Mário de Andrade

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“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!”

A história do homem – o mito do poeta

 

O homem nasceu Mário Raul de Moraes Andrade no dia 09 de outubro de 1893 – o poeta se inventou Mário de Andrade, mas não há datas, nem fatos determinantes, somente sua poesia. Ele disse em vida que o poeta que habitava em sua pele, surgiu para o mundo num estalo, quando escreveu seu primeiro poema em 1904.

Na Rua Aurora eu nasci
Na aurora de minha vida
E numa aurora cresci.

O homem foi de tudo um pouco. Fez de tudo um pouco. A arte era sua condição e assim sendo foi poeta, romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte, fotografo…

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta
Mário de Andrade

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Se um deus morrer, irei ao Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,
Mas um dia afinal toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Mas sobretudo, Mário de Andrade foi Paulistano e escreveu a cidade em linhas. Ele reinventou sua São Paulo que para ele era desvairada – ele foi crítico com sua gente paulistana a quem considerava limitada, enfiada no saco e contida no passo. Ele queria uma São Paulo moderna, gigante, como o próprio nome pedia. Mas ele via uma São Paulo comum, pequena e limitada ao rótulo imposto por um punhado de senhoras conservadoras.

São Paulo! comoção da minha vida…
Os meus amores são flores feitas de original…
Arlequinal!… Traje de losangos… Cinza e Ouro…
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paria… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!
São Paulo! comoção de minha vida…
Galicismo a berrar nos desertos da América!

O poeta, ou seria o homem? Mário de Andrade por assim dizer, foi um dos fundadores do modernismo brasileiro ao lado de outro Andrade, o Oswald. Ele praticamente criou a poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Paulicéia Desvairada, escrito nos dias em que o Grupo dos Cinco inventava uma nova forma de arte e porque não dizer  de vida na pacata e silenciosa São Paulo dos anos 20 que viu e aumentou os escândalos dos senhores modernistas.

É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?…

Mário de Andrade, o homem – foi traído por seu coração e morreu em fevereiro de mil novecentos e quarenta e cinco. Impossível saber tudo que aquele velho músculo cansado aguentou. Morreu. Sem ver sua poesia resgatada – porque ser moderno teve o seu preço. E ele pagou moeda por moeda. Sendo esquecido. Suas palavras abandonadas. Morreu no exílio de sua existência. O poeta sobreviveu. Impossível dizer como, já que a palavra foi deixada de lado, no canto da história. O modernismo era uma praga que ninguém queria lembrar e ele era a flor do modernismo.

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar de uma vez:
E só tirar a cortina
Que entra luz nesta escuridez.

Mário nasceu para ser diferente, misterioso; gostava de dizer “há um lado hediondo no meu caráter” – mas ninguém além dele o via assim porque enquanto Oswald era o devasso, o piadista, Mário era visto como sendo o erudito, sem vícios ou abusos, apenas o correto. Sentia-se incomodado, coberto de vergonha por tal condição, mas era arrimo de família, não podia se deixar levar por aquilo que gostaria de ser.

Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha do Sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel… quasei móvel: é gostoso

E enquanto muitos por aí se divertem tentando imaginar ou compreender os mistérios do homem – discutindo sua cor, seu sexo, seus amores – vamos deixar os rótulos do homem de lado e nos ater ao poeta.

Tive quatro amores eternos…
O primeiro era uma donzela,
O segundo… eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu… E eu afinal me repousei dos meus cuidados.

Vamos imaginar seus passos pela cidade, não essa que aqui temos, a outra, aquela que ele “beijou” com seus versos. E imaginá-lo com as mãos no bolso, o olhar ao longe, vez ou outra por cima dos ombros para ver quem vem e quem vai… Brincando com sua vaidade e sensualidade, aprumando os ouvidos para saber o que dele falam. Claro, dá pra imaginar um sorriso quando passa pela biblioteca que leva o seu nome e talvez, entre, sente-se e dedique-se a uma missiva. A quem escreverá? Há mistérios que merecem prevalecer, pois nos permiti certos sabores.  

