Eu ainda escrevo diários #4

100_2594Fotografia. Lis Costa  – “por cima dos telhados vermelhos

“Uma vida sem sustos. É o que desejo pra mim.
Não estou dizendo uma vida sem decepções,
frustrações ou êxtases: sem sustos apenas.
Quero aceitar a potência dos meus sentimentos
e não ficar embaraçada diante de reações incomuns.
Poder receber uma ventania de pé,
mesmo que ela me desloque de onde eu estava.
De pé, mesmo com medo.”

(Martha Medeiros)

25 DE MAIO – a tarde se desenha lá fora. O silêncio é meu desejo único nesse momento. Quero uma casa vazia. Uma paisagem de nuvens. Um lugar que não se encontre no mapa. Uma estrada de terra. Uma rede entre árvores…

Quero escrever maio. Apenas maio. Fazer uma pausa. Não deixar correr os dias. Ler todos os livros novamente. Fazer anotações perdidas. Ouvir a mesma canção milhares de vezes. Sair para caminhar e sentir a textura junto aos meus pés: pedras, folhas, galhos. Me unir as nuvens. Grudar minhas impressões nas árvores. Mergulhar em lagos de águas limpas… Voltar para casa, com as mãos nos bolsos e ilusões a escorrer da pele. Escrever até não restar mais nada – apenas a exaustão de quem se sabe nas palavras e não na vida… Ser essa coisa sem sentido. Perdida. Iludida. Confusa. Incompreendida…

Aquecer a água. Macerar ervas colhidas há pouco lá fora: hortelã, gengibre, gotas de limão, cascas de maçã, cidreira. Sentir o cheiro grudado nas mãos. Forrar o chão com uma manta. Acumular almofadas e voltar o calendário para os primeiros dias de maio… Tudo de novo. Ouvir a água apitar. Encher a xícara. Detê-las entre as mãos e sentir os aromas (tudo misturado). Coisas inteiras na lembrança. Sentir novamente até esgotar a saudade do abraço. Ouvir novamente as poesias na voz daquela mulher que ainda se senta na escada e me convida para seu ritual de espera. Vamos nos olhar e perceber os ponteiros se mover lentamente. Então vamos correr para junto daquele homem de braços abertos para nós. Jujubas vermelhas pra mim. Beijos apaixonados pra ela. Ouvir ao fundo os mitos e lendas narrado com a intensidade de alguém que sabe mais dos dias passados e se prende a eles porque sabe bem o valor de uma saudade. Observar suas rugas e sorrir por saber que ela sabe o segredo de se libertar do tempo… Ouvir o eco das risadas amigas pela casa. Sentir o vento da correria das pernas daquelas crianças que se sabiam, se conheciam e juravam que jamais iriam crescer. Cumpriram suas promessas, eu sei, cada um a sua maneira. Sentir saudades espaçadas, caprichadas e depois deitar minha cabeça no colo do “meu homem” aquele que se foi e talvez nem saiba ter ido.  Tudo isso sem um só movimento do corpo. Tudo dentro, da pele, da alma. Apenas sensação de coisas voltando a viver, dentro dos dias de maio… Um organismo, uma célula, em constante movimento para não perder substancia, sentido e densidade.

E saber que é impossível parar o tempo. É preciso deixar correr e trocar, dentro de alguns dias, a folha do calendário. Será “giugno” e os sabores serão outros. Não mais outono. Não mais “maggio” e suas sensações inteiras de temperos, ingredientes, xícaras de chá e taças de vinho. Livros abertos. Linhas preenchidas. Serão dias de inverno que não me alcançam porque levam-me de encontro aos dias de férias. Verão. Até ouço o apito do trem e me percebo junto a estação. 

Nota. Eu já disse isso antes, mas é porque sigo acreditando que será preciso outra vida para me libertar de certas coisas…

Promoção no sótão

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

Poema Passagem das Horas – Álvaro de Campos

IMG_0290IMG_0291
Caderno Fernando Pessoa da Saraiva
160 páginas – 11 x 18 cm.

Pra concorrer é bem simples, deixe aí no comentário o seu poema favorito de Fernando Pessoa – que pode ser de Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro ou do próprio pessoa. A promoção vai até as 18 horinhas de hoje.

Eu vou escolher aquele que eu mais gostar dentre todos.
Não sou legal? Ok. Não diga o que você pensou…

Lendo Caio Fernando Abreu

Caio F.Dias atrás alguém me enviou um e-mail dizendo que “se eu conhecesse de fato Caio Fernando Abreu não o leria, tão pouco o citaria”. Já estava lendo “triângulo das águas” – “limite branco” e “fragmentos” do autor. Há tempos não o lia porque não suporto modismos e a internet fez de Caio Fernando Abreu uma espécie de vírus, com dúzias de citações atribuídas ao autor.

