125º aniversário de Tarsila do Amaral

“Adoro a vida e sou fã dela, vou com ela até os 100″
Tarsila do Amaral – 1886 – 1973

Tarsila, personagem de Eliane Giardini em um só coraçãoTarsila do Amaral vivida por Eliane Giardini
na “minissérie um só coração” (rede globo)

Saber com exatidão a data de nascimento de Tarsila não foi uma tarefa fácil, pois durante toda a sua vida – ela simplesmente escondeu sua idade e todas as referências que nos permitissem identificar o momento de seu despertar para o mundo. Informação essa que foi revelada por uma carta escrita por sua mãe, datada do dia 1º de setembro de 1927 que dizia:

“Neste glorioso dia em que nasceu a maior pintora brasileira, de uma criatura tão humilde como eu, rendo graças ao nosso bom Deus por ter-se dignado encher-te de seus dons, fazendo de ti uma verdadeira maravilha em beleza física e moral, em inteligência inigualável, pois que Deus cumulou-te de perfeições, não se esquecendo de fazer-te a melhor das filhas, eu te abençoo, eu e teu pai, neste dia em que nasceste. Abraço-te e beijo-te com todo o amor maternal. Sua mãe Lydia”. 

Tarsila era a própria simplicidade em pessoa – de aparência leve, alma livre e olhar doce. Talvez, reflexo de sua infância vivida entre fazendas. Seu comportamento não indicava a origem aristocrata da família…

Comecei a pintar quanto estava na fazenda. Era criança ainda, tinha quatro para cinco anos” – diz Tarsila.

O primeiro trabalho da artista talvez tenha sido “um coração vermelho”, pintado na parede ao seis anos de idade. Uma coisa de menina que se atreve a fazer “rabiscos” pois o correto é dizer que sua primeira pintura foi “O coração de Jesus”, que levou um ano inteiro para ficar pronta, pois a busca pela perfeição já dava sinais no traço de Tarsila.

“Arranjei um método de corrigir-me: punha o papel que eu tinha decalcado sobre a parte que não estava boa e, com pontinhos, eu ia seguindo o decalque e assim eu recomeçava o quadro com uma dificuldade enorme”.

Tarsila  foi a dama da arte. A mulher que “desenhou” um estilo pouco comum para a época e que nos dias de hoje merece destaque pelo entusiasmo não apenas pela técnica usada, mas também pela coragem de “gestação” já que ela foi de uma brasilidade impressionante “O amarelo vivo, o rosa violáceo, o azul pureza, o verde cantante” – nos diz Drummond. Os temas brasileiros sempre foram figuras presentes em sua arte. Em uma de suas cartas, escritas para família em meados de 1923 – Tarsila revela a lembrança de formas e cores ligadas à sua própria formação na fazenda da família no interior de São Paulo:

“Sinto-me cada vez mais brasileira: quero ser a pintora da minha terra. Como agradeço por ter passado na fazenda a minha infância toda. As reminiscências desse tempo vão se tornando preciosas para mim. Quero, na arte, ser a caipirinha de São Bernardo brincando com bonecas de mato, como no último quadro que estou pintando”.

Argumento este que é facilmente percebido na tela “A Negra” onde vemos uma mulher de seios grandes. Figura essa que participou  da infância de Tarsila, e as negras, geralmente filhas de escravos, eram as amas-secas dos filhos dos fazendeiros. E a arte de Tarsila seguiu capturando esse cenário comum da vida daqueles que conheceram o Brasil de antes, o Brasil dos tempos de “antigamente” como dizem o povo mais simples da terra brasilis.

Um dos trabalhos de Tarsila que chama atenção até mesmo por sua definição é a Cuca que foi pintado no começo de 1924 – “estou fazendo uns quadros “bem brasileiros”, tem este em especial que se trata de “um bicho esquisito, no meio do mato, com um sapo, um tatu, e outro bicho inventado”. Contudo, é preciso dedicar um capítulo especial apenas para o escritor Oswald de Andrade, com quem Tarsila se casou em outubro de 1926. Dessa união nasceram muitas ousadias. Impossível dizer se foi um grande amor da mulher ou apenas uma paixão da artista.

