Foi mais ou menos assim: eu convidei a Borboleta para “rabiscar” palavras “na folha” e ela aceitou: fizemos arte a quatro mãos. Resultado? Acabamos desenhando corações…
É pra desenhar corações?
Vejo estrelas no céu, com seus formatos inusitados, tamanhos vários. Não, você não está enganado. O céu lá de fora está encoberto mesmo, com nuvens esbranquiçadas a aproximá-lo das minhas mãos. Não o toco, mas sei que se levantasse as mãos (tirando-as do bolso) poderia facilmente fazê-lo; mas assim mesmo vejo estrelas e faíscas aqui dentro desse meu íntimo céu.
Entrego-me a paisagem da janela aberta que trás o vento e expõe a solidão que é essa experiência humana universal. Para mim, um prazer… Mas para tantos outros, uma dor; silenciosa e lancinante a percorrer a noite, invadir a madrugada, os cantos da casa, das ruas e das calçadas… Não há liberdade possível para aqueles que sofrem desse mal, chamado solidão, porque ela irrompe todas as fronteiras, alcançando a Aurora, como se fosse sol em plena manhã, por entre o que resta de nuvens, por entre as sombras que ainda restam… E não adianta tecer uma fuga pelas ruas cheias de passos, há diferentes formas de solidão em cada passo desorientado…
Solidão? De onde veio isso? Estava a falar das estrelas que vejo nesse céu de junho; esse mês que pede aconchego aos braços quentes, as cobertas de lã sobre as pernas e a lenha ardendo chamas amareladas; aos vinhos tintos em taças transparentes, erguidas em brindes festivos, aos livros e suas páginas amareladas e já marcadas pelas inúmeras vezes viradas; aos sabores, pequenos prazeres, aos filmes antigos sem cores com seus romances a derreter aqueles desenhos vermelhos feitos em folhas brancas…
É pra desenhar corações!
Minha solidão se desenha em nuvens que espreito da varanda. Aqui e ali as estrelas brincam de ser balões de junho, com sua beleza e risco, fogo fátuo que não me aquece, mas a tudo embeleza. Em vermelhos esmaecidos eu traço os caminhos do nada: um cobertor desfiado, tintos vinhos em taças que se fazem cacos no lixo da cozinha, livros empilhados ao lado da cadeira com suas duras capas e suas letras contando histórias que não são as minhas.
E, no entanto, há passos na calçada. Desencontrados passos, nas sombras eles cantam as promessas da simplicidade, dizem de uma aurora que vem, que chega sempre, suas tênues luzes dando rubor às nuvens. Na TV brilham quereres em branco e preto, rodopios tão leves que quase me fazem duvidar do peso da alma. Insisto em permanecer mais um pouco na desilusão, mas já sinto o corpo reconhecendo os pequenos prazeres, as contidas alegrias, uma voz que chama da cozinha em calor e braços que acolhem. Ainda na varanda, mas já outro céu, um tão íntimo que posso tocar, as mãos já fora do bolso, das letras, do real, refazendo contornos, manejando cores e sons, em série sorridente os vermelhos desenhos feito faísca no último momento entre noite e dia. É em corações que se desenha um alvorecer.