Mário e Anita…

Um amor que nunca foi entregue ao outro: ele nunca se afastou de fato, mas de seu mesmo, só deu a ela a sua amizade…

imageO Encontro, Mário de Andrade (sentado), Anita Malfatti (sentada, ao centro)
e amigos na exposição de Zina Aita(à esquerda de Anita), em São Paulo, em 1922.

“Sentia uma comoção reverente, religiosa diante daquela figura feminina, soberanamente enérgica e artista… Foi então que… eu lhe falei de nós dois… Disse-lhe que para as almas como as nossas, enclausuradas no sacrifício conventual das artes, apenas um socorro existe: amizade… Disse-lhe que os amores me sacrificaram… ficamos os dois… mudos, parados, horrorizados”.

Ao entrar em um salão na rua Líbero Badaró, em São Paulo, num sábado chuvoso de dezembro de 1917, o jovem poeta, então aos 24 anos, inseguro e cultivando o luto pela morte do pai, Mário de Andrade se depara com quadros vibrantes, imagens disformes, com cores que não correspondiam à realidade. Explodiu em uma sonora gargalhada que não era de escárnio, e sim de fascínio. O jovem poeta voltou oito vezes à mostra.

Diz-se nas entrelinhas da história, que Mário apaixonou-se por Tarsila, motivo esse que levou Anita a odiá-la, afastando-se assim da até então amiga. Mas as estrelinhas desses modernistas dizem tantas coisas. Há quem acredite que Mário era homossexual e eu confesso que acho errado tentar classificá-lo com rótulos. Ele era Mário de Andrade e por ser artista, sua condição maior era a paixão por todas as coisas.

Apaixonou-se sim, mas amar, o amor que narramos em sonetos, romances e folhetins – esse nem mesmo suas cartas parecem ser capazes de revelar. Há segredos que permitem que ele seja esse símbolo maior da história da literatura brasileira, porque como tão bem sabemos, o artista silencioso, cuja vida não assombra, não faz barulho não é ninguém. Poderia eu citar vários exemplos disso aqui, mas creio ser totalmente desnecessário.

O fato é que, o amor de Anita por Mário é um amor a moda antiga, narrado em missivas que da primeira a última vai permitindo que o véu caia por terra. Conhecemos uma Anita fragmentada, que era várias e uma só ao mesmo tempo: as artes plásticas conheceram a figura talentosa, que foi corajosa até certo ponto; a figura doce, as vezes desinibida coube apenas aos amigos; a figura doméstica, prendada, comedida ficou a cargo da família e a figura pública coube a imprensa que acompanhou diversos estágios de uma vida que terminou sem grandes atrativos.

Cometi um crime de lesa-amizade. Escrevi uma carta sentimental a um amigo. Perdoe-me” (…)  -  Em 27 de dezembro, retoma o assunto: “Hoje não tenho medo nem vergonha de a ter escrito, mas quero que a rasgues por cavalheirismo à minha amizade. Sei que o farás com carinho“.

Pra mim, fecho aspas em sua vida quando ela escreve sua mais bela missiva, endereçada a Mário de Andrade, anos após a sua morte. Afinal, tenho pra mim que somente Mário de Andrade conheceu de fato Anita Malfati, em seus momentos mais íntimos, receosos, femininos, inseguros, ousados, avessos…Tudo mais que sabemos dela, são apenas ilusões acerca de uma personagem que se deixou machucar pelas duras palavras de Monteiro Lobato (a quem odeio por isso, como não canso de dizer). Acho que a palavra depois de dita não pede desculpas. Eu sei que ele se desculpou, mas o estrago já havia sido feito.

Estou tremendo um pouco, sabes, nunca em minha vida dei isto a creatura alguma” (…) – escreveu Anita em 19 de dezembro de 1923 ao confessar seu amor por Mário.

