“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!”
A história do homem – o mito do poeta
O homem nasceu Mário Raul de Moraes Andrade no dia 09 de outubro de 1893 – o poeta se inventou Mário de Andrade, mas não há datas, nem fatos determinantes, somente sua poesia. Ele disse em vida que o poeta que habitava em sua pele, surgiu para o mundo num estalo, quando escreveu seu primeiro poema em 1904.
Na Rua Aurora eu nasci
Na aurora de minha vida
E numa aurora cresci.
O homem foi de tudo um pouco. Fez de tudo um pouco. A arte era sua condição e assim sendo foi poeta, romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte, fotografo…
Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta
Mário de AndradeEu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Se um deus morrer, irei ao Piauí buscar outro!Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,
Mas um dia afinal toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.
Mas sobretudo, Mário de Andrade foi Paulistano e escreveu a cidade em linhas. Ele reinventou sua São Paulo que para ele era desvairada – ele foi crítico com sua gente paulistana a quem considerava limitada, enfiada no saco e contida no passo. Ele queria uma São Paulo moderna, gigante, como o próprio nome pedia. Mas ele via uma São Paulo comum, pequena e limitada ao rótulo imposto por um punhado de senhoras conservadoras.
São Paulo! comoção da minha vida…
Os meus amores são flores feitas de original…
Arlequinal!… Traje de losangos… Cinza e Ouro…
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paria… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!
São Paulo! comoção de minha vida…
Galicismo a berrar nos desertos da América!
O poeta, ou seria o homem? Mário de Andrade por assim dizer, foi um dos fundadores do modernismo brasileiro ao lado de outro Andrade, o Oswald. Ele praticamente criou a poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Paulicéia Desvairada, escrito nos dias em que o Grupo dos Cinco inventava uma nova forma de arte e porque não dizer de vida na pacata e silenciosa São Paulo dos anos 20 que viu e aumentou os escândalos dos senhores modernistas.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?…
Mário de Andrade, o homem – foi traído por seu coração e morreu em fevereiro de mil novecentos e quarenta e cinco. Impossível saber tudo que aquele velho músculo cansado aguentou. Morreu. Sem ver sua poesia resgatada – porque ser moderno teve o seu preço. E ele pagou moeda por moeda. Sendo esquecido. Suas palavras abandonadas. Morreu no exílio de sua existência. O poeta sobreviveu. Impossível dizer como, já que a palavra foi deixada de lado, no canto da história. O modernismo era uma praga que ninguém queria lembrar e ele era a flor do modernismo.
Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar de uma vez:
E só tirar a cortina
Que entra luz nesta escuridez.
Mário nasceu para ser diferente, misterioso; gostava de dizer “há um lado hediondo no meu caráter” – mas ninguém além dele o via assim porque enquanto Oswald era o devasso, o piadista, Mário era visto como sendo o erudito, sem vícios ou abusos, apenas o correto. Sentia-se incomodado, coberto de vergonha por tal condição, mas era arrimo de família, não podia se deixar levar por aquilo que gostaria de ser.
Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha do Sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel… quasei móvel: é gostoso
E enquanto muitos por aí se divertem tentando imaginar ou compreender os mistérios do homem – discutindo sua cor, seu sexo, seus amores – vamos deixar os rótulos do homem de lado e nos ater ao poeta.
Tive quatro amores eternos…
O primeiro era uma donzela,
O segundo… eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu… E eu afinal me repousei dos meus cuidados.
Vamos imaginar seus passos pela cidade, não essa que aqui temos, a outra, aquela que ele “beijou” com seus versos. E imaginá-lo com as mãos no bolso, o olhar ao longe, vez ou outra por cima dos ombros para ver quem vem e quem vai… Brincando com sua vaidade e sensualidade, aprumando os ouvidos para saber o que dele falam. Claro, dá pra imaginar um sorriso quando passa pela biblioteca que leva o seu nome e talvez, entre, sente-se e dedique-se a uma missiva. A quem escreverá? Há mistérios que merecem prevalecer, pois nos permiti certos sabores.
Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.
Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.
No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.
Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.
O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…
Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…
As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.