Machado de Assis…

Ele nasceu no dia 21 de junho de 1839 na cidade do Rio de Janeiro. Deram-lhe o nome de Joaquim Maria Machado de Assis.  Ao longo dos dias tornou-se Machado de Assis. Dizem por aí nos dias de hoje que ele é o maior escritor de todos os tempos. Alguns o chamam de gênio, outros de estupido. Mas é assim mesmo.

Em tempos modernos, acho que ele seria considerado louco, um insano. Mas isso a mim pouco importa. Seu legado (Dom Casmurro, O enfermeiro, A Cartomante, entre tantos outros) fala por ele, por isso, celebro sua arte nesse dia em que muitos preferem celebrar a sua morte. Mania estranha essa. Sim. O homem nasceu, cresceu, reproduziu (dezenas de histórias que se repetem aos olhos de estranhos mundo afora) e morreu no dia 29 de setembro de 1908… Mas ele não acabou porque sua palavra permanece e assim o será amanhã e depois e amanhã.

(…) “Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em que há outras coisas interessantes, mas para isso era preciso tempo, ânimo e papel, e eu só tenho papel; o ânimo é frouxo, e o tempo assemelha-se à lamparina de madrugada. Não tarda o sol do outro dia, um sol dos diabos, impenetrável como a vida. Adeus, meu caro senhor, leia isto e queira-me bem; perdoe-me o que lhe parecer mau, e não maltrate muito a arruda, se lhe não cheira a rosas. Pediu-me um documento humano, ei-lo aqui. Não me peça também o império do Grão-Mogol. nem a fotografia dos Macabeus; peça, porém, os meus sapatos de defunto e não os dou a ninguém mais”.
(…)

Continue a ler…

Os caminhos percorridos até a Semana de Arte Moderna…

Quando decidi introduzir na história de “o diário de uma solidão” personagens reais e que tinham uma estreita relação com a personagem principal de minha novela, percebi que estava contando a história da semana de arte moderna a partir de minha ótica e começou aí o meu drama. Como fazê-lo sem ser errática? Era preciso investigar detalhes, revirar argumentos e tomar todo o cuidado para não atormentar a história, mas óbvio, me permitir o delírio intimo acerca dos fatos de acordo com os meus argumentos. Fui ler várias autores que usaram argumentos reais e confesso que fiquei com receio de cometer erros tolos e primários como pude perceber naquelas linhas lidas por mim. Fui assistir “A Casa das sete mulheres” adaptada por Maria Adelaide do Amaral –  aproveitei também para ler o romance que foi escrito pela escritora gaúcha Letícia Wierzchowski. E claro, assisti novamente a minissérie “Um só coração”.

imagePrograma do Primeiro dia do Festival da Semana de Arte Moderna, no Theatro Municipal

A Semana de Arte Moderna não é um simples evento que ocorre no ano de 1922 como costuma-se dizer por aí. Ela tem muitos elementos e levou anos para acontecer. Creio que tudo começou a se desenhar em 1912, quando Oswald regressou da Europa sob a influência do Manifesto futurista de Marinetti – fato esse que o leva a fundar o jornal O Pirralho que tece críticas severas contra a pintura nacional em suas páginas. Em 1913 o pintor russo Lasar Segall desembarcou em São Paulo com seu estilo não acadêmico, diferente, inovador e de cunho expressionista que serviu para “catequisar” toda uma geração de artistas. Em 1914, Anita Malfatti foi estudar nos Estados Unidos, ela já havia estudado arte na Alemanha, onde desenvolveu uma forte ligação com os impressionistas, dando ao seu talento o toque que faltava.  Em 1917 (ano de greves e tumultos que marcavam a luta do operário paulista por melhores condições) aconteceu a tão falada exposição de Anita Malfatti que foi impiedosamente criticada pelo senhor Lobato (o autor do sítio do pica pau amarelo) em seu artigo Paranoia ou mistificação que é sem dúvida alguma outro marco rumo a Semana de Arte Moderna… Esse artigo serviu de motivação para os senhores futuristas, mas causou estragos permanentes na frágil Anita Malfatti.

