Ao final do ano, pequenos grandes detalhes…

minhas-tardes-marguerite-blogDois mil e onze foi um ano bem atípico, eu diria. Não tive a oportunidade de degustar todos os livros que estavam em minha estante, nem assistir à pilha de filmes que me aguardavam na sala de estar.

Talvez meus ouvidos tenham ficado gratos pela seleção de músicas escolhidas para atravessar os dias – mas, ainda assim, em minha mente, o pouco nunca satisfaz. Nada nunca é o bastante para quem tem a ansiedade como amuleto principal da rotina…

Porém, já quase ao final desses tempos, pude ser surpreendida por uma leitura e um filme que trouxeram de volta a pausa necessária aos meus pensamentos.

O livro que encantou meus olhos foi “Feliz por Nada”, da escritora e jornalista Martha Medeiros. Uma seleção de crônicas deliciosas que permearam a minha essência e reavivaram o sabor pelas letras…


“A vida não é um questionário de Proust. Você não precisa ter que responder ao mundo quais são suas qualidades, sua cor preferida, seu prato favorito, que bicho seria. Que mania de se autoconhecer. Chega de se autoconhecer. Você é o que é, um imperfeito bem-intencionado e que muda de opinião sem a menor culpa. Ser feliz por nada talvez seja isso.”

(Feliz por Nada – Martha Medeiros)

Recomendo os escritos de Martha pela leveza, por serem extremamente atuais e se encaixarem com precisão na roleta-russa que é a sociedade atual. Uma seleção de textos que realmente me movimentou!

Quanto ao filme que fez minha alma brilhar, certamente não poderia ser algo muito hollywoodiano… Nada contra esse estilo, mas ele tem me soado um tanto quanto cansativo! Dessa vez, preferi optar pelos franceses e me deparei lindamente com “Minhas Tardes com Margueritte”, em que atuam Gisèle Casadesus e Gérard Depardieu…

“Um encontro pouco comum, entre o amor e a ternura, não tinha outra coisa. Tinha nome de flor e vivia entre as palavras. Adjetivos rebuscados, verbos que cresciam como a grama, alguns ficavam. Entrou suavemente desde o córtex até o meu coração. Nas histórias de amor há mais que amor. Às vezes não há nenhum ‘eu te amo’, mas se amam. Um encontro pouco comum. Eu a conheci por acaso no parque. Ela não ocupava muito espaço, era do tamanho de uma pomba com as suas penas. Envolta em palavras, em nomes, como o meu. Ela me deu um livro, e outro, e as páginas se iluminaram. Não morra agora, há tempo, espere. Não é a hora, florzinha. Me dê um pouco mais de você. Me dê um pouco mais de sua vida. Espere. Nas histórias de amor há mais que amor. Às vezes não há nenhum ‘eu te amo’, mas se amam.”

(Minhas Tardes com Margueritte – Jean Becker)

O filme conta uma história que mistura amizade e amor, tristeza e alegria, velhice e juventude. Principalmente, traz o conceito sobre a verdadeira sabedoria da vida, que está nos pequenos detalhes…

Em relação à música, eu poderia selecionar uma ópera, um bolero, um clássico ou um tango. Mas não. Escolherei aquela música que acompanhou os meus dias tristes e felizes, por se mostrar tão próxima à realidade que me cerca…

 

“All my life I’ve tried to make everybody happy
While I just hurt and hide
Waiting for someone to tell me it’s my turn to decide…”
(King of Anything – Sara Bareilles)

Para finalizar, uma citação recente de uma blogueira especial, de quem gosto muito!
“A gente aprende a costurar o próprio coração, enfeitar as dores com botões coloridos, refazer remendos com linhas decoradas. Aprende a costurar. E até a bordar detalhes em ponto cruz.
E aprende que sempre sobra alguém melhor em nós depois de cada depois.”  – Natália Raposo  -

Que venha 2012 e suas mil opções de leituras, filmes e músicas para fazer brilhar o nosso coração…

Feliz ano novo!