Anita escreveu 77 cartas a Mário. Ele não respondeu todas. Ela escreveu em papel azul, lilás, rosa, amarelo, verde, branco ou cinza, de acordo com o coração. O amor, às vezes, era declarado por meio da luz violeta do dia, de um cardeal papo de fogo pousado na mesa, da louça de florzinha para o chá, da saudade. As vezes, se zangava com o silêncio de Mário, que respondia uma a cada duas cartas de Anita. Não se sabe quantas ficaram pelo meio do caminho, mas é fácil imaginar, dada a eficiência dos correios nos dias atuais (risos) – sabe-se que ao menos uma dessas missivas foi destruída por Mário, a pedido da própria Anita. E como pertencia a uma família conservadora, imagina-se que seus familiares devem ter se ocupado de destruir uma ou outra, quiçá, inúmeras…

(…)Tenho medo de ter desapontado a você. Quando se espera tanto de um amigo, este fica assustado, pois sabe que por nós mesmos nada podemos fazer e ficamos querendo, querendo ser grandes artistas e tristes de ficarmos aquém da expectativa.
Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente, não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto, o que me encanta.
Escrevo pois para você, grande e querido amigo, ai se eu pudesse consolá-lo, quanta felicidade para todos nós.

Trecho da última carta escrita por ela à Mário de Andrade, dez anos após a sua morte…

Para ler a carta na integra, clique aqui…

 

Esse post faz parte do diário de criação
da novela “o diário de uma solidão

imageFoto do espetáculo “Quasi”, da Companhia Incomodada de Teatro – que encenava a relação
entre os modernistas Mário de Andrade e Anita Malfatti.
Esteve em cartaz em São Paulo e Belo Horizonte no ano de 2005.
 

Para saber mais sobre Anita Malfati:
Anita Malfatti – No Tempo e no Espaço
Marta Rossetti Batista

Cartas a Anita Malfatti
Marta Rossetti Batista

 

As avessas…

imageImagem daqui

Alguém me explica o que está acontecendo com o mundo e suas pessoas? Outro dia vi uma senhora dizendo ao meu lado no metrô que ela não foi orientada sexualmente a ser gay e não tolera esses discursos inflamados a favor da homossexualidade. Foi mais além ao dizer que as coisas estavam assim porque os pais de hoje não sabiam orientar seus filhos…

Queria sair de mim e dizer a ela “ninguém é orientado a ser gay” mas fiquei quieta no meu canto como de costume e mudei de banco, mas acho que a criatura percebeu meu incomodo para com os seus dizeres e tratou de elevar o tom de seu discurso inflamado, dizendo a plenos pulmões “os pais de hoje não sabem educar, tem medo dos filhos. No meu tempo não era assim não, safadeza se resolvia com a cinta cantando no coro”.

Foi quando eu comecei a observar melhor aquela figura e lamentei cada uma daquelas rugas desperdiçadas porque eu sempre acreditei (e tive motivos mil para isso) que rugas são sinais de sabedoria. Ao menos lá em casa sempre tiveram esse significado e isso não mudou por causa daquela senhora…

Enfim, eu não sou homossexual. Mas não o sou porque simplesmente me percebi interessada em um homem. Atraída. Apaixonada. Mas não fui orientada nesse sentido; apenas me disseram lá no tempo da infância que um dia eu iria gostar de alguém, mas não me disseram que esse alguém seria um homem ou uma mulher. Me disseram apenas que seria alguém. Contudo, no meio do caminho eu dei de ombros para esses dizeres e passei a acreditar que eu seria sozinha, mas teria um cão. Foi algo que eu tomei pra mim porque ao longo de minha adolescência não me percebi interessada em ninguém como ocorria com as meninas da escola e posteriormente da faculdade. Então achei que isso não era pra mim. Naturalmente. Eu tinha a idéia de solidão como uma coisa natural. Mas, tempos depois, eu ergui os olhos e lá estava ele “o meu menino” – mas poderia ter sido “a minha menina”. Afinal, como se define essa coisa em nosso íntimo? Não existe manual. O nosso íntimo simplesmente descobre no outro (independente de cor, raça, sexo, idade) algo que simplesmente ativa sensações, ilusões, emoções e pronto.

Se iria ser diferente, eu não sei. Mas uma coisa eu sei, eu seria feliz por amar alguém, como sou hoje: sem rótulos, preceitos ou preconceitos.

Acho que eu já tenho pelo menos uma ruga em algum canto de minha pele. rs

Em tempos: ando cansada de saber que mais uma pessoa foi agredida por ser “diferente” do tal padrão instituído nessa sociedade hipócrita que cospe para o lado quando se vê diante de alguém que tem coragem de assumir-se enquanto ser humano que ama alguém, independente de sua cor, raça ou sexo.

