Coisas boas de se lembrar…

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Depois de ler novamente um antigo post da Borboleta na qual ela falava do avô, viajei através das minhas próprias lembranças. Minha infância se exibiu diante dos meus olhos como se tudo tivesse acontecido no tempo de ontem. Ficou impossível não confundir um pouco da minha história com a dela; mesmo sendo tão diferentes, apresentam lá as suas semelhanças…

Mio nono usava boina e a tirava sempre que entrava em casa, segurando-a com as duas mãos a frente do peito enquanto limpava os pés: um depois do outro, lentamente. Mas quando tinha algo de importante a dizer para a Nona, sapateava ali mesmo no local, junto a porta e o tapete, enquanto amassava a bendita da boina entre as mãos. Ele abaixava a cabeça, olhava pra ela de soslaio e rapidamente a gente tinha que sair da cozinha. Descobri a importância das pressas nessa época. Ficavam lá os dois falando em dialeto pra ter certeza de que ninguém entenderia. Era prosa de adulto, não nos competia. Numa dessas conversas, os dois saíram de preto no final da tarde e só voltaram depois da noite feita, alta, tardia. Tinham ido para um funeral do outro lado da cidade…

Mio nono tinha uma “magrela” (bicicleta) na qual andava pela cidade inteira. A bendita tinha uma daquelas buzinas antigas, feito sino, que tocava pelas ruas a dentro, esquinas a fora. “e lá vai o Domingos com a sua magrela” diziam… As vezes eu ia na garupa dele, feito moleque mesmo, com as pernas abertas, segurando no banco e dizia “voa nono” e ele respondia “mas não sou pássaro bambina”… E eu me perdia em sorrisos demorados, daqueles ruidosos que se prolongam e causam dor no baço… “mas vai nono, voa” e no fim, ele simplesmente dizia “te segura bambina”…

Em casa, ele tinha uma xícara só sua que era para o “café preto” coado na hora. Ele detestava café de minutos. Tinha que ser café de agora. “O único vechio em questa casa sono io” dizia pra minha mamma. Ele chegava, largava a magrela no canto, perto da escada. Falava com as plantas e e batia palmas na porta de entrada (que as vezes era a porta de saída). Dizia ela “ma no tem ninguém in questa casa” e a gente aparecia para o ritual de boas vindas. É claro que sabíamos da presença dele muito antes disso, mas era preciso esperar pelas palmas…

Certa vez me disseram que ele tinha mais de oitenta anos. Eu era menina ainda, quando muito contava até vinte. Dava de ombros pra todos aqueles anos e me ocupava de alisar todas aquelas rugas que ele tinha no rosto e ao fazê-lo, ele parecia recordar a si mesmo, acabava sempre me contando alguma história interessante de seu tempo de moço. Era a sua forma de dizer que cada ruga no rosto era um ano inteiro em sua vida… Eu nunca achei que ele fosse um velho. Porque estava sempre cantando tarantela, pulando feito moleque e perturbando a nona com seus movimentos insanos. O tempo parecia ter feito uma curva e passado bem longe dele… E de certo ficou atrás de uma árvore qualquer espiando sua alegria de bambino recém saído dos cueiros.

Certo dia, depois de um passeio com sua magrela, ele chegou cansado. Sentou-se no banco e foi só então que eu percebi sua idade. Seu corpo começava a dar sinal de cansaço; seu coração já não queria mais saber de pulsar na mesma intensidade de antes e ele me disse “un uomo só é morto quando os olhos fecham e não abre de novo” e voltou a sorrir gostoso.

Acho que eu passei boa parte da minha infância apenas observando aquele homem engraçado, que chacoalhava a barriga quando ria; gostava da casa cheia, mesa no terreiro, música alegre, abraço apertado e beijo na boca.