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

A poesia de Álvaro de Campos #8

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Os dias estão apressados. Abril está caminhando para o seu fim e eu li tão pouco de Mário de Andrade – mas pretendo fazê-lo, afinal, escolhemos o poeta Mário de Andrade para ser homenageado no evento Plural (que acontecerá na próxima quarta-feira) justamente por ser abril e ser este o mês que ele cita em seus versos. Logo, é certo pensar que fosse o mês de sua preferência…

Mas por enquanto, fico mesmo com Campos e sua teimosia constante. Gosto disso. Gosto dessa teimosia que arde em seus versos…

CARNAVAL

A vida é uma tremenda bebedeira.
Eu nunca tiro dela outra impressão.
Passo nas ruas, tenho a sensação
De um carnaval cheio de cor e poeira…

A cada hora tenho a dolorosa
Sensação, agradável todavia,
De ir aos encontrões atrás da alegria
Duma plebe farsante e copiosa…

Cada momento é um carnaval imenso
Em que ando misturado sem querer.
Se penso nisto maça-me viver
E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso

De mais… Balbúrdia que entra pela cabeça
Dentro a quem quer parar um só momento
Em ver onde é que tem o pensamento
Antes que o ser e a lucidez lhe esqueça…

Automóveis, veículos, (…)
As ruas cheias, (…)
Fitas de cinema correndo sempre
E nunca tendo um sentido preciso.

Julgo-me bêbado, sinto-me confuso,
Cambaleio nas minhas sensações,
Sinto uma súbita falta de corrimões
No pleno dia da cidade (…)

Uma pândega esta existência toda…
Que embrulhada se mete por mim dentro
E sempre em mim desloca o crente centro
Do meu psiquismo, que anda sempre à roda…

E contudo eu estou como ninguém
De amoroso acordo com isto tudo…
Não encontro em mim, quando me estudo,
Diferença entre mim e isto que tem

Esta balbúrdia de carnaval tolo,
Esta mistura de europeu e zulu
Este batuque tremendo e chulo
E elegantemente em desconsolo…

Que tipos! Que agradáveis e antipáticos!
Como eu sou deles com um nojo a eles!
O mesmo tom europeu em nossas peles
E o mesmo ar conjuga-nos

Tenho às vezes o tédio de ser eu
Com esta forma de hoje e estas maneiras…
Gasto inúteis horas inteiras
A descobrir quem sou; e nunca deu

Resultado a pesquisa… Se há um plano
Que eu forme, na vida que talho para mim
Antes que eu chegue desse plano ao fim
Já estou como antes fora dele. É engano

A gente ter confiança em quem tem ser…
(…)

Olho p’ró tipo como eu que ai vem…
(…)
Como se veste (…) bem
Porque é uma necessidade que ele tem
Sem que ele tenha essa necessidade.

Ah, tudo isto é para dizer apenas
Que não estou bem na vida, e quero ir
Para um lugar mais sossegado, ouvir
Correr os rios e não ter mais penas.

Sim, estou farto do corpo e da alma
Que esse corpo contém, ou é, ou faz-se…
Cada momento é um corpo no que nasce…
Mas o que importa é que não tenho calma.

Não tenciono escrever outro poema
Tenciono só dizer que me aborreço.
A hora a hora minha vida meço
E acho-a um lamentável estratagema

De Deus para com o bocado de matéria
Que resolveu tomar para meu corpo…
Todo o conteúdo de mim é porco
E de uma chatíssima miséria.

Só é decente ser outra pessoa
Mas isso é porque a gente a vê por fora…
Qualquer coisa em mim parece agora

Organização e notas de Teresa Rita Lopes
Companhia das Letras
pág. 69 – 71

Esse poema nos mostra o quanto Campos absorveu do passado de Pessoa. É engraçado uma vez que sabemos que Campos não tem um passado. Tem apenas presente e futuro. Embora eu confesso não gostar de pensar assim – acho que no caso de Campos, ele trás para si uma certa teimosia para com Pessoa quanto a esse “passado” que de certa forma se encerra para então dá inicio ao presente do poeta.