Abre aspas. Nos dias de hoje há quem procure ver no ato de Monteiro Lobato um gesto que serviu para impulsionar o movimento. Há tempos que vejo tentativas vãs de justificar seu ato típico “não vi e não gostei” – algo bem típico dos críticos brasileiros. Talvez por isso não exista críticos conceituados no Brasil como em outros países. Fecha aspas.

É também em 1971 que Menotti del Picchia publica Juca mulato que é um canto de despedida à era agrária em meio a nova realidade paulistana que exibe uma crescente urbanização já sem controle algum por parte dos governantes da cidade que parecia conhecer o seu destino caótico de metrópole perseguida. E em 1920, temos as palavras de Oswald que diz, em pleno ano do centenário da independência, que os intelectuais deveriam ver que  “independência não é somente política, é acima de tudo independência mental e moral”. É claro que todas essas citações são apenas uma pincelada sobre os principais argumentos acerca do evento, afinal, o movimento futurista (hoje chamado de modernista) teve seu ápice na Semana de 22 – mas até lá muitos outros pequenos movimentos ocorreram e talvez sejam estes muito mais importantes que a própria semana de arte moderna. Naqueles dias, a cidade de São Paulo (quiçá o país como um todo) vivia dias de mudança: a sociedade aristocrata rural paulista estava vivendo seus últimos dias de glória; a industrialização já dava sinais de que iria mudar os rumos da cidade paulistana que já desenhava seu futuro em outras linhas, abandonando de vez a era do “ouro verde” e abraçando definitivamente “tempos modernos”. A burguesia estava dividida entre o passado e o futuro, deixando o presente nas mãos da arte e seus artistas. Modernistas? Não. Eles eram na verdade: futuristas… O sonho de grandeza abraçava a maior parte dos senhores que viviam numa cidade que parecia disposta a dar eles a devida retribuição se recebesse deles o investimento necessário. Sim “me ame ou me odeie” e a opção foi pelos dois como bem sabemos. Amor e ódio é uma verdade que vive nas vias paulistanas e esteve presente também na semana de arte moderna. Houve quem cuspiu desaforos. Quem aplaudiu. Quem vaiou e quem cruzou os braços para esperar pelo amanhã. O grupo dos cinco não foi muito além, fez sua história e se perdeu. Uma geração inteira de artista se consagrou e foi eternizada e os que vieram depois ganharam (para o bem ou para o mal) o status de pós-modernistas, mas isso é uma outra história que precisa de tempo para ser observada…

 

Sim, eu escrevo diário…

Assim como a vida escreve estações”!

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(…)e deixamos de confiar no poema
no poeta
na metáfora
e em todas as mentiras
neste equinócio
com pronúncia de outono
e voz de setembro esquecido
[de repente parece que o mundo murchou
para os que amam por acaso
nestes dias lentos].
(…)

Um poema, de Jorge Pimenta
para a estação de setembro

Então é isso, eu ainda escrevo diários e faço isso ao som das quatro estações do ano, embora nem sempre sinta plenamente todas elas, mas eu sei delas o tempo todo. Em São Paulo é comum ter as quatro estações do ano num só dia. Ontem mesmo, no meio da tarde se fez inverno. Os ventos sopraram fortes e eu quase me deixei levar por eles… Depois veio a chuva fina, úmida, fria e por fim o sol se impôs por um segundo ou dois por entre as nuvens. Então caiu a noite com seu véu de sombras mornas e o verão ensaiou sua volta…

Eu pouco ou nada falei aqui sobre meu livro “diário das quatro estações – volume noturno” aqui porque estava anestesiada com a presença dele em minhas mãos. Foram apenas 50 (cinquenta) exemplares artesanais. Todos feitos por mim. Ou seja, carregam muito mais que apenas os meus delírios. Carregam também parte de mim. Eu gosto desse manifesto artesanal – de você saber o livro, ser parte dele e ir para as mãos das pessoas que passam a possuí-lo.

Enfim, eu não pretendia falar dele aqui. Mas a menina das estações enviou-me um e-mail falando do seu olhar sobre aquelas páginas que chegaram até ela pelos correios. Foi impossível entregar pessoalmente. A vida é feita de momentos e o nosso ainda anda longe, caminha distante, junto as montanhas. Precisamos dar voltas inteiras antes de nos perdemos na mesma paisagem. Eu não tenho pressa. Ela disse também não ter… Enfim, há para nós o conforto das missivas!

