Certa vez, lia com minha mãe um livro de contos indianos… A literatura indiana estava entre as suas leituras favoritas. Eu gostava de ouvir a voz dela narrando com entusiasmo aqueles contos. Me sentia pulverizada por todas aquelas ilusões, cores, sons e sensações. Era meu conto de fadas.
Ela tinha esse livro de capa laranja, com uma bela ilustração de Ganesh na capa e nele havia essa frase que ela gostava de repetir constantemente, além de sempre anotá-la por todos os cantos: agendas, cadernos de rascunhos, pedaços de papeis que ela deixava em alguns lugares da casa para serem encontrados por nós.
A frase dizia:
“O verbo “amar” em indiano e persa tem o mesmo significado que “ser amigo”. “Eu te amo” traduzido literalmente significa “te considero como amigo” e “eu não gosto de você” simplesmente quer dizer “não te considero como amigo”…
Ao encontrar aquele velho pedaço de papel com sua caligrafia bem definida, levemente inclinada para a direita, distâncias perfeitas, lembrei-me dos dias em que nos sentávamos junto a escada que dava para a varanda e para a porta da frente, também chamada de porta de entrada em alguns momentos e de saída em outros (rs). Eu gostava de rascunhar ilusões e ela gostava de ler seus contos indianos. Então ficávamos por lá. Eu fazendo meus desenhos com os ouvidos atentos a todas aquelas histórias. Sempre havia alguma reflexão a ser feita no final de cada história e a gente se divertia muito com nossas observações, as dela sempre mais sensatas e as minhas recheadas com a ilusão dos poucos anos. Tudo é tão simples quando somos crianças e ela sempre acabava sorrindo e eu sempre queria saber o que ia por trás daquele sorriso. Certa vez ela me disse “se um dia você crescer, encontre um meio de preservar essa criança linda que eu e o seu pai inventamos”…
E lá se vão vinte e tantos anos e quando eu me sento aqui para escrever, seja um post, um artigo, uma matéria ou uma história qualquer, sinto essa criança que eles inventaram por perto, balançando as perninhas, olhando de lado, sorrindo com todos os dentes e gesticulando com as mãos de forma frenética…
Eu não gostava das mesmas coisas que as outras crianças gostavam, mas ficava lá, no meu mundo assistindo suas brincadeiras de infância. Não me aproximava e eu sei que elas me achavam esquisita. Me olhavam as vezes e diziam coisas junto aos ouvidos uma das outras. Alguns minutos depois me esqueciam e voltavam a reinar em seus mundos de faz de conta.
Eu achava graça, porque os adultos me rotulavam com seus adjetivos vários e me deixavam furiosa com aquelas afagos em meus cabelos. Eu queria mordê-los, mas era bem comportada, então só imaginava o feito. Mordi tanta gente em meu imaginário. Mas nunca quis morder aquelas crianças. De fato, eu nunca me interessei por elas…
Oi querida Lu!
,,,E como eu me revi nessa criança que existia(existe…) em si!
Meu Deus…fiquei com um arrepio sim!
Eu era assim. Eu sentia assim. Eles viam-me assim!
E eu , muito quieta, no meu mundo, que eles pensavam tão distante!..
Olha e essa criança que existe em nós!
Se quiser não vá. Mas tenho um post no Anjo azul .Pesquisa no “Ama-te”. Diz o que pensas depois…
Vim para retribuir e agradecer a sua visita.E para te agradecer também tuas palavras!
Mas gostei muito de te conhecer…
Contos indianos? Gosto muito “do indiano” seja o que for -Tudo neles tem magia. Energia diferente!
Vou voltar, Lu. E adicionar o seu bog.
Espero que no meio do labirinto, não ser tão assidua. Me perca. Mas quero reencontrar-la!
Um abraço
Acho que antes de tudo temos que encontrara amigos antes de amantes.
Ser criança é sempre bom e útil. As crianças que nascem com a gente nos acompanha por toda a vida. Algumas pessoas as deixam de lado, mas elas estarão sempre ali.
Oi, Lunna!
A Lizete falou de você lá em seu blog e eu disse a ela que não sabia se ainda blogava, você sumiu!!!
Mas, pelo jeito, continuas a mesma Lunna de sempre, com lindos textos reflexivos. Gostei de te reler.
um grande abraço carioca
Que a porção criança que existe em cada um nós, nunca torne-se adulta.
É esse lado criança que nos mantem cheios de sonhos e vivos!
PS: Por que será que nenhum criança gosta que façam carinho em seus cabelos? Rs.
BeijO*, Lu!
Absolutamente real esta visão (desconcertante) da vida que começa a ser sentida!
Parece que seguiu o conselho da sua mãe e com a nota de 5 estrelas!!
É verdade, nós inventamos nosso filhos, eles são grade parte das vezes produto daquilo que nós somos.
Eu tenho dois filhotes e espero que ele também mantenham a criança que existe dentro deles, mas acima de tudo que seja genuinos e iguais a eles mesmos.
Adoro este seu “espaço”.
Beijos com carinho de Portugal.
toda a delicadeza deste teu texto me comove. então me lembrei de um poeminha que fiz faz um tempo:
conflitos
líria porto
ouço a menina de dentro
dizer à velha senhora
azar se dói o teu corpo
comigo trago mil sonhos
eu de ti não vou embora
*
besos
Lunna menina…Que Belo! Que Belo! Essa criança LInda que descreveu, ainda vejo em teu sorriso!
Consegues nos transportar com facilidade para a mais divina emoção!
Essa imagem que postou já é de fazer a alma se derreter em alegria…mas as imagem que vai surgindo
ao passear por tuas palavras… é de uma ternura incrivelmente alada!
Fiquei aqui imaginando você mordendo esses adultos infelizes…nossa como eu tinha vontade
de fazer isso também…risos…(detestava também esses afagos nos cabelos, ainda mais quando
percebia que eram fingidos) Ai se esses adultos tivessem a noção do que se passa na cabeça
de uma criança….
Grata menina querida por tão delicioso momento que passei aqui…ADORO te ler!
beijinhos todos com carinho e admiração….da Eliana