A difícil arte de ser um cão…

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Uma coisa é fato, não é fácil compreender um cão, mas quem se dedica a essa arte, sabe que tem companhia para uma vida inteira, deles, claro, porque infelizmente, algum deus abelhudo inventou de fazê-los durar bem menos que a gente (na maioria dos casos)…

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Como de costume, quando escrevo aqui em casa, como agora, não estou sozinha encarando a tela branca do Word. Patrick, um boxer de quase oito anos, lindo e adorável, já deu suas várias voltas em torno do próprio eixo e deitou-se ali em seu canto, junto a sua cama móvel que percorre todos os cantos da casa, afinal, ele precisa estar onde eu estou. Estamos juntos há praticamente sete anos, cinco meses e vinte e um dias… Ele foi um presente do mio amore que levou-me até a casa onde estava a mãe do Patrick e sua meia dúzia de filhotes. Um mais lindo que o outro, mas dentre todas aquelas bolinhas de pelo, lá estava ele com aquele olhar doce, a bocejar seguidamente, tropeçar em si mesmo e cair sentado, esforçando-se para caminhar e já, se esfregar em mim. O sorriso explicou por mim como se dissesse “é ele”. O pequenino veio com a gente, de tão pequeno que era que coube em minhas duas mãos. A caminho de casa, o movimento do carro não lhe fez bem e foi preciso parar para que regurgitasse o leite… A primeira noite em casa foi difícil, sentiu-se sozinho e só parou de chorar quando deitou-se ao meu lado na cama. Dormiu até a manhã seguinte quando tomou sua mamadeira de leite, gesto esse que se repetiu pelos dias seguintes… Quem olha para esse lindo cão festivo, bonito e elegante talvez não faça idéia que um dia ele teve menos de trinta centímetros.

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O fato é que ninguém no mundo me faria tanta companhia assim: horas inteiras, deitado no meio do caminho (não há outro jeito, ele faz questão de ficar lá, como se precisasse disso para saber dos meus movimentos. Se vou ao banheiro, ele vai comigo. Se vou a cozinha, atender ao telefone, falar com mio amore, lá está ele, seguindo ao meu lado). Escrever na companhia do Patrick é algo singular. Ele parece saber o momento exato das minhas pausas, então se aproxima com aquela cara grande, acomoda a cabeça nas minhas pernas e parece dizer “agora você pode me fazer um afago”. Pronto. A vida ganha outras cores. E quando vem uma idéia, comemoro com ele com sorrisos e olhares, ele sabe que algo aconteceu e resmunga de lá “agora é que ela não sai mais dessa mesa”.

Não é atoa que mundo afora já se tornou mania falar de artistas e seus amigos. Sim, porque cães não tem donos, como tantos gostam de dizer por aí, eles tem amigos humanos. No mundo literário são inúmeros os livros dedicados a esses amigos de quatro patas. Alguns filmes já contaram detalhes da amizade entre os cães e seus humanos. “Meu cachorro Skip” é baseado na autobiografia de Willie Morris, o livro rendeu ao autor o Pullitzer. A história conta a relação de amizade entre o garoto Willie e seu cachorro Skip no interior dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. 

O escritor francês Roger Grenier escreveu “Da Dificuldade de Ser Cão” onde reuniu diversas histórias das relações entre escritores e filósofos e seus amigos caninos. O livro foi escrito em grande parte para homenagear seu cão Ulisses, mas ao ler cada página e ver a participação de Ulisses em diversos capítulos, fica a sensação de que Grenier talvez tenha tentado se libertar da dor da perda de seu mais fiel amigo. Escrito sem nenhum rigor, coisa que só a idade permite, o autor reuniu Sartre, Voltaire, Goethe, Freud, entre tantos outros. Todos eles tiveram seus cães, reais ou simplesmente abstratos. Eram seus companheiros de palavras, passos e era com eles que se divertiam e pensavam a vida, o momento enquanto confeccionavam a própria história.

O mais conhecido cachorro literário é também um dos mais antigos “Argos” – o fiel amigo do herói Ulisses da Odisséia. Enquanto Penélope usava de subterfúgios para evitar um novo casamento, durante a viagem do rei de Ítaca – Argos, velho e maltratado, coberto de carrapatos, foi capaz de reconhecer o homem que chegara disfarçado a sua terra. (…) “Reconhecendo Ulisses no homem que chegava, agitou a cauda e baixou as duas orelhas: faltaram-lhe forças para chegar até onde estava seu senhor”, escreveu alguém atualmente conhecido como Homero.

A poeta Hilda Hilst que viveu um momento delicado em sua vida quando não queria mais companhia de pessoas, dar entrevista, conhecer ou desconhecer, escrever poemas ou versos; não abria mão da companhia de seus 60 cães e se preocupou em garantir que seus amigos receberiam alimento e carinho após sua morte. Ela fez um testamento onde assegurava a eles o cuidado necessário “Quero garantir a vida daqueles que são meus verdadeiros amigos e companheiros de todas as horas”. Hilda recolhia cães abandonados das ruas. Muitos deles, doentes, tristes e feridos. Era algo que ela não suportava, então os levava para casa, onde se dedicava a eles como a ninguém mais. O engraçado é que ela comparava seus cães aos homens, mas ao ouví-la a sensação que se tinha era que os animais eram os humanos e não o contrário “Quando ouço falar do caráter, da lealdade e da dedicação dos cães, fico impassível. Todos os meus cães foram uns patifes, ladrões e encrenqueiros, mas mesmo assim amei todos eles”.

abraço amigo

Em “Um dia de cão”, de Jim Dratfield – você faz um passeio leve e agradável por imagens de cães de diversas raças – ou de raça nenhuma. Ao todo são 57 fotografias que geram sorrisos, indignações ou caretas. Cães desengonçados, de pelagem variada e com as mais diferentes feições: engraçadas e com formas singulares. Há cães para todos os gostos: grandes, estranhos, pequenos e até minúsculos… E algumas frases motivadoras sobre esses amigos caninos, escritas por personalidades famosas que também tem os seus cães (estranhos ou não) como Mark Twain, Woody Allen, Einstein, Eleanor Roosevelt, entre outros.