O que ela leu, e alguns de vocês também leram foi um combinado dos meus delírios que são mantidos a salvo da tal realidade que eu mantenho do lado de fora dos meus dias. Sempre que alguém me pergunta “você viu que o mundo está em crise?” – eu disfarço o sorriso e me limito a dizer “humhum” e claro que internamente me questiono “e quando foi que não esteve?” – só mudam os sintomas, mas a história é sempre a mesma…

Mas antes que alguém resolva perguntar, vou logo dizendo: para mim, escrever diários é cumprir uma espécie de ritual. Final do dia. Hora incerta. Apenas noite, sombras se configurando do lado de fora, tudo escuro. A lua, as estrelas, o céu, as nuvens e o vento brincando pela paisagem… Uma vela acesa, um incenso inventando formas pelo ar, a música certa e um breve olhar ao redor. Tudo vai ficando mais lento, mais quieto e de repente é como não restasse mais nada além daquele diálogo meu para com ele. Faço minhas confissões e pronto. Bebo um gole de chá e tudo volta a ser vida, barulho, dia, sol, ruas e calçadas…  

(…)
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão às medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre, se ainda recordas

Cecília Meireles, em Solombra, pág. 794

Eu sei que tem muita gente que também escreve diários  e ao fazê-lo “inventam” uma forma de diálogo tão simples e tão necessária porque ali naquelas folhas a gente  escreve para si mesmo, é como se estivéssemos olhando no espelho e dizendo “olá, como foi o seu dia?” e essa pergunta, cada vez menos comum nos dias de hoje é o bastante para que a gente relaxe e confesse o pulsar mais lento, mais breve, mais intenso, mais rápido…

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23 de setembro…

Por aqui a primavera chegou com sabores e essências do outono. O vento beija minha janela, o sol lambisca de leve os jardins que não estão coloridos. Mas há lá fora qualquer coisa de primavera. Ou será que é aqui dentro de mim? Não sei, mas prefiro o manifesto do não saber, ao menos por enquanto.

O grupo dos cinco…

imageO grupo dos Cinco, desenho de Anita Malfatti, 1922 –
Tarsila no sofá, Mário e Anita ao piano, Oswald e Menotti no chão.

Ao chegar de Paris, em junho de 1922, Tarsila instalou seu ateliê na Rua Vitória – coração da Paulicéia em tempos idos. Ela havia estudado desenho na França e se enchia de entusiasmo pela atmosfera inquieta das ruas paulistanas onde a Semana de Arte Moderna ainda era discutida. Ali se reencontrou com Anita Malfatti, autora das famosas “estranhas” telas, que tinha aprendido a gostar, depois de tê-las conhecido na exposição de 1917.
foi Anita Malfatti quem me apresentou a artista numa confeitaria elegante onde tomávamos chá “Esta é Tarsila, paulista, pintora e vem de Paris”. Pintora? Tinha eu na frente uma das criaturas mais belas, mais harmoniosas e mais elegantes que me fora dado ver. É claro que todos se apaixonaram por Tarsiladizia o artigo de Menotti del Picchia publicado em “A Gazeta”.
Anita Malfatti tinha um defeito na mão direita que ela gostava de ironizar, chamando-se de “Anita Malfeita”. Ela ainda não havia se recuperado do artigo, escrito pelo senhor Lobato que tinha por objetivo atingir os “futuristas” e acabou mirando na pessoa mais frágil do grupo. Defendida por Mário, Oswald e Menotti que a elegeram como “musa inspiradora” – isso não foi o bastante. O estrago já estava feito e ela passou a ser à sombra de seu próprio talento.

Abre aspas: Só consigo imaginar que o insípido senhor Lobato sofra em algum inferno existencial por tal feito. Enfim, eu não o leio, não o tolero e acho que ele é como muitos que estão por aí que não vêem e se sente no direito de inquirir o outro. Fecha Aspas.