Tatiana Kielberman

Um poema? Por que?

“He disappeared in the dead of winter”

(Ele desapareceu junto
as sombras do inverno!)

 

Auden em memória de W.B.Yeats

 

He was my North, my South, my East and West,
my working week, my Sunday rest,
my noon, my midnight, my talk, my song.
I thought that love would last forever; I was wrong.

 

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste,
Minha semana útil e meu domingo inerte,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha canção, meu papo,
Achei que o amor fosse para sempre: Eu estava errado.

 

Enfim, porque amanheceu chovendo, com a paisagem inteira em suspenso e lá estavam as perguntas e as respostas. E era preciso ser Auden, porque de acordo com minha agenda, ele esteve presente o ano todo… Foi uma espécie de diálogo entre as minhas coisas e seus versos…

 

image

LIVRO
- Não leio lançamentos.

FILME
- A Árvore da Vida, de Terrence Malick

MÚSICA
- Neguinho, Gal Costa

Herculano Neto

Setembro no sótão…

Setembro, primavera, dias úmidos, coloridos, nublados. Setembro do Machado de Assis, de Eliot e tantos outros poetas. Setembro das páginas em branco sendo preenchidas com lapiseira pentel 0,5 – porque eu não uso caneta. Gosto do cinza grafite a percorrer as linhas, dar forma as palavras. Por isso que eu digo, “Sim, eu escrevo diário”… Assim como a vida escreve estações”!

clip_image001

(…)
e deixamos de confiar no poema
no poeta
na metáfora
e em todas as mentiras
neste equinócio
com pronúncia de outono
e voz de setembro esquecido
de repente parece que o mundo murchou
para os que amam por acaso
nestes dias lentos.
(…)

Um poema, de Jorge Pimenta para a estação de setembro

Então é isso, eu ainda escrevo diários e faço isso ao som das quatro estações do ano, embora nem sempre sinta plenamente todas elas, mas eu sei delas o tempo todo. Em São Paulo é comum ter as quatro estações do ano num só dia. Ontem mesmo, no meio da tarde se fez inverno. Os ventos sopraram fortes e eu quase me deixei levar por eles… Depois veio a chuva fina, úmida, fria e por fim o sol se impôs por um segundo ou dois por entre as nuvens. Então caiu a noite com seu véu de sombras mornas e o verão ensaiou sua volta…

Eu pouco ou nada falei aqui sobre meu livro “diário das quatro estações – volume noturno” aqui porque estava anestesiada com a presença dele em minhas mãos. Foram apenas 50 (cinquenta) exemplares artesanais. Todos feitos por mim. Ou seja, carregam muito mais que apenas os meus delírios. Carregam também parte de mim. Eu gosto desse manifesto artesanal – de você saber o livro, ser parte dele e ir para as mãos das pessoas que passam a possuí-lo.

Enfim, eu não pretendia falar dele aqui. Mas a menina das estações enviou-me um e-mail falando do seu olhar sobre aquelas páginas que chegaram até ela pelos correios. Foi impossível entregar pessoalmente. A vida é feita de momentos e o nosso ainda anda longe, caminha distante, junto as montanhas. Precisamos dar voltas inteiras antes de nos perdemos na mesma paisagem. Eu não tenho pressa. Ela disse também não ter… Enfim, há para nós o conforto das missivas!