Eu sei que ele não está mais aqui. Sei? Eu não sei de nada, de coisa alguma; sei o que me disseram; mas há tempos que não dou importância para o que dizem as pessoas. Até porque, enquanto escrevo e revejo todas essas coisas, ele está aqui comigo e parece que é ele dedilhando as teclas do piano e cantando uma de suas canções… E posso bebericar um bom vinho e espiar a mim mesma crescendo pelos cantos da casa. Se prestar bastante atenção, ouço o meu próprio eco

 

21 comments to Coisas boas de se lembrar…

  1. clara disse:

    oi… passei para conhecer o seu sotão… cliquei no link porque amei o nome do blog! e quando chegeui li algumas coisas e fiquei deleciada com a leitura, acho que vou puxar uma cadeirita e ficar por aqui, sim acho que vou voltar, um abraço

  2. Marcantonio disse:

    Uma delícia este texto.

    Abraço.

  3. Parole disse:

    Que lindas lembranças, querida… eu também tinha nono e nona.
    Nunca me esqueço deles!!!
    Era tudo tão bom… mas o que eu mais gostava era ouví-los conversando, sempre em italiano.
    Era muito lindo! Tenho muitas saudades.

    Beijos, querida e ótimo fds.

  4. fernand's disse:

    o seu e o dele… ecos na alma.

    quando amamos alguém, não vemos a idade, vemos o coração que se revela no sorriso,
    carinhos, olhar atencioso e amor que nos retribuem.

    esses seus textos me apertam o peito.

    ah, claro que pode… queira tudo aquilo escrito e muito mais! :D

    bjs meus, minha querida.

  5. Luciana disse:

    Chorei, viu, chorei.

  6. jorge disse:

    querida amiga,
    as memórias de infância são, tantas vezes, o sustentáculo maior dos voos que ousamos experimentar já sem a rede protectora daquela idade em que todo o oceano cabe na cova da areia (fernando pessoa). quem as não tem? quem as não guarda no esconso mais morno do seu peito?
    admirável o teu texto!
    um beijo desde longe!

  7. Allan disse:

    Bonito e comovente. Só quem viveu perto de avós para lembrar com tanto carinho.

  8. mfc disse:

    Há sempre alguém que lidera pela presença e que nos marca para sempre!

  9. luma disse:

    Seu texto poderia ser parte de um filme, porque as cenas que descreveu, vieram absurdamente reais. Até penso com meus botões porque Lunna ainda não se enfronhou a escrever roteiros – quem sabe de curtas, para começar?
    Fico com as minhas emoções afloradas, relembrando histórias familiares e com vontade de também escrever sobre :)
    Bom Domingo! Beijus,

  10. Wania disse:

    Lunna querida

    Que delícia te ler! Por alguns minutos espiei a casa do teu Nono, cheguei a ver ele chegando e tu saindo ventada da cozinha. Andei de magrela com vocês e pude até sentir o vento me alisando os cabelos. O cheiro do café ainda está aqui na minha sala e o amor de vocês ainda me aquece o coração feito brasa que nunca apaga…
    Feliz daquele que carrega dentro do peito o seu baú de lembranças!

    Um beijo especial por me fazer abrir o meu neste domingo deliciosamente gris!

  11. C. disse:

    Esse texto, por ser hoje, me apertou o peito… hoje era o aniversário de mamis…
    as lembranças ficam guardadas dentro do peito, e ainda bem conseguimos transmitir em palavras o que por lá vai, como você fez aqui, lindamente.
    Parece eu senti o nono voando na magrela igual um doido fazendo você se sentir voando….

    bacios!

  12. Lena Simões disse:

    Minha querida,
    Tô com meu coraçãozinho apertadinho, vc nem imagina!!! Excelente pro meu domingo essa leitura!
    Ai, que saudades do meus avós e do meu próprio pai que hoje estaria fazendo 98 anos. Muita saudade!
    Lindooooo o post, me emocionei muito.
    Seu blog conseguiu ficar mais lindo que o anterior. Vc está gostando desse novo formato?
    Muito bom gosto, clean, lindo. Parabéns!!!
    Beijokas com super carinho!

    http://alemdasnuvens2011.blogspot.com
    http://amadeirado.blogspot.com

  13. Ana Morais disse:

    Seria até estranho se as minhas lágrimas não fizessem presença agora. Meu mundo se confundiu com o teu, tuas lembranças são da cor do sol do dia, que encheu a casa de luz, em silêncio e cheia de nostalgia vou saindo.