Boa semana para quem aparecer por aqui…

Missiva noturna #6

“Minha mente me ilude. Preciso acompanhá-la
desprevenida, pelas costas, no ato de falar”.
Susan Sontag – diários 1947 – 63

 

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São Paulo, 17 de abril de 2012

A você,

É tarde, passam das seis. O dia já se foi… Vejo vento nas folhas lá fora e não sei se me contento com isso porque o outono esse ano só começou no calendário. Os dias quentes me deixam exausta e causam incômodos no meu corpo que anda preso as coisas humanas. Saudades de ti e de nossos diálogos. Antigamente tínhamos mais tempo…

Mas agora venta forte. As árvores balançam e minha mente se ocupa de outros cenários. Os versos que você ajudou a desenhar. Os cenários que você ajudou a erguer. As vezes estranho essa presença ausente que você é para mim. Sei-te. Ouço-te. Mas desconheco-te dos dias, das horas, dos momentos vários – mas encontro em coisas pequenas, como ao virar uma esquina em plena Avenida Paulista, para seguir adiante na Consolação… Semáforos. Manifestações humanas e você por lá. O que fazias tu ali? Aquela hora da tarde? Naquele momento? Seguiu adiante, passou pela faixa branca, entrou no ônibus e seguiu comigo entre movimentos de uma terça-feira marcada pela ausência das figuras comuns.

Levei um par de minutos para chegar ao destino escolhido. Abri e fechei janelas. Escolhi o livro para me acompanhar. Pensei na fraqueza de meu corpo que dá sinais de cansaço e eu tento ignorar. Prometi que amanhã ficarei em casa. Prometi que irei repousar os olhos. Sei que são promessas vazias. Tenho vontade de seguir por calçadas, equilibrar-me no meio fio e fechar os olhos repentinamente para sentir tudo que os olhos não tocam…

Não tenho tempo minha cara, preciso organizar cenários. Compreender sentidos. O vazio por enquanto é tudo que tenho. E tu? Que ainda há pouco estavas comigo, voltou para o teu destino de origem… É sempre assim. Em algum momento a presença vira ausência. Vivo dizendo que estou acostumada, mas acho que é apenas para me convencer de um fato imutável…

Ps. Hoje impliquei uma vez mais com a palavra mudança. Não sei se é o som ou a falta de movimento que me alcança quando essa palavra se lança em meus lábios. O que quer dizer mudança? Nem pense em buscar o dicionário. Não me refiro ao símbolo empregada a palavra. Acho que sabes que as palavras tem símbolos pessoais e intransferíveis…

Bem a noite me chama para dentro de sua canção. Dança comigo?

Diria eu que muito caminhei sob a penumbra das vielas
E vi a fumaça a desprender-se dos cachimbos
De homens solitários em mangas de camisa, à janela
debruçados?

Eu teria sido um par de espedaçadas garras
A esgueirar-me pelo fundo de silentes mares.

T.S.Eliot
(sim, ainda estou lendo Eliot)

Bacio
Lunna

A poesia de Álvaro de Campos #7

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Fim de tarde. Preguiça de existir. Preguiça de ser. Fico assim quando a ansiedade me abraça. Não saio do lugar e vou a todos os lugares. Pleonasmo, eu bem sei. Você sabe e mesmo assim me lê. Já pensou em tentar saber por que isso é assim? Eu não…

Vou ali ler Pessoa. Tomar um café com leite quente. Sim, já aviso. O poema é longo. Se tens preguiça de ler, não vá adiante. Mas saiba que estará a perder. Enfim, cada um sabe das alegrias que alcança…

Opiário

Ao Senhor Mário de Sá-Carneiro

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo.  Canso.  Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia.  Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smokink-room com o conde –
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma.
A minha Pátria é onde não estou.
Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co’a sueca…  e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada!  Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas.  Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O fato é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranqüilidade.  A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um gênero de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho.  A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força.  Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir.  Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,

Que um raio as parta!  E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora!  Eu cansava-me o mesmo modo.
Qu’ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre!  Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O fato essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite.  Tocou já a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima!  Isso!  E marchar
Até que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida… Ora! um rapaz…
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil.  Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co’os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a …

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto!  Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!