O que ela leu, e alguns de vocês também leram foi um combinado dos meus delírios que são mantidos a salvo da tal realidade que eu mantenho do lado de fora dos meus dias. Sempre que alguém me pergunta “você viu que o mundo está em crise?” – eu disfarço o sorriso e me limito a dizer “humhum” e claro que internamente me questiono “e quando foi que não esteve?” – só mudam os sintomas, mas a história é sempre a mesma…

Mas antes que alguém resolva perguntar, vou logo dizendo: para mim, escrever diários é cumprir uma espécie de ritual. Final do dia. Hora incerta. Apenas noite, sombras se configurando do lado de fora, tudo escuro. A lua, as estrelas, o céu, as nuvens e o vento brincando pela paisagem… Uma vela acesa, um incenso inventando formas pelo ar, a música certa e um breve olhar ao redor. Tudo vai ficando mais lento, mais quieto e de repente é como não restasse mais nada além daquele diálogo meu para com ele. Faço minhas confissões e pronto. Bebo um gole de chá e tudo volta a ser vida, barulho, dia, sol, ruas e calçadas…  

(…)
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão às medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre, se ainda recordas

Cecília Meireles, em Solombra, pág. 794

Eu sei que tem muita gente que também escreve diários  e ao fazê-lo “inventam” uma forma de diálogo tão simples e tão necessária porque ali naquelas folhas a gente  escreve para si mesmo, é como se estivéssemos olhando no espelho e dizendo “olá, como foi o seu dia?” e essa pergunta, cada vez menos comum nos dias de hoje é o bastante para que a gente relaxe e confesse o pulsar mais lento, mais breve, mais intenso, mais rápido…

clip_image002

23 de setembro…
Por aqui a primavera chegou com sabores e essências do outono. O vento beija minha janela, o sol lambisca de leve os jardins que não estão coloridos. Mas há lá fora qualquer coisa de primavera. Ou será que é aqui dentro de mim? Não sei, mas prefiro o manifesto do não saber, ao menos por enquanto.

Agosto no sótão…

Eu sou uma daquelas que não gostam do mês de “agosto” – mas isso se deve ao fato de agosto ser um mês insistente, que se demora pela paisagem… Invade setembro, alcança outubro e só se encerra mesmo quando chega novembro. Isso quando não se apodera de novembro também…

Enfim, agosto surpreendeu-me, não sei se pela mística de seu nome que se deve ao Imperador romano Augustus que não poderia deixar de ter um mês em sua homenagem, já que Julius César o tinha. E lá vieram mais trinta e um dias para o calendário porque naquele tempo era assim, acrescentava-se dias e meses ao calendário de acordo com a vontade do louco do momento.

Enfim, Agosto teve vários posts que conquistaram a atenção daqueles que aqui chegam, mas o que chamou mesmo a atenção, sendo visitado (pra fazer valer a mística de agosto) até mesmo agora em dezembro foram os “Livros para o mês de agosto”…

Agosto atravessou a rua, veio ao meu encontro… De julho restou apenas as lembranças dos dias passados na companhia dos meus livros e algumas outras coisas também, um punhado delas, mas é agosto e alguns livros saltaram pra cima da mesa… Seleção feita. É hora de virar páginas:

clip_image001

1 – As ondas – Virginia Woolf
2 – Triângulo das Águas – Caio Fernando Abreu
3 – O livro do desassossego – Fernando Pessoa
4 – A vida das abelhas – Maurice Maeterlinck
5 – A riqueza do mundo – Lya Luft
6 – Durante aquele estranho chá – Lygia Fagundes Telles
7 – Emma – Jane Austen
8 – Folhas da Relva – Walt Whitman
9 – Quando eu fui outro – Fernando Pessoa

Alguns já foram lidos antes, mas sabe como é? O momento é outro, então o sabor também será outro… Vou de chá de menta nos próximos dias. Me acompanha?

As experiências de Letícia Alves

As vezes, eu gosto, de no meio da tarde, sem qualquer programação, largar tudo e assistir a um filme. Nada de excepcional. Apenas um filme adocicado, com uma boa dose de romantismo, como “a casa do lago” ou “mensagem para você“. Este último pela proximidade com o livro de Jane Austen “Orgulho e Preconceito” – pra quem não percebeu ainda, o filme é uma versão moderna do livro.

