razões ou verdades absolutas; porque nesse mundo onde os escritores vivem, só há espaço para as ilusões que bem moldadas se tornam realidades únicas.

Ao leitor, cabe o prazer do navegar. Como se estivesse em mar aberto, com um pequeno barco acompanhando as flutuações do caminho. Mas embora enfrente tormentas, dias de sol, ondas fortes, calmaria. Tudo que o leitor consegue é colher suas próprias impressões acerca de todos esses movimentos. O escritor te empresta algo por algumas horas, dias, semanas, talvez até meses. Mas não é pra sempre. Porque aquele seu autor favorito, suporta as dores de sua pele e para conceber a perfeição, ele precisa acima de tudo se libertar de si mesmo, se desprender da matéria, deixar de ser o que sempre foi para enfim ser alguém novo. Inusitado. Como se acabasse de nascer e já soubesse de todas as experiências do mundo.

[...] “No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se sente e usa a palavra que o exprima. É pouco, é muito pouco”.  Clarice Lispector

Sobretudo, escrever é um ato de disciplina. É preciso conhecer a si mesmo, desbravar a própria carne numa aventura impar. Não é possível desconhecer os horizontes que permeiam sua existência. É uma exposição constante da sua própria figura. Seus sentimentos todos estarão ali a sua frente, florescendo. E talvez chegue a um momento em que a pergunta se apresse “isso tudo sou eu?”. Tamanha dúvida existencial que foi descrita assim por Fernando Pessoa:

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa até os dias atuais segue sendo estudado, pesquisado e questionado. Tantos personagens. Tantos homens. Tudo isso em uma só pessoa. Mas ele é feliz, afinal, quem consegue compreender a cabeça desse homem que “foi tantos e não foi nenhum”? Quem consegue compreender esse hiato que se tornou tantos propositalmente. Era sua fórmula para a eternidade. O sonho de qualquer escritor: imortalizar-se através da palavra, nunca através de si mesmo.

Chiquinha Gonzaga dizia “aprendi com o Calado que quando estou triste as lágrimas viram palavras”

Em “cartas a um jovem poeta” – Rilke se vê diante da pergunta desesperada de um jovem que se revela inquieto diante da não aceitação de sua escrita. Oras, o que seria a escrita senão uma inquietação com começo e meio apenas. O fim derradeiro nunca te alcança, a menos que a morte desperte em sua derme e sua existência material chegue ao fim. A consciência do escritor é algo sobrenatural, que não pode ser exposta ao mundo e suas palavras são uma ponte estabelecida entre o que é de fato real e imaginário. São dois mundos e não há como conviver em ambos, ao escritor, cabe decidir em que momento fará a travessia definitiva. Ou se encontra ou se perde de vez.

(…) O senhor está olhando para fora, e é justamente isso o que não deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar. Ninguém… Não há senão um caminho: procure entrar em si mesmo.  (…) Rilke – cartas a um jovem poeta – primeira carta

Essa travessia pode levar uma vida inteira, ocorre que uns chegam antes, outros depois e claro, há aqueles que nunca chegam, ficando pelo caminho. Os hospícios humanos estão cheios de pessoas que ficaram pelo caminho porque mergulhar em si mesmo não é tarefa simples. Externar a dor, fazendo dela sua metáfora mais intensa pode ser ritual de morte. Sair de si para ser outro, correndo o risco de nunca mais voltar a ser você mesmo pode ser um sacrifício desumano, ou talvez, satisfatório…

Mas entender tudo isso, é inaceitável. Você só precisa escrever até cessar toda a sua energia vital e depois disso é tentar saber o que restou; se de fato restou alguma coisa. A obra estará lá, a salvo. Imortalizada. E ninguém no mundo saberá o que se passou entre você e suas linhas.

(…) Ser artista é: não calcular nem contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva, mas permanece tranquila e confiada sob as tormentas da primavera, sem temer que depois dela nunca chegue outro Verão. Apesar de tudo, o Verão chega. (…) Rilke – Cartas a um jovem poeta – terceira carta

 

Legado

Acordar distante de casa
…no meio da noite quente
Com janelas sem horizontes
E passos repletos de enganos!
A noite arde sem estrelas
E vai embora levando o meu silêncio…

Acordar na cidade estranha
Com seus ruídos tacanhos
…e suas breves formas inócuas!

Há uma corda bem  no alto, embaixo?
Nada, apenas o chão a espiar teus movimentos
A esperar tua queda do último andar!

Acordar! Nas terras onde os sonhos não vivem
E a realidade te violenta com as garras
…de uma multidão inteira!

agosto (2006)

* encontrei esse poema no meio dos rascunhos que ocupam minha mesa nos últimos dias. Há tempos brinco de escrever sentimentalidades minhas e ontem, no meio da tarde, lia algumas linhas que me obrigaram a rever esses poemas que trazem em suas linhas um pouco da dor que uma menina sentiu na pele.

Lua Crescente…

A experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido.  Confúcio

  dança

Hoje amanheci com as lembranças de colinas adormecidas, envoltas por brumas para onde mulheres seguiam a passos lentos que permitiam a elas um olhar mais atento sobre os caminhos e as paisagens.

Se fechar os olhos, consigo ouvir o som das folhas que cobrem a trilha sendo pisadas pelos passos daquelas mulheres que seguem em sua marcha rumo ao topo da colina onde o verde e o azul se misturam e se confundem numa espécie de magia natural… Elas vem de diferentes direções, trazem em mãos uma pedra para formar o círculo consagrado por elas há muitas gerações. Ali unem-se seus antepassados e acreditam elas que amanhã suas filhas irão fazer o mesmos: repetindo cada gesto, movimento, palavras e pensamento…

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Seus corpos, suas mentes e seus espíritos são seus instrumentos sagrados e elas se movimentam ao redor das chamas que assim como essas senhoras, dançam, criando um desenho de movimentos impares… Há quem diga que nas noites de lua crescente, cheia e minguante, os homens (que não participam dessas celebrações) vêem de longe, lá em baixo o espirito da Deusa em forma de lâminas de fogo e se sentem honrados por tal visão, coisa comum apenas as mulheres.

Elas, as mulheres, jovens damas da vida assistem lá do alto o passeio da lua que saí do leste e marcha rumo ao oeste. Seu destino final. A vigília dura a noite toda, enquanto isso, chás são preparados no caldeirão; pães, biscoitos e bolos são oferecidos. A mais velha sempre conta suas histórias cheias de entusiasmo juvenil. Na certa ela ainda se lembra da primeira vez que seus passos seguiram os de sua mãe até o alto daquela colina.

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Aos poucos os movimentos dessas senhoras vão se multiplicando pelo espaço, assim como as alegrias que geram sorrisos, e as lágrimas que geram silêncios.  A figura de uma Deusa tão antiga quanto o universo é invocada através de suas vozes que se tornam cantos e se unem ao som dos ventos que parece surgir das quatro direções do planeta; então é hora de “tecer o destino” com agulha em formato de lua crescente e um simples pedaço de pano: Dizem elas enquanto tecem:

Deusa da lua e da magia,
Mostre-me a resposta
Deusa dos mistérios
revela-me todos os destinos

O ritual da lua crescente se faz no sentido de “costurar” o que está separado, de tecer a trama do destino e costurar os próprios desejos. “Tecer significa criar, fazer sair da usa própria substância, como faz a aranha que urde sua própria teia”…

Mas tudo isso é lenda, mito narrado ao longos dos anos de geração para geração. Muitas coisas se perderam, mas outras permanecem por aí. E o que se percebe é que o silêncio de ontem virou o barulho de hoje…