Paulicéia Desvairada

Cidade de Desejos Insólitos

E a escuridão tomou conta da cidade. As luzes se acenderam em centenas de janelas… Emoldurou-se um novo horizonte na metrópole… Eu esperei até o último segundo pra festejar teus mistérios porque depois de te cantar de tantas formas: minhas e de outros, era preciso um pouco de silêncio para observar-te “metrópole” e fazer um novo desenho.

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Poema de Sombra

Se perdem gestos, cartas de amor, malas, parentes
Se perdem vozes, cidades, países, amigos
Romances perdidos, objetos perdidos, histórias se perdem.

Se perde o que fomos e o que queríamos ser.
Se perde o momento, mas não existe perda, existe movimento.
Bruna Lombardi, no filme “o signo da cidade”

 

Eu moro na cidade com sons de selva: tomo conta do meu jardim. Arranco ervas daninhas, o mato. Planto as flores coloridas e pequenas árvores que um dia serão grandes. Vejo o dia amanhecer de um lado e adormecer do outro. Vejo montanhas que somem às vezes entre as nuvens e quase sempre em meio às sombras…

Tudo me dá alegria. São pequenas coisas que vão colorindo as páginas de minha história contada por mim mesma em poucas linhas.

O grandioso e o majestoso anda por aí nas ruas de asfalto quente onde atropelam-se rodas e passos. É tão fácil desenhar uma cidade: pega-se meia dúzia de prédios, uma dúzia e meia de ingratos, muito lixo, ruas, vilas, toma para si o que é do outro e dá um nome cheio de pompa. Pronto: temos uma cidade.

Para essa daqui onde vivo, deram o nome de São Paulo… Disseram que seria grande, mas acho que não imaginavam tudo isso. Tenho medo de imaginar como tudo isso será amanhã. Então me apego ao passado e lembro-me de coisas que eu não vivi. Sei que alguém contou e depois de tanto ouvir, tomei para mim como se fosse a minha verdade.

Enfim, a cidade de pequenas multidões, onde se caminha tranquilamente pelas ruas está aqui em mim: há noites de gala no Municipal e manhãs de sorrisos na avenida que divide espaço com as charretes. Um aceno se faz necessário. O chapéu vai ao ar, mostrando a careca do doutor; a menina que procura um namorado em todo par de olhos que encontra, exibe seus dentes no sorrir desgovernado. Ela ainda é menina, vai crescer, vai casar e ajudar a aumentar a população de uma cidade que eu só conheço em preto e branco. Pois o passado de São Paulo não tem cores. Não pra mim…

A São Paulo das cores tantas é atual e esbanja modernidade por suas vias. É uma cidade mambembe onde palhaços se exibem no picadeiro e todos se equilibram na corda bamba. Como cantar essa metrópole? Caetano tentou, disse certa vez em seus versos “alguma coisa acontece em meu coração” mas ele não falava da cidade, falava de si mesmo. Mário também fez o mesmo e em seus versos se esparramou pela cidade. “meus pés enterrem na rua Aurora/Na Paissandu deixem meu sexo/Na Lopes Chaves a cabeça/Esqueçam”…

Mas eu quero mesmo é cantar seu avesso: “sem sons ou frenesi. Nem bolo de metro ou festa na Paulista. Nada de correria no Ibirapuera”. Quero apenas o silêncio das ruas e a ausência das casas. A solidão das esquinas frias e o sexo das meninas. Nenhum menino no farol a pedir trocado para a cola. Não deixem o sol entrar, mandem a garoa, aquela que há tempos foi embora. Talvez seja permitido uma noite inteira de sussurros e nada de falar em idade. São Paulo não se encaixa dentro dos anos que lhe acusam…

Vamos resgatar a simplicidade, diretamente: nada de ser moderna, tão pouco antiga. Vamos apenas perceber os caminhos que estão por aí, os monumentos e toda a sua gente. Daqui, dali, de lá… Não importa. Se está aqui é de cá… Vamos ser pássaros a sobrevoar por cima de todas as coisas humanas – silenciando todas as vozes. Nada de culpar a cidade pelos erros que nós cometemos. O dedo não deve apontar em outra direção. Ainda é tempo. Vamos esquecer os enganos e deixar de lado os preconceitos, os medos, a insegurança. Isso não é coisa da cidade. É coisa nossa, dessa gente que se esquece do direito do outro e da própria cidade.

