Flores de Maio…

Outono na janela e na porta
O olhar pedindo silêncio, o sol que vai e vem, a chuva que parece chegar pelos cantos do céu e o novo mês que já ensaia passos pelas calçadas do bairro. A pressa dos outros se transforma em demora. As vias estão cheias. Um corpo fica pelo caminho. Ninguém tem tempo de sobra para dar atenção a quem atravessa a rua sem olhar para os lados… Que gente mais estranha é essa que vive lá fora, mas enfim, maio chegou na minha janela e eu sou pessoa de dentro, com poesia minha, com poesia dos outros.

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Poema.
Nuvens correndo num rio

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

Natália Correia, embora nascida nos Açores/Portugal, foi considerada a menina mais bonita de Lisboa, mesmo tendo quem a chamasse de “Rosa dos Açores”. Para muitos, indiferente de títulos e alcunha, ela era sem dúvida alguma a sombra da escrita contemporânea.  É um desses seres que não cabem no espaço que lhes foi destinado “não me arrependo do que vivi” dizia a poeta inúmeras vezes e ao se descrever, lançava mãos de seus versos que diziam:

Espáduas brancas palpitantes / asas no exilio dum corpo / Os braços calhas cintilantes / para o comboio da alma / E os olhos emigrantes no navio da pálpebra / encalhado em renúncia ou cobardia / Por vezes fêmea. Por vezes monja / Conforme a noite. Conforme o dia / Molusco / Esponja / embebida num filtro de magia / Aranha de ouro / presa na teia dos seus ardis / E aos pés um coração de louça / quebrado em jogos infantis.

* * * * *

Tinha o tamanho da praia / o corpo era de areia / Ele próprio era o início / do mar que o continuava / Destino de água salgada / principiado na veia. (…)

Lua Cheia…

Loucas Noites (Wild Nights)
Emily Dickinson

A Natureza é a mais elevada das artes.
      Ver o céu de verão já é poesia.
           Viver é tão surpreendente que deixa pouco espaço para outras ocupações.

            Se leio um livro e ele me deixa o corpo inteiro tão gelado que não há fogo que possa me aquecer, sei que isso é poesia. Se sinto, fisicamente, como se o topo da minha cabeça fosse arrancado, sei que isso é poesia. São essas as minhas únicas maneiras de saber. Haverá alguma outra? [Emily]

120420111299(rascunho de uma segunda-feira: há um poema nascendo em mim)

O desenho da Lua se ampliou no céu de Abril. Não sei a razão, mas as flores de maio floresceram em Abril. O sol anda caramelando a paisagem e o outono anda cultivando ausências. As brancas nuvens não vestem a paisagem e o calor se espalha pelos cantos da minha existência… Ao menos tenho os livros e a poesia que povoa suas páginas.

Notas da Lua Cheia.
- Dona Borboleta, lembra-se da embriaguez de minha solidão? Aquela melancólica da qual falei? Pois bem, ela permanece, mas já tem nome, cores, perfumes e ando conversando com ela. A loucura já se estabeleceu…

- Su, caríssima: fiquei feliz com seu e-mail no começo da noite de ontem. Saber de suas poesias em série me fez caminhar pela casa em busca de uma taça de vinho com um sorriso de orelhas nos lábios…

- A todos que aqui chegam: o incenso de ervas foi aceso a meia noite. As velas de cores distintas (verde, vermelha, azul e amarelo) foram acesas pouco depois. O sino soou gentilmente anunciando que era noite de Lua Cheia. Em minhas mãos, o athame “rasgou” o véu da noite e o caldeirão ganhou chamas sob as bênçãos da Lua que estava linda  no negro véu: as vezes por entre as nuvens. As vezes em meio as folhas, telhados e antenas. O vento norte soprou sua magia e eu invoquei a presença da Sagrada Magia Natural. Bebi o licor da vida, silenciei todas as palavras para ouvir apenas a batida do meu coração e ao fazê-lo lembrei-me de versos antigos que ouço e repito desde a infância.

Que a estrada se abra à sua frente,
Que o vento sopre levemente em suas costas,
Que o sol brilhe morno e suave em sua face,
Que a chuva caia de mansinho em seus campos,
E, até que nos encontremos, de novo…
Que Deus lhe guarde nas palmas de suas mãos
!

Que a magia da Lua Cheia se manifeste em todos nós hoje e sempre.
Boa semana a todos.

