Passa das cinco da manhã.
O dia ainda não veio, mas as cores já se apressam ao longo da paisagem. Meu corpo, minha mente e minha alma começam a mergulhar nas sensações antigas. Fecho meus olhos e os sons se precipitam no cume da montanha. São elas, as Senhoras da Magia com seus tambores. Elas anunciam a aurora com toques ritmados de tambores, saudando a natureza com as batidas do próprio coração. Gosto de ouví-las e sabê-las porque me remete de encontro as minhas origens. É o que sou, é quem sou…
Lá fora já é possível sentir as mudanças da nova estação. O cinza do céu, as chuvas pela manhã e o sol ameno no meio da tarde em meio a um colorido natural de flores que se abrem e folhas que renascem…
Enquanto isso, longe daqui, círculos perfeitos são feitos com pedras; são elas que em seu ritual de silêncio esperam pela chegada das escolhidas por elas para compor aquele cenário mágico. Elas vão chegando uma a uma com cestos repletos de pétalas vermelhas, pedras, folhas, ervas e outras iguarias que são espalhadas ao longo do caminho e ao redor do círculo. Cantam alegremente uma canção conhecida “na mão direita tem uma roseira que dá flor, na primavera é que dá flor, na primavera. Entrai na roda ó linda roseira, entrai na roda ó linda roseira e abraçai a mais a faceira, abraçai a mais faceira. A mais faceira eu não abraço, a mais faceia eu não abraço. Abraço a boa companheira, abraço a boa companheira”.
E enquanto cantam, vão fazendo seus movimentos circulares que representam as mudanças, as transformações e o processo natural de evolução de todas as coisas vivas. Ali no chão, dentro do círculo são colocados o pão caseiro feito com ovos, trigo, leite, manteiga e açúcar para ser consagrado em nome da Deusa e Senhora da Aurora que está despertando junto com todas as formas divinas de vida. O sol começa a se manifestar e os primeiros raios são sentidos junto a pele. Os tambores retomam o ritmo e a mais velha dentre elas, a Anciã começa a invocar os elementos, as direções, os Deuses e a cada uma delas que ali estão para reverenciar o que há de mais sagrado para todos nós: a vida. A Deusa da Aurora é a menina, jovem, amável que se encanta com a beleza do jovem Deus que a reconhece assim que lança o primeiro olhar em sua direção. Ciente de seus mistérios e segredo, ela corre por entre as árvores e ele a persegue: saltando por sobre pedras, cruzando rios, procurando nas moitas, atrás das árvores. É um ritual de passagem: a infância aos poucos vai sendo substituída pela juventude, mas nunca esquecida, tão pouco abandonada.
O som dos tambores silenciam, e numa forma de reinvenção de si mesmas, as Senhoras da Magia abandonam pintam os ovos de Ostara com as cores da estação.. Para elas a infância é uma constância em suas vidas. As velas e o incensos são acesos pelas mais jovens que brindam a continuidade com suco de maçã.
Todas elas se reúnem no circulo, dão-se as mãos, elevando-as. Fecham os olhos. Respiram fundo. Sentem as batidas de seus corações e por fim: recitam versos. Então o silêncio retorna: é a conversa intima entre elas e a Natureza que rege o mundo de dentro e de fora. Permanecem ali sentadas, meditando, sentindo todos os elementos, todas as formas manifestadas. O sol dispara no horizonte e o dia finalmente anuncie suas cores. É hora de consagrar o pão e o vinho através das mãos da Matriarca, a Anciã que tudo sabe e conhece. Terra, Água, Fogo e Ar são invocados. O pão, símbolo da fartura é repartido entre elas com o desejo de que nunca falte nada em seus lares e que a semeadura seja proveitosa. O pedaço de pão recebido das mãos da Anciã é partido em três partes: o primeiro pedaço é devorado para que o mundo exterior se una ao mundo interior numa consagração divina: o desejo é um só; fertilidade na forma que for desejada: seja através da continuidade, da inspiração ou da ciência… A segunda parte será deixada junto a uma árvore para que o desejo de fertilidade alcance a terra em toda a sua extensão. E por fim, levam o último pedaço para casa e colocam em um pote com grãos para que o desejo de continuidade seja uma constante em suas mesas para onde se destina os alimentos do corpo…
Elas agradecem a continuidade. Saúdam as quatro direções com movimentos circulares e saúdam a si mesmas. O som dos tambores voltam e os passos também. É hora de voltar e esconder os ovos que serão encontrados pelas crianças que irão contar aos seus sucessores as mesmas lendas que ouvem hoje…
A roda do ano novamente gira e a vida segue pelos caminhos de sempre.