Tinha lido “limite branco” em 2003 – foi quando eu o (re) descobri enquanto autor, mas confesso que nunca fui atrás do homem Caio Fernando Abreu porque pra mim, as biografias são na verdade uma espécie de mapa, obrigando-nos a certas direções.

O homem por trás do autor não me interessa. Não sei seus caminhos. Seus passos. Não tomo para mim suas direções. O que me interessa é o autor. A figura emblemática que olha para o mundo em busca de si mesmo e acaba por descobrir-se no outro, um personagem que surge sem que ele procure por isso.caiofernandessite

Enfim, fico eu com suas palavras “queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi”.

O livro “Fragmentos” da LPM reúne contos de Caio Fernando Abreu, os primeiros são excelentes. Te levam para dentro da história. “Os sapatinhos vermelhos” é de longe o melhor conto do livro e sem dúvida alguma, um dos melhores de Caio. Adoro a narrativa que nos leva de encontro a uma mulher que se transforma ao calçar aqueles belos sapatos vermelhos.

“Segunda-feira no escritório, quando a viram caminhando com dificuldade, cabelos presos, vestida de marrom, gola fechada, e quiseram saber o que era – um sapato novo, ela explicou muito simples, apertado demais, não é nada. Voltavam a doer, os ferimentos, quando ameaçava chuva. E ao abrir a terceira gaveta do armário para ver o papel de seda azul-clarinho guardando os sapatos, sentia um leve estremecimento. Tentava – tentava mesmo? – não ceder. Mas quase sempre o impulso de calçá-los era mais forte. Porque afinal, dizia-se, como num conto de Sonia Coutinho, há tantas sextas-feiras, tantos luminosos de néon, tantos rapazes solitários e gostosos perdidos nesta cidade suja. Só pensou em jogá-los for quando as varizes começaram a engrossar, escalando as coxas, e o médico então apalpou-a nas virilhas e depois avisou quê”… pág. 30

Os contos seguem, alguns são mais interessantes que outro. Como a vida, que as vezes nos manda vestir bons e maus momentos. A gente traga tudo como se fosse um cigarro velho, encontrado no bolso da calça, todo amassado…

Nota. Antes que alguém pergunte, eu não fumo. Mas as vezes, quando eu escrevo, elevo meus dois dedos ao ar e sinto como se houvesse um cigarro por lá. Até repito o gesto conhecido. Levando o cigarro imaginário até a boca. Tragando a fumaça e soltando-a em seguida. Não, eu nunca quis fumar… (risos)

Já “limite branco” é um livro sobre um jovem amedrontado. Que tem tanto medo de crescer quando de existir. Os diários do personagem no livro são sem dúvida alguma a parte mais interessante, porque é exatamente quando ele dialoga com o leitor e impõe a ele o seu ritmo de jovem com medo do próprio destino – de fazer a escolha errada e não ser aquilo que dele esperam…

Deixei por último “triângulo das águas” porque é o meu favorito. É uma leitura contínua. E  por isso, deixo aqui um trecho que em muito se assemelha comigo. Já cheguei a escrever em tempos outros sobre as xícaras que adquiri ao longo dos anos e o simbolismo dela pra mim, mas jamais, até ler esse livro, encontrei uma definição tão perfeita quando ao tema.

“Eu acompanhava com a cabeça a música vinda da sala, ao mesmo tempo em que esmagava as ervas para jogá-las dentro do bule. Esperando a água chiar, determinava com cuidado, e para sempre, a cor da xícara de cada um de nós, colocando-as em círculo ao redor do bule.
Escolhi a vermelha para Arthur, que dá ordens, prega pregos, corta fios e sem parar faz coisas pela casa. Separei a azul celeste para Isis, azul no tom exato de sua voz aguda quando canta, cristal retinindo na luz. Determinei que a verde mais clara pertenceria a Júlio, que se enreda em palavras, movimentos, e me parece – pelo menos agora, em plena noite – que o movimento tem exatamente essa cor, sobretudo às três horas das tardes de sol quente. Hesitei um pouco até encontrar minha própria cor, mas acabei escolhendo o branco, não só porque assim me visto sempre, mas também porque é meu ofício fazer coisas brancas, preparar os chás, assar os pães, lavar a louça. Para Ricardo, cujos cabelos claros às vezes brilham, ouro, com uma inspiração separei certeiro a amarela. Não tive dúvidas ao destinar a Martha, que tira a poeira da casa e lava o chão, a xícara verde escuro. Para Linda, por sua dança de meneios harmoniosos, mansa curvaturas, separei a cor-de-rosa”.(…) págs. 20 e 21

Antes de encerrar, um aviso, eu continuo não sabendo “Caio Fernando Abreu”. O homem pra mim é apenas uma figura pálida, ora de óculos, ora sem óculos. Ora cabisbaixo. Isolado. Perdido. Debruçado sobre sua velha máquina de escrever. É isso. No mais é pura geografia descartada como se nada fosse. Então, é pouco provável que eu deixe de ler ou citar Caio nos dias que seguem meus passos…