 

Culpa da rotina da Borboleta

No final da tarde, ela me manda um link dizendo: “olha eu aqui” e eu fui lá, claro. E quando lá cheguei, deparei-me com a rotina de uma Borboleta. Não deu outra, desenhei minha rotina também…

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Sonho. Terça. Fim de tarde. Teclado. Diálogo. Olhar. Hora. Música. Distância. Abraço. Saudade. Ventos. Nuvens. Cheiro de terra molhada. Paisagem amendoada. Outono. Montanhas. Relvas. Calor. Chá quente na xícara. Água fresca no copo, na cara, no corpo (é só vontade por enquanto). Luz. Estrada. Ilusão. Ida e volta. O relógio no canto da sala. A palavra do outro lado da tela…

E então, posso te convidar a desenhar a sua rotina também?

Para não esquecer…

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para a cabeça: idéias novas
para o nariz: cheiro de terra molhada
para os ouvidos: sons dos oceanos
para os olhos: o sorriso do “meu menino”
para a boca: beijos perfeitos numa manhã de outono
para os cabelos: cachos
para o pescoço: arrepios – (risos)
para o peito: um coração batendo forte por ele (meu menino)
para as mãos: flores do campo
para a barriga: roncos matinais antes do primeiro chá
para o quadril: liberdade
para os joelhos: raios dourados de sol
para o pensamento: precisa dizer? Ele, o tempo todo, claro…
para o coração: paixão intensa
para os músculos: movimentos aleatórios
para os pés: nuvens (com certeza)

E você? Já tomou nota pra não esquecer?

Olhos de menina…

tumblr_ldtv544Qta1qaxgsbo1_500_largeQuase tarde de terça, com sol varrendo a paisagem esbranquiçada ao longe e colorida aqui perto. A senhora amoreira tem folhas verdinhas e pequenas. Não há frutos. Algumas de suas folhas caem pelo chão formando um tapete de folhas secas. Mas é verão dizem os mais espertos…

O silêncio dessa manhã se fez sentir desde as primeiras horas. Só mesmo os meus pensamentos inquietos estão fazendo algum barulho. Eu  me inquieto com o ser humano, sabe? Por isso abro o sorriso largo nos lábios quando vejo meu cão dormindo aqui ao meu lado, onde leio páginas, escrevo outras e observo os movimentos lá de fora. As montanhas (que tenho como janela) estão sendo invadidas pelo bicho homem e eu sempre me lembro da história do Bambi quando o pequeno filhote pergunta a mãe “que bicho é o homem?” mas não há tempo para resposta porque seu pai surge para salvar a todos gritando “homem na floresta, homem na floresta” e o grande incêndio começa. Pensando bem, a resposta estava nas entrelinhas…

Bem, vou voltar para as páginas do livro porque estou chateada com as coisas demasiadamente humanas e quando fico assim, só mesmo as ilusões dos livros escritos por outros que não eu me agradam. A poesia lírica do livro de Susan Fletcher esta me mantendo a salvo no dia de hoje.

Naquela noite, soprou um vento vindo do oeste, em rajadas vindas do mar. Varreu os píeres e as praias cinzentas, passou por sobre as minhas e docas e vilarejos fabris de Ceredigion, correu sobre os campos de futebol americano e as quadras de críquete, atravessou o vale do Teifi, as alamedas escondidas, as construções desmoronadas, as abadias perdidas, as praças de mercado vazias, e depois seguiu ainda mais longe, território adentro, subindo em direção dos nossos carneiros e da nossa atarracada cada de fazenda, e seu telhado azul inclinado, trazendo consigo uma chuva grossa, pesada, que acabou por me acordar: ou melhor, foi a hera agarrada na minha vidraça que fez isso. Ela arranhava o vidro como se estivesse pedindo para entrar. Fiquei debaixo das cobertas, os olhos arregalados.

Do livro. Olhos de Menina (eyes girl)
Susan Fletcher
pág. 38

E vem o vento com sua graça e magia dizer “não se chateei menina”… Ouví-lo é tão fácil e agradável. Obdecê-lo nem tanto. Enfim, vou para a cozinha, esperar o chá esfriar na xícara e continuar a leitura.

Bacio

A caixa de sapato…

image                                                                                                                         Presente da Su – a menina de asas

As badaladas se acumulam nos ponteiros e aos poucos os feriados vão vestindo seus pretéritos. Hoje é segunda-feiraa última de 2010 – esse ano cheio de pequenas erupções. Foram tantos contratempos, mas eu sobrevive: vesti abraços deliciosos, descobri marés, praias e oceanos inteiros. Visitei antigas paisagens… Desbravei o desconhecido e cá estou eu a pensar na magia desse dia. Sim, segunda-feira (aquele dia que muitos odeiam e eu simplesmente adoro) – dia da poesia, da Deusa e dos sentimentos amenos. Sim, é dia de ir mais devagar, respirar fundo, acender um incenso, ler (olhos de menina de Susan Fletcher – minha mais nova paixão, mas não se preocupe, não é nenhum “Orgulho e Preconceito” e por enquanto não há nem sombra de Mr. Darcy). Dia de dar passos pela estrada e rasgar as horas como se fossem trapos antigos… Dia de ganhar flores, eu ganhei a minha no meio da noite de ontem…

E por ser dia da poesia (pra mim) trouxe pra cá mediante autorização da autora, essa figura que parece conhecer-me, mesmo sem nada saber-me de mim. Ziris do blog Um toque de vida que eu encontrei no meio de minhas andanças. Dessas que faço ao seguir mapas deixados por outros para meu devaneio. O nome do blog chamou minha atenção de imediato e lá fui eu percorrer suas linhas; mas ao encontrar o poema abaixo, eu simplesmente abri um daqueles sorrisos que a Tempestade agora parece conhecer e percebi que havia uma neblina suave em meus olhos.

