Uma coisa é fato, não é fácil compreender um cão, mas quem se dedica a essa arte, sabe que tem companhia para uma vida inteira, deles, claro, porque infelizmente, algum deus abelhudo inventou de fazê-los durar bem menos que a gente (na maioria dos casos)…
Como de costume, quando escrevo aqui em casa, como agora, não estou sozinha encarando a tela branca do Word. Patrick, um boxer de quase oito anos, lindo e adorável, já deu suas várias voltas em torno do próprio eixo e deitou-se ali em seu canto, junto a sua cama móvel que percorre todos os cantos da casa, afinal, ele precisa estar onde eu estou. Estamos juntos há praticamente sete anos, cinco meses e vinte e um dias… Ele foi um presente do mio amore que levou-me até a casa onde estava a mãe do Patrick e sua meia dúzia de filhotes. Um mais lindo que o outro, mas dentre todas aquelas bolinhas de pelo, lá estava ele com aquele olhar doce, a bocejar seguidamente, tropeçar em si mesmo e cair sentado, esforçando-se para caminhar e já, se esfregar em mim. O sorriso explicou por mim como se dissesse “é ele”. O pequenino veio com a gente, de tão pequeno que era que coube em minhas duas mãos. A caminho de casa, o movimento do carro não lhe fez bem e foi preciso parar para que regurgitasse o leite… A primeira noite em casa foi difícil, sentiu-se sozinho e só parou de chorar quando deitou-se ao meu lado na cama. Dormiu até a manhã seguinte quando tomou sua mamadeira de leite, gesto esse que se repetiu pelos dias seguintes… Quem olha para esse lindo cão festivo, bonito e elegante talvez não faça idéia que um dia ele teve menos de trinta centímetros.
O fato é que ninguém no mundo me faria tanta companhia assim: horas inteiras, deitado no meio do caminho (não há outro jeito, ele faz questão de ficar lá, como se precisasse disso para saber dos meus movimentos. Se vou ao banheiro, ele vai comigo. Se vou a cozinha, atender ao telefone, falar com mio amore, lá está ele, seguindo ao meu lado). Escrever na companhia do Patrick é algo singular. Ele parece saber o momento exato das minhas pausas, então se aproxima com aquela cara grande, acomoda a cabeça nas minhas pernas e parece dizer “agora você pode me fazer um afago”. Pronto. A vida ganha outras cores. E quando vem uma idéia, comemoro com ele com sorrisos e olhares, ele sabe que algo aconteceu e resmunga de lá “agora é que ela não sai mais dessa mesa”.
Não é atoa que mundo afora já se tornou mania falar de artistas e seus amigos. Sim, porque cães não tem donos, como tantos gostam de dizer por aí, eles tem amigos humanos. No mundo literário são inúmeros os livros dedicados a esses amigos de quatro patas. Alguns filmes já contaram detalhes da amizade entre os cães e seus humanos. “Meu cachorro Skip” é baseado na autobiografia de Willie Morris, o livro rendeu ao autor o Pullitzer. A história conta a relação de amizade entre o garoto Willie e seu cachorro Skip no interior dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial.
O escritor francês Roger Grenier escreveu “Da Dificuldade de Ser Cão” onde reuniu diversas histórias das relações entre escritores e filósofos e seus amigos caninos. O livro foi escrito em grande parte para homenagear seu cão Ulisses, mas ao ler cada página e ver a participação de Ulisses em diversos capítulos, fica a sensação de que Grenier talvez tenha tentado se libertar da dor da perda de seu mais fiel amigo. Escrito sem nenhum rigor, coisa que só a idade permite, o autor reuniu Sartre, Voltaire, Goethe, Freud, entre tantos outros. Todos eles tiveram seus cães, reais ou simplesmente abstratos. Eram seus companheiros de palavras, passos e era com eles que se divertiam e pensavam a vida, o momento enquanto confeccionavam a própria história.
O mais conhecido cachorro literário é também um dos mais antigos “Argos” – o fiel amigo do herói Ulisses da Odisséia. Enquanto Penélope usava de subterfúgios para evitar um novo casamento, durante a viagem do rei de Ítaca – Argos, velho e maltratado, coberto de carrapatos, foi capaz de reconhecer o homem que chegara disfarçado a sua terra. (…) “Reconhecendo Ulisses no homem que chegava, agitou a cauda e baixou as duas orelhas: faltaram-lhe forças para chegar até onde estava seu senhor”, escreveu alguém atualmente conhecido como Homero.