Atualmente, um dos programas de maior sucesso do canal Animal Planet é “Dog Wisperer” (O encantador de cães em português) onde César Milano ensina como conviver com seu cão de forma tranquila e equilibrada.

Muitas pessoas acham gracioso um cão dar a pata, sentar, e se comportar. Mas a verdade que cães não são obedientes e tem vontade própria. Eles agem em resposta as suas atitudes e ao contrário do que muitos de nós (humanos) pensam, os cães são inteligentes e conseguem nos compreender muito bem. Ele não é doméstico, nem nós somos, o que dirá eles. O cão atende quando é chamado porque sabe que irá ganhar algo de você: carinho, alimento, atenção. Ele não sabe viver sozinho e por isso precisa da sua presença na vida dele porque quando está em seu habitat natural, ele vive em bando e quando o levamos para casa, nós passamos a fazer parte do seu bando.


Intitulado como sendo “o melhor amigo do homem”: cães são sinceros, leais, não fingem, não escondem sua satisfação, muito menos a sua insatisfação e sabem demonstrar afeição como poucos. Tudo isso, sem dizer uma só palavra. Por tudo isso, sempre que eu observo o Patrick é que eu fico com a sensação de que os homens deveriam ser menos humanos e muito mais “caninos”.

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Nota.
1 – Patrick continua ali, em seu cantinho de mundo, atento aos meus movimentos. Já me acompanhou pela casa inteiro desde que aqui sentei para escrever esse post sobre cães. Fiz algumas pausas para lhe fazer afago, buscar água, uma xícara de chá e levar o lixo reciclável para a rua. Claro, ele foi comigo…

2 – Escrevi esse post para festejar a recuperação do meu cão que esteve debilitado desde o final do ano passado. Foram meses de tratamento, entre melhoras e pioras. Pra quem tem cão sabe o quanto é difícil vê-lo deprimido, desanimado, deitado na maior parte do tempo. Mais difícil ainda é aguardar a reação ao medicamento, aguardar a melhora e a sensação de “incapacidade” diante da demora. Foi uma verdadeira eternidade…

3 – O Patrick teve sarna demodécica que atacou as quatro patas deles. Parece uma micose que deixa a pele entre os dedos em carne viva. Horrível. A doença é genética e hereditária. Causa baixa resistência no cão e pode atacar a qualquer momento em cães da raça Boxer, Rothwiller, Pastor Alemão e Labradores. Quando a fêmea dessas raças tem essa doença, é aconselhado a não procriação para que a doença não vá adiante. Mas como todos nós sabemos, as pessoas se preocupam em ter filhotes, não com a possibilidade de serem saudáveis ou não.

4 – Graças a procriação equivocada de cães da Raça Boxer, hoje, em todo o mundo, a raça está ameaçada de extinção. Já que ao longo do tempo, graças a uma idiota intenção humana de “aprimorar” a raça, ocorreram tantas mutações que a maior parte desses cães vivem menos do que deveriam e morrem com tumores, câncer e doenças que foram adquiridas graças a talentosa ação humana sobre a espécie.

5 – O Patrick melhorou nos últimos dias. Voltou a ser o cão ativo, alegre e feliz. E pode ter certeza de que nós aqui de casa também.

Culpa da rotina da Borboleta

No final da tarde, ela me manda um link dizendo: “olha eu aqui” e eu fui lá, claro. E quando lá cheguei, deparei-me com a rotina de uma Borboleta. Não deu outra, desenhei minha rotina também…

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Sonho. Terça. Fim de tarde. Teclado. Diálogo. Olhar. Hora. Música. Distância. Abraço. Saudade. Ventos. Nuvens. Cheiro de terra molhada. Paisagem amendoada. Outono. Montanhas. Relvas. Calor. Chá quente na xícara. Água fresca no copo, na cara, no corpo (é só vontade por enquanto). Luz. Estrada. Ilusão. Ida e volta. O relógio no canto da sala. A palavra do outro lado da tela…

E então, posso te convidar a desenhar a sua rotina também?

Cem vezes Rogério Ceni…

“Eu sei que futebol é assim mesmo,
um dia a gente ganha,
outro dia a gente perde,
mas porque é que,
quando a gente ganha,
ninguém se lembra que futebol é assim mesmo?”

Carlos Drummond de Andrade

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Foto. Marcos Ribolli. Globoesporte.com

Em tempo, se você não gosta de futebol, não siga em frente com a leitura…
Eu gosto de futebol, embora ande decepcionada com o ritmo atual desse esporte que anda se concentrando nas figuras erradas. Hoje se fala muito mais de política e dos homens que coordenam esse esporte do que do esporte em sim, mas vamos lá, que o assunto hoje tramita entre as quatro linhas do campo…

Domingo, computador deixado de lado, televisão ligada e olhares atentos. O jogo não era dos melhores, mesmo sendo um “clássico” que atualmente conta com dois times que se rivalizam dentro e fora de campo: São Paulo e Corinthias. Em campo, muito mais pelas conquistas e feitos individuais. Fora dele, infelizmente graças a seus dirigentes e suas contestáveis decisões.

Mas, ali, dentro das quatro linhas havia dois times que estavam mais preocupados justamente com os assuntos extra campo. Jogo truncado, sem grandes lances: excesso de faltas e poucas oportunidades de gols até que Dagoberto acertou um chute “na veia” – abrindo o placar. São Paulo na frente… Mas nem isso serviu para mudar o ritmo da partida que seguia dando sono nessa que vos escreve.

Intervalo de jogo e uma enorme preguiça de voltar para ver o segundo tempo. Comecei a editar um artigo sobre a literatura feminina e quase me esqueço de voltar para ver o jogo. Mas me arrastei até lá, depois de ouvir o chamado do mio amore, em tempo de ver que nada estava diferente. O jogo continuava sem atrativo algum até que Fernandinho sofreu falta e a torcida do São Paulo comemorou como se tivesse sido um gol, afinal, o ídolo maior da nação são paulina estava atravessando o campo, lentamente, como de costume; com aquela calma que poucos possuem, ele ajeitou a bola com carinho junto a marca. Observou o posicionamento da barreira, do goleiro. Concentrou-se e como se fosse fácil fazer o que já havia feito outras cinquenta e seis vezes ao longo de sua carreira, cobrou com perfeição, como “se o tivesse feito com as mãos”. O jogo poderia ter acabado ali, mas ainda tinha muito tempo de jogo pela frente.