Eu prefiro os filmes mais antigos, faz algum tempo que lançamentos não chamam por mim porque ou são violentos demais ou suas histórias de amor não me convencem. “Simplesmente complicado” me fez dar boas gargalhadas – mas ficou apenas nisso. O filme com o Tom Hanks e Julia Roberts (Larry Crowne – O amor está de volta) era carente daquela dose agradável de química entre os personagens e suas histórias. Faltou o olho no olho entre Cary Grant e Deborah Kerr em “an affair to remember“  ou mais recentemente em “o espelho tem duas faces” com Barbra Streisand e Jeff Bridges, uma comédia romântica que nos leva do riso as lágrimas em poucos minutos.

Fica difícil citar qual filme esse ano fez parte de mim ou ficou em mim porque cenas inteiras permanecem em mim ano após ano, como a cena em do filme “De-Lovely” em que a morte é a única certeza em cena, mas há o sonho como possibilidade acenando como último momento, então entram os personagens de uma vida inteira como se o reencontro fosse possível antes do derradeiro fim… 

image

Um livro: Um Dia – David Nicholls
Uma música: Fogo – Capital Inicial
Um filme: A pele que habito – Almodovar

Uma citação: “Lamentar as experiências vividas é uma forma de impedir o próprio desenvolvimento.” Oscar Wilde

Letícia Alves

Julho no sótão…

O mês de julho pra mim é um mês meio sem graça. Gosto apenas dos ventos fortes que surgem junto a paisagem aqui em São Paulo. Mas já foi diferente. Houve um tempo em que julho era o tempo dos comboios e suas viagens além do horizonte. Isso foi ontem, porque nos dia de hoje, julho é esse mês de ventos “Lá fora…

Drummond disse:
“O outono é uma estação mais da alma que do coração!”

Eu costumo dizer:
O outono é minha licença poética”.

coisas do blog 105coisas do blog 111

A paisagem lá de fora…

O dia de hoje me mandou lá pra fora. Há dias que meus pés pedem calçadas, ruas, caminhos de pedras e folhas… Gosto do som dos passos por sobre folhas secas; do sabor dos ventos junto as folhas que são lançadas ao ar num vôo sereno e breve… O sol brilha no alto céu, por entre as nuvens, iluminando o verde das montanhas…

O que me leva a entender que não importa o que diz o calendário, para os meus olhos, corpo e alma é Outono por aqui e de certo é outono em algum outro lugar também…

Houve uma época em minha vida que eu simplesmente decidi ignorar os anos, os dias, as estações, as fases da lua… Afinal, porque tenho que limitar minha existência aos ritmos impostos por esses tolos humanos que vivem se impondo regras, rótulos e formas estúpidas de rotina…

coisas do blog 124coisas do blog 125

Sensações de outono pelo caminho…

Desde então sou mais feliz (muito mais) porque com isso, descobri minhas próprias estações, fases, dias, horas. Sei do sol e sua marcha pelo céu; sei da lua e sua luz que desaparece nas noites mais escuras e mesmo assim continua lá, envolta por suas próprias sombras, feito eu que as vezes me ausento, fujo e me escondo dentro dessas paredes que nem sempre tem janelas e portas… Sei também das folhas secas, verdes, das flores amarelas, vermelhas e principalmente das azuis. Adoro chá de flores azuis. Já experimentou? Sei também dos dias alaranjados e dos dias cinzas que tanto amo, as vezes esses dias (cinzas) se ocupa de dias inteiros, numa sequencia poética que permite a existência das poças pelo caminho…

 

Eu sou isso que vês: uma menina no sótão que gosta de espiar a dança que acontece do lado de fora da pele…

Feliz Natal

Escrevo para mim mesma,
para ouvir minha alma falando
e cantando, às vezes chorando.
Clarice Lispector

image

A rua deslocada da multidão se vê solitária entre sombras e filetes de luz que saltam dos postes acima da minha cabeça. Movimentos limitados. Meu passo vai pelas calçadas, mas bem poderia ir pelo meio da rua. Ouço o seu nome ao longe. Uma ilusão é claro, não passa disso. Quem poderia dizer seu nome no meio da rua? O eco se dissipa e me leva de encontro ao fim da rua onde tudo se precipita. Sombras que dançam juntos as luzes piscantes que celebram o natal.

