O dia está começando lá fora, perdi o sono no meio do caminho e resolvi ler um livro, escrever um pouco e ouvir um blues. Tudo é possível quando as manhãs se anunciam junto com o canto dos pássaros. A noite de ontem teve sopa quente feita pela Nona e conversa na mesa da cozinha com os amigos. Sim, eu tenho amigos: meia dúzia se tanto. São sinceros, bonitos e eu gosto de lá estar a ouví-los. A infância sempre emerge quando sentamos a mesa…
Ontem, falamos das férias de verão: a gente se encontrava na casa da Nona e cada um fazia um caminho até lá. O meu caminho tinha trilhos e a ansiedade começava a surgir no último dia de aula. Minhas pernas ficavam inquietas. Minhas mãos então nem se falam e o meu estomago, nossa, podia sentí-lo o tempo todo como se até então eu nem soubesse que ele de fato estivesse lá dentro de mim… Na véspera, acordava inúmeras vezes durante a noite pra saber se já estava na hora de ir. Como as horas se prolongavam… (risos)
Ainda hoje eu me lembro do cheiro daquelas manhãs: a cor do céu, das plantas, da toalha da mesa do café da manhã, do mio babo dizendo “então é hoje, está feliz?” e o sorriso largo que se exibia em meus lábios. O caminho até a estação era ladeira abaixo e eu adorava aqueles contornos antigos com o relógio no topo a gritar suas horas. Comprávamos o ticket e aguardávamos. Pontualidade nunca foi o forte dos trens italianos. Mas eu gostava de esperar e apreciar os trens que chegavam trazendo e levando pessoas sempre apressadas. Colhia parte de diálogos e imaginava o resto em meio a um sorriso de menina sapeca como dizia a mamma) que depois de algum tempo parou de me perguntar porque eu estava rindo. Há coisas que as mães sabem mesmo quando não recebem respostas.
No trem, eu ouvia o apito do guarda e em seguida a locomotiva respondia. Era um ritual, repetido duas vezes. Certa vez, um guarda me deixou apitar uma vez o seu apito. Ficamos nós dois na plataforma. Claro que eu me senti muito importante em participar daquele gesto. Prestativo: ele me ensinou como deveria fazer e eu o fiz. Assoprei a plenos pulmões e ouvi a locomotiva responder. Apertei a mão do guarda e entrei no trem com o tamanho da importância dos meus oito anos. Lembro da cara das pessoas me olhando num misto de admiração e surpresa. Estariam elas com inveja? (risos)
Na casa da Nona tinha um tapete velho e surrado que ela não substituía de jeito nenhum. Ela gritava lá de dentro “limpem os pés antes de entrar” e a gente obediente cumpria aquele ritual que parecia dizer ao tapete “chegamos” e ele parecia responder “sejam bem vindos, vocês demoraram dessa vez”.
Depois disso, é preciso dizer que eu cresci e as viagens romperam aqueles horizontes: Marrocos, Índia, África, Japão… Fui a muitos lugares, vi muitas pessoas, diferentes cenários, muitos hábitos e costumes diferentes do meus. Aprendi muito em cada lugar que eu passei: descobri que era preciso ter a mente aberta e que preconceito é uma coisa humana muito tola. Me encantei com muitas coisas: as nuvens e a sensação de pertencer a elas, as cores das cidades por onde eu passei, o olhar das pessoas que em alguns casos viam em mim algo que de fato eu nem sei dizer se estava lá ou não…
Foi numa dessas viagens (a Índia) que encontramos um tapete todo colorido, artesanal para ser colocado na porta de entrada. O moço que nos vendeu disse “porta aberta sempre para o tapete não para as pessoas” e eu achei graça do alto dos meus doze anos. Ok. Um costume oriental, mas porque o tapete precisa da porta aberta e as pessoas não? Fiquei com a pergunta em minha cabeça durante dias. O tapete foi pra casa e não foi para a porta de entrada porque lá já tinha um tapete também artesanal feito por uma pessoa muito querida em casa que passava as tardes fazendo coisas com suas agulhas “mágicas”. Ela era uma senhora adorável que fazia biscoitos que derretiam na boca que ela cuidadosamente “agasalhava” em potes de vidros com desenhos engraçadinhos para que todos os amigos soubessem que lá estavam”. As vezes eu achava que o tapete que ela tinha presenteado a gente tinha cheiro de biscoitos. (risos)
Quando essa amiga da mamma morreu, o tapete simplesmente sumiu da porta de entrada e durante alguns dias a porta ficou vazia, silenciosa, sem um objeto que dissesse a quem chegasse “seja bem vindo”. Eu nunca perguntei, embora quisesse saber o que tinha acontecido com o tapete.