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Rogério Ceni alcançou o 100º gol em sua carreira (não de acordo com a FIFA, mas quem liga pra isso?). A torcida fez a festa junto ao seu ídolo maior, que como todo ídolo, é contestado. Sua arrogância se equipara a arrogância de seu time que se considera melhor em quase tudo, para raiva dos rivais. Quis o destino que o goleiro que se sobressaí em todas as suas funções marcasse seu centésimo gol contra o Corinthians que havia passado a semana inteira menosprezando o feito… Foi nas redes corintianas que o “Mito são paulino” deixou sua centésima marca.

A partir disso, o que se viu foi um Corinthians irritado, que esqueceu de vez o que é futebol e quando lembrou de fato o que é futebol, fez um belo gol através de Dentinho que não demorou para esquecer o que é futebol ea cabou expulso por agredir o jogador adversário. Mas era o dia dele, do homem que desperta a raiva na torcida adversária que simplesmente o odeia e não perde a oportunidade de alfinetá-lo das arquibancadas.Ele é diferente mesmo: fala o que pensa e pensa bastante sobre os mais diferentes assuntos. Gosta de Rock, não chega atrasado, não falta aos treinos, não frequenta baladas, pouco ses sabe da vida do homem, muito se sabe do Mito… Sim,  “todos os times tem goleiro, mas só o São Paulo tem Rogério Ceni”…

Antes que arremessem pedras, eu digo com todo prazer: sim senhores, ele falha, como todo bom goleiro falha em momentos importantes. Cite aí algum grande goleiro que não tenha ficado com as penas nas mãos em alguma partida decisiva. Afinal, goleiro é uma profissão ingrata, toda vez que o homem falha é num momento decisivo seja pra que lado for, seja em que dia for. É sempre decisivo… O atacante perde o gol mais feito da história, mas tudo bem, estava num dia ruím. O meia erra aquele passe bobo que culmina em gol, mas tudo bem, ele não estava sozinho, tinha outros 10 jogadores para dividir a responsabilidade. O zagueiro faz um tremenda bobagem, mas é um detalhe. O goleiro falha: lamentável. É o fim do mundo… Não para o Rogério que simplesmente falha e continua lá, em baixo das traves a fazer o que sempre faz, porque no mesmo jogo em que perde um pênalti ou falha num determinado lance, ele faz aquelas defesas que lhe conferiram o rótulo de “Rogério Air Ceni”…

Mas eu confesso que tudo isso me faz sentir saudades do tempo em que era divertido zombar, tirar sarro, tripudiar sobre o adversário. Hoje é tudo muito chato. O futebol virou coisa séria e como toda coisa séria, é chato demais. Por isso é melhor recorrer a poesia, de Drummond, o mestre que entre outras coisas também gostava de futebol. Afinal, hoje já é segunda e a  história, como de costume, já faz parte do passado. Vamos a outras marcas que o relógio não para e o mundo anda é pra frente.

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São vôos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
O jogador, gravado no ar
- afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.

Carlos Drummond de Andrade
In Poesia errante

Paixão segundo Lu Guedes

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Aos que se foram em corpos, aos que me restam em alma.
Auden

Lembro que ela tinha pouco mais de sete anos quando se apaixonou pela primeira vez. Sorriso maroto, afoito com seus olhos atentos a toda forma de movimento. Não perdia um risco, uma letra. Não perdia absolutamente nada. Sentava na escada no final da tarde com seu velho livreto de capa verde. Um presente daquela mulher que lia poesias de Auden, Dinckinson, Eliot e que a fazia adormecer em meio a narrativa inquietante daqueles versos que entregava seus sentimentos todos as nuvens que eram as sombras de sua infância…

Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via…
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia…
Só quando te perdi
É que eu te conheci…
(…) Fernando Pessoa – pág. 212

Enquanto cumpria seu ritual de espera, observava o mundo e seus tolos movimentos, alguns eram absolutamente desnecessários, enquanto outros eram contagiantes; como o daquela farfalla (borboleta) que ficava “farfallando” a sua frente até que ela interrompesse seu vôo com suas duas pequeninas. Todo um cuidado foi tomado para não machucar suas asas e ali com os olhos entre as mãos junto aquele pequenino ser, a menina calou-se (justo ela que falava sem parar) seus olhos romperam um limiar como nunca antes e em meio as lágrimas, ela devolveu aquele pequeno ser de asas azuis ao ar. A pequenina não fugiu; permaneceu “farfallando” pelos arredores, de flor em flor, de folha em folha, se aquecendo com os últimos raios de sol. O sorriso que se desenhou naqueles lábios foram a tradução de uma paixão que iria com ela por toda a vida. Ela poderia ter se apaixonado pelos pássaros, que também tem asas e voam muito mais alto que a farfalla, mas não são tão alegres e desengonçados como aquele pequenino ser que seria desenhado milhares de vezes em folhas diversas. Era uma paixão, dessas que invadem e ditam o ritmo de toda uma existência…

“Minha amiga deve ser um pássaro,
Porque voa!
Deve ser imortal, porque morre!
Tem ferrão tal e qual a abelha.
Ah, singular amiga, tu me intrigas!”