Para saber mais sobre Caio, clique aqui

Missivas noturnas #9

São Paulo, 15 de maio de 2012…

janelas noturnas

Caríssima Alessandra,

Vejo janelas acesas ao longo da rua escura. É tarde demais para alguns, mas já é muito cedo para outros. Não sei se de fato estou desperta – sei que sinto meu pulsar. Minha mente caminha ao longo da cumprida alameda de árvores em fila. Não as vejo, dado a escuridão, mas sei de seus contornos porque já os decorei… Letreiros de loja ajudam a desnudar a madrugada que caminha lentamente para aquilo que aprendi a chamar de “fim”. Não é seu fim, visto que retornará mais tarde, quando as horas em pares completarem seus ciclos… Enfim, leio suas linhas, que chegaram até mim num envelope roxo com selos curiosos e uma caligrafia arredonda. O envelope atravessou a porta num movimento rápido, seguro. Atravessou a superfície, sendo empurrado – por uma “mão imaginária”. Lembrei-me dos tempos de espera em que meus olhos sempre se punham por entre as cortinas para espiar a caixa de correspondência vermelha. Sempre que voltava das ruas tinha algo para mim… Foi assim durante anos inteiros. Agora, o movimento é outro, a porta fechada e alguém que empurra por baixo o envelope que vem ao meu encontro. Os dias são outros, os movimentos também…

Lembrei-me de você na semana que passou, estava a ler algumas coisas minhas (antigas) e lá estavam palavras de um tempo onde tudo é para fora – ainda estava aprendendo a entender o outro enquanto personagem. Ainda estava entendendo a mim mesma enquanto figura humana. Fazia dúzias de rascunhos, abandonando-os em seguida. Não chegava ao fim de nada porque tal e qual Pessoa considerava um sofrimento finalizar as coisas. Então as deixava por lá. Comecei dúzias de vezes um diário, esquecendo-os pelos cantos por onde passava. Não voltava a ele durante dias e quando me lembrava dele, sorria com o sabor dos dias esquecidos. Nada tinha de fato para dizer a ele. Não me arrependo de não ter contado os meus dias, porque os lembro. Minha memória é algo estranho. Lembro-me de coisas impossíveis. Estão lá em algum canto de mim e de repente, como um vento afoito, uma tempestade que não se anuncia (embora sempre se sinta) se aproximasse pelos flancos e pronto: fizesse chover momentos inteiros. Um relâmpago. Um trovão. Essa semana lembrei-me de meu avô – o negro. O homem. Um possível herói. Uma pessoa comum, que aprendeu a escrever depois dos trinta e que se divertia com os versos que chegavam aos seus olhos. Como adorava poesia aquele velho homem do qual nunca soube de fato a idade até morrer. E quando morreu, perdeu-se do tempo, afinal, ninguém contaria mais os seus anos. Ele tinha quase noventa anos me disse alguém (não lembro quem, embora lembre os contornos daquela figura que tinha voz aveludada, macia, calma, mansa e parecia lamentar aquela perda). Ele se foi, era junho quando isso aconteceu, mas me lembrei de tudo isso em maio… Porque maio me empurra para dentro, não permite que eu fique a deriva e mesmo saindo para as ruas, me encolho por inteira. Acomodo as mãos dentro do bolso. Olho para o chão ao invés de olhar para frente e nada sei eu dos dias e suas horas cansativas. Sei eu da noite e das janelas que se acendem lá fora. Sei eu das muitas janelas acesas. Umas assim estão por medo, outras por vontade própria – uma ou outra por felicidade de saber a noite… A minha é uma dessas. Eu sei a noite e também que é maio…

E sei de ti que me falou de seus dias numa missiva com sabor de diário escrito na mesa da cozinha com uma xícara de café (cheirando gostoso e forte) numa casa escura onde o silêncio se aconchega. Ao longe um cão late e o guarda da rua apita para espantar sabe-se lá o que… Esta para amanhecer e os movimentos finalmente começam. São poucos. Mas servem para anunciar qualquer coisa de dia. Os passos curtos vasculham os cômodos da casa, reconhecendo-os. Percebendo-os e de repente o dia salta para dentro da casa pelos vidros das portas e janelas. Não sei o que fazes nessa hora, mas eu sei o que faria. Iria para a rua, espiar por cima do portão e do muro (na casa do mio nono, o portão era baixo e o muro também) ficava lá por alguns minutos, sentindo aquela brisa da manhã, mais úmida, mais fria. Tão gostosa. Purificadora. E fechava os olhos para sentir o carinho do sol na minha face. Lembrava músicas minhas e depois, bebia água e seguia para a cama. Sempre fui dessas que dormem cedo (risos). Afinal, seis horas – seis e meia é cedo pra muita gente, não é mesmo?