“Le tremblay” [...] 1924 – Dezembro 14 Tarsila Aos seus argumentos do outro dia, oponho minha vontade de terminar com este estado de coisas. Quero casar-me com você. Terá toda a minha felicidade e a sua. Autoriza-me você a agir nesse sentido? Pensei bem antes de lhe escrever essa carta. Posso considerar-me como seu noivo. Com a necessária reserva? Irei buscar a resposta amanhã a tarde. Seu Inteiramente seu Oswald

abaporu - tarsila A arte de Tarsila conseguiu assustar o poeta que foi presenteado com o “Abaporu” – tela essa que foi a mais cara obra brasileira já vendida até os dias atuais “uma figura solitária monstruosa, pés imensos, sentada numa planície verde, o braço dobrado repousando num joelho, a mão sustentando o peso-pena da cabecinha minúscula. Em frente, um cacto explodindo numa flor absurda.” A pintura de Tarsila cresceu a partir de então: as formas volumosas, as cores exuberantes, um quê de Brasil autêntico desafiando tudo o que se via na pintura daquele tempo. Ninguém conseguiu tamanha ousadia, dizia-se que apenas Anita conseguiria, não fosse o seu desalento e a falta de entusiasmo.

Tarsila abraçou as mudanças que lhe chegaram. Houve dias difíceis, anos improváveis, como em 1929  quando Oswald se apaixonou por Pagu (apelido dado a Patrícia Galvão). O casamento dela com Oswald transformou-se num combinado de lembranças agradáveis. Vivendo na Rússia, Tarsila sem dinheiro, trabalhou como operaria de uma construção: foi pintora de paredes e portas. Mas acabou por decorar o apartamento do dono da construtora, deixando uma impressionante pintura da baia de Guanabara na parede.

A artista conheceu o silencio e sua arte também; ficando esquecida até 1950, quando ocorre a primeira retrospectiva de sua arte em São Paulo o que lhe devolve a “fama” que sempre lhe coube. “Preciso aproximar-me de meus amigos”, escreve Tarsila em 4 de dezembro de 1950. “Tenho encontrado tanto carinho por parte deles que estou perdendo meu complexo de inferioridade que dura mais de dez anos. Os jornais têm anunciado minha exposição até em Santos”.

Tarsila veio a falecer aos 87 anos em 1973 – vitima de câncer – deixando o encanto e o brilho de sua arte que com toda certeza ainda irá alcançar inúmeras gerações… Nasceu em Setembro, o mês das cores, da primavera, da alegria, da arte… Se estivesse viva no dia de hoje, completaria 125 anos. Ela não foi até os “cem”, mas ultrapassou limites! Então foi muito mais além…

tarsila, aniversário de 125 anos - doodleHomenagem do Google ao aniversário de Tarsila

Esse post é parte integrante do diário de criação da novela “o diário de uma solidão” que combina realidade com ficção. A personagem de Pérola Alberone será colega de Tarsila no decorrer da trama.

9 comments to 125º aniversário de Tarsila do Amaral

  1. Keila disse:

    Assisti a minissérie. Aliás, são nelas que a rede globo ainda é capaz de apresentar ao canal aberto algo de construtivo.
    Por aqui, a Casa Fiat estava com uma exposição majestosa dela.
    E hoje, ao acessar ao google tive o prazer de vislumbrar a bela homenagem.
    Assim como Chiquinha Gonzaga é para a música uma referência do talento da mulher brasileira entre o século 19 e 20, Társila é para a arte plástica dentro desse tempo.
    Ambas representam dignamente mulheres de fibra, permeadas de talento e sensibilidade.

  2. Maggie May disse:

    A Tarsila pintora eu conhecia dos bancos de escola e universidade, sempre admirei, Fiquei encantada ao ver o Abapuru de perto!
    Mas a Tarsila mulher que sofreu por amor, e escreveu tantas cartas onde me encontrei em seu sofrimento, me deparei com ela recentemente, na minha busca por mulheres “inteligentes” que pereceram no amor! rs

  3. Lua Nova disse:

    Excelente lembrança e formidável homenagem a essa brasileira ímpar. Uma pessoa intensa, que amava a vida e que amou na vida.
    Um post bastante relevante.
    Beijokas, moça.