Emily Dickinson

Mais tarde, a bordo de seus doze anos, novamente se apaixonou. Paixão humana, densa. A mulher que lá estava diante dela usava óculos a frente dos olhos e quando precisava observar algum aluno, inclinava-se pra frente e olhava por sobre as lentes. Era um gênio. Dizia palavras inquietantes, citava poetas ilustres e sabia tanto e de tantas coisas. Sobre sua mesa, deixava livros de homens e mulheres que pra ela ainda eram ilustres desconhecidos. Bebias-os. Páginas inteiras em  poucos minutos. Queria chegar no dia seguinte e dizer “tem mais?” e as duas se encontravam na biblioteca, e em alguns cantos secretos adquiridos ao longo daquela trajetória. Liam uma para a outra. Trocavam opiniões, sorrisos, olhares. Ela foi sua primeira correspondente sem selo. Durante as férias, linhas inteiras foram escritas e entregues no primeiro dia de aula quando soube que aquele seria o último ano na companhia daquela mulher. Chorou uma semana inteira. Não poderia ser assim. A mulher estava de fato indo embora: viver outras aldeias, outras escolas, outros alunos. Como era injusto. Mas não adiantava esbravejar. Seria assim e ela, a professora, prometeu manter contato, com linhas inteiras de literatura e notícias… A paixão seria mantida, renovada a cada carta ofertada aos olhos da menina que se apaixonava por todos aqueles dizeres: escritos a moda antiga, em folha amarelecida com caneta tinteiro; letra desenhada, adocicada que ela namorava com entusiasmo, como quem cumpre um ritual recém adquirido. Chegava da escola, verificava a correspondência no móvel de entrada, e em meio a tantos envelopes estranhoas, descobria aquela composição fina, rica em textura e deliciosamente recheado com palavras. Ela corria para a cozinha onde preparava o seu chá, sentando-se junto a mesa para se deliciar com aquelas linhas… Até que um dia o silêncio se impos, restando apenas o vento a tumultuar os envelopes sobre o móvel.

As tuas insatisfações, por outro lado,
Chegam pela ranhura da caixa do correio com regularidade amorosa,
Brancas e vazias, expansivas como monóxido de carbono.”
Sylvia Plath

Mais tarde, a paixão foi pela dor. As perdas e derrotas somadas a levaram de encontro a certeza de que viver era uma coisa dolorida e era preciso ser assim para que tudo fizesse sentido. Então sofria até a exaustão, distanciava-se de quem se aproximasse e por fim, construiu um silêncio devastador que a manteria mergulhada naquela dor insuportável. Viver é essa coisa doída e se sofria, sentia-se resignada porque os poetas sofrem e ela já imaginava fazer parte daquele seleto grupo de sofredores que sabiam muito bem o quanto dói viver. Anos inteiros mergulhados naquela dor que rasgava a pele com memórias que não se gastavam, não se cansavam. Enquanto pode, ela se obrigou aquele caminho tortuoso onde ainda haviam marcas daquele incêndio irresponsável que havia transformado parte de sua história em cinzas. Nada é por acaso, diziam os mais sábios a quem ela dava de ombros, sofrendo seguidamente a dor que lhe cabia e que de certa forma a alimentava…

(…)E tudo sempre é agora. As palavras distendem,
Sob a tensão, tropeçam, escorregam, perecem,
Apodrecem com a imprecisão, não querem manter-se no lugar,
Não querem quedar-se quietas. Vozes ríspidas,
Irritadas, zombeteiras, ou apenas tagarelas,
Sem cessar as criticam
(…) T.S.Eliot

Conta essa lenda, que os anos passaram e as paixões se multiplicaram: por objetos, pessoas, sentimentos, palavras, lugares, multidões inteiras. As vezes, ela se arrasta para um canto e chora incessantemente. Depois abre o sorriso e saí por aí, vagando pelas calçadas, colhendo olhares de uma gente que nada sabe sobre ela. Ela gosta de saber que é uma estranha pra quem está lá fora. As vezes se abandona junto as varandas bem merecidas com xícaras de chá e lembra das palavras que chegavam naquelas finas folhas amarelecidas que falavam de uma vida tranquila, vivida ao lado de um pequeno cão de nome engraçado e se convence de que nada mudou. A mulher apenas esqueceu-se dela e há satisfação nisso porque ser esquecida é algo que definitivamente não a incomoda.

(…)
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste,
Enquanto viveu foi minha semana de trabalho,
o meu descanso de domingo,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha fala, meu canto;
Era meu amor e deveria ser eterno. Não foi: enganei-me.
Auden

Hoje, ela anda apaixonada por outras coisas: pela palavra da menina que se explica em seus posts. Pelo medo que atinge a pele da mulher que tem sido desenho para os seus versos, pelo homem que anda distante e perto, pelos rascunhos que ela descobre quando revira a gaveta; pelos livros que ela encontra pelo caminho, pelas vidas que ela inventa e pelos amigos que se ofertam em palavras. A maioria vem de longe e nunca hão de se encontrar e ela sabe que de repente, um dia haverá aquele silêncio natural e alguém, em algum lugar, será esquecido…. Ela é menina ainda, também é mulher. Não é uma apenas. Isso ela nunca foi. Ela é várias e sabe disso. E sabe também que nunca estará sozinha de fato porque suas paixões seguem fazendo sombra em sua derme e basta uma canção de fundo para ela reviver um pouco de tudo isso. Ainda agora quando o sorriso chega aos lábios e as lágrimas aos olhos, ela sente aquela dor que a silencia e diz “grite com o papel que passa”. E ela deixa tudo e vai viver sua paixão, sentindo tudo excessivamente até que a exaustão a leve pra cama, e lá, deitada de bruços, com a cabeça enfiada no travesseiro e os olhos grudados na paisagem, ela acaba se perdendo junto as nuvens brancas, cinzas, claras e escuras; saboreando apenas mais uma de suas muitas paixões. Enquanto isso: ela descansa de si mesma e resmunga versos antigos:

Podia viver – viveu. Podia morrer – morreu.
Se não estiver viva
Os céus não podem guardar seu segredo!
Senti um funeral dentro de mim,
Duas borboletas saíram ao meio dia,
Tendo como destino o mar
E sem flor alguma para abraçar,
restou apenas a solidão comum do céu
Emily Dickinson

E se você é um desses humanos que acredita que a paixão seja essa coisa vaga, que vive na pele de uns muito mais de que de outros. Sou feliz por saber que essa menina que é brisa fria junto a minha pele não pensa como você porque pra ela, paixão é alimento da alma, é movimento, silêncio, veneno que fica no copo, água que caí do céu, sol que brilha entre as folhas da jabuticabeira, olhos se revelando a outros olhos, lábios se precipitando junto a outros lábios, mãos se acariciando enquanto passos são inventados junto as calçadas, abraços entregue a braços abertos, pé frio sendo aquecido no meio da noite, latido pedindo afago, palavras narrando vidas, histórias, ilusões, personagens saltando da pele humana na qual se esbarra pelas esquinas, encontro inusitado no vagão do trem, sentimento que surge ao apanhar um graveto no meio do caminho, desencontros causados pelos ponteiros desorientados, páginas escritas por outros que parecem narrar o que vai aqui dentro…
Paixão é o que faz essa menina escrever, dançar, rasgar-se, encantar-se. É o que faz dela esse ser entusiasmado e atento as coisas mais simples como um punhado de nuvens vagando pelo céu e avisando “é hora de mudar de estação”…