Meu carinho a você e durma bem, sabendo que suas palavras foram muito bem vindas junto a mim… Ah! Meu dia está longe de despertar, mas as coisas seguem saltando para dentro de mim. Se aconchegando. Se arrumando como se estivessem um pouco fora de lugar, porque afinal, é maio…

 

Lunna

Eu ainda escrevo diários #3

image

se tu deslizasses os dedos por este texto, sentirias a textura de nossa pele.
escritura. a pele é que diz tudo, o avesso das coisas, os olhares e as mudanças.
- com ondjaki.

A vida é essa coisa engraçada, tem dias em que você não quer a companhia dos outros. Quer apenas a si mesma. Difícil explicar isso àqueles que insistem em habitar sua existência com frases, sons, movimentos diversos. Tudo que você deseja é que se faça silêncio. Que o mundo se ausente e que absolutamente tudo desapareça…

Enfim, mas não é fácil estar sozinha. Não é fácil ficar do lado dentro e não sair desse ninho. Não é fácil proteger-se. Manter-se a salvo. Manter intacto esse mundo que ninguém consegue tocar além de você mesmo. Preservar-se. Não se deixar extinguir… Não perder o momento. Eternizá-lo… Acho que por isso, escrevo. É uma esperança vã de solidão. Não sei, talvez seja bobagem isso que estou dizendo…

No começo eu só queria ouvir uma velha canção, mas depois só queria ouvir o som do meu coração se precipitando dentro do peito. Pulsando seus ritmos inquietos. Não queria deixar entrar luz. Não queria abrir os olhos e queria que o teclado fosse capaz de captar o meu sentir sem qualquer movimento dos meus dedos. Respirei fundo dúzias de vezes e me vi em outras paisagens inúmeras vezes. Mas por mais que tenha tentado me trancar junto a esse conjunto de ilusões, voltei de lá muitas vezes, obrigada que fui pelos movimentos que insistiam a minha volta. 

Passavam das cinco, ainda era tarde, ainda era sexta-feira e eu finalmente desisti. Fiquei apenas com a lembrança daqueles olhos negros, atentos e o aceno do lenço branco na plataforma da estação. Fiquei também com a sensação do último sonho onde nós dois, no alto do mundo observávamos a cidade e seus muitos telhados vermelhos.

Quando eu nasci, meu avô já tinha mais de setenta anos. Então é certo dizer que eu acompanhei uma pequena parte de sua “velhice”. Vi sua pele ganhar rugas, seu corpo fraquejar diante da doença que fez dele uma espécie de “resto de homem”. Vi sua voz perder a força. Seus músculos fraquejarem e acompanhei de perto a parte mais difícil de sua vida. Ele passou a depender dos outros para tudo e eu colhi muitas vezes o seu lamento. Não era fácil… Ele não conseguia mais descer as escadas para ir a sua biblioteca e tão pouco conseguia caminhar pela cidade como tanto gostava. Ficou impossível segurar os livros para ler e a caneta para escrever… Não conseguia mais vestir-se como tanto gostava e fazer a barba também não foi mais possível porque a pele tornou-se frágil e ganhou um cheiro forte porque os banhos não conseguiam compensar o estrago dos remédios. Ele passou a precisar de fraldas, sondas, e uma enfermeira. Os herdeiros do homem contavam os dias para a sua morte, mas ele não se rendia. Ano após ano, resistia. Não sei com que força… Mas sobrevivia.

Eu não sou uma pessoa de heróis, mas se me pedissem para escolher um herói para os meus dias, seria fácil. Seria o meu avô Américo que coloriu os meus dias de menina com sua simplicidade.

Não sei como ele veio para junto de mim no meio da tarde de hoje, mas sei que veio e eu senti seu abraço apertado e até acenei pra ele de dentro do trem e fui com ele em seu velho carro barulhento até em casa e lá contamos nossas alegrias e tristezas vividas ao longo dos dias até o nosso reencontro porque era assim que fazíamos…

E agora que a noite se desenha lá fora, as janelas se acendem e os sons aqui dentro aumentam, recolho minhas lembranças para dentro e fecho a tampa para não deixar nada escapar… Algumas coisas estão a salvo e eu acho que eu também!

(…)Às vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles

Missivas noturnas #8

São Paulo, 05 de maio…

lendo ao cair da tarde

Caríssima Suzana,

Ainda tenho em mim as tuas palavras, lidas na madrugada alta – logo depois da primeira hora. Aqui é quase noite uma vez mais. Entardece. Gosto do som dessa palavra que só não é melhor que crepúsculo. Mas acho que os efeitos em mim são os mesmos. Ouço Led Zepelim e sua melodia branda (Stairway To Heaven). Meu corpo inteiro se perde ali naqueles acordes. Respiro fundo e lembro-me de montanhas que em outrora me pertenciam e hoje são apenas lembranças. Mas vejo as nuvens passeando por cima do verde e o mar por entre, depois, antes. As gaivotas voando alto. Ouço seus sons e percebo que minha felicidade vem vindo. Estar dentro da noite é se feliz…

