É noite lá fora… É maio aqui dentro!

Olá meu caro, onde andas tu?
Eu sei, com as estrelas a obervar-me do alto, por entre as nuvens, por cima dos telhados vermelhos e por entre as árvores da alameda que se exibe em linha e que estão mais verdes que antes porque é maio e finalmente posso dizer que é outono por aqui . Saudades crescentes de ti, viu?
[...] O mundo, para ele, se encolheu até ficar do tamanho de sua sala e, durante o tempo que for necessário para que ele venha a compreender isso, precisa ficar onde está. Só uma coisa é certa: não pode estar em nenhum outro lugar, seria absurdo para ele pensar em procurar um outro. Paul Auster em “A invenção da Solidão”
Estou aqui, a lembrar dos nossos dias de infância. Lembra-te? Eu era a menina mais nova a quem todos davam as mãos e levava por aí, com os pés libertos do chão. Acho que eu aprendi a voar nas mãos de vocês. Tinha a confiança de quem amava por sabê-los. Eu o sabia? Depois de tantas confissões é certo dizer que sim, não acha?
Oh, I’ve got lightning in my veins
Shifting like the handle of a slot machine
Love may still exist in another place
I’m just yanking back the handle, no expression on my face
É maio meu caro. O primeiro dia ao pouco se extingue. Virão outros. Trinta dias – porque maio tem sabor, aroma e muitas outras coisas mais… Lembra-te das brincadeiras de primeiro de maio? Eu as tenho em mim – como se fosse ontem. Começava cedo, a andar pelas ruas, ladeira abaixo, até o bosque – por entre as pedras rumo ao mar. Sua mão sempre junto a minha com a preocupação de quem não quer que o outro se perca. Colhíamos pedras e gravetos, folhas e sementes. Sentíamos o cheiro da paisagem morna. Percebendo-nos. Brincávamos de roda. Éramos incansáveis. Só vocês conseguiam me fazer ser criança de fato. Escalávamos árvores com facilidade e lá de cima gritávamos “homem a vista”. Caiamos numa gargalhada incomum que imitava o som das gaivotas. Lembra-te?
O vento cortas os seres pelo meio,
Só um desejo de nitidez ampara o mundo…
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.
(…) Mário de Andrade, Momento (abril de 1937)
Voltávamos para casa cantando. Quase sempre tu me levavas em teus ombros, olhando tudo por cima… Ninguém entendia aquela combinação de alegria e felicidade. Eu era tão pequena. Vocês já eram uma promessa de adultos. Esperavam tanto de vocês e tão pouco de mim. Eu era a menina que fazia vocês ouvir poesias. Lembra-te? Eu os obrigava a ir mais devagar. A T. certa vez, numa tarde de maio – anos mais tarde, diante da lareira, bebendo vinho, já mais velhas (embora eu seja sempre a mais nova) me confidenciou “você não nos deixou envelhecer, nos salvou dessa coisa de idade – foi depois de você que eu deixei de apagar velas” e ficamos lá, em suspenso revendo as coisas que aprendemos uns com os outros. Tanta coisa. É preciso respirar fundo, sorrir e se deixar conduzir pela mão dessas lembranças.