Antes de nós, a cidade estava aí com sons e elementos vários. Nós é que inventamos de pintá-la como esta cor e se seus rios transbordam é porque de certa forma a cidade chora sua gente que faz pouco de tudo que ela foi, é e ainda será.

São Paulo é assim: cores muitas, cantos inúmeros e rezas várias… Não importa qual é o seu credo, a sua raça, a sua poesia, a sua diferença. Aqui você é apenas paulista, da Gema, do Ceará, da Lapa, Gênova, Paris, de Nova York, Londres, Berlim e de São Joaquim. Paulista da Ilha Mansa, Barra Bonita, Fernando de Noronha, Mesquita, Belém do Pará, Pequim, Bangladesh e tantas outras mais. Pode chegar, a mesa está posta: só estava mesmo faltando você…

 

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São Paulo 457 anos

Parte desse texto foi publicado publicado originalmente aqui.

14 comments to Paulicéia Desvairada

  1. Tenho a impressão que se eu tropeçar na zona Leste, cairei com certeza na zona Norte ou pelo menos vou sair cambaleando pelo centro e me estatelar no Ibirapuera. Essa cidade é tão imensa, mas aqui nesse seu texto, tudo parece tão próximo, tudo parece tão confortavelmente pequeno, na medida certa do nosso corpo, como se fosse a nossa cama, onde a gente encosta o corpo cansado da lida diária (seja de noite, de madrugada ou de tarde: loucura, essa cidade não tem horário certo para dormir, nem acordar) e se levanta, às vezes deixando a cama bagunçada, às vezes tirando as migalhas que lá ficaram e esticando a roupa de cama. Apesar do corpo dolorido, pois nem sempre o colchão está bem ajeitado, e da noite nem sempre bem dormida, São Paulo é minha casa, meu quarto, minha sala, minha cozinha, meu jardim florido, mesmo que as flores sejam cinzas. Aqui há brilho sim, há sorrisos e lágrimas, com certeza, mas há invariavelmente amor, pelas coisas, pelas pessoas, pela cidade, pelos prédios, pelo concreto, pelos sonhos concretizados e pelos que ainda estão se formando na cabeça, pelo aconchego e pelo abraço carinhoso que dá a quem chega, seja para uma dormida, seja para uma vida.
    E só posso agradecer a você por essa linda declaração feita a tão bela dama.

  2. Lucas Pretti disse:

    Valeu por ter publicado a íntegra do poema. Busquei na web e terminei aqui, fiquei emocionado no filme. Muito legal esse seu post sobre São Paulo, faz parecer que a cidade é melhor do que se apresenta. Mas não gosto de São Paulo, não. Não e não. Essa cidade é feia, suja e a culpa não é nossa como você diz, é dos políticos.
    bj

  3. Vitória disse:

    Parabéns! Pelo texto adequado e bem ornado com fotos que se destacam neste layout…adorei…. Eu sempre fico indignada com aquela cena do bolo na Treze de Maio sabe? Acho aquilo de uma falta de educação e fico pensando sempre onde é que vamos parar? É fácil culpar a cidade e os políticos, não é mesmo?

    Obrigada pela bela explanação. Você “cantou” (como você mesma disse) a São Paulo da minha infância e pra mim ela também é em preto e branco,curioso.Lindooooo.

  4. Karina disse:

    Lunna querida, aceitei o convite para abrir uma janela e espiar uma nova paisagem e estou aqui encantada. Q belíssimo trabalho colocar em palavras essa mistura que é SP.
    O Menina no Sotão já está na minha lista há tempos, mas confesso q é uma tortura vir aqui, pois tenho vontade de ficar horas degustando cada texto, fica difícil sair. :)

    Bjks carinhosas e parabéns

  5. [...] This post was mentioned on Twitter by Amo_Poesias, Tatiana Kielberman and Sandra Cajado A&C, lunnaguedes. lunnaguedes said: Paulicéia Desvairada: http://wp.me/p16gye-3x [...]

  6. Tati disse:

    Lindo, lindo, lindo! Beijo!