1914, Março
No Canal de Suez, a bordo

Organização e notas de Teresa Rita Lopes
Companhia das Letras
pág. 62 – 68

Em Opiário percebo que Campos está perdido – ele mesmo diz “por mim, antes de conhecer Caeiro, eu era uma máquina nervosa de não fazer coisa nenhuma” – mas acho que conhecer Caeiro não o fez menos perdido, apenas deu a ele a certeza de ser uma mentira. E talvez essa certeza o tenha levado a um confronto com o seu mestre Fernando Pessoa. Em dado momento do poema, fico com a sensação de que Campos torna-se rebelde e não aceita as imposições do seu “deus e senhor”.   Ele começa então a se impor, a falar mais alto. É um personagem que não aceita sua condição, como Caeiro, Reis e outros tantos. Ele se impõe “perdi-me dentro / porque eu era um labirinto / e hoje, quando me sinto / é com saudades de mim” – talvez por isso esse poema tenha sido dedicado a Mário de Sá-Carneiro.

A poesia de Álvaro de Campos #6

 

Troleicarro - Coimbra

Lá fora um bom punhado de nuvens esbranquiçadas e uma dúvida “será que chove hoje?” – ontem houve um ensaio de chuva no final da tarde, mas a segunda começou com cara de “o feriado acabou”. São Paulo perde o ritmo em dias de feriados – muita gente volta pra casa, numa insanidade típica de quem gosta de estradas cheias. Nunca entendi essa gente. Enfim, eu fiquei em casa, curti as ruas vazias com meus passos tranquilos. Ouvi música. Fiz festa com o cão. Namorei. Vi filmes. Dormi até mais tarde. Fui dormir “mais cedo” (depois das quatro da manhã – é cedo, não é?) e comecei o dia lendo Pessoa…

 

Soneto III
(A Daisy Mason)

Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos aí de Londres,
Que, embora não o sintas tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de

Londres pra York, onde nasceste (dizes —
Que eu nada que tu digas acredito…)
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes

(Embora não o saibas) que morri.
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará. Depois vai dar

A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande…
Raios partam a vida e quem lá ande!…

(A bordo do navio em que embarcou para o Oriente;
uns quatro meses antes do Opiário) Dezembro 1913

Pág. 60-61
Organização e notas de Teresa Rita Lopes
Companhia das Letras

 

Enfim, esse último soneto conclui a viagem, iniciada em Lisboa, para depois chegar a Londres que é o local de partida para o Oriente – essa chegada será narrada em o Opiário que parece ser uma clara conclusão para esses sonetos. Mas essa é a minha impressão.
Então, vem a pergunta: mas o porque essa viagem? E a resposta que chega a mim ao mergulhar nesses versos é bastante simples. Oras, a vida é uma viagem. Logo, Pessoa escolheu iniciar a vida de Campos com o obvio. E desde então ele percebe que só há uma direção para Campos: o fim que também pode ser compreendido como sendo a morte (como queira) e essa conclusão acabou consumindo Pessoa que teve dificuldades para determinar a morte daquele, que foi, sem dúvida alguma, seu principal heterônimo ou uma espécie de segunda pele..

Ciente do fim, Pessoa opta pelo tom de despedida nesse último soneto, por isso Campos se despede de todos aqueles com os quais se importava. Aliás, Pessoa acaba por fazer o mesmo em sua vida tempos mais tarde – mas ao dar inicio a vida de Campos, o que percebemos é uma lentidão natural, necessária para que o poeta evolua, cresça, ganhe forma, amadureça… É preciso ler várias vezes esses sonetos seguidamente, como nos pede Pessoa na figura de Campos para só então compreendermos que o poeta começa “pequeno” e vai se agigantando numa evolução primorosa, natural. E por fim, em seu próximo poema já é grande. E isso é justamente o que perceberemos em o Opiário.

