O ano, os dias e o tempo de Luciana Nepomuceno…

Eu não gosto de observar dias inteiros, paisagens inteiras. Alisar acertos, amarrotar os erros. Me incomodar com coisas passadas. Embora seja alguém feita de lembranças, mas de uma vida inteira. Não de um ano apenas. O ano é vazio, vago. Não me diz nada. As palavras me salvam. Resgatam dentro de um ano a verdade sentida. Mas só terá valor pra mim daqui à tempos. Porque o hoje eu vivo, o amanhã eu desenho. Mas o depois, eu sinto. Porque o depois me leva de volta para o tempo que é meu de fato: o pretérito. Tem gente que chama de passado. Mas isso não me diz nada. Pretérito é coisa envelhecida, esquecida no fundo de uma caixa, um baú guardado no alto do armário. É preciso cadeira, escada para alcançar e junto vem uma porção de coisas amontoadas de qualquer jeito por lá… O ano acaba e o que fica? Sei lá o que fica. Eu lembro de uma música, um livro ou um filme quando muito. Mas isso é tudo… Por isso perguntei a um punhado de amigos o que lembram e as respostas foram chegando aos poucos. Umas mais tímidas, outras assanhadas. Foi bom ver 2011 assim, passando nas páginas, nas melodias, nas telas… Escorreu!

Retrospectivas do Sótão – 2011.

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Eu e o calendário temos pouca intimidade. Conhecidos de elevador, apenas, um bom dia ou boa noite, e seguimos, cada um no seu ritmo. Assim, pouco sei do que acontece a cada dia, a cada mês, a cada ano. Já eu e o tempo temos intimidade, amigos de conversas na varanda, mãos dadas e cumplicidade. É ele que me traz mimos que me acompanham e sobre os quais não discuto procedência ou origem. O livro que tem me acompanhado, que anda na bolsa, que me convoca vez em quando ao mistério, é A Dor, de M. Duras. Não é seu melhor, não é o que mais gosto, mas é o que se faz necessário. Porque aprendo esperas. E mudanças. E a me aceitar em meus desejos, medos e desamores. Fez-me bem. Enquanto debruço-me pra ver luas que se revezam, escuto Maninha, com Miúcha e Chico sendo o que são: fraternos, doces, possíveis. É daquelas canções que doem no oco do peito, que salgam os olhos e secam a boca. Lembra a vulnerabilidade de cada um e a necessidade de encarar o passado. Tenho escutado ainda mais porque as coisas não correm como deveriam. Já se devia, no Brasil, ter aberto os arquivos da ditadura e feito valer o que é certo. Mas tarda. Quando os olhos deixam o céu e pedem enredo, encolho-me no sofá. Esse tem sido um tempo de Davids, evitando os cinemas lotados de dublagens infanto-juvenis, revejo o que me agrada sempre. E sempre me agrada a suave beleza de The Band Wagon (A Roda da Fortuna), um filme que nunca perde a luz. Quando Astaire e Charise passeiam no parque, eu – que nunca consigo definir – sei o que é beleza. E respiro, com forças pra mais. Mais? Um dia, um ano, uma vida. Assim, sigo, meio Alice, com todo o País das Maravilhas como citação pro ano que vem. Mais leveza, cada vez mais leveza.
E pra não esquecer, trago na cabeceira a citação de Oliverio Girondo: “Não me importa uma porra que as mulheres tenham os seios como magnólias ou como figos secos; uma pele de pêssego ou de lixa. Também é indiferente se amanhecem com um hálito afrodisíaco ou um hálito insecticida. Sou perfeitamente capaz de suportar um nariz que arrecadaria o primeiro prémio numa exposição de cenouras; mas, isso sim – e nisso sou irredutível –, não lhes perdoo, sob nenhum pretexto, que não saibam voar.”

4 comments to O ano, os dias e o tempo de Luciana Nepomuceno…

  1. Luna Sanchez disse:

    Eu não sei esperar o ano novo pra reciclar, Lu, nunca aprendi…Faço isso constantemente (com pensamentos, quero dizer) e com mais afinco quando o meu aniversário se aproxima.

    Caso não nos falemos antes, deixo beijo e abraço de feliz Natal, moça querida.

    [Recebeu meu e-mail?]

  2. jamilsp disse:

    olá, menina, estou chegando pela primeira vez no sótão… sob os floquinhos de neve… : )
    abraços,
    jamil

  3. Keila disse:

    Eu gosto de observar, simplesmente observar. Há momentos em que infelizmente não sou capaz de fazê-lo. Há outros em que vivo apenas para isso. E exatamente por esse motivo saio esbarrando em pedras e caminhos, pois meus olhos estão pairando pela paisagem, apreendendo o que encontra-se além.
    Hoje é um desses dias, lá fora não chove, o sol sorri e paulatinamente adentra à manhã. Para não deixá-lo escorrer entre meus dedos, resolvi dispensar a carona e sair andando pelas ruas, resolvi permitir que meus ouvidos deixassem o som de Jeff Buckley alimentar minha alma, resolvi vir aqui, me deliciar como as Lú; uma borboleta e outra menina de um sotão.
    Beijo nas duas,
    K.

  4. Querida amiga

    Hoje minha visita é para agradecer
    o presente que é para mim
    a sua amizade,
    e também desejar
    um maravilhoso Natal,
    onde possas encontrar nestes dias
    ainda mais inspiração
    para a alegria de ser feliz,
    e para o milagre de fazer
    quem passa por tua vida feliz.

    Que o teu olhar seja a mais perfeita
    luz do Natal a enfeitar o mundo.

Seja como o vento, cause tumulto em minhas cortinas e deixe um rastro para que eu possa te alcançar...

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