“Escureceu: acinzentou-se de longe
O horizonte parado
Será a alma parda ou tom de monge…
meu corpo fatigado
Meu corpo fatigado da alma
Quantos poros terei para a calma!
Fernando Pessoa

Nota.
1 – Os poemas que intercalam os textos foram anotados ao longo dos dias em agendas que não tinha compromissos com outras coisas que não a paixão da menina que gosta de outono e farfallas, Chopan e páginas em branco, envelopes e caderno novo…

“era uma vez um outono”

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Enfim, o outono se exibe pela paisagem…
Drummond dizia “que o outono é uma estação mais da alma que do coração” – eu não sei. Sei que gosto do som da palavra, seja em português, inglês, francês ou italiano. São bem próximas na pronuncia. Ao contrário dos inglês usado no Estados Unidos e no Canadá que usam mais o Fall – algo como “fall of the leaf” = queda da folha. Mas eu fico com o “auttumn” do inglês britânico que vem do francês automme… Ou ainda autunno em italiano…

Bem, prometi a mim mesma que esse outono será dedicado aos meus poemas. Tenho inúmeros “poemas perdidos” em gavetas, baús, no meio dos livros, em agendas antigas. Por aí… Está na hora de reuní-los em algum lugar mais fácil de serem encontrados por mim ou por outra pessoa qualquer.

Engraçado porque sempre fui muito organizada, mas não com os meus poemas. Eu sempre os escrevi e deixei por aí… Com uma indiferença tão natural que chega a ser assustadora… (risos) Viu só? Eu não faço promessas de ano novo, mas me aventuro por elas a cada nova estação e diferentemente das promessas feitas pelos mortais na mudança do ano, eu as cumpro como forma de sentir melhor as ilusões de cada estação do ano…

Antes de ir, deixo vocês com o ritmo do outono através da poesia de Fernando Pessoa (sempre ele).

Uma névoa de Outono o ar raro vela, (5-11-1932)

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta 

 

“O mundo precisa de poesia”

imageEntão hoje é segunda-feira, dia da Lua (que atingiu seu perigeu no sábado) e esteve linda, mas perigosa, afinal, Lua mais próxima da Terra tem lá as suas consequências e isso nada tem a ver com o fim do mundo (estejam atentos profetas = menos besteiras, por favor. Já estão alardeando o fim do mundo outra vez). Mas talvez essa proximidade toda explique os problemas ocorridos no Japão… Ou seja, é apenas a Natureza se movimentando, coisa que ela faz o tempo todo, mas na maior parte do tempo estamos ocupados demais para perceber. O homem tem essa estranha mania de centrar-se em si mesmo sem perceber que há vida além de sua carcaça…

Enfim, mas nem mesmo a beleza da Lua conseguiu se sobrepor sobre um dos assuntos mais discutidos ao longo da semana “o blog da Bethânia” que de acordo com a publicação feita pelo jornal “Folha de S.Paulo” teria conseguido autorização do MinC para construir um blog (projeto Pronac 1012234) onde será postado um vídeo diário de 1 minuto de duração com a cantora interpretando poesias de grandes poetas da literatura. A produção desses 365 filmetes será feita por Andrucha Waddington que foi o diretor o documentário “Maria Bethânia – pedrinha de Aruanda”. Nome sugestivo: podemos dizer que no momento ela é a pedrinha que faltava na tão discutida Lei Rouanet. (risos)

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O blog em questão será inspirado no espetáculo “Bethânia e as Palavras” onde a cantora recita poemas e trechos de textos de Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira e Sophia de Mello.

Independente de eu concordar ou não com R$ 1,3 milhão para esse projeto, o que me agradou mesmo foi apreciar a criatividade da “galera” em ação: um grupo criou o blog “365 poemas a um real onde estarão sendo exibidos filmetes com poesias de quem desejar participar do projeto. Os interessados em participar só precisam enviar seu material escrito para 365poemas@gmail.com seguindo os critérios disponibilizados na página “como participar” – afinal, em dias atuais não precisa de 1,3 milhão para fazer sucesso no you tube, basta ter um celular e o mínimo de criatividade…

E para finalizar a primeira hora, deixo aqui um rabisco meu. Um dos primeiros. Não sei quantas vezes foi editado, mas do que foi no primeiro dia que lançou-se sobre o papel, eu bem sei que pouca coisa sobreviveu. Mas o sentimento ainda é o mesmo: aconchego de um corpo que ficou no último degrau da escada…

Eu brinco que esse poema é um “plágio” de Ferreira Gullar. Estávamos estudando literatura brasileira na sala de casa (eu tive aulas em casa ao longo da infância para suprir o que faltava na escola. De acordo com a psicóloga a escola me causava tédio. E pensar que minha mamma pagou a profissional para dizer isso a ela. (risos)

Enfim, a professora me pediu para ler esse poema de Ferreira Gullar e escrever o que eu conseguia sentir a partir de suas linhas. Voilá. Surgiu minha própria versão de “felicidade”.

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Felicidade

Minha casa tem cama feita a quatro mãos
com lençóis de vento, travesseiros de brisa
E cortinas de sol…

Do lado de fora da janela tem sempre o mar
E a varanda trás sempre seus quintais de fruta de lá
O céu se desmancha em lágrimas pela manhã
E floresce em raios dourados pela tarde

A cozinha tem ingredientes novos:
Forno sempre aceso cheirando a bolo de coco
E xícaras esquecidas sobre a mesa a qualquer hora
Tem ervas atrás da porta
E potes com biscoitos de ontem

A sala tem seus porta retratos
narrando momentos que se repetem por ali
Tem sofá pedindo aconchego
E mesinha com livros de páginas marcadas
Tem incenso queimando e vela sempre acesa
Tem o cão no canto pedindo afago
E o vento que entra e saí a qualquer momento

Tem corredores compridos,
Carrilhões antigos
Quadros tortos e luminárias apagadas
Tem ecos do tempo e fantasmas queridos!