Curiosamente, fiz uma anotação na lateral do livro depois de ler seguidas vezes o Opiário: “não ler nos próximos cinco anos”.  (risos) Mas eu falo disso depois. Por enquanto, vou preparar uma xícara de chá e rever os sonetos seguidas vezes…

Viajar é preciso…
Tenham todos uma boa semana.
Lu

Missiva Noturna # 5

“a arte, portanto, está sempre lutando
para ser independente da mera inteligência”
Susan Sontag – diários 1947-63

Foto1316Caríssima,

Passam das seis.
O dia já foi, meu corpo sabe disso, mas meus dedos ainda querem mais. Estão abordos de tantos caminhos. As vezes, os meus dedos pensam ser pés. Querem andar, dançar… Há muito que dou de ombros para esses delírios.

Agora por exemplo, meus dedos esfregam-se uns contra os outros e acredite, pensam. Sim, isso mesmo. Eles pensam ingredientes e isso basta para o cheiro de pratos inteiros avançarem sobre mim. Tocam minhas narinas e atiçam o meu intimo numa espécie de fome. Seria esse o nome? Não sei… O que sei é que me agito por inteira. Abro a geladeira. Pego uma taça no armário, preencho com vinho branco (vecchio) e para cima da mesa vão os queijos, a manteiga, o leite. Do armário ao lado vem o pão de forma, a cebola, o alho e a salsa. Na porta ao lado busco os pratos, a frigideira e uma colher de madeira… O azeite na porta de baixo. Cada coisa tem o seu lugar, mas nesse exato momento, a mesa é repouso para tudo.

Dizem por aí que o primeiro Croque-Monsieur foi servido no verão de 1910, num bar inglês chamado Le Trou dans le Mur, que ficava no Boulevard des Capucines, em Paris. De inspiração anglo-saxônica, o Croque-Monsieur é uma adaptação. Dizem que melhorada do Welsh Rarebit inglês. É claro que cada um acrescenta o ingrediente que melhor lhe atraí. Há quem faça com presunto, frango ou cogumelos. Enfim, Sartre (é o que dizem) adorava a receita simples que leva queijos, ovos e creme de leite fresco… Eu faço minhas invenções. Claro. Não há como ser diferente. Olho para a geladeira e pego o que encontro pela frente…Espio por cima das coisas, como se fossem telhados vermelhos. Você me disse ontem, quando eu já não estava presente “sou pra ontem” – mas eu sou de momento. Na maioria das vezes eu sou para hoje, agora. Sou sempre os dedos, uns contra os outros. De posse da faca, junto a tábua, picando ingredientes. Depois buscando pela chama, atenta, forte, azulada junto a frigideira. Sou uma combinação de sentidos que passam pelos dedos, braços, membros, músculos, nervos e se espalham feito tempestades por todos os cantos do corpo. Há um momento de silêncio, mas quando a boca se movimenta entre o sabor e o dissabor. Nunca se sabe.

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É tarde minha cara. Não por causa dos ponteiros.
O prato já foi devorado. A substancia agora já é outra. É cansaço, mas sobretudo é vertigem. Meus olhos quero devorar as páginas de Susan Sontag e meus dedos (como sempre) já se manifestam uns contra os outros.

“”Não sei se me sinto melhor, ou se fiquei insensível. Mas há paz em estar segura, mesmo em estar segura de alguma grande fatalidade ou rejeição. Acho que me sinto melhor. Olho para tudo pelo lado oposto – em vez de esperar tudo e me ver afundada no desespero toda vez que consigo menos, eu agora não espera nada e, no final, consigo um pouco, e fico mais do que um pouco feliz”. – pág. 203 – Susan Sontag – diários 1947-63

Até mais…
Lunna

A poesia de Álvaro de Campos #5

lisboa-eléctricoE cá estou eu em meio ao devaneio de editar um livro, preparar um evento e viver as alegres horas do dia… Teci meia dúzia de linhas de uma missiva que ao tudo indica não vai a lugar nenhum. Piquei ingredientes, misturei tudo e vi o colorido dos legumes atiçarem meu apetite. (risos)

Acontece que tudo segue a contento por enquanto. Sem grandes novidades. As coisas começam a acontecer. É abril (o mês de Mário de Andrade, citado inúmeras vezes em sua poesia – odiado por Eliot e repleto de indiferença pra mim). Gosto mesmo é dos contornos de maio – esperemos então, enquanto isso, nos meus breves intervalos leio a poesia de Campos como promessa que se cumpre.