A poeta Hilda Hilst que viveu um momento delicado em sua vida quando não queria mais companhia de pessoas, dar entrevista, conhecer ou desconhecer, escrever poemas ou versos; não abria mão da companhia de seus 60 cães e se preocupou em garantir que seus amigos receberiam alimento e carinho após sua morte. Ela fez um testamento onde assegurava a eles o cuidado necessário “Quero garantir a vida daqueles que são meus verdadeiros amigos e companheiros de todas as horas”. Hilda recolhia cães abandonados das ruas. Muitos deles, doentes, tristes e feridos. Era algo que ela não suportava, então os levava para casa, onde se dedicava a eles como a ninguém mais. O engraçado é que ela comparava seus cães aos homens, mas ao ouví-la a sensação que se tinha era que os animais eram os humanos e não o contrário “Quando ouço falar do caráter, da lealdade e da dedicação dos cães, fico impassível. Todos os meus cães foram uns patifes, ladrões e encrenqueiros, mas mesmo assim amei todos eles”.
Em “Um dia de cão”, de Jim Dratfield – você faz um passeio leve e agradável por imagens de cães de diversas raças – ou de raça nenhuma. Ao todo são 57 fotografias que geram sorrisos, indignações ou caretas. Cães desengonçados, de pelagem variada e com as mais diferentes feições: engraçadas e com formas singulares. Há cães para todos os gostos: grandes, estranhos, pequenos e até minúsculos… E algumas frases motivadoras sobre esses amigos caninos, escritas por personalidades famosas que também tem os seus cães (estranhos ou não) como Mark Twain, Woody Allen, Einstein, Eleanor Roosevelt, entre outros.
Atualmente, um dos programas de maior sucesso do canal Animal Planet é “Dog Wisperer” (O encantador de cães em português) onde César Milano ensina como conviver com seu cão de forma tranquila e equilibrada.
Muitas pessoas acham gracioso um cão dar a pata, sentar, e se comportar. Mas a verdade que cães não são obedientes e tem vontade própria. Eles agem em resposta as suas atitudes e ao contrário do que muitos de nós (humanos) pensam, os cães são inteligentes e conseguem nos compreender muito bem. Ele não é doméstico, nem nós somos, o que dirá eles. O cão atende quando é chamado porque sabe que irá ganhar algo de você: carinho, alimento, atenção. Ele não sabe viver sozinho e por isso precisa da sua presença na vida dele porque quando está em seu habitat natural, ele vive em bando e quando o levamos para casa, nós passamos a fazer parte do seu bando.
Intitulado como sendo “o melhor amigo do homem”: cães são sinceros, leais, não fingem, não escondem sua satisfação, muito menos a sua insatisfação e sabem demonstrar afeição como poucos. Tudo isso, sem dizer uma só palavra. Por tudo isso, sempre que eu observo o Patrick é que eu fico com a sensação de que os homens deveriam ser menos humanos e muito mais “caninos”.
Nota.
1 – Patrick continua ali, em seu cantinho de mundo, atento aos meus movimentos. Já me acompanhou pela casa inteiro desde que aqui sentei para escrever esse post sobre cães. Fiz algumas pausas para lhe fazer afago, buscar água, uma xícara de chá e levar o lixo reciclável para a rua. Claro, ele foi comigo…2 – Escrevi esse post para festejar a recuperação do meu cão que esteve debilitado desde o final do ano passado. Foram meses de tratamento, entre melhoras e pioras. Pra quem tem cão sabe o quanto é difícil vê-lo deprimido, desanimado, deitado na maior parte do tempo. Mais difícil ainda é aguardar a reação ao medicamento, aguardar a melhora e a sensação de “incapacidade” diante da demora. Foi uma verdadeira eternidade…
3 – O Patrick teve sarna demodécica que atacou as quatro patas deles. Parece uma micose que deixa a pele entre os dedos em carne viva. Horrível. A doença é genética e hereditária. Causa baixa resistência no cão e pode atacar a qualquer momento em cães da raça Boxer, Rothwiller, Pastor Alemão e Labradores. Quando a fêmea dessas raças tem essa doença, é aconselhado a não procriação para que a doença não vá adiante. Mas como todos nós sabemos, as pessoas se preocupam em ter filhotes, não com a possibilidade de serem saudáveis ou não.
4 – Graças a procriação equivocada de cães da Raça Boxer, hoje, em todo o mundo, a raça está ameaçada de extinção. Já que ao longo do tempo, graças a uma idiota intenção humana de “aprimorar” a raça, ocorreram tantas mutações que a maior parte desses cães vivem menos do que deveriam e morrem com tumores, câncer e doenças que foram adquiridas graças a talentosa ação humana sobre a espécie.
5 – O Patrick melhorou nos últimos dias. Voltou a ser o cão ativo, alegre e feliz. E pode ter certeza de que nós aqui de casa também.