Meus olhos reabrem para os dias de hoje onde muito se fala dos rituais pagãos que ainda são considerados por muitos ignorantes como sendo coisas demoníacas. Mas sempre vejo florescer em mim a mesma questão “como é possível adorar ou praticar algo em nome de uma “fantasia” que não foi criada pelos pagãos?”. Eu não tenho resposta, mas tenho o meu sorriso que não foge dos meus lábios, nem mesmo quando a dor visita a minha pele porque aprendi ainda na infância com a nona que o sorriso é a cura para todos os males. “Apague o sorriso da sua alma e a dor tornar-se-à insuportável” disse-me ela certa vez.
Notas.
1 – O Equinócio de Primavera, também conhecido como Ostara é o primeiro dia da Primavera e um dos oito Sabbats do ano. É o momento do ano em que noite e dia tem exatamente a mesma duração.
2 - Ostara é um Festival Solar. Na agricultura, assinala o momento em que as sementes são plantadas e começam o seu processo de crescimento. É tido como um momento de união e amor entre a Deusa (Lua) e o Deus (Sol), pois é um período de igualdade e equilíbrio entre as forças da Natureza.
3 – Os mais antigos sentiam no ar a mudança dos ventos e diziam que era o “tempo de passarinhar” ou seja: namorar. Tempo em que nosso corpo está atento para as transformações dos sentimentos. O sentir, o existir. Há quem diga que nessa época o nosso corpo exala perfumes diferenciados que nos leva de encontro a nossa cara metade. Mas se você já a encontrou, o perfume do nosso corpo faz com que essa paixão se renove…
4 – É costume colorir os ovos em Ostara porque os povos antigos acreditavam que o mundo teria surgido a partir de um grande “ovo cósmico” (no caso o sol) que havia sido tocado pela beleza de um Grande Pássaro. Por isso os ovos devem ser coloridos para simbolizar a beleza da criação e da fertilidade. A lenda nos manda esconder os ovos para que sejam encontrados numa representação de conquista de seus próprios objetivos. Dedicação é o sentido maior por trás da lenda.
5 – Em Ostara celebra-se a Deusa Eostre que significa “Aurora”, é uma Deusa anglo-saxã da Primavera, da ressurreição e do renascimento. Está associada à fertilidade e aos grãos.
6 – Outro símbolo desse sabbat é o coelho que leva 28 dias para gestar e dar a luz. É o período de uma lunação e por isso é considerado o símbolo da fertilidade. Há lindas lendas a respeito de como o coelho passou a ser símbolo da fertilidade. Mas isso fica para um outro post.
7 – Algumas pessoas costumam dizer que a Páscoa Cristã tem com o base o sabbat de Ostara. Eram outros tempos, outros costumes e impor ao povo daquele tempo novos costumes (no caso uma nova religião) não era uma tarefa fácil e a Igreja desejava se impor como forma de cultura sagrada e única em sua totalidade. Mas é errado dizer que a Páscoa e Ostara são as mesmas coisas. Há semelhanças, mas as diferenças prevalecem…
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Adorei esse post Lu. Não conheço muito sobre o paganismo, mas sei bem o quanto as pessoas são preconceituosas e olham torto porque a gente não segue suas filosofias. Você é uma pessoa incrível porque acredita no que faz bem a você. Eu não tenho credo, nem religião, sabe? Mas sinto falta, ao mesmo tempo em que tenho medo porque ficar dependendo de um ser ou entidade me assusta um pouco.
bjs
Passarinhar… Observar o que temos a nossa volta!
Estes deuses nasciam em função da natureza, não é? Bem ou mal, retornavam sempre à ela.
Adorei o post.
Beijus,
Você esqueceu de citar os sacrificios humanos praticados nesses rituais em nome desses deuses pagãos. Você escreveu um post romantizando algo que é cruel e terrível. Fica iludindo pessoas, principalmente jovens que acreditam nessa tolice de magia.