  7. Ana Julia Mezandri disse:

    Amei esse texto.
    Ainda lembro das primeiras visitas ao centro, à Estação da Luz e o deslumbramento com essa mistura toda, do novo e do velho.
    Apesar de morar muito perto, vou pouco à SP, bem menos do q gostaria. Tenho diversos roteiros de lugares que quero conhecer, mas um certo pavor de dirigir por aí. Isso somado à correria da vida “no interior” faz com esses planos sejam adiados.
    Um dos meus desejos era justamente esse olhar mais atento que você nos mostra em seus textos. Obrigado, é simplesmente maravilhoso.

  8. Paloma disse:

    Você tem uma visão panorâmica mais isenta que alguém que nasceu e sempre viveu nela. Minha visão sobre a cidade mudou depois que deixei de morar nela, mas quando o avião se aproxima do terminal de Congonhas eu sempre tenho a sensação que esta cidade é muito maior do que meus olhos conseguem de fato suportar, e acho que isto acontece com muita gente. Um grande beijo e parabéns pelo belo texto sobre sua Paulicéia Desvairada que por acaso também é do Mário. kkkkkkkkkkkkkkk

  9. Oii!!
    Aqui é lindo moça!!! Me encantei com seus encantos!

    Um beijo grande!
    Estarei aqui sempre!

  10. Ahh… São Paulo!!
    Ah, saudade!

    Santa saudade de um São Paulo que não é Cristo Redentor, mas me recebeu de braços abertos. Saudade das ladeiras da Lapa e das voltas de bicleta com uma menina de vive no sótão e traz letras, poesia e cores pra mim…
    Saudade dessa pauliceia que encanta os olhos, que tem céu colorido devido aos arranhões prediais.
    Ah saudade do céu de São Paulo.
    Saudade da janela de uma linda casa que fica no alto da Lapa que tem vista perfeita.
    Ah São Paulo que é saudade!!
    Aprendi a amar São Paulo pelas letras de uma italiana que é paulistana!!
    Beijos Lu…
    Parabéns, São Paulo!!!!!

  11. Daniel Savio disse:

    Bonito o post em homenagem a São Paulo, tentei ver o que é falado, sendo que gostei do que vi.

    Hah, sobre o teu comentário sobre a fuga de Botafogo:
    É que ele é conhecido do pessoal da rua, ai ele sempre avisam quando ele some, antigamente ele fugia para bem longe, sendo que tinha de sair correndo atrás dele a toda, fora que teve uma vez que só conseguimos pega-lo quando ele mergulhou na melda (após nos fazer correr atrás dele num morro e para -não- variar quando a gente tinha acabado de dar banho nele), nem precisa dizer que Botafogo voltou feliz da vida e nós putos, pois tinhas de dar banho no sujão.

    Na verdade, entendo bem o que você disse (sobre a morte do cão Max da Luma), os nossos cães não são posses nossas, são nosso amigos, muitas vezes fazendo companhia quando os nossos semelhantes preferem nos evitar.

    Fique com Deus, menina Luna.
    Um abraço.

  12. Lu Cavichioli disse:

    Lunna, que texto incrível e muito bem delineado e que tocou-me profundamente. Justamente porque você falou da São Paulo em preto e branco, a qual eu tb não vivi, mas que tenho saudade… Estranho esse sentimento. Mas ele invade meu coração de um jeito tão intenso que torna-se melancólico e tenho vontade de ter nascido na época de meus avós.

    Enfin caríssima, você soube desenhar a São Paulo amada, cantada em verso e prosa por tantos artistas, e neles, encaixada estás!

    meu afeto
    bacio!
    Lu C.

  13. Lu, você me fez ver a alma de uma cidade que é simples, mesmo que queiram impor-lhe títulos e etceteras. Resgatou seu passado e, delicadamente, delineou seu futuro neste presente de encantadoras diversidades. Querida antigamiga, amei passear por essa São Paulo com você.

    Beijos, carinho

  14. C. disse:

    Que bonito!
    Se alguém duvidava que uma italiana poderia passar a se sentir abrasileirada, com esse poema teve certeza. Nem eu sendo nata, escrevi algo assim sobre a minha cidade ;)

Seja como o vento, cause tumulto em minhas cortinas e deixe um rastro para que eu possa te alcançar...

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