Tudo é movimento por aqui:
Das lembranças que despertam primeiro
Das saudades que nunca adormecem
Dos nossos passos que deixam marcas no assoalho
Que já não se surpreende com mais nada!

Uma “missiva secreta” escrita pra você…

clip_image001Sentei-me aqui para ler o horizonte e a varanda começou a contar-me de ti em meio aos seus contornos antigos. Tem tanto de mim aqui nesses cantos. Tem tanto de outras pessoas, algumas delas já se foram. Outras apenas passam por aqui quando não tem outros lugares para ir. Tanto desse lugar já está em repouso, em silêncio e não sei se irá despertar. Creio que o sono profundo será seus sons daqui pra frente. Sinto na pele um anúncio de despedida. Ele parece acenar para mim com todos os seus pretéritos.

clip_image001[8]Os degraus ali debaixo contam lendas sobre uma menina e seus cachos que nunca tinham ido muito além de meia dúzia de esquinas até chegar até aqui dias antes do primeiro inverno branco de sua vida. Contam também encontros de braços que se vestiam de forma simples e natural. Sorrisos surgiam em meio a palavras carinhosas ofertadas por estranhas meninas das quais os nomes pareciam conhecidos como se o vento falasse delas há tempos… Falam ainda de um velho homem de aparência redonda e amável que movimentava todos os músculos de seu corpo quando gargalhava e levava todos com ele porque aquele som era contagiante. Ele se foi num dia de chuva, como gostava, cavalgando; estava ele em busca de um cavalo assustado, na certa iria acalmá-lo e traze-lo de volta pra casa. Ele sabia como poucos o que eles diziam e pobre daquele que dissesse “cavalos não falam nono” ele nada dizia, mas seu silêncio era feito faca afiada a atravessar as entranhas. Gostava daquele olhar livre de maldade, vestindo apenas descaso. Acho que herdei isso dele. Gosto de pensar que sim…

A casa agora está vazia, silenciosa. Falta o cão a andar de um lado para o outro e sinceramente faltam muitas outras coisas também. Já não é mais como antes. É apenas uma casca com recordações minhas e de tantos outros. Mas as últimas visitas parecem ter ofendido todas essas memórias. Lembro de quanto essa varanda reunia dúzias de olhares, centenas de sorrisos e a felicidade daquele homem que tinha ali naqueles movimentos a sua realização. Ele era feliz na maior parte do tempo e gostava da casa cheia, de amigos, mas preferia os cavalos, como eu prefiro os cães. Tem uma foto dele ao lado da lareira, é onde ficam as fotos das pessoas que já se foram. Uma alusão ao fogo e sua perversa motivação. Tudo dura pouco, não é mesmo? As coisas se acabam e você nem se dá conta disso. Quando abre os olhos numa manhã, percebe a casa vazia, ausente de passos e mesmo assim espera. Fica a centímetros da porta de entrada esperando que todos voltem; mas o passado não é um ioiô e só volta em partes, nada físico, apenas metafísico….

E a paisagem se perde do lado de dentro da gente. As lágrimas visitam a face e a pele fica inebriada. A melancolia toma conta do corpo e você aos poucos vai ouvindo aquelas conversas de fim de tarde, com xícaras e livros na mesa da varanda. A escada desenha passos e trás de volta a ilusão daqueles que não estão mais aqui. O sorriso da menina de cachos floresce por alguns segundos e eu a vejo ali, sentada, com seu livro ao lado daquela dama que ela tanto admirava, esperando pelo homem que hoje é apenas um mito, uma lenda que não desaparece porque ela o leva consigo em suas margens. Eu o vejo chegar com seus braços abertos para onde ela salta com toda a segurança porque sabe que ele a fará voar por cima de todas as coisas demasiadamente humanas.

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Mas basta uma leve distração pra tudo voltar ao vazio sem sons ou movimentos. De real, apenas o maldito carrilhão com seus sons que ultrapassam tempo e espaço. Ele assustava a menina em suas primeiras horas, depois passou a ser música para embalar uma juventude que teve suas euforias, seus dramas, decepções, mudanças. Teve tantas coisas e ele narrou a maioria delas. Hoje ele é apenas um móvel articulado que serve para despertar o que ainda resta de ilusão.

A casa está vazia e o eco dos meus passos me incomodam. Quero ir embora e dizer que não vou mais voltar, mas é mentira porque por enquanto esse cenário é tudo que eu tenho de meu. Minha história passa por aqui e essa história que me levou até você. Lembra? Você deu uma dúzia e meia de passos em minha direção e me presentou com o seu abraço. Há tempos que alguém não me abraçava porque eu não queria proximidade com humanos. Até você chegar, eu achava que eu tinha uma maldição reinando em minha derme. Mas você com seu sorriso de menino, seu abraço de homem e seu olhar canino foram ficando e hoje, não importa a distância, sempre há algo para te contar ou algo a ouvir de você…

Menina no sótão…

O sabor da aurora…

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Passa das cinco da manhã.
O dia ainda não veio, mas as cores já se apressam ao longo da paisagem. Meu corpo, minha mente e minha alma começam a mergulhar nas sensações antigas. Fecho meus olhos e os sons se precipitam no cume da montanha. São elas, as Senhoras da Magia com seus tambores. Elas anunciam a aurora com toques ritmados de tambores, saudando a natureza com as batidas do próprio coração. Gosto de ouví-las e sabê-las porque me remete de encontro as minhas origens. É o que sou, é quem sou…
Lá fora já é possível sentir as mudanças da nova estação. O cinza do céu, as chuvas pela manhã e o sol ameno no meio da tarde em meio a um colorido natural de flores que se abrem e folhas que renascem…
Enquanto isso, longe daqui, círculos perfeitos são feitos com pedras; são elas que em seu ritual de silêncio esperam pela chegada das escolhidas por elas para compor aquele cenário mágico. Elas vão chegando uma a uma com cestos repletos de pétalas vermelhas, pedras, folhas, ervas e outras iguarias que são espalhadas ao longo do caminho e ao redor do círculo. Cantam alegremente uma canção conhecida “na mão direita tem uma roseira que dá flor, na primavera é que dá flor, na primavera. Entrai na roda ó linda roseira, entrai na roda ó linda roseira e abraçai a mais a faceira, abraçai a mais faceira. A mais faceira eu não abraço, a mais faceia eu não abraço. Abraço a boa companheira, abraço a boa companheira”.