Pra mim, é muito agradável saber que um ser humano é capaz de amar e superar as neuroses de uma sociedade que impõe regras de comportamento como se todos nós fosse uma coisa só. Não somos. Graças a natureza somos o que somos: diferentes. Mas o humano insiste em rotular, postular, determinar a partir de si mesmo o que deve ser o outro… E quando não estamos satisfeitos com aquilo que vemos no outro (cuja audácia em ser diferente incomoda) sentimo-nos a vontade para agredir, ofender – como se disséssemos “você não tem o direito de ser assim”…

Amar não é proíbido. Ser diferente é lindo. Ser feliz é possível. Respeitar a escolha não deveria ser uma obrigação. Deveria ser uma consequencia natural…

Uma lenda para setembro…

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Há uma antiga Lenda na Escócia que afirmava que os jovens que lavassem o rosto no orvalho antes do nascer do Sol no primeiro dia de primavera tinham seus desejos realizados. Especialmente se tais desejos estivessem relacionados ao amor.

Como sou alguém que adora lendas, ainda mais quanto envolve o imaginário popular, fiquei aqui imaginando as dúzias de pessoas que já devem ter feito essa “simpatia”. Afinal, lembram-se dos santos colocados de cabeça para baixo? Das facas enfiadas nas bananeiras? Sempre ouço curiosidades como essa e tomo nota para não esquecer. O povo tem suas místicas, lendas urbanas, conceitos próprios que deixam a vida muito mais saborosa, colorida…

A vida sem lendas não teria graça alguma…

 

Juntos fazemos aurora…

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É sempre manhã quando sua boca encontra a minha e me fala de estrelas e meus olhos descobrem as luas que seus dedos fazem em minha pele.
É sempre manhã quando seu cheiro invade minhas narinas e eu te percebo ali no canto da cama, junto ao lençol, espiando meus vendavais. Suas tempestades criam enxurradas em minha derme aquecida pelo sonho perdido, mas que falava de ti junto a mim. Há resquícios do que foi em meu íntimo…
É sempre manhã por despertar quando você fala em meus ouvidos “eu te amo” e eu sinto saudades pelo resto do dia. Porque é tarde, é noite e a manhã só se faz presente quando você está comigo…
Então eu sorrio, te olho, te devoro. Me jogo em teus braços e me deixo ficar porque ali, aninhada em tua pele é sempre manhã. Você sabe, porque juntos fazemos aurora…

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O Diário de uma solidão
São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02

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Eram quase sete e meia quando Pretinha bateu na porta do quarto de Evangeline e entrou sem esperar que fosse atendida. Trazia consigo uma bandeja com o jantar para a professora e também o seu destempero natural.

_ Seu Augustus achou que seria melhor a senhora fazer a sua refeição aqui no quarto. Mas acho que não vai gostar do que eu trouxe, minha mãe fez polenta com molho de frango caipira. Deve estar acostumada com refeições mais requintadas. Soube que vivia na corte. – ironizou.

Evangeline apenas sorriu sem nada dizer. Estava faminta e não tinha disposição alguma para discutir seus gostos pessoais com aquela jovem arredia. O cheiro daquela refeição já havia tomado conta de todo o quarto, levando água a sua boca. Tudo que ela desejava naquele momento era se ver livre daquela jovem que deixou o quarto logo em seguida, afinal, ela não escondia sua insatisfação em ter que fazer serviços para aquela mulher que ocupou enorme à mesa, durante o jantar. Pérola, como de costume, respirou fundo enquanto lembrava-se de todas as professoras que já haviam passado por ali. Cecília reclamou, afinal, ela preferia os cavalos aos estudos. Mas Augustus seguia firme em seu propósito, muito mais por sua caçula, sempre tão dedicada aos livros…

A refeição não tomou quinze minutos do tempo de Evangeline que sentiu-se muito mais confortável após degustar aquele prato inédito até então e que se revelou um tanto saboroso. Mas não foi o único conforto que a noite revelou. Evangeline escreveu algumas linhas, leu algumas páginas, deu alguns passos pela casa que aquela altura já estava às escuras, apreciou os quadros espalhados pelo corredor que antes haviam passados despercebidos aos seus olhos. Caminhou pela varanda, sentiu o perfume da noite,  ouviu dúzias de barulhos estranhos que a fez rir e por fim, encontrou-se com Augustus na sala e estranhou vê-lo desperto.