Anita amargou uma crise criativa, passando a nutrir uma intensa paixão por Mário de Andrade que nunca foi correspondida. Eles eram amigos, mas ela desejava muito mais…
Quando Anita “introduziu” Tarsila no grupo, apresentando-a, uma espécie de combinação mágica aconteceu. Cinco pessoas. Cinco artistas. Cinco gênios. Cinco indivíduos. Cinco personalidades distintas. Cinco amigos. O famoso grupo dos cinco, que culminou em viagens, encontros apaixonados, brigas, polêmicas em cartas, em jornais e rancor para toda a vida. No início, foi uma grande festa: todos se visitavam; discutiam uns com os outros, deliravam, imaginavam o futuro, planejavam produções. Tudo que ali era debatido virava a proposta de um livro ou artigos animados para os jornais e revistas da época.
Oswald comprou um Cadillac verde, onde transportava os amigos, a toda a velocidade, aos lugares mais distantes: na fazenda de Tarsila varavam noites cantando ao piano, conversando, imaginando obras de arte. Mário chegou a fazer um verso para o carro, descrevendo-o como a Cadillac da glauca ilusão” – fazíamos fugas desabaladas dentro da noite, na Cadillac verde de Oswaldo de Andrade, a meu ver a figura mais característica e dinâmica do movimento, para ir ler as nossas obras-primas em Santos, no Alto da Serra, na Ilha das Palmas”…
Foram oito anos ininterruptos vivendo a maior orgia intelectual que a história artística brasileira registra, e justamente por isso, nada foi perdoado, a sociedade burguesa que a tudo assistiu, classificou o “grupo dos cinco” com seu preconceito cheio de veneno. Inventaram vícios, condenaram atitudes tidas como hostis. Criticaram com veemência certas “liberdades”. Classificaram “champanha com éter”, diziam uns. “As almofadas viraram coxins” diziam outros, entre muitos outros maldizeres que se espalharam de orelha em orelha, de boca em boca.
Para se ter uma idéia da força do grupo, os poemas de Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade surgiram das discussões do grupo, tanto quanto a novela O Homem e a Morte, de Menotti del Picchia – ambos publicados em 1922 – ano em que Oswald marcou encontro com Tarsila diante da Vênus de Milo, no museu do Louvre, em Paris. Foi o fim do Grupo dos Cinco…

Esse post faz parte do diário de criação da novela “o diário de uma solidão” – os argumentos dessa pesquisa foram utilizados por mim para compor o personagem de Pérola Alberoni, artista plástica que se envolve com o modernismo e modernistas ao voltar de Paris em 1916…

Tentando o impossível…

Um dos artistas que eu mais gosto é Magritte que em 1928, pintou “Attempting The Impossible -  uma composição onde o artista, através de seu pincel, “desenha” uma figura feminina nua a partir de conceito de mulher ideal.

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Nesta pintura, ele mostra o quanto coisas artificiais definem a realidade e são às vezes até confundidas com a tal da realidade. O pensamento comum que nos leva a conceber o absurdo, o impossível, o irreal que acaba se tornando um ideal de beleza pré concebido e o pior que muitas vezes nem é concebido por nós mesmos. Nos é imposto pelo outro que absorve essas “coisas artificiais”.
Não somos mais o que desejamos ser. Não. Somos a imagem que nos é vendida diariamente pelos outros. Os tempos são outros. As mordaças também.
A moda dos tempos modernos são as dietas: da segunda, do sol, da lua, do chá, da sopa e por aí vai. Não há limites e o que vemos é um culto a magreza. Mas antes que alguém grite por aí: eu não tenho nada contra quem faz dietas. Apenas estou lembrando que uma infinidade de revistas e programas de televisão fazem uso da palavra “bem estar” (que esta na moda) para vender a idéia de corpo ideal. E se um dia as formas arredondas fizeram sucesso, hoje é justamente a escassez de forma que grita por aí. E para se conquistar formas esqueléticas são necessários certos sacrifícios: dietas mirabolantes: chás, ração humana, injeções, medicamentos e tantas outras coisas mais que surgem de um dia para o outro e ganham cada vez mais espaço na vida das pessoas…
Mas não são apenas as dietas que se multiplicam. A procura pela “beleza ideal” leva mulheres a esticar aqui, cortar ali – tudo para que a imagem no espelho de fato convença, agrade. Mas a quem? O que há de errado com a imagem que o espelho manda de volta? Talvez o erro seja o tal conceito de beleza exibido nesse cotidiano cada vez mais artificial, cada vez menos humano.