Pensei em escrever essas linhas em folhas de amarelecido tom, mas pensei na angústia que me causa os correios, então me voltei pra cá onde tudo é ágil e tem o tempo de uma vírgula. Uma frase entrecortada por uma vírgula, para mim, tem um colorido curioso. Gosto daquela possibilidade de pausa. Respiração curta. Sorriso por existir. Olhar por ser… Tudo figura que a minha mente desenha…

Não são nem cinco horas, mas a tarde envelhece mais rápido em maio. Lá se vão cinco dias. Daqui a pouco direi seis. Os dias de maio são assim. Não são tão ágeis, mas passam… Um depois do outro. Em filas. Acho que durmo menos para saborear mais os sabores que me chegam. Sua missiva, por exemplo, que trouxe sons e sabores de uma infância tão parecida com a minha, e que, no entanto, tem suas diferenças obvias. Não tinha praia onde passava minhas férias. O mar era verde, outro. Parreiras de uvas adocicadas. Saborosas. Era preciso olhar para cima e nem saltando eu as alcançava no ponto mais alto. Alcançava-as mais embaixo. Gostava de vê-las. Sabê-las. Gostava de tocar aquela superfície fina, esverdeada que em poucos dias mudava de cor… Sempre gostei muito mais do vinho das uvas verdes. Branco. Suave. Sentia o gosto da uva junto aos outros componentes do vinho. Segredos da nona. Pisávamos uvas em cantilena. Não podia ser diferente. Era nosso ritual – cantar para separar as uvas das cascas, das sementes. As mais velhas seguravam as saias, nós crianças, suspendíamos as barras das “calçolas”.

Enfim, essa tarde antiga, veio para mim agora, ao repassar suas linhas. Ao “te ouvir” falar da casa cheia, alugada na praia. Nunca gostei de praia. Mas gosto de observar as ondas, vindo de encontro a areia.

Fiquei feliz por saber-te imersa novamente em vontades. Fui revirar meus arquivos com o teu nome e lá estavam “missivas de maio”. Não as contei – mas eram várias. Não quis ler agora para não misturar “conversas inteiras” – tenho facilidade para me prender aos pretéritos. Perder-me. Deves ter percebido isso… Não sou uma pessoa de presentes. Gosto do ontem porque já o sei, já o domei – já o tenho em mim. Vou vivendo o presente com o sabor de quem poderá reter tudo em mim, dentro. O futuro não me importa. Não penso amanhã. Não deixo para amanhã. Talvez por isso fique acordada até mais tarde. Duas, três, quatro horas. Com a chama da vela ardendo no canto e o incenso perfumando meu sentir. A xícara (azul) esvaziou-se há pouco – mate com rodelas de lima. Há algumas coisas que chegam junto com a estação, outras com o mês. Não bebo cervejas – e nos últimos dias não posso saborear o vinho graças ao anti-inflamatório que estou tomando. É coisa pouco comum – não gosto de medicamentos (fossem bons, não seriam drogas) e não misturo com bebidas com teor alcoólico. Enfim, são essas manias muitas que tenho… Tal e qual, ler dúzias de livros, todos ao mesmo tempo. Por isso tenho birra com livros sem capítulos. Não posso interromper a leitura para ir lá pra fora com o cão ou me largar no sofá em diálogos contínuos com “mio amore” ou ir para a cozinha misturar ingredientes: hoje estou com vontade de panquecas com queijo e molho de ervas…

Antes de ir, preciso lhe dizer que um sorriso tomou conta de meus lábios quando meus olhos percorreram suas últimas linhas. Perguntavas acerca do último buquê de flores e foi algo engraçado porque ao sair com o cão na noite de ontem, seguindo as ruas que levam sempre aos mesmos lugares – ocupava-me de perceber a arquitetura de um punhado de casas que resistem ainda. São velhas. Graciosas. Uma ou outra estão escondidas pelo verde que cresce por todos os lados. Há uma migalha de luz de janelas fechadas que revela a existência de humanos por lá e caminhos sem pistas ou pegadas… Enfim, de repente, esbarrei nessa árvore que não queria saber do outono. Estava florida, com seus tons mais claros e escuros. Um roxo agradável (levando em consideração que não gosto muito dessa cor – ela pouco me diz, assim como o lilás e o dourado – não gosto e não há razão alguma para isso. É um simples não gostar). Pois bem, lá estavam as flores abertas. Algumas fechadas. Outras se abrindo e algumas por cair. O chão estava forrado e eu não resisti. Fiquei na ponta dos pés (como no tempo da infância) equilibrando-me para frente e para trás e pronto. Um pequeno galho repleto de flores veio comigo e agora sorri ali no vaso… Sorrisos de maio – mas não são para mim…

bacio!

Lunna

Sim, eu ainda escrevo diários #2

Exatamente como a vida escreve suas estações…

fim de tarde...