E enquanto cantam, vão fazendo seus movimentos circulares que representam as mudanças, as transformações e o processo natural de evolução de todas as coisas vivas. Ali no chão, dentro do círculo são colocados o pão caseiro feito com ovos, trigo, leite, manteiga e açúcar para ser consagrado em nome da Deusa e Senhora da Aurora que está despertando junto com todas as formas divinas de vida. O sol  começa a se manifestar e os primeiros raios são sentidos junto a pele. Os tambores retomam o ritmo e a mais velha dentre elas, a Anciã começa a invocar os elementos, as direções, os Deuses e a cada uma delas que ali estão para reverenciar o que há de mais sagrado para todos nós: a vida. A Deusa da Aurora é a menina, jovem, amável que se encanta com a beleza do jovem Deus que a reconhece assim que lança o primeiro olhar em sua direção. Ciente de seus mistérios e segredo, ela corre por entre as árvores e ele a persegue: saltando por sobre pedras, cruzando rios, procurando nas moitas, atrás das árvores. É um ritual de passagem: a infância aos poucos vai sendo substituída pela juventude, mas nunca esquecida, tão pouco abandonada.

O som dos tambores silenciam, e numa forma de reinvenção de si mesmas, as Senhoras da Magia abandonam pintam os ovos de Ostara com as cores da estação.. Para elas a infância é uma constância em suas vidas. As velas e o incensos são acesos pelas mais jovens que brindam a continuidade com suco de maçã.

Todas elas se reúnem no circulo, dão-se as mãos, elevando-as. Fecham os olhos. Respiram fundo. Sentem as batidas de seus corações e por fim: recitam versos. Então o silêncio retorna: é a conversa intima entre elas e a Natureza que rege o mundo de dentro e de fora. Permanecem ali sentadas, meditando, sentindo todos os elementos, todas as formas manifestadas. O sol dispara no horizonte e o dia finalmente anuncie suas cores. É hora de consagrar o pão e o vinho através das mãos da Matriarca, a Anciã que tudo sabe e conhece. Terra, Água, Fogo e Ar são invocados. O pão, símbolo da fartura é repartido entre elas com o desejo de que nunca falte nada em seus lares e que a semeadura seja proveitosa. O pedaço de pão recebido das mãos da Anciã é partido em três partes: o primeiro pedaço é devorado para que o mundo exterior se una ao mundo interior numa consagração divina: o desejo é um só; fertilidade na forma que for desejada: seja através da continuidade, da inspiração ou da ciência… A segunda parte será deixada junto a uma árvore para que o desejo de fertilidade alcance a terra em toda a sua extensão. E por fim, levam o último pedaço para casa e colocam em um pote com grãos para que o desejo de continuidade seja uma constante em suas mesas para onde se destina os alimentos do corpo…

Elas agradecem a continuidade. Saúdam as quatro direções com movimentos circulares e saúdam a si mesmas. O som dos tambores voltam e os passos também. É hora de voltar e esconder os ovos que serão encontrados pelas crianças que irão contar aos seus sucessores as mesmas lendas que ouvem hoje…

A roda do ano novamente gira e a vida segue pelos caminhos de sempre.
Meus olhos reabrem para os dias de hoje onde muito se fala dos rituais pagãos que ainda são considerados por muitos ignorantes como sendo coisas demoníacas. Mas sempre vejo florescer em mim a mesma questão “como é possível adorar ou praticar algo em nome de uma “fantasia” que não foi criada pelos pagãos?”. Eu não tenho resposta, mas tenho o meu sorriso que não foge dos meus lábios, nem mesmo quando a dor visita a minha pele porque aprendi ainda na infância com a nona que o sorriso é a cura para todos os males. “Apague o sorriso da sua alma e a dor tornar-se-à insuportável” disse-me ela certa vez.

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Notas.
1 – O Equinócio de Primavera, também conhecido como Ostara é o primeiro dia da Primavera e um dos oito Sabbats do ano. É o momento do ano em que noite e dia tem exatamente a mesma duração.
2 -  Ostara é um Festival Solar. Na agricultura, assinala o momento em que as sementes são plantadas e começam o seu processo de crescimento. É tido como um momento de união e amor entre a Deusa (Lua) e o Deus (Sol), pois é um período de igualdade e equilíbrio entre as forças da Natureza.
3 – Os mais antigos sentiam no ar a mudança dos ventos e diziam que era o “tempo de passarinhar” ou seja: namorar. Tempo em que nosso corpo está atento para as transformações dos sentimentos. O sentir, o existir. Há quem diga que nessa época o nosso corpo exala perfumes diferenciados que nos leva de encontro a nossa cara metade. Mas se você já a encontrou, o perfume do nosso corpo faz com que essa paixão se renove…
4 – É costume colorir os ovos em Ostara porque os povos antigos acreditavam que o mundo teria surgido a partir de um grande “ovo cósmico” (no caso o sol) que havia sido tocado pela beleza de um Grande Pássaro. Por isso os ovos devem ser coloridos para simbolizar a beleza da criação e da fertilidade. A lenda nos manda esconder os ovos para que sejam encontrados numa representação de conquista de seus próprios objetivos. Dedicação é o sentido maior por trás da lenda.
5 – Em Ostara celebra-se a Deusa Eostre que significa “Aurora”, é uma Deusa anglo-saxã da Primavera, da ressurreição e do renascimento. Está associada à fertilidade e aos grãos.
6 – Outro símbolo desse sabbat é o coelho que leva 28 dias para gestar e dar a luz. É o período de uma lunação e por isso é considerado o símbolo da fertilidade. Há lindas lendas a respeito de como o coelho passou a ser símbolo da fertilidade. Mas isso fica para um outro post.
7 – Algumas pessoas costumam dizer que a Páscoa Cristã tem com o base o sabbat de Ostara. Eram outros tempos, outros costumes e impor ao povo daquele tempo novos costumes (no caso uma nova religião) não era uma tarefa fácil e a Igreja desejava se impor como forma de cultura sagrada e única em sua totalidade. Mas é errado dizer que a Páscoa e Ostara são as mesmas coisas. Há semelhanças, mas as diferenças prevalecem…