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A praça da Figueira de manhã, 
Quando o dia é de sol (como acontece 
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece, 
Embora seja uma memória vã. 

Há tanta coisa mais interessante 
Que aquele lugar lógico e plebeu,  
Mas amo aquilo, mesmo aqui… Sei eu 
Porque o amo? Não importa. Adiante… 

Isto de sensações só vale a pena 
Se a gente se não põe a olhar para elas.   
Nenhuma delas em mim serena… 

De resto, nada em mim é certo e está 
De acordo comigo próprio.  As horas belas 
São as dos outros ou as que não há.

Londres, (uns cinco meses antes do Opiário) Outubro 1913

Pág. 60
Organização e notas de Teresa Rita Lopes
Companhia das Letras

E cá estamos nessa viagem de Álvaro de Campos que no Soneto I estava em Lisboa e agora no Soneto II chega a Londres – é outro Campos aqui, que não abandonou o passado, mas percebemos mais situado no presente. Ele ainda está “ligado” ao passado, tanto que menciona Lisboa em seu caminhar por Londres – afinal, ele é um poeta – mas ao mesmo tempo parece cada vez mais consciente de seus passos e da certeza de que não é possível analisar as sensações. É preciso apenas sentí-las, sem questioná-las – apenas tomando-as por abrigo.

É interessante perceber Campos através desses três sonetos. É assim que Pessoa escolheu nos apresentar esse poeta metafisico. Acho que é uma confusão natural. Todo escritor evolui a partir de um determinado ponto. Esse é o ponto de Campos: o sentir… Até onde vai? Descobriremos no Opiário…

Cheiro de café na minha atmosfera…

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Hoje pela manhã, ao abrir o armário da cozinha, fui tomada de assalto por uma lembrança tão logo o cheiro do café ocupou-se de minha atmosfera. Lembrou-me os dias na casa da nona e seu velho armário de guardar ingredientes. Ela acondicionava tudo dentro de latas: arroz, feijão, açúcar, farinha, café, aveia, biscoitos, bolachas e outras coisas mais. A lata do café era aberta pela manhã e no final da tarde: café da manhã e o café das cinco (a nona não era inglesa – mas havia herdado alguns costumes de vizinhos ingleses, que celebravam as cinco horas com uma mesa farta. E como eram um casal simpático, sempre estendia convites aos vizinhos italianos) – ela, enquanto humana, repetia os gestos e os convites.

Então, pouco depois do meio da tarde, o cheiro do bolo de fubá ou baunilha gritava junto as nossas narinas. A mesa posta no quintal (quando não chovia) fazia urdir as vozes infantis que se amontoavam ao redor da mesa. Devorávamos a xícara de café com leite, alguns biscoitos e grossas fatias de bolo para depois ouvirmos atentamente um novo capítulo de alguma história grega ou celta. Aos poucos, nossos movimentos eram contidos pela dócil e gentil voz da nona e então seguíamos para o banho e o descanso para o jantar. Um pouco de televisão, algumas “guerras” de almofadas e a vida seguia existindo lá fora, porque lá dentro daquela casa, o tempo urdia sua própria trama e a gente esquecia de crescer. Funcionava muito bem, até porque quando uma lembrança assim salta de dentro de mim, me sinto de volta aquela velha casa, com varanda, casinha no fundo (onde o nono jogava baralho) e ao lado a velha oficina do nono onde ele fabricava “seus brinquedos” e mais atrás  os pés de fruta lado a lado mais ao fundo. Dizia o nono que havia um pé de frutas para cada neto especial. Eu contei uma vez: jabuticaba (duas) – laranjeira (duas) – macieira – mangueira e abacateiro (uma de cada) – e de tanto pensar em todas essas coisas, quase me esqueço que o tempo passou e eu cresci. É preciso respirar fundo, olhar bem a minha volta para me convencer da realidade… rs

Tudo isso sendo lembrado assim, pelo sutil cheiro do café
no armário da minha cozinha.