(…) e deixamos de confiar no poema / no poeta / na metáfora e em todas as mentiras / neste equinócio / com pronúncia de outono / e voz de setembro esquecido / de repente parece que o mundo murchou / para os que amam por acaso / nestes dias lentos.
(…)
Um poema, de Jorge Pimenta para setembro,
que eu tomo a liberdade de introduzir aos meus dias de maio

04 DE MAIO – O que posso eu dizer? Eu ainda me sento aqui, nessa última hora antes do fim. Nessa última hora antes da próxima. A primeira. Respiro fundo. Fecho os olhos por um segundo. Seleciono a música e percebo o dia que passou por mim. Vejo o que fiz. Sinto o que deixei. Dou de ombros. Respiro fundo novamente. Lembro-me das linhas dos livros lidos. Tantas palavras. A maioria delas ficou em mim… Lembro que no meio da tarde visitei outros cenários (antigos) por onde passei em tempos idos. Revejo a casa branca (um sobrado no meio da cidade) com suas janelas e portas azuis. Lembro-me do sonho interrompido. Dos projetos dos quais abri mãos. Lembro-me dos erros cometidos ao longo dos dias. São muitos, mas é uma lembrança rápida porque a noite lá fora vive e me chama. As horas passam em pares aqui dentro. Está quente (muitos dirão que não), mas eu sinto tudo arder aqui dentro. É um calor que faz tudo trepidar… Saudades crescentes (assim com a lua). Quero fazer arder à chama da vela, queimar o incenso, apreciar as labaredas dentro do meu caldeirão (para aqueles que não entendem como eu me autodenomino uma Bruxa – pensem no seguinte, eu não dou a mínima para rótulos, mas gosto da força dessa palavra e do constrangimento que causa em algumas pessoas). Eu tenho sonhos (muitos) dias desses sonhei com uma casa antiga, distante, no meio do nada. Eu estava sentada nos degraus que davam para esse quintal sem muros e para essa cozinha com mesa retangular e quatro cadeiras. Uma menina (mulher) estendia roupas no varal. Eram dois ou três. Não sei. Só sei que o sol foi chegando, com seus raios brandos, mansos. Agradáveis. E de repente as roupas já estavam estendidas e o vento, arteiro, tocava-as como carícias de pré-amor. Eu tinha um livro em mãos (não lembro qual) sei que deixei de lado o livro para apreciar aquela cena. Coisa dos dias de minha infância. Coisas minhas. Antigas. Saudades…
Eu tenho presságios também. Sinto coisas antes de acontecerem. Às vezes fecho os olhos e torço para estar errada. Já aprendi com os dias que não adianta – mas insisto. Não sei a quem quero vencer por cansaço. Mas aprendi a não dizer às pessoas o que vai acontecer a elas. Da pior maneira possível. Fechar os olhos não é fácil. Dói. Rasga ao meio. Pior mesmo é olhar nos olhos e saber alguém mais que suas palavras. Saber verdades. Saber mentiras. Saber tudo e nada.
Aprendi a ser mais para mim que para os outros. Aprendi que o silêncio põe fim ao barulho alheio e por fim, aprendi que fechar os olhos e respirar fundo é o mesmo que virar uma página.
Aprendi a ser sozinha, sombra que ninguém nota. Chuva no começo da manhã. Vento no fim de tarde. Crepúsculo e aurora. Madrugada alta. E por aqui, passados alguns minutos da última hora, sou eu mesma, em palavras que às vezes falam de mim, as vezes falam de personagens e muita gente não sabe distinguir quem é que vai nas linhas que se seguem…Poucas pessoas entenderam meus argumentos até hoje, mas já faz algum tempo que eu deixei de me preocupar com isso…

(…)
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão às medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre, se ainda recordas

Cecília Meireles, em Solombra, pág. 794

Os livros para maio…

Chegou maio…

E com ele os dias mais cursos, com suas nuvens acinzentadas, suas tardes lentas. A pressa se esvaí… Tudo se acumula do lado certo: o lado de dentro. Os livros formam pilhas ao lado da cama, junto ao velho baú que recebe missivas mais longas, e envelopes coloridos… Acumulam-se também as xícaras de chá. As taças de vinho e as canecas com chocolate… E para os dias de maio eu escolhi alguns livros novos, outros antigos (já lidos dúzias de vezes) porque Maio me pede para sentir o calor da minha existência e ela é regada a muitas páginas de livros…

livros para maio

1 – Anna Kariênina – Liev Tosltói
2 – Mansfield Park – Jane Austen
3 – Desfiz 75 anos – Rubem Alves
4 – O Caderno de Maya- Isabel Allende
5 – Loucas Noites – Wild Nights -Emily Dickinson – Trad. Isa Mara Lando
6 – Sociedade literária e a torta de casca de batata – Mary Ann Shaffer e Annie Barrows
7 – Viagem ao Scriptorium – Paul Auster
8 – Limite Branco – Caio Fernando Abreu
9 –Mrs. Dalloway – Virginia Woolf
10 – Poesia – T.S.Eliot
11 – Diários não Expurgados 1934/1937 (Fogo ) – Anais Nin
12 – Fragmentos – Caio Fernando Abreu