  4. Beth Q. disse:

    Tarsila é o máximo e um quadro dela um sonho, por isso não ficaria nem um pouco triste se comprasse uma cópia. adoro seus trabalhos!
    Que pena, eu não assisti esta minissérie! Será que acho por ai, nas americanas da vida?!
    bjs cariocas

  5. Sandra Cajado disse:

    Hoje estou assim…Olhos marejados e espírito na essência das letras aqui postadas.
    Tarsila amante das cores da vida em sua total profundidade,que amava intensamente o momento vivido sem culpas e sem medos.
    Dona de seus silêncios absurdos envoltos da ARTE.
    Desculpe mas não consigo mais comentar…emocionei,encarnei Tarsila e voltei pra dentro de mim mesma.
    “Em meio a desejos, amores e dissabores, me perco entre tintas e cores tentando esconder a imensidão que eclode numa tela abstrata cheia de tonalidades sépia, amarelo indiano, terra de siena e branco.

    Nada muito louco como van Gogh e nem impressionista com Renoir, mas talvez uma mistura de ousadia estilo Tarsila do Amaral. Não falo de movimento antropofágico como Abaporu, mas sim da doce ousadia de viver anos luz de seu tempo, não importa nomes famosos ou anônimos.

    O que está em questão é a liberdade de expressão através das cores e amores, sentimentos que é essencial para a vida dos amantes e apaixonados.

    O artista faz e o admirador tenta decifrar, mas no fundo só o pintor sabe que falar de amor também é através de artes visuais, olhos, janelas da alma que almejam por encontrar um par de olhos que conectem com os seus.

    Sinônimo de Tarsila – L.I.B.E.R.D.A.D.E

    Beijos , Lu!

    Obrigada por nos trazer essa figura neste dia especial pela data dos seus 125 anos.

    Sandra Cajado

  6. mfc disse:

    Desconhecia… fui buscar ao Google… e fiquei completamente fã!

  7. manuela barroso disse:

    Artista que não conhecia mas que admiro depois de me informar minimamente.
    E tudo o que é inovador, são conquistas de liberdade.
    Bacio

  8. Mariacininha disse:

    Oi Lunna, também gosto muito da arte da Tarsila. Gostei do post da Tarsila mulher e da Tarsila artista. Um dos quadros que mais gosto é aquele auto retrato , onde aparece com um manto vermelho, com seu rosto redondo e todo esplendor de rainha. O puco que li sobre ela dizem que ela não gostou de envelhecer e que depois de uma certa idade nunca mais se deixou fotografar.

    Beijos.

    Mariacininha

  9. Mariana disse:

    Bem, a arte da Tarsila eu conheço basicamente pela cartilha do Modernismo, quando preparo as aulas. Mas uma coisa curiosa sobre ela chegou-me totalmente pelo acaso. Depois que Tarsila se separa do Oswald, fala-se pouco dela, mas esta separação foi apenas uma das muitas que timbraram o fim da fase heroica do Modernismo, todos praticamente brigados entre si.

    Então, lendo um livro despretensioso para minha tese, “Noturno da Lapa”, do jornalista Luis Martins, eu descobri um outro lado dela: eles se casaram, já então pesando uma diferença de 15 anos entre eles, e vieram a se separar quando ela tinha mais de 60 anos e ele se envolveu com… uma parenta dela, praticamente repetindo o triângulo vivido no fim dos anos 20… Quando o Luis Martins a conheceu, descreve-a como uma mulher belíssima. Saiu um livro, inclusive, com as cartas envolvendo o então rumoroso caso (http://veja.abril.com.br/101203/p_158.html). Luis Martins teria sido o grande amor de sua vida. Um épico amoroso, sem dúvida.

    Bem, por que falo de bastidores? Gosto deles, simplesmente.

    Abraços.

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