Missiva noturna #4

vera marmelo 2

Que raízes são essas que se arraigam,
que ramos se esgalham” (…)
T.S.Eliot

Caríssimo,

O dia foi breve. Não o vi passar. Teve diferentes cores. Diversos aromas. Sensações muitas. Apreciei paisagens inteiras e algumas pela metade. Atravessei a Paulista de um lado ao outro. Me perdi em meio aos livros (voltei com alguns deles no “bolso”). Vi “lágrimas” escorrendo na vidraça do carro. Percebi coisas minhas. Outras de outros. Encontrei Eliot e a estranha sensação de ver a mim mesma ao longo dos dias descobrindo palavras, poetas, autores e me percebendo outra através deles…

Percebi tantas coisas e de repente, eu só queria me sentar aqui para te dizer tudo isso. Sem o olho no olho, apenas a certeza de que entenderá o que eu digo. Agora ouço Ney Matogrosso e parte de mim se desfaz como de costume. Sou outra. As dores que atravessam minha pele não me pertencem. O incomodo de ver aquela figura transbordando junto ao outro é um desenho sendo cerzido por minha mente.

Você parece distante. Você parece ausente. E ainda assim sei-te (percebo-te em mim) porque sou assim mesmo. E hoje não quero ser diferente disso. Quero ser exatamente assim. Porque minha pele vibra e o sorriso é objeto fácil em meus lábios – sinto tudo dentro de mim, feito a tempestade que se ocupou do céu de São Paulo no meio dessa tarde. É, disseram que era outono, mas o calor lembrou o verão e a tempestade lembrou aquela música do Tom. Lembra-se? Eu me lembro e sorri ao admirar aquele céu em meio a ausência de movimentos da cidade. Tanta gente apressada, fugindo de si mesmas, acreditando fugir da chuva… Eu já fui assim, um dia, mas descobri que não dá pra fugir da chuva e mais, as vezes é preciso ir lá pra fora e deixar se molhar para lavar a pele e a alma…

Será possível que eu tenha aprendido isso com você? (risos)

bacio
Lunna

Ps. Hoje, no meio da tarde, enquanto me ocupava de certos movimentos de um lado ao outro da Paulista, percebi o que me faltava. Entendi aquele meu personagem – eu o entendi (coisa que ainda não havia acontecido) e deve imaginar como estou me sentindo agora. Eu sei que sim. Há aquela inquietação natural dos dedos, dos olhos, da mente e um misto de sorriso infantil, quase inocente nos lábios. Há falta de sono. Ousadia. Vontade louca de gritar. E claro, vontade louca de dizer tudo que preciso dizer, mas os dedos nem sempre alcançam o que a mente “regurgita”… Estou bem (não pergunte, ou pelo menos tente não perguntar). Estou ausente de mim, da vida, porque agora eu o sei e a sensação de finalmente sabe-lo é aquela “um contentar descontente”.

boa noite

A poesia de Álvaro de Campos #4

lisboa-tranviasSegunda-feira lá fora. Sol ardendo por cima das coisas. É outono (já me disseram) e eu dei de ombros. Não dou a mínima para o calendário. Me mantenho atenta as coisas que sinto. Por isso Pessoa. Por isso Álvaro de Campos… E o olhar lá para fora vez ou outra…

1

( A Raul de Campos)

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Lisboa, uns seis ou sete meses antes do Opiário
Agosto 1913

Pág. 59
Organização e notas de Teresa Rita Lopes
Companhia das Letras

Fernando Pessoa escreveu três sonetos com datas fictícias numa clara tentativa de dar uma passado ao poeta Álvaro de Campos. Por isso os versos parecem um desenho de uma personagem que começa a se explicar. Campos está ali nos dizendo que “não sabe se de fato sente” ou “se sente o outro (Pessoa) ou a ele mesmo”. Ele está surgindo, deixando-se tocar pelo mundo moderno, mas Pessoa o faz “antigo” ao desenhar seu passado através desses poemas.

Me fecho em concha e mergulho numa ilusão que me permite ver um homem junto a mesa, com dezenas de livros abertos, pesquisando o mundo a sua volta para compor um personagem, que terá muito de si mesmo como nenhum outro. Então lá está Pessoa em contato com um mundo, ausentando-se dele enquanto desenha Campos e seu passado. Consciente ou não de que é sua melhor invenção.