Se prestar atenção na tela de Magritte, a figura que o “pintor” na tela faz é algo semelhante a si mesmo. A beleza dos olhos do artista inserida na tela. Seria Ironia?

René-François-Ghislain Magritte nasceu em Lessines em 1889. Sua primeira exposição individual aconteceu em 1927, mas não foi bem recebida pela crítica. É um dos mais importantes pintores do surrealismo. Morreu em Bruxelas em 1967 deixando um legado surreal para os olhos mais atentos…

Alguns conceitos mudam de tempos em tempos, mas a beleza segue sendo o que o outro vê e isso não vai mudar nunca. E ainda bem que há quem entenda o belo além dos conceitos estéticos que se desgastam de um instante para o outro e impõe ao homem essa figura sintética também conhecida por “beleza artificial”… 

Eu sigo pensando em missivas…

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Faz alguns dias que eu não escrevo “o diário de uma solidão”. Algumas partes do meu corpo, da minha mente ainda estão em silêncio. Definitivamente eu não consigo pensar no momento. Já tentei sentar-me aqui, diante da tela e levar a história adiante. Li e reli os dois primeiros capítulos e percebi que sei muito bem o que eu quero do personagem, dos movimentos seguintes. Mas não há movimento algum em meus dedos. É tudo silêncio. E há tempos que eu aprendi que não adianta obrigar-me a desenhar palavras. As coisas não acontecem assim…
As outras coisas estão indo bem. Tenho escrito missivas, algumas estão aqui “abandonadas” sobre a mesa – tenho lido muitos livros, que se acumulam sobre os cantos por onde passo – assistido filmes, que se amontoam na tela de ilusões fáceis e tenho também caminhado por calçadas irregulares. O pensamento se sente como um pássaro. E lá fora o outono acena pra mim, mas o calendário insiste em lembrar-me da primavera…
Sim, hoje é aniversário da Francy´s, essa criança primaveril que gosta de flores, luz do sol e canto de pássaros. É mesmo uma criança e merece versos de Caeiro…

Então é isso, é quase primavera
e eu sigo pensando em missivas

Diz o calendário:

…é quase primavera!

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O vento carrega folhas lá fora. A brisa invade o quarto. Parece outono, mas dizem que é “quase primavera”. O sol ameno “lambe” as calçadas que me chamam para um caminhar de ocasião. Recolho galhos, como costumo fazer no outono. Reúno-os para queimar mais tarde. Como aprendi a fazer com a nona nos dias de infância. Saudades. Não chove há dias. Não sinto o perfume da terra molhada, o que significa dizer que o clima seco se impõe. A lua já havia dito que não haveria chuva. Aprendi isso com o nono nos dias de infância. Saudades. Não fui a feira, nem ao mercado. Fiquei em casa com alguns livros. Preciso devolvê-los ainda hoje. Mas eu não quero sair para ver o dia. Porque acho que esse clima ameno só existe em minha janela. Esse desenho de paisagem mergulhada no outono só existe em mim porque o resto do mundo (lá fora) o calendário se impõe e há promessas (falsas) de primavera.
Meu inverno foi colorido. As azaléias levaram seus tons aos muitos jardins do bairro. As camélias perfumaram as praças (as mais pertos e as mais distantes). As árvores de flores avermelhadas desenharam novas formas de horizontes em pleno inverno. E os pássaros? Nunca cantaram tanto quanto nesse inverno…

Uma lenda para setembro…

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Há uma antiga Lenda na Escócia que afirmava que os jovens que lavassem o rosto no orvalho antes do nascer do Sol no primeiro dia de primavera tinham seus desejos realizados. Especialmente se tais desejos estivessem relacionados ao amor.

Como sou alguém que adora lendas, ainda mais quanto envolve o imaginário popular, fiquei aqui imaginando as dúzias de pessoas que já devem ter feito essa “simpatia”. Afinal, lembram-se dos santos colocados de cabeça para baixo? Das facas enfiadas nas bananeiras? Sempre ouço curiosidades como essa e tomo nota para não esquecer. O povo tem suas místicas, lendas urbanas, conceitos próprios que deixam a vida muito mais saborosa, colorida…

A vida sem lendas não teria graça alguma…

 

Burnt Norton – as chamas de Eliot.