O cão faz uma pausa. O passo é interrompido, enquanto o olhar se prende as árvores amontoadas ao longo das ruas. Quero falar coisas alheias, de um tempo atrás do tempo. Lembrar de preces meninas. De mesas com olhares conhecidos. Diálogos repetitivos e sorrisos largos. Papel de presente amontoado no canto da sala – e brindes que lembram coisas recentes. A felicidade é essa coisa antiga, quase fora de moda que ninguém quer para si… Nada se paga por ela hoje em dia.

O tempo passa lá fora. A noite vai me levando para dentro de sua metade comum. Tão pouco humana. Voltamos para casa. Somos outros. Lembramos de coisas comuns e a ceia é feita entre um abraço, um beijo e um desejo de boa noite. É noite. Escura e as lembranças adormecem todas com a gente, sem que os outros saibam disso… Enfim, acabou uma vez mais…

Feliz Natal.

 

Na poesia procuro uma casa onde o eco
existe sem o grito que todavia o gera
Gastão Cruz

Junho no Sótão…

O exercício de ler os posts de ontem me permite reviver certas emoções. É como desenhá-las na pele novamente. Sentir o que causou a escrita. Sentir o que causou escrever. É bom sentir as causas e os efeitos das palavras e lá vamos nós para junho e suas “coisas boas de se lembrar”…

image

Depois de ler novamente um antigo post da Borboleta na qual ela falava do avô, viajei através das minhas próprias lembranças. Minha infância se exibiu diante dos meus olhos como se tudo tivesse acontecido no tempo de ontem. Ficou impossível não confundir um pouco da minha história com a dela; mesmo sendo tão diferentes, apresentam lá as suas semelhanças…

Mio nono usava boina e a tirava sempre que entrava em casa, segurando-a com as duas mãos a frente do peito enquanto limpava os pés: um depois do outro, lentamente. Mas quando tinha algo de importante a dizer para a Nona, sapateava ali mesmo no local, junto a porta e o tapete, enquanto amassava a bendita da boina entre as mãos. Ele abaixava a cabeça, olhava pra ela de soslaio e rapidamente a gente tinha que sair da cozinha. Descobri a importância das pressas nessa época. Ficavam lá os dois falando em dialeto pra ter certeza de que ninguém entenderia. Era prosa de adulto, não nos competia. Numa dessas conversas, os dois saíram de preto no final da tarde e só voltaram depois da noite feita, alta, tardia. Tinham ido para um funeral do outro lado da cidade…

Mio nono tinha uma “magrela” (bicicleta) na qual andava pela cidade inteira. A bendita tinha uma daquelas buzinas antigas, feito sino, que tocava pelas ruas a dentro, esquinas a fora. “e lá vai o Domingos com a sua magrela” diziam… As vezes eu ia na garupa dele, feito moleque mesmo, com as pernas abertas, segurando no banco e dizia “voa nono” e ele respondia “mas não sou pássaro bambina”… E eu me perdia em sorrisos demorados, daqueles ruidosos que se prolongam e causam dor no baço… “mas vai nono, voa” e no fim, ele simplesmente dizia “te segura bambina”…

Em casa, ele tinha uma xícara só sua que era para o “café preto” coado na hora. Ele detestava café de minutos. Tinha que ser café de agora. “O único vechio em questa casa sono io” dizia pra minha mamma. Ele chegava, largava a magrela no canto, perto da escada. Falava com as plantas e e batia palmas na porta de entrada (que as vezes era a porta de saída). Dizia ela “ma no tem ninguém in questa casa” e a gente aparecia para o ritual de boas vindas. É claro que sabíamos da presença dele muito antes disso, mas era preciso esperar pelas palmas…