(…)uma sensação de portas que se fecham, de fechaduras que se trancam. É uma estação hermética, um longo momento de introspecção. Paul Auster em “A invenção da Solidão”
Sabe meu caro? Elas ainda estão por aqui, vivendo suas vidas – assim como eu também estou, vivendo o que tenho pra viver, mas confesso que tenho medo – nos vemos cada vez menos. Nos sabemos cada vez menos. Não temos tempo (é a nossa desculpa comum). Depois que você se foi tem sido assim. Nos falamos as vezes, nos escrevemos raramente. Mas as presenças estão escassas. E não sei se nos importamos. Foi assim quando o nono nos deixou. Lembra-te? A maioria de nós se perderam. Ele mantinha todos num laço, desfeito pela morte. Nós não e prometemos a você jamais deixar acontecer. Mas você não está mais aqui para nos cobrar a promessa feita. Você nos matinha atreladas – e agora que se foi, somos o que somos. Pessoas espaçadas, sem a preocupação da presença. Sem a preocupação de sentar-se a mesa, de misturar ingredientes, de ouvir as bobagens de sempre, de rir dos nossos inconvenientes, de nos esquecer das horas, de gargalhar com o som do carrilhão lá na sala. Ele ainda badala suas horas (eu ainda ouço seu eco direto dos meus pretéritos) mas é fato que não há mais ninguém para ouví-lo. Tão pouco para assustar-se com ele…
(…) Tenho de inventar a estrada a cada passo e isso significa que nunca posso ter certeza de onde me encontro. Uma sensação de andar em círculos, de sempre voltar atrás pelo mesmo caminho, de partir em várias direções ao mesmo tempo. Paul Auster em “A invenção da Solidão”
Maio chegou e nenhuma de nós se ocupou de pensar naquela cozinha, de ir até lá para ferver a água, espalhar xícaras pela mesa – para lembrar nossas coisas agradáveis, comuns a todas nós. Elas estão por aí… E eu estou por aqui (com a distancia de um oceano inteiro) com a lembrança que chegou até mim nesse fim de tarde. É maio, disse-me ao sentar-me aqui, como forma de me fazer entender o sentido – repito diversas vezes para ver se algo munda aqui dentro. Comecei ouvindo sua canção. Aquela que te fazia cantar feito um louco na cozinha. Lembra-te? Eu sei que sim… E quando dei por mim estava a compor todas essas linhas e a lembrar que maio era o seu mês. Lembrei então do seu telefonema no meio da tarde (anos atrás – não era maio). Você nos pediu para ir ao seu encontro. E lá fomos nós. Estávamos lá, por você, sentadas – apreensivas. Não tínhamos ideia do que seria dito e você o fez quase em tom de confissão. Fomos as primeiras a saber “eu consegui. Eu estou amando alguém que me ama também”. Você. Justamente você (que como eu) achava que nunca iria amar. O nosso silêncio durou o tempo necessário para percebê-lo: seus olhos brilhavam – seu corpo inteiro reagia. Uma verdadeira ebulição de sentimentos seus por alguém que era uma perfeita continuação de teu existir. Fomos felizes por você. Como sempre…
É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Fernando Pessoa
Enfim, é maio… (sigo repetindo isso, já percebeu, não é?)
Dias felizes virão, um tanto vazio porque não estais mais aqui com teu sorriso eterno de menino. Sei que só posso recordar o teu abraço – penso que aprendi a abrir os braços e deixar o humano chegar até mim através de ti… Tantas coisas minhas são tuas, mas acho que isso tu sempre soubestes: o riso em comum, o olhar de soslaio, a indiferença crescente para com as bobagens e a gargalhada que deixava todos a nossa volta furiosos. Quantos tampas nossos braços receberam pela solidão do nosso sentir e saber.
Os ventos virão de todos os nortes.
Os dilúvios cairão sobre os mundos.
Tu não morrerás.
Não há nuvens que te escureçam.
Não há ventos que te desfaçam.
Não há águas que te afoguem.
Tu és a própria nuvem.
O próprio vento.
A própria chuva sem fim. . .
Cecília Meireles
É meu caro, como um vento, tudo isso passou. Por mim e por todos nós. Maio chegou, mas o fez sem você. Esteja onde estiver, parte de ti jamais se foi… Tu sabes. Eu bem sei que sabes… Então vou cantar o refrão da sua música favorita em alto tom e sei que vais ouvir e vais cantar comigo.
Oh, the rhythm of my heart
Is beating like a drum
With the words “I love you”
Rolling off my tongue
Oh, never will I roam
For I know my place is home
Where the ocean meets the sky
I’ll be sailing
Lunna