_ Dificuldades para dormir? – indagou ao se levantar prontamente para convidá-la a sentar no sofá e em seguida oferecer um licor. Os dois convites foram aceitos e ele a acompanhou. _ É feito de um fruto brasileiro, mas não me pergunte o nome. Há palavras que são indóceis para o meu vocabulário e eu não gostaria de ofendê-la com tais erros de pronúncia. A senhora é uma professora.
_ Imagine Augustus, a sua pronúncia é exemplar. Ainda mais sendo um italiano. Percebo alguns fonemas, algumas palavras trocadas, mas o seu português é muito agradável. E eu admiro muito o idioma italiano, é muito sonoro e bastante agradável…
_ Então a professora parla italiano? Não estou surpreso com isso.

O olhar dos dois ficaram ali presos um ao outro, enquanto um sorriso ganhou seu devido lugar naqueles lábios que nada pressentiam além do prazer que sentiam na companhia um do outro. Não sentiam a mudança dos ventos, nem mesmo o frescor da noite. Nada sabiam um do outro e só se ocupavam com as descobertas que os diálogos permitiam. Ele lhe contava sua história, ela contava apenas o que julgava ser interessante de sua história.

Ela soube como Augustus conheceu sua Antônia, mas ele não soube como Evangeline conheceu Edouard. Soube que ela nunca teve os mesmo planos de suas irmãs. Sempre preferiu a independência e ela soube que desde sempre ele desejou amar e ser amado, ter uma família e um canto pra chamar de seu…

E a noite por pouco não passou longe dos dois que se deram conta do adiantado da hora e recolheram-se. Ele a entregou em seus aposentos, como se fosse um jovem a levar sua amada de forma segura a sua casa. Ela agradeceu como se fosse moça a admirar o galanteio de um cavalheiro.

>> continua…

Quero apenas atravessar “agosto”…

Da série “era pra ser apenas um comentário e acabou virando um post”…

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Eu quero um domingo de sol, com montanhas a norte e você como o meu sul. Entre o abrigo dos braços que me envolvem e o descaso do olhar que me veste, fazendo ser essa menina que se apaixonou por você ontem e segue inventando novas formas de paixões hoje.
Eu quero a ciência de um domingo deixado ao gosto do outro, com sabor de segundas e terças, tudo pela manhã… Logo cedo, despertando junto ao teu leste…
Eu quero o inexistir das horas, sem ponteiros… Apenas paredes brancas e caixas vazias onde o maquinário e sua engrenagem não se apresente para que eu possa me demorar junto aos teus sons e reconhecer tuas palavras para mim…
Eu quero a saudade da tua pele, da tua boca. Teu sufrágio… Minha redenção.

Eu quero um dia de domingo, com sol na janela, por entre as cortinas. Sem pressa… E o vento reinando lá fora. Absoluto. Os raios dourados do sol, caramelando a paisagem, ameno, suave, deixado no canto do quarto. Janela aberta a exibir as primeiras nuvens, os primeiros pingos, os últimos cantos dos pássaros… A tardar meus desejos, prolongando-os entre nossas pernas, coxas e músculos… E tudo rumando para o oeste na última hora.

Eu quero querer-te sempre aos domingos, o primeiro e outros tantos, em segundos muitos enquanto afogo-me na tua pele e sinto seu avesso antes que o dia termine para que quando, a noite se desenhar eu possa sonhar palavras e te manter aqui na minha superfície, dizendo, fique um pouco mais porque é domingo e o sol ainda está lá e você, arisco, insistirá em dizer-me, “mas hoje já é segunda”.