    Um abraço, bem forte.

  14. Ana Morais disse:

    Seria até estranho se as minhas lágrimas não fizessem presença agora, tua memória se confundiu com a minha, as suas lembranças são da cor do sol do dia, que enche meus olhos de luz, saiu daqui rodeada de nostalgia e suspirando em silêncio pelos cantos.

    Um abraço, bem forte.

  15. o meu avô usava um boné, escutava rádio, tinha uma bengala e um profundo par e olhos azuis, gostava e fazia poesia…o meu velho e indivisivel avohai!
    saudades sempre!

  16. gadofa disse:

    Meu pai, foi o avô que eu nunca conheci. Quando eu nasci, meu pai já tinha 45 anos. Tudo o que eu sei sobre a natureza, as marés, os ventos, a migração das aves, os peixes, foi ele que me ensinou.
    Também usava uma boina de xadrez bastante gasta, e acreditava que o sol e a Lua eram os unicos deuses…
    Amava-o, não, ainda o amo e sei que tudo o que ele me passou eu estou passando para meus filhos, assim como você está partilhando conosco o seu “nono”.
    Eles não foram embora… porque estão sempre conosco, eles fazem parte de nós e daquilo que somos.
    Saudades do que passamos juntos … tenho muitas e historias também. Qualquer dia partilho algumas.
    Beijos.

  17. Como de costume, fico tomada por suas palavras: silencio, contemplo e depois deixo que ela cumpra a missão de desencadear as emoções.

    BeijooO*

  18. Lizete Ferraz disse:

    Nostalgias…gostoso, não?!… ter um avô para se lembrar…para recordar…muito bom…vida…amor…Antepassados…alegrias..infância…quer melhor?…
    Eu não me lembro muito do meu, morreu eu era ainda pequena…me lembro que tinha a doença de parkinson, tremia muito…tadinho…mas devo tudo a eles, meus, seus nossos Ancestrais queridos…
    LIndas recordações, querida…e vc escrevendo fica melhor ainda…

    Bjs, com carinho…

  19. Querida amiga,
    O seu estilo é contagiante.
    Confirmo o que disse antes. Senti um arrepio na semelhança da nossa história da infância.
    Aqui, não vou dizer o mesmo: não tive a graça de conhecer os avôs.
    Mas a forma como aborda a sua vivência é extraordinária! E sabe porquê? Eu digo: porque poucos blogs me prendem com uma leitura mais longa. Mas o seu Sim! Parabéns!
    Bacio!

  20. Eliana disse:

    Lunna querida menina, você escreve de um jeito tão naturalmente bonito! E com uma riqueza de detalhes!
    Minha alma se perdeu em revoadas de alegria (e eu adorei) o passeio com a bicicleta voadora..risos…
    Lindo vovô! Linda netinha! Não estranho se me contar que ele está aí pertinho, ou mesmo em você…
    chega um tempo em que os seres que se amam… se misturam… e se transformam e estrelinhas!

    Emocionada agradeço o delicioso passeio
    beijinhos com carinho e admiração….da Eliana

  21. [...] O exercício de ler os posts de ontem me permite reviver certas emoções. É como desenhá-las na pele novamente. Sentir o que causou a escrita. Sentir o que causou escrever. É bom sentir as causas e os efeitos das palavras e lá vamos nós para junho e suas “coisas boas de se lembrar”… [...]

Seja como o vento, cause tumulto em minhas cortinas e deixe um rastro para que eu possa te alcançar...

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