E antes que alguém se atreva a fazer “novamente” essa pergunta: sim, eu vou ler todos eles… (risos) – já comecei (re)  lendo “limite branco, fragmentos e viagem ao scriptorium”. Desfiz 75 anos já foi lido por mim há poucos meses, mas resolvi ler novamente – os dias de maio pedem por isso.
Poemas são leituras rotineiras, feita por mim a qualquer hora do dia, levo-os comigo, na bolsa, na mão, para a escada, cozinha, varanda…
Claro, já li Mansfield Park (sempre que chega o outono, Jane Austen chama por mim – mas dessa vez não quis voltar a Orgulho e Preconceito em maio, então mudei, ficará para junho…) – Mrs. Dalloway também já lido, saltou para cima de mim nos dias de maio depois de um diálogo sobre o livro com a Suzana Guimarães. Me dei conta que o tinha lido quando tinha uns treze anos – logo, é tempo de reencontro, até porque será a primeira vez a ler em português – tradução de Mário Quintana. E Sociedade literária e a torta de casca de batata me pede uma segunda leitura…

Enfim, os meus dias de maio terão suas muitas páginas para serem viradas…

Maio é o mês das trovoadas #1

image

Há tempos eu sei disso. Basta olhar para o cinza por cima dos prédios. Logo pela manhã, tudo escuro, ouvir o grito das nuvens. Veio o sol depois – mas o cinza prevaleceu. De repente, escureceu novamente e o soluçar das nuvens se fez ouvir, num tom mais alto, agudo, fez tremer as paredes, o chão… Porque maio é o mês das trovoadas… E para se ter certeza plena desse fato incontestável, basta olhar para dentro!!!

És um rei. Vive só. Escolhe um caminho livre
E segue por onde te levar tua mente livre;
Aperfeiçoa os frutos das ideias que te são caras,
Sem nada esperar por teus nobres feitos.
Em ti estão as recompensas. De ti és o juiz supremo.
Ninguém, com mais rigor, julgará tua obra.
Judicioso artista, isso te apraz?
Alexander Pushkin

Missivas noturnas #7

É noite lá fora… É maio aqui dentro!

image
Olá meu caro, onde andas tu?

Eu sei, com as estrelas a obervar-me do alto, por entre as nuvens, por cima dos telhados vermelhos e por entre as árvores da alameda que se exibe em linha e que estão mais verdes que antes porque é maio e finalmente posso dizer que é outono por aqui . Saudades crescentes de ti, viu?

[...] O mundo, para ele, se encolheu até ficar do tamanho de sua sala e, durante o tempo que for necessário para que ele venha a compreender isso, precisa ficar onde está. Só uma coisa é certa: não pode estar em nenhum outro lugar, seria absurdo para ele pensar em procurar um outro. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Estou aqui, a lembrar dos nossos dias de infância. Lembra-te? Eu era a menina mais nova a quem todos davam as mãos e levava por aí, com os pés libertos do chão. Acho que eu aprendi a voar nas mãos de vocês. Tinha a confiança de quem amava por sabê-los. Eu o sabia? Depois de tantas confissões é certo dizer que sim, não acha?

Oh, I’ve got lightning in my veins
Shifting like the handle of a slot machine
Love may still exist in another place
I’m just yanking back the handle, no expression on my face

É maio meu caro. O primeiro dia ao pouco se extingue. Virão outros. Trinta dias – porque maio tem sabor, aroma e muitas outras coisas mais… Lembra-te das brincadeiras de primeiro de maio? Eu as tenho em mim – como se fosse ontem. Começava cedo, a andar pelas ruas, ladeira abaixo, até o bosque – por entre as pedras rumo ao mar. Sua mão sempre junto a minha com a preocupação de quem não quer que o outro se perca. Colhíamos pedras e gravetos, folhas e sementes. Sentíamos o cheiro da paisagem morna. Percebendo-nos. Brincávamos de roda. Éramos incansáveis. Só vocês conseguiam me fazer ser criança de fato. Escalávamos árvores com facilidade e lá de cima gritávamos “homem a vista”. Caiamos numa gargalhada incomum que imitava o som das gaivotas. Lembra-te?

O vento cortas os seres pelo meio,
Só um desejo de nitidez ampara o mundo…
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.
(…) Mário de Andrade, Momento (abril de 1937)

Voltávamos para casa cantando. Quase sempre tu me levavas em teus ombros, olhando tudo por cima… Ninguém entendia aquela combinação de alegria e felicidade. Eu era tão pequena. Vocês já eram uma promessa de adultos. Esperavam tanto de vocês e tão pouco de mim. Eu era a menina que fazia vocês ouvir poesias. Lembra-te? Eu os obrigava a ir mais devagar. A T. certa vez, numa tarde de maio – anos mais tarde, diante da lareira, bebendo vinho, já mais velhas (embora eu seja sempre a mais nova) me confidenciou “você não nos deixou envelhecer, nos salvou dessa coisa de idade – foi depois de você que eu deixei de apagar velas” e ficamos lá, em suspenso revendo as coisas que aprendemos uns com os outros. Tanta coisa. É preciso respirar fundo, sorrir e se deixar conduzir pela mão dessas lembranças.