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Sim, hoje é segunda. Eu sei…
E estou aqui a ler poesias – a manhã de sol a arder no asfalto e criar sombras nas calçadas convidou e eu fui… O poema “Burnt Norton” estava sobre a mesa e eu corri os olhos por ele e acabei por lembrar-me de uma crítica feita (não lembro por quem) acerca do título do poema, que segundo a “lenda” é, o nome de uma casa de campo em Gloucester que foi consumida pelas chamas no século XVIII e que pertencia a um milionário.

Até ler isso, o poema “Burnt Norton” era pra mim apenas uma espécie de narrativa acerca das figuras femininas de Emily Hale e Mary Trevelyan que tiveram suas importâncias na vida de Eliot que escreveu mais de mil cartas a Emily e admitiu mais tarde ter se apaixonado por ela.

(…)
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
Mas com que fim
Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas,
Não sei.

(…)
Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro,
O que poderia ter sido e o que foi,
Convergem para um só fim, que é sempre presente.

Não sei. Indiferente a voz do crítico, o poema não mudou o seu sentido pra mim, mas ganhou mais corpo. Afinal, já chega dando intensidade as linhas que seguem. As pessoas gostam de falar do amor, da paixão. Desejam para si essa insanidade temporal que nada mais é que uma casa em chamas que arde e queima, as vezes, devasta. Cala…

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As vezes, eu acho que só ela me entende…

Hoje é sexta, final de tarde, cansaço e os olhos pregados aos livros. Inquietação alta. Pressa em voltar para casa. Sinal fechado. Saudade e uma certeza: são poucos os que me entendem. Aceitar que eu preciso ser sozinha as vezes, que eu preciso estar no meio da multidão, que eu tenho diferentes direções e não gosto muito de gente, preferindo os cães. Eu conto nos dedos das mãos (uma apenas) os amigos que tenho e eles não compram meus livros (ainda bem). Eu não sou uma vendedora de livros, sou uma “escrevinhadora” e me dedico ao que gosto e a cada dia mais. Ando escrevendo pouco, é bem verdade. Mas o silêncio está passando, graças a pessoas incríveis que eu descobri em meio a paisagem… Poderia citar aqui os nomes, mas tudo é tão desnecessário quando a gente sabe. Me basta…

No mais, as vezes, eu acho que só mesmo ela me entende…

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(…) Percebo, no entanto, que escrever este diário não conta como escrever, já que acabei de reler o diário do ano passado e fiquei muito impressionada com o rápido galope acidental com que ele prossegue, às vezes de fato tropeçando de maneira intolerável nas pedras do pavimento. Contudo, se não fosse escrito com muito mais rapidez do que a datilografia mais rápida, se eu parasse e me pusesse a refletir, ele jamais seria escrito; e a vantagem do método é que acumula ao acaso vários assuntos dispersos que eu excluiria caso hesitasse, mas que são os diamantes do monte de lixo. Se Virginia Woolf, aos 50 anos,quando sentar-se para construir suas memórias a partir desses cadernos, for incapaz de fazer uma frase como deve ser, só posso me compadecer dela e lembrá-la da existência da lareira, onde terá minha permissão para queimar estas páginas até se converterem em outras tantas películas negras com olhos vermelhos. Mas como lhe invejo a tarefa que estou lhe preparando! Nenhuma outra me satisfaria mais. Só o pensar nisso tira um pouco do terror de meu 37º aniversário, no próximo sábado. Em parte em proveito dessa velha senhora (nenhum subterfúgio será então possível: 50 é velhice, embora preveja suas objeções e concorde que não se é velho) em parte para dar ao ano sólida fundação, pretendo passar as tardes desta semana de cativeiro fazendo um balanço das minhas amizades e de sua situação atual, com alguns relatos de caráter de meus amigos; e acrescentar uma avaliação de suas obras e uma previsão de obras futuras. A senhora de 50 anos estará apta a dizer quão próxima da verdade estou, mas já escrevi bastante por esta noite (apenas 15 minutos, constato).

Ano 1919, pág. 42 e 43
em “Diários de Vírigina Woolf”.