Para não esquecer…

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para a cabeça: idéias novas
para o nariz: cheiro de terra molhada
para os ouvidos: sons dos oceanos
para os olhos: o sorriso do “meu menino”
para a boca: beijos perfeitos numa manhã de outono
para os cabelos: cachos
para o pescoço: arrepios – (risos)
para o peito: um coração batendo forte por ele (meu menino)
para as mãos: flores do campo
para a barriga: roncos matinais antes do primeiro chá
para o quadril: liberdade
para os joelhos: raios dourados de sol
para o pensamento: precisa dizer? Ele, o tempo todo, claro…
para o coração: paixão intensa
para os músculos: movimentos aleatórios
para os pés: nuvens (com certeza)

E você? Já tomou nota pra não esquecer?

Voltando ao tema “criação de personagens”…

imageImagem daqui

Hoje eu vou abordar mais uma vez o assunto mais complexo do processo de criação: os personagens. Embora complexo, é um tema pra lá de delicioso. Ao menos pra mim que vivo as voltas com eles.

Todos nós temos os nossos personagens favoritos, eu mesma poderia citar vários, mas não vou fazê-lo porque ao longo desse blog e de tantos outros, já falei deles das mais diferentes formas possíveis…

Então vamos ao processo.
A única regra desse processo todo é que um escritor é um eterno pesquisador, porque pra você criar um personagem você precisa ser capaz de se por de lado e ser ele. Sentindo as mesmas coisas que ele. Não é atoa que a maioria de nós faz terapia. rs Se abandonar num canto pra viver a dor do outro, uma dor que de fato não é sua… Mas que acaba sendo sua pelo tempo em que você vive com esse personagem a quem você deve conhecer intima e profundamente e talvez esse seja o processo mais complicado, uma vez que a maioria de nós não conhece nem mesmo a si mesmo. Como falar de si? Como se expor como se você estivesse diante do espelho, analisando não apenas os aspectos físicos, mas os psicológicos também? Bem, é exatamente isso que precisamos fazer quando o assunto é o personagem que irá ser o herói ou o vilão da sua história.

O fato é que os personagens necessitam de uma atenção muito especial. No momento em que a história é criada, eles passam a existir. Alguns se se precipitam e passam a existir bem antes da história, mas na maioria das vezes eles são rasos, disformes, desinteressantes, previsíveis e pior: fora de contexto.

Precisamos nos ater na seguinte condição: personagens precisam ser o mais humano possível. Ele deve parecer com qualquer pessoa comum, como se tivesse sido extraído do cotidiano urbano comum a todos nós. É claro que ele precisa ser um ser único, mas sua essência deve conter características universalmente humanas: ser falho, amável, preconceituoso, detestável, forte, fraco, perfeccionista. As características que definem seu personagem é que vão torná-lo próximo do leitor que irá se reconhecer ali através do amor ou do ódio. Seja como for, é preciso ressaltar que você não pode e não deve julgar suas ações e tão pouco condená-las. Aqui você não é juiz e o seu íntimo deve ser abandonado. Não há espaço para hipocrisias, até porque só sabemos do que somos capazes realmente no último segundo, então fica fácil dizer “eu não faria isso de jeito nenhum”.

Conhecer bem os personagens é justamente o que nos permite aquela liberdade tão necessária para compor a história que vai se projetando lentamente. Por isso as anotações são necessárias. Qualquer faísca de criação, qualquer luz imaginária é preciso ser anotada. A ordem de tudo isso vai permitir que você desenvolva seus escritos de forma natural.

Uma forma de se organizar quanto a tudo  isso é o backstory que é um documento que serve com o base para o escritor. Eu tenho uma agenda onde tomo nota de absolutamente tudo que vai surgindo em minha mente; não deixo passar absolutamente nada. Não tenho uma preocupação com a qualidade do que escrevo, porque são anotações que são narradas as vezes em terceira pessoa em determinado momento (quando o personagem ainda é apenas uma sombra, um esboço) mas então a figura muda e ele passa a ser tão intimo, tão seu que a escrita simplesmente muda para a primeira pessoa e é quando percebo isso que minha vida vira uma bagunça, e mesmo assim me sinto realizada. Objetivo alcançado.
O backstory também serve para você encontrar o tom do personagem: compreender seus passos, seus movimentos, ou seja, sua postura diante das coisas. Uma das minhas personagens tinha a mania de levar o cabelo para trás da orelha quando ficava nervosa. Era um movimento que começava rápido e perdia a pressa no meio do movimento, tornando-se lento. Descobri isso através do backstory enquanto relia as minhas anotações.

Em e-pifanias (novela de minha autoria) a personagem Alexandra Mendes não sabe exatamente o que sentir diante da morte do próprio pai. Enquanto a cidade inteira chora, ela está em seu quarto com suas coisas, lamentando a mudança de seus planos graças aquela morte. Esse tipo de sentimento tem toda uma explicação natural, mas se não for bem entendida pelo leitor, pode acabar gerando desconforto o que impossibilita a empatia tão necessária para que o leitor se posicione junto a história.

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Resumindo: escrever um livro não é algo tão simples; criar um personagem tão pouco. Não pense que é só sentar diante da tela e mover os dedos e a mente. Há todo um processo anterior a isso. Eu costumo dizer que o mais fácil é jogar para o papel a história quando esta já está definida. O processo que antecede esse movimento é o mais difícil, contudo, fascinante…

Posts anteriores sobre o mesma o tema.
http://meninanosotao.wordpress.com/2011/02/09/livropor-onde-eu-comeo-pela-idia-claro/
http://meninanosotao.wordpress.com/2011/02/17/a-criao-de-personagens/