(…)uma sensação de portas que se fecham, de fechaduras que se trancam. É uma estação hermética, um longo momento de introspecção. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Sabe meu caro? Elas ainda estão por aqui, vivendo suas vidas – assim como eu também estou, vivendo o que tenho pra viver, mas confesso que tenho medo – nos vemos cada vez menos. Nos sabemos cada vez menos. Não temos tempo (é a nossa desculpa comum). Depois que você se foi tem sido assim. Nos falamos as vezes, nos escrevemos raramente. Mas as presenças estão escassas. E não sei se nos importamos. Foi assim quando o nono nos deixou. Lembra-te? A maioria de nós se perderam. Ele mantinha todos num laço, desfeito pela morte. Nós não e prometemos a você jamais deixar acontecer. Mas você não está mais aqui para nos cobrar a promessa feita. Você nos matinha atreladas – e agora que se foi, somos o que somos. Pessoas espaçadas, sem a preocupação da presença. Sem a preocupação de sentar-se a mesa, de misturar ingredientes, de ouvir as bobagens de sempre, de rir dos nossos inconvenientes, de nos esquecer das horas, de gargalhar com o som do carrilhão lá na sala. Ele ainda badala suas horas (eu ainda ouço seu eco direto dos meus pretéritos) mas é fato que não há mais ninguém para ouví-lo. Tão pouco para assustar-se com ele…

(…) Tenho de inventar a estrada a cada passo e isso significa que nunca posso ter certeza de onde me encontro. Uma sensação de andar em círculos, de sempre voltar atrás pelo mesmo caminho, de partir em várias direções ao mesmo tempo. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Maio chegou e nenhuma de nós se ocupou de pensar naquela cozinha, de ir até lá para ferver a água, espalhar xícaras pela mesa – para lembrar nossas coisas agradáveis, comuns a todas nós. Elas estão por aí… E eu estou por aqui (com a distancia de um oceano inteiro) com a lembrança que chegou até mim nesse fim de tarde. É maio, disse-me ao sentar-me aqui, como forma de me fazer entender o sentido – repito diversas vezes para ver se algo munda aqui dentro. Comecei ouvindo sua canção. Aquela que te fazia cantar feito um louco na cozinha. Lembra-te? Eu sei que sim… E quando dei por mim estava a compor todas essas linhas e a lembrar que maio era o seu mês. Lembrei então do seu telefonema no meio da tarde (anos atrás – não era maio). Você nos pediu para ir ao seu encontro.  E lá fomos nós. Estávamos lá, por você, sentadas – apreensivas. Não tínhamos ideia do que seria dito e você o fez quase em tom de confissão. Fomos as primeiras a saber “eu consegui. Eu estou amando alguém que me ama também”. Você. Justamente você (que como eu) achava que nunca iria amar. O nosso silêncio durou o tempo necessário para percebê-lo: seus olhos brilhavam – seu corpo inteiro reagia. Uma verdadeira ebulição de sentimentos seus por alguém que era uma perfeita continuação de teu existir. Fomos felizes por você. Como sempre…

É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Fernando Pessoa

Enfim, é maio… (sigo repetindo isso, já percebeu, não é?)
Dias felizes virão, um tanto vazio porque não estais mais aqui com teu sorriso eterno de menino. Sei que só posso recordar o teu abraço – penso que aprendi a abrir os braços e deixar o humano chegar até mim através de ti… Tantas coisas minhas são tuas, mas acho que isso tu sempre soubestes: o riso em comum, o olhar de soslaio, a indiferença crescente para com as bobagens e a gargalhada que deixava todos a nossa volta furiosos. Quantos tampas nossos braços receberam pela solidão do nosso sentir e saber.

Os ventos virão de todos os nortes. 
Os dilúvios cairão sobre os mundos. 
Tu não morrerás.
Não há nuvens que te escureçam. 
Não há ventos que te desfaçam.
Não há águas que te afoguem.
Tu és a própria nuvem.
O próprio vento.
A própria chuva sem fim. . .
Cecília Meireles

É meu caro, como um vento, tudo isso passou. Por mim e por todos nós. Maio chegou, mas o fez sem você. Esteja onde estiver, parte de ti jamais se foi… Tu sabes. Eu bem sei que sabes… Então vou cantar o refrão da sua música favorita em alto tom e sei que vais ouvir e vais cantar comigo.

Oh, the rhythm of my heart
Is beating like a drum
With the words “I love you”
Rolling off my tongue
Oh, never will I roam
For I know my place is home
Where the ocean meets the sky
I’ll be sailing

Lunna