Narciso deslumbrado

O céu é um mar que não tem fundo.
No mar nasce sol e deita lua.
Quando um anoitece o outro flutua.
Os peixes só dormem quando o azul do mar desdoura…
No mar também tem estrelas mas quem brilha são os plânctons…
No céu os passarinhos não aceitam iscas.
E borboleta no fundo do mar voaria!
O avião é um tubarão com asas.
O céu enxerga no mar sua imagem artificada e 
na terra os homens a chamam de Monet.
Não necessita guarda-chuva os que de água tem superfície.
As nuvens são marés por onde o tempo passa.
Mas quando o céu tá limpo dá pra pescar muitos sonhos…

12122010927Lunna contando nuvens no sótão…

Então a semana começa, é hora de abrir as cortinas e deixar os ventos entrarem nessa minha caixa de sapato. Mundo de idéias as avessas e construções desorientadas. Tudo pretérito avançando futuro adentro.

Bacio e desejos de uma linda de semana com pétalas do campo flutuando na imensidão cinza porque há de chover tempestades aqui e lá…

Num dia de Freia, Deusa nórdica da fertilidade e do amor.

Eu e minhas vontades…

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Eu sou a menina das vontades. Aquela que acorda antes mesmo de ir dormir e se precipita em passos pela casa antes que os personagens despertem e saíam por aí fazendo eco em mim. Sim, eu vou lentamente sentindo o sabor dos aromas de manhãs antigas: café preto no bule, pão deixado na porta e mesa posta na primeira hora. Tudo escuro, silencioso com cores se desfazendo na janela lateral e aos poucos o dia vai se inventando pelos cantos do mundo…

Então passa o tempo e surge em minha derme a vontade de costurar nuvens com linhas de todas as cores, arrematando o que resta da manhã as primeiras horas da tarde e se calhar, bordo um arco íris sobre a cidade, de um rio ao outro. Pronto. Eu sei, isso é um absurdo pra você, mas e daí? Pergunto eu com a habitual indiferença de quem não se importa com os rastos lá de fora…

Eu quero mesmo é “namorar” a escada, abandonando-me por lá durante horas inteiras. Todas lentas. Com chá esfriando na xícara, livros em mãos e olhar de horizonte… E entre uma página e outra, eu ouço o canto do pássaro na jabuticabeira que esta atrasada com seus frutos esse ano. Ela não liga, diz pra mim que tem seu próprio tempo e não vai viver no tempo dos outros. Está certa ela…

Quer saber? Eu quero mesmo é bordar estrelas nesse pano de fundo para que a noite chegue mais cedo e eu volte lá para dentro onde sei da lua quando meus dedos se apressam pelo teclado para lançar um diálogo intimo entre a tela e eu…

Porque eu sou a menina das vontades e vivo no sótão.
Tem alguma dúvida quanto a isso?

Desenhos de varanda em meu olhar…

imageHoje eu acordei vestindo todas as minhas manias: li poesia, acendi incenso, velas, caminhei pelos cantos da casa, espie janelas, horizontes, saudades, porta retratos… Preparei um chá bem quente e depois o deixei esfriar na xicara em sua condição de abandono natural…

Então fui lá pra fora, sentar na escada (meu lugar favorito na casa) e desenhei uma varanda no meu olhar. Fiquei lá a espiar o mundo. Minha casa não tem varandas e desde sempre que não consigo conceber uma casa sem varandas. Não é casa, é apenas um móvel sem grandes possibilidades, porque é numa varanda que a gente pode sonhar deitado na rede com aquele personagem antigo que te segue desde o primeiro encontro. Eu não sei quanto a você, mas eu tenho muitos sonhos com o Mr. Darcy. É na varanda que se pode criar enquanto a chuva cai lá fora, molhando o mundo e escorrendo pelos vidros da janela entre aberta enquanto você delira um verso ou outro. É na varanda que se pode dar beijos na boca e sentí-los muito tempo depois…

Uma varanda numa casa é algo indispensável…
Eu não sei ser poeta sem uma varanda, pelo menos preciso do desenho dela em meus olhos.