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Tédio de ser quem sou,

viagaribaldi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tomei um café ali na Via Garibaldi. Gosto de andar por ali e ao fazê-lo acabei me lembrando que há tempos não leio poesias. Li Álvaro de Campos – o tal livro emprestado da biblioteca que passou um tempo em cima do criado mudo, mas não o li todo.

Ando com preguiça para ler poetas portugueses; embora considere Campos um poeta sem nação, lar ou país. Ando com preguiça e isso é tudo. Quero ler algo em francês. De vez enquando sou tomada por essa mania. Como se ler em outro idioma me permitisse um sentir diferente – um existir com mais sabor.

Mas por enquanto não leio nada e isso é muito estranho.
Eu preciso de palavras, mas nos últimos dias tenho ficado um bom tempo olhando pela janela. Há muitas vidas lá fora e de repente tenho me interessado por aqueles humanos fantasiados de pessoas. Eu sempre gostei de janelas, desde a infância, mas me incomoda quando estão com aquelas malditas “tapparellas” que parecem tapar o meu imaginário. Eu simplesmente detesto não poder ver uma senhora com o corpo inclinado para fora (quase caindo) para tomar conta da vida de quem passa.

Era assim nos meus dias de menina. Dona M. tomava conta da vida de todo mundo de sua janela. Às vezes quando W. passava – ela dizia “la vai quella schifosa” – eu achava engraçado. Não conseguia evitar a risada, mas acho que eu era a única pessoa a achar graça daquela “figura mística”. Aprendi muitos “palavrões” com aquela “signora” e também aprendi que não deveria, em momento algum, fazer uso deles… E como tal recomendação foi feita de maneira severa por C. – não coube a mim nenhum questionamento. Ainda hoje não sei usar de tal artifício – é como se ela permanecesse aqui a me olhar com o tom de reprovação, com os braços cruzados a frente do corpo e aquelas palavras todas em fila.

E quanto a “dona M.” pelo que eu soube, morreu. Só espero que não tenha ido para o inferno, ou então é certeza que nos encontraremos por lá qualquer dia desses .

Palavras nunca sobram…

Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Se algum guindaste te eleva é para te despejar…
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.

Olho analiticamente, sem querer,
o que romantizo sem querer…

Álvaro de Campos
(posterior a 1/2/1932)

sandradee

“Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar.
E se tenho de sonhar, por que não sonhar
os meus próprios sonhos?” – Fernando Pessoa

Em vermelho,

Caminhos 3

 

 

 

 

 

 

Porque estou sempre indo – sem bússolas ou mapas. Eu gosto de sentir os caminhos. Perceber os atalhos. Olhar para o alto e ver os estendais cheios de roupa. Olhar para o chão e perceber as irregularidades…

Gosto de ter as mãos no bolso e de ver as nuvens em movimento. Eu sei que na verdade elas não estão sendo arrastadas pelo vento. Sei que estão lá em seu estado de atenção, ou seja, lá qual for o nome que dão para isso…

Sei que sou eu aqui em baixo, diante do espelho – a um passo da porta. Com a mão pronta para fazer girar a maçaneta. Estou a um passo para fora e outro para dentro…

Eu sei dos relógios e das voltas que dão os seus ponteiros – mas não sei absolutamente nada das horas que eles medem. Conheço a melodia e a ouço de tempos em tempos. Às vezes me assusto, como nos dias de menina. Às vezes acho graça e vou para o sofá ler Álvaro de Campos…

Eu sou uma pessoa antiga que vive a esperar pelo dia seguinte quando sei que irei completar “quarenta anos”. Anseio por isso, mas às vezes quando olho pra frente o caminho que eu faço não alcança esse tempo.

Mas isso deve ser efeito dessa minha inconsciência…

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