Mas eu quero que seja domingo de sol, final de tarde e tudo rumando para o oeste enquanto você, como no poema de Auden segue sendo meu norte, meu sul, meu leste e oeste porque é sempre domingo e final de tarde quando estou com você…

Baile de Máscaras

A urgência dos dias, dos ponteiros, das palavras, dos discursos, dos passos, das calçadas, da paisagem junto a janela, dos trilhos que me conduzem a outras cidades, da saudade que fica quando saio de casa, do olhar que já não sabe o que quer; tudo isso tem me mantido longe daqui nos últimos dias…

Mas eu estou voltando! Quem sabe amanhã…
Ao menos eu posso garantir que não há urgência na poesia que vai comigo ou será que sou eu quem vai com ela?

a solidão na cama

Ronda

O amor faz a ronda de fim de tarde
e encontra o menino perdido
em sua paixão arruinada
sem chão;
encontra o velho calado
enquanto sua antiga esposa
dança as agonias finas
de ser amante de outro.
O amor faz silêncio:
não cura.
O menino se torna homem
e ama
incontrolavelmente
incontestavelmente
irremediavelmente
um outro homem.
O velho nunca mais veio
- dizem que é coisa de morte.
A velha – em sua sabedoria -
faz amor mansinho ao amanhecer
hora da labuta
das crianças na escola
dos carros e das buzinas.
Ninguém ouve
o gemido baixinho do amor
todo enrugado sob o lençol bordado
(era presente de casamento)

O amor faz a ronda de fim de tarde
e conhece todas as despedidas
todos os desencontros
todos os desencantos.
Conhece as vontades também
e coloca em todas elas
uma gota de perigo.

 

Carla Jaia que em seu blog “baile de máscaras” se descreve de forma simples, como se fosse uma dança: Carla, ou Jaia – como meu pai costuma me chamar. De dados objetivos tenho a dizer que tenho 26 anos, moro em Vitória (ES) e sou psicóloga. No mais, trabalho, escrevo, brinco, olho, vejo, toco e sinto.

E os diálogos…

Andam escassos.

imageImagem veio daqui…

Aqui em casa só quem fala é o Dr. Andreatti e sua confusão de sentimentos.
O prazo é até sexta e ele precisa se resolver! Se continuar assim, o mato e resolvo tudo por ele.

(…)

De volta ao quarto, ele esqueceu o copo sobre a mesa e buscou por uma velha caixa de sapatos guardada no fundo do armário. A mão esquerda acomodou o objeto sobre a cama, enquanto a outra mão num movimento ansioso buscou novamente pelo copo, levando aquele líquido a boca. Era como se fosse veneno, mas esse não mata, apenas embriaga a mente deixando-a menos intensa para os delírios do homem. O copo novamente esquecido aguarda pelo contato que poderá ou não existir. O gelo derrete mediante o calor que embaça a o vidro da janela. A chuva cai lentamente lá fora, ora mais intensa, ora mais amena e ali sobre a cama, desfila os objetos aninhados naquela caixa que percorreu diferentes espaços.

Fazia tempos que ele escondia junto as suas coisas, aquela caixa. Longe de olhos curiosos que dificilmente entenderiam aquelas singularidades: uma rolha de vinho que ainda guardava a essência inteira de uma noite impossível de ser esquecida… Um guardanapo de uma cantiga de Campos do Jordão, cuja mesa sobre a calçada numa noite fria viu uma aliança causar sorrisos espaçados… Uma caneta quase sem tinta que era usada com frequência por aquela bela jovem que gostava de tecer suas missivas… Um cartão de natal vindo do outro lado do oceano com desejos expressos de que as distâncias fossem menores no ano seguinte… Um descanso de copo desses de cervejaria que narrava uma ansiedade natural que terminou com um forte abraço e um beijo demorado no saguão do aeroporto de Guarulhos… Um desenho infantil, cheio de formas e cores que narrava o olhar de um menino que sabia de cor o nome de seu herói… Uma única carta de baralho, um ás de aspadas que contava detalhes de um jogo num quarto de hotel em que roupas ficavam pelo caminho a cada rodada. Aquela era a última carta. A vitória. A conquista… O sorriso entusiasmo diante da pele nua… Um envelope artesanal onde seu nome estava escrito com uma letra levemente inclinada, ocupando com perfeição o espaço destinado aquela linda caligrafia. Lá dentro uma folha comum de caderno exibindo sensações que desdenhavam do tempo e se mantinham atuais, presentes… Dentre todas as coisas que ocupavam lugar naquela caixa, aquela era sem dúvida a que mais atenção recebia. Gustavo desdobrou o papel, buscou conforto junto a cabeceira da cama, lançou um olhar para o vazio, respirou fundo e pela milionésima vez, leu aquelas linhas.

Em fase de produção
Cara & Coroa – Capítulo 15
Autoria. Lu Guedes (eu) rs