E o pior é que o homem continua fazendo isso. O atentado de 11/09/2001 e a invasão do Iraque foi um grande sacrifício para a deusa da fertilidade. O ser humano não vai parar por ai ainda teremos pela frente a invasão do IRÃ. Outro banho de sangue e tudo isso em homenagem a esta deusa que você citou aí.
Lamentável que escritores se prestem a divulgar esse tipo de coisa. Põe Jesus no seu coração.
Patrícia Gomes
Boa tarde Patrícia, acho que você precisa ler mais sobre a história. Acho sinceramente que está equivocada e confundindo argumentos. Países como EUA e Irã são patriarcais, não lutam ou guerreiam em nome da Deusa, muito pelo contrário, o sacrificio humano e mental é feito em nome de um Deus.
Enfim, basta ler um pouco de história para compreender que a Deusa nunca esteve a frente desse banho de sangue e sim o Deus feito homem, inventando ou criado pelos homens. É em nome dele que ocorre tais barbaridades e que tudo se justifica.
Mas enfim, cabe a mim respeitar sua opinião, o que significa dizer que eu vá concordar com ela. Isso de forma alguma. Sou pagão e nunca pratiquei nenhum sacrificio e jamais o faria. Não faz sentido eu celebrar a vida e praticar um sacrificio humano ou animal. Enfim, é só uma questão de lógica.
Grande abraço
grande abra�o
Boa tarde Patrícia, acho que você precisa ler mais sobre a história. Acho sinceramente que está equivocada e confundindo argumentos. Países como EUA e Irã são patriarcais, não lutam ou guerreiam em nome da Deusa, muito pelo contrário, o sacrificio humano e mental é feito em nome de um Deus.
Enfim, basta ler um pouco de história para compreender que a Deusa nunca esteve a frente desse banho de sangue e sim o Deus feito homem, inventando ou criado pelos homens. É em nome dele que ocorre tais barbaridades e que tudo se justifica.
Mas enfim, cabe a mim respeitar sua opinião, o que significa dizer que eu vá concordar com ela. Isso de forma alguma. Sou pagão e nunca pratiquei nenhum sacrificio e jamais o faria. Não faz sentido eu celebrar a vida e praticar um sacrificio humano ou animal. Enfim, é só uma questão de lógica.
Grande abraço
grande abraço
Oh, baby, que lindo, lindo e delicado post. Quase posso tocá-lo, sabe, e ele é macio, um tantinho frio e deslizante…seda, talvez? Mas que letrinha tão miúda!
Sou meio ligada aos números e sei há algum tempo que, 7 é o número da perfeição. Descobri porque detestava meu nome, até saber seu significado e quantas vezes ele aparece na Bíblia. No entanto, estou tão longe dessa tal perfeição…mas será que a quero???
Dia 20 chega o outono, posso ouvi-lo, senti-lo. Meu corpo e minha mente chama por ele. Mas não as 5 da manhã…rsrs
As descrições utilizadas na postagem permitiram que eu sentisse daqui. E o final, ao dizer o sorriso da alma, sorriu-me.
Sobre a Nota de número 3, Penso que os antigos sempre terão razão. A experiência é a mãe do conhecimento.
Bjin,
K.
Oi Lunna
O texto provoca em mim sensações de harmonia e equilíbrio.
Já havia lido e participado de shabat ( um jantar festivo) que marca o início do descanso semanal do judaísmo e convivi muito com uma preciosa amiga que ao por do sol de sexta feira ela iniciava esse processo .
Eu me encantava com o encantamento dela !
Penso que o sabbats de que fala tem mais a ver com a mitologia, com os ciclos e a Roda do Ano , são distintos mas nao tanto. rs
Gostei muito Lunna e da época pascoal gosto de sentir os grãos , a fertilidade que neles contém.
Percebi agora o link da deusa da fertilidade, vou lá ler.
deixo um abraço grande
Poxa… como eu queria participar disso!
Dou as boas vindas a primavera, apesar da alergia, é uma estacao que me reabastece com a beleza e o perfume das flores, e já sinto falta das suas cores.
Beijo!
A aurora traz prazeres indizíveis e imensuráveis!
Adorei as curiosidades que nos trouxe aqui, Lunna! Obrigada!!
Beijos!
Texto lindo e sensível! Adorei! (me arrepiei toda)
Beijos e uma ótima semana!
[...] Para ler mais sobre a Deusa Ostera, acesse aqui [...]