Tapetes envelhecem e quase sempre precisamos encontrar um novo para substituir aquele que pode ou não ter algum tipo de significado especial. Isso depende apenas de você; do caminho que faz até o tapete escolhido e claro, do seu ritual de escolha…
Então, algum tempo depois, minha mamma disse “não vou trabalhar hoje, vamos viajar e fazer parte de alguma paisagem por aí” e lá fomos nós, de mãos dadas até a estação do trem, a viagem, claro, já tinha começado ali. Fomos até Barcelona. No final tarde, de muitas aventuras pela cidade espanhola, terminamos numa feira de artesanato. Coisa comum em Barcelona (ou pelo menos costumava ser). Me encantei com um macaquinho fazendo estripulias, depois nos sentamos para assistir uma peça de teatro ao ar livre e por fim, caminhamos entre as barracas e foi por ali que encontramos um novo tapete. É claro que até hoje eu acredito que aquele dia existiu apenas por causa de um simples tapete que foi que foi parar na porta de entrada de casa. Sempre que olhava pra ele, via aquele macaquinho engraçadinho e olho pra cima e sinto as mãos de meus pais junto as minhas. Eles eram bem maiores que eu, então era preciso olhar pra cima…
Na casa onde moro atualmente o tapete da porta de entrada não me diz muita coisa. A bem da verdade ele me diz exatamente “você ainda está aqui”. Isso quando ele não some da porta por uns dias e ninguém se preocupa com ele. Mas é que é tudo temporário… Aqui é um lugar para se estar, não para permanecer e as lembranças dessas paredes não me pertencem.
Na última vez em que estive em casa (Gênova) fui revirar um velho baú para onde ia todas as coisas “esquecidas” e lá estava o velho tapete sumido: surrado, meio sujo e acredite se quiser, com cheiro de biscoitos, com som de agulhas deixadas no canto do sofá e aquele monte de linhas… Na porta de entrada, Barcelona me conta de passos dados ao longo de um dia inteiro. Ele também conta do aceno de três pessoas que ao entrar no trem se viraram para cidade e disseram “adeus Barcelona, a gente volta”… (risos)
Tudo bem, eu sei que pra você tapetes até então só serviam para acumular ácaros, enfeitar a entrada da casa, limpar os pés para não sujar o resto da casa. Você não fazia idéia que ele falava ou das muitas lembranças que ele juntava ao longo do anos. Aposto como você nem se lembra de como você o encontrou… (risos)
Bom fim de semana pra todos
Lu, o que é isso menina? Que lindo isso!
Quando olhar um tapete agora, vou lembrar disto.
Nunca mais vou conseguir ver um tapete apenas como sendo um simples tapete.
Amei
beijos e bom fim de semana pra você também
Linda essa idéia dos varios tapetes que voce ja pisou. E interessante a idéia do tapete que saiu do lugar quando a pessoa que o fez morreu. Por que sera? Fiquei curiosa
Beijos da Carol
Que bom poder ter lembranças, assim, de cheiros, de trens, de pessoas, de tapetes.
Mais uma lição aprendi. A partir de agora, ao passar por uma tapete meu sentir será diferente e
claro meu lembrar também.
Vou buscar lá no íntimo se tem alguma passagem relacionada com isto, mas em ti, todas vez que entrar por lugares onde os tapetes estiverem aninhados a espera de todos os tipos de pés, pensarei e de ti me lembrarei.
Beijo Lu
A cada tapete diferente pisado, uma história diferente a ser contada…
Quantos tapetes passamos em nosso cotidiano? Nossa.
Adorei.
bjs
lindo menina, ludico, tocante.
eu nem tenho tapete, minha mãe sempre disse que eles só serviam para a gente escorregar…rs
eu adorei essa frase: Aqui é um lugar para se estar, não para permanecer e as lembranças dessas paredes não me pertencem.
por muito tempo me senti assim na minha casa, em sampa…
Tudo é possível quando as manhãs se anunciam junto com o canto dos pássaros. Que lindo!
Por isso existem pessoas especiais como vc no nosso caminho, pra nos lembrar do quanto há vida… inclusive num tapete.
Obrigada pelas suas recordações que despertaram as minhas.
Um beijo, Lunninha querida!
Lindo!
Lembranças sempre deixam o coração da gente preenchido não é?
O meu fica bem gordinho certos dias!
Beijao
Querida irmã Lua, que lindo isso!
adorei seus tapetes, e por certo , prestarei mais atenção aos meus próprios.
Obrigada por dividir isso com a gente, lindo texto!
Beijo enorme, irmã!
Tin
Em tópicos, senão não consigo um mínimo de discernimento pra comentar tanta belezura…
1) Meia dúzia e um. Amiga? o/
2) eu amo trens, amo a dinâmica das estações, todo o vai e vem, os encontros, as solidões, as esperas, o adeus sempre o mesmo, sempre outro. Gostei dos seus italianos trens que se atrasam pra dar tempo ao deleite.
3) Eu amo viajar e amo trazer e deixar o pó se acumular bem dentro de mim, tal qual este mágico tapete que você nos oferece,também eu junto ácaros e lembranças…
Hummmm… que cheirinho de saudade, de coisa boa no ar!
Adorei conhecer um pouco mais da sua história e voar pro mundo da imaginação, da fantasia, de uma infância em que os sonhos ganham força e poder!
