Lua Minguante

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Agora penso na morte,
para encontrar o que sou,
antes de tornar-me outra

A lua chega ao seu momento de descanso. Como tudo na vida, ela atinge seu auge e então entra em declínio. Se esvai… O círculo total vai se desfazendo a partir do terceiro dia até minguar plenamente no quarto dia de lua minguante. Esse período também é conhecido como Lua Negra e ao contrário do que se imagina ou diz por aí, esse é o momento mais intenso para os humanos, pois é o momento de recolher-se em si mesmo, encarando-se no espelho da vida. Olhar para dentro nunca é fácil e talvez por essa razão seja uma das fases lunares mais contestadas e as vezes, esquecidas. Porque leva o ser o humano de encontro a ele mesmo…

Mas o assunto aqui é a lua minguante.
Nessa fase as mulheres não sobem a colina. Elas fecham suas portas e janelas e celebram o encontro consigo mesmas. Acendem suas velas, incensos, preparam o chá e fazem preces silenciosas. O círculo de pedras é “desfeito” pois buscam os quatro cantos importantes da casa onde se vivem. Afinal, sua casa é sua fortaleza e é com pedras que se ergue essa estrutura forte. O restante do “castelo” deve ser feito com energia: sensações diversas, sentimentos vários e emoções todas.

A fase minguante da lua é o inverso da lua nova, no círculo, nos pedidos. É exatamente quando se usa o punhal ou a foice, para simbolicamente cortar tudo o que nos perturba ou que é motivo de ilusão. Nessa fase se pede à lua: sabedoria para tecer nosso destino e virtude para compreender a solidão. As mulheres também pedem o dom da magia.

“Converta-me a minha última magia
Numa estátua de mim em corpo vivo!
Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
Anônima presença que se beija,
Carne do meu abstrato amor cativo,
Seja a morte de mim em que revivo,
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!”
Fernando Pessoa

O mistério dessa fase lunar está em compreender a si mesmo. Saber que a morte é parte integrante da vida. Tudo se acaba e de alguma forma recomeça. Não estou conclamando aqui a reencarnação. Tema um tanto controverso e cada um tem sua própria opinião. Estou apenas lembrando que muitas crenças (religiões e culturas) pregam a continuidade. Tudo ao nosso redor segue o esquema natural: nascimento, crescimento, evolução, multiplicação e fim. A roda da vida tem seus próprios movimentos, sua dança – a lua nos mostra isso em seus muitos ciclos.

O corpo é sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.

Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
(…)
Fernando Pessoa

Nota. Nessa fase, as mulheres não acendiam as velas do altar. Também não ateavam fogo no caldeirão que era coberto com um pano para representar o recolhimento. Elas entoavam cantos simples, como se fosse um mantra “ela está em todos, ela a tudo cobre. Ela é a mestra dos mistérios. Ela esta em todos, ela a tudo cobre” era uma forma de revelar a voz interior, como se estivessem caminhando para dentro de si.

Nota 2. Curiosamente quando o calendário usado era o  lunar e era composto de 28 dias e algumas horas, sendo 13 luas ou lunações durante um ano. Era justamente nessa fase que as mulheres menstruavam. O que ajuda a compreender a reclusão. Estar em si. Era o momento delas, a maior de todas as intimidades. Em tempos antigos, era um momento sagrado para as mulheres. Era muito comum as mulheres recolherem seu sangue e consagrarem a terra com ele numa espécie de ritual da fertilidade.

Nota 3. As meninas eram iniciadas na magia a partir da primeira menstruação, pois só então estavam completas. Era o momento de compor o grande círculo, convidando-nas a participar dos rituais. As vestimentas ficavam de fora e um banho mágico era feita com água das fontes representando a pureza, a Deusa Virgem que aqui não tem nenhum contato com a questão sexual.

Nota 4. Na Lua minguante celebra-se a Deusa Anciã que se recolhe nas sombras para entender sua evolução, para refletir e estar em contato consigo mesmo. Nesse momento, ela é Cerridewen e caminha lentamente, com toda paciência que a vida lhe permite para o Vale das Sombras, o interior do caldeirão, o Vale Sagrado, o Ventre acolhedor de Gaia onde permanecerá até ressurgir novamente na Lua Nova, mostrando novamente que o fim também é o começo.

 

 

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12 comments to Lua Minguante

  1. Mila disse:

    Muito interessante seu post, a lua, a vida, todas tem suas fases, quem dera pudessemos recomeçar como ela recomeça as suas…Misterios de um por vir, quem sabe…
    Bjs

    Mila

  2. Paloma disse:

    Eu adorei essa combinação de Pessoa com a lua minguante. Ficou denso, forte. Nunca conseguiram confirmar a religião dele, não é? Mas acho que todo poeta no fundo é um bruxinho. hehehehe

  3. Daniel Savio disse:

    Interessante, sendo que todos deveriamos ter um ciclo para recolhimento interno, de racionalizar o fizemos e o que temos de fazer…

    Fique com Deus, menina Luna.
    Um abraço.

  4. Vou aproveitar a lua minguante, há muito o que deixar para trás.

  5. Colecionadora de Silêncios disse:

    Menina, gosto muito dos seus textos! :)
    É muito bom vir aqui!

    Grande beijo.

  6. Fecham-se as janelas para a ilusão do que pensamos que vemos e é real, e abrem-se os caminhos de iluminação suavíssima que levam à Deusa que somos, pelo cardíaco de Gaia pulsando em todo nosso Ser. A pulsação chega a ser musical, pois dança em meio ao fogo branco da alma e expande seu ritmo pela pele da Mãe… Lu, querida, você escreve pelos caminhos entre mundos.

    Adorei… Amei… e “Luei”

    Carinho, Madá

  7. Regina Laura disse:

    Lunna, que delícia passear pelos mistérios das lunações…
    Minha amiga, quanto conhecimento você guarda não?
    O recolhimento necessário para um novo desabrochar.
    O verdadeiro ritmo da vida…
    Beijo grande querida

  8. eu acho a lua fascinante,misteriosa, mutante.
    linda, flutua no céu!

    tem selinhos pra vc no http://2edoissao5selos.blogspot.com/

  9. Valéria disse:

    Quase sempre sou minguante..

    BeijooO*

  10. C. disse:

    Vai ver por isso dia desses voltei ao passado fechar o que talvez ainda estivesse aberto uma brecha… bem explicado!

  11. C. disse:

    E eu gosto da maneira que edita as ilustracoes, com esse reflexo ressignificando o restante com o texto abaixo.

  12. [...] Aprendi ao longo de meus estudos que o importante é a gente compreender os nossos ritmos, se libertar dos preceitos e descobrir nossos próprios rituais. Nota complementar. Escrevi no ano passado um post mais detalhado sobre a lua minguante que pode ser lido nesse link. [...]

Seja como o vento, cause tumulto em minhas cortinas e deixe um rastro para que eu possa te alcançar...

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