Certa vez me disseram que ele tinha mais de oitenta anos. Eu era menina ainda, quando muito contava até vinte. Dava de ombros pra todos aqueles anos e me ocupava de alisar todas aquelas rugas que ele tinha no rosto e ao fazê-lo, ele parecia recordar a si mesmo, acabava sempre me contando alguma história interessante de seu tempo de moço. Era a sua forma de dizer que cada ruga no rosto era um ano inteiro em sua vida… Eu nunca achei que ele fosse um velho. Porque estava sempre cantando tarantela, pulando feito moleque e perturbando a nona com seus movimentos insanos. O tempo parecia ter feito uma curva e passado bem longe dele… E de certo ficou atrás de uma árvore qualquer espiando sua alegria de bambino recém saído dos cueiros.

Certo dia, depois de um passeio com sua magrela, ele chegou cansado. Sentou-se no banco e foi só então que eu percebi sua idade. Seu corpo começava a dar sinal de cansaço; seu coração já não queria mais saber de pulsar na mesma intensidade de antes e ele me disse “un uomo só é morto quando os olhos fecham e não abre de novo” e voltou a sorrir gostoso.

Acho que eu passei boa parte da minha infância apenas observando aquele homem engraçado, que chacoalhava a barriga quando ria; gostava da casa cheia, mesa no terreiro, música alegre, abraço apertado e beijo na boca.

Eu sei que ele não está mais aqui. Sei? Eu não sei de nada, de coisa alguma; sei o que me disseram; mas há tempos que não dou importância para o que dizem as pessoas. Até porque, enquanto escrevo e revejo todas essas coisas, ele está aqui comigo e parece que é ele dedilhando as teclas do piano e cantando uma de suas canções… E posso bebericar um bom vinho e espiar a mim mesma crescendo pelos cantos da casa. Se prestar bastante atenção, ouço o meu próprio eco

O passar dos dias de Suzana Martins

Eu não sei como as pessoas medem as coisas. E se medem. Eu percebo muitas coisas. Sinto outras tantas. Lembro por exemplo da frase de um livro que li nos últimos dias e que calou forte em mim. Lembro também de alguns personagens que ficaram em mim, fizeram companhia a minha pele nos mais diversos momentos, como Funny de “Mansfield Park” e Eve de “olhos de menina” (isso para citar apenas um ou outro de forma muito superficial. Lembro também de um livro inteiro (um não, vários) mas com toda certeza, “Ratos de Gordon Reece” que foi lido e relido. Saboreado. Ficou comigo pela surpresa dos fatos, pelo inesperado. Por ver duas personagens tão fracas, pequenas, se diminuindo desde a primeira cena, buscando por uma casa isolada de tudo e de todos. Sim, elas eram “ratos” – mas acontece que até mesmo um rato quando acuado ataca. Lembro também da decepção de ler “a menina que conversava com o verão” – não, o livro não é ruim, mas eu esperava muito mais dele. Fiquei com a sensação de que quando poderia ir além, simplesmente não foi, ficou pelo caminho e as respostas apresentadas não causaram nenhum tipo de satisfação… Encontrei livros por acaso nas prateleiras da Mário de Andrade, por acaso nas prateleiras das livrarias, sobre o balcão, a mesa. Nas mãos de outras pessoas no ônibus, no metrô e houve ainda o dia em que encontrei um livro perdido no banco da praça. Tinha dono, mas o nome ficou comigo “coração de tinta”…

alone-cute-diary-girl-green-nature-Favim.com-91678_large 

Um livro: Clarice Fotobiografia, de Nádia Battella Gotlib
Uma música: Someone Like You – Adele
Um filme: Amor à distância

 