Um brinde à saudade, Lu!!
Beijo! Bom fim de semana!
Quantas coisas não entram pela janela em uma manhã.
Concordo com o primeiro comentário aqui… Vai ser dificílimo olhar para os tapetes sem carinho a partir de agora! Beijo!
Falamos de tapetes no mesmo dia.
Eu, tento o céu aos meus pés… um tapete vermelho lindo.
Vc, mostrando e revelando a realidade dos tapetes que tanto ignoramos.
Adorei.
Adoro seu jeito de escrever, vc sabe !!!
(recebi o email, aguarde a resposta que está nascendo.)
Bom fds minha sagitariana querida.
Si
Fiquei lembrando dos tapetes que fizeram parte da minha casa, o mais ornamentado, eram aqueles tapetes plásticos verdes com vários sulcos, sem nenhum desenho, quando não, só era um simples pano de chão.
Podia até ser um tapete, mas este tapete de cheiro de chocolate, se mostrou também uma porta para boas lembranças.
Fique com Deus, menina Lunna.
Um abraço.
Os tapetes guardam a história das solas e dos caminhos por elas trilhados, poeira de nossos afetos ao cruzarem a soleira de nossa porta.
Os seus tapetes voam como os Aladin, levam-nos junto na viagem.
Os tapetes guardam a história das solas e dos caminhos por elas trilhados, poeira de nossos afetos ao cruzarem a soleira de nossa porta.
Os seus tapetes voam como os de Aladin, levam-nos junto na viagem.
Que riqueza de riqueza de histórias um tapete pode nos inspirar!
Parabéns Lunna por mais este momento de gostosa leitura!
Grata pelas lembranças infindas e coloridas que me trouxe!
Como é bom voar por entre tuas palavras repletas de sentidos!
Fui lendo e asa enormes nasceram…não me lembro de um tapete específico,
mas lembro do sorriso que cada um me dava convidando para entrar..
e mesmo que o pessoal da casa não estivesse, ele ficava ali em tramas, alegrando
o meu olhar visitante…
Que imagem mais aconchegante essa do Livro aberto deitado num tapete felpudo!
Muito Lindo o tapete de crochet…vou tentar fazer um igual…rsrsr
beijinhos mais beijinhos todos cheios de carinho…da Eliana
Me lembro de você já ter falado sobre tapetes e essas lembranças alimentam o presente. Cada família tem o seu costume. Nunca me toque com a importância de um tapete de entrada, aliás, já vi gente “pular” tapete, porque ficou com dó de pisar. Eu tive um tapetinho que amava e que me acompanhou dos 2 aos 8 anos, desde quando entrei para o maternal e cada um tinha o seu tapetinho para a hora da leitura. Tínhamos que ficar no tapete quietos ouvindo a professora ler e muitas vezes cochilei sonhando com alguma história. Era um “tapete mágico”.
Os italianos mais antigos, são apegados à tradições. Sei disso por causa da tia Rina, a segunda-mãe de um amigo. Ela morreu com mais de 90 anos e deixou um baú cheio de toalhas e roupas de cama, parecia um enxoval, todo de puro linho. No fundo, forrando a base tinha um tapete. Será que ela tinha a mesma tradição de sua família? Beijus,
Lindo texto sobre onde pisamos!!!!! também estou com saudades!!!! beijos
De passagem pela net eu te achei e fiquei horas lendo voce. Achei invrivel e de uma leveza impressionante o que escreves. Queria eu ter esse dom. O dom das palavras, mas ja que nao tenho, permite-me deus a visao para ler-te e ficar bestificada e apaixonada cada dia mais pelo que escreves. Alem de tudo me parece um ser humano incrivelmente linda. Parabens pelo espaço e pela oportunidade que nos oferece gratuitamente de nos deliciarmos com tao belos textos.
Um forte abraço da sua amiga de blog.
Depois dessas palavras que me emocionaram, o que posso dizer, Lu… Senão que “viajei” sobre um tapete mágico pelas suas histórias e fui atraída para várias portas abertas apenas pelo prazer de conhecer tantos e sagrados tapetes. O cheiro das manhãs… Sim Lu, suas histórias também contam o sabor das histórias que estão por trás de todos os tapetes e aventuras. Obrigada por esse momento. Acho que agora um chazinho ia bem – hehehe.
Beijos, carinho
Madá
Oi Lunna
” a infância sempre emerge …” sim concordo , uma das nossas rotinas – sentar a mesa , reunir no jantar.
suas escritas são acolhedoras como se estivéssemos vivendo essa historinha, as viagens, os tapetinhos em frente a sala de estar…
romântica , carinhosa com as palavras.
Obrigada por esses momentos de nostalgia boa , de saudade daquilo que passa e valorizamos depois.
uma semana de paz e muito muito amor.
beijinhos da
lis
São tapetes, músicas, circos, e tudo que possa lembrar os lugares que pisamos, e que nos fazem viajar duas vezes. Entendo bem esse tapete alado parado na porta… tao bonito esse texto, até me emocionei ;)