Citação: “…Respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse seu único meio de viver.” (Clarice Lispector)

Maio no sótão…

Gosto quando a poesia transborda as segundas aqui no Sótão porque pra mim poesia é segunda pele. É olhar  para dentro. É resposta entregue sem que a pergunta fosse feita. É o vento lá fora. É o vento aqui dentro. É a janela aberta. Porta fechada. Ruga na face. Sorriso nos lábios. Lágrimas nos olhos. Música que se repete no som. Filme antigo revisto milhares de vezes. Poesia é xícara de chá quente. O cachorro dormindo no meio do caminho. O corpo acomodado entre os lençóis. Eu acordada até mais tarde. Eu dormindo pela manhã, depois de ver as cores do dia… É orvalho. Chuva no telhado. Guarda chuva vermelho… Ah! Poesia… Não faltou poesia em 2011 e não há de faltar nunca… Mas é bom perceber que em maio, o post mais lido contou com a presença de Mário de Andrade. Eu sei que ele iria preferir abril, mas eu gosto mesmo é de “sentir maio”…

Mário de Andrade…

clip_image002Imagem. A. Joukowski

 

Louvação da Tarde

Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha do Sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel… quase móvel: é gostoso
Com o papagaio louro do ventinho
Pousado em minha mão, pelas ilhotas
Dos teus perfumes me perder, rolando
Sobre a desabitada rodovia.
Só tu me desagregas, tarde vasta,
da minha trabalheira. Sigo livre,
Deslembrado da vida, lentamente.
Com o pé esquecido do acelerador.
E a maquininha me conduz, perdido
De mim, por entre cafezais coroados,
Enquanto meu olhar maquinalmente
Traduz a língua norte-americana
Dos rastos dos pneumáticos na poeira.
O doce respirar do forde se une
Aos gritos pontiagudos das graúnas
Aplacando meu sangue e meu ofego.
São murmúrios severos, repetidos,
Que me organizam todo o ser vibrante
Num método sadio. Só no exílio
De teu silêncio, os ritmos maquinares
Sinto, metodizando, regulando
O meu corpo. E talvez meu pensamento…

Tarde, recreio do meu dia, é certo
Que só no teu parar se normaliza
A onda de todos os transbordamentos
Da minha vida inquieta e desregrada.
(…)

 

Mário de Andrade, o homem, nasceu Mário Raul de Moraes Andrade, no dia 9 de outubro, filho de Carlos Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade; na Rua Aurora, 320, em São Paulo.  Já o poeta, surgiu para o mundo num estalo, quando escreveu seu primeiro poema em 1904.

Há muito o que falar de Mário de Andrade, tanto do homem, quando do poeta e escritor, que dedicou anos de sua vida a criar um legado cultural para a cidade de São Paulo que era sua pátria, seu país, sua pele e sua alma. Mas eu sempre acho que um artista não se identifica pelas coisas que dizem dele e sim pelas coisas que disse ele, e no caso, todos os escritos deixados por ele diz muito do homem que ele foi.

No caso do poema Louvação da tarde podemos dizer que se trata de uma “metamorfose” – algo que ocorre com todos os artistas, escritores ou não. O poema foi escrito em outubro de 1925 e publicado em 1930 como poema final da série denominada “Tempo da Maria” no livro “Remate de males”. Esse poema representa a passagem da poesia mais exterior dos primeiros tempos de luta modernista para a poesia mais interior.
Mário de Andrade fala do poema numa carta a Manuel Bandeira em 12 de dezembro de 1925. Ele usa o humor em suas linhas para dizer que está fazendo poemas mais difíceis de ler, cujo objetivo seria manifestar um lirismo mais profundo. E é justamente a partir desse poema que a poesia de Mário de Andrade se constrói cada vez mais em torno do próprio eixo do poeta, ou seja, o eu se manifesta de forma mais acentuada. Mário passa a falar de si mesmo.