Eu ainda escrevo diários #3

image

se tu deslizasses os dedos por este texto, sentirias a textura de nossa pele.
escritura. a pele é que diz tudo, o avesso das coisas, os olhares e as mudanças.
- com ondjaki.

A vida é essa coisa engraçada, tem dias em que você não quer a companhia dos outros. Quer apenas a si mesma. Difícil explicar isso àqueles que insistem em habitar sua existência com frases, sons, movimentos diversos. Tudo que você deseja é que se faça silêncio. Que o mundo se ausente e que absolutamente tudo desapareça…

Enfim, mas não é fácil estar sozinha. Não é fácil ficar do lado dentro e não sair desse ninho. Não é fácil proteger-se. Manter-se a salvo. Manter intacto esse mundo que ninguém consegue tocar além de você mesmo. Preservar-se. Não se deixar extinguir… Não perder o momento. Eternizá-lo… Acho que por isso, escrevo. É uma esperança vã de solidão. Não sei, talvez seja bobagem isso que estou dizendo…

No começo eu só queria ouvir uma velha canção, mas depois só queria ouvir o som do meu coração se precipitando dentro do peito. Pulsando seus ritmos inquietos. Não queria deixar entrar luz. Não queria abrir os olhos e queria que o teclado fosse capaz de captar o meu sentir sem qualquer movimento dos meus dedos. Respirei fundo dúzias de vezes e me vi em outras paisagens inúmeras vezes. Mas por mais que tenha tentado me trancar junto a esse conjunto de ilusões, voltei de lá muitas vezes, obrigada que fui pelos movimentos que insistiam a minha volta. 

Passavam das cinco, ainda era tarde, ainda era sexta-feira e eu finalmente desisti. Fiquei apenas com a lembrança daqueles olhos negros, atentos e o aceno do lenço branco na plataforma da estação. Fiquei também com a sensação do último sonho onde nós dois, no alto do mundo observávamos a cidade e seus muitos telhados vermelhos.

Quando eu nasci, meu avô já tinha mais de setenta anos. Então é certo dizer que eu acompanhei uma pequena parte de sua “velhice”. Vi sua pele ganhar rugas, seu corpo fraquejar diante da doença que fez dele uma espécie de “resto de homem”. Vi sua voz perder a força. Seus músculos fraquejarem e acompanhei de perto a parte mais difícil de sua vida. Ele passou a depender dos outros para tudo e eu colhi muitas vezes o seu lamento. Não era fácil… Ele não conseguia mais descer as escadas para ir a sua biblioteca e tão pouco conseguia caminhar pela cidade como tanto gostava. Ficou impossível segurar os livros para ler e a caneta para escrever… Não conseguia mais vestir-se como tanto gostava e fazer a barba também não foi mais possível porque a pele tornou-se frágil e ganhou um cheiro forte porque os banhos não conseguiam compensar o estrago dos remédios. Ele passou a precisar de fraldas, sondas, e uma enfermeira. Os herdeiros do homem contavam os dias para a sua morte, mas ele não se rendia. Ano após ano, resistia. Não sei com que força… Mas sobrevivia.

Eu não sou uma pessoa de heróis, mas se me pedissem para escolher um herói para os meus dias, seria fácil. Seria o meu avô Américo que coloriu os meus dias de menina com sua simplicidade.

Não sei como ele veio para junto de mim no meio da tarde de hoje, mas sei que veio e eu senti seu abraço apertado e até acenei pra ele de dentro do trem e fui com ele em seu velho carro barulhento até em casa e lá contamos nossas alegrias e tristezas vividas ao longo dos dias até o nosso reencontro porque era assim que fazíamos…

E agora que a noite se desenha lá fora, as janelas se acendem e os sons aqui dentro aumentam, recolho minhas lembranças para dentro e fecho a tampa para não deixar nada escapar… Algumas coisas estão a salvo e eu acho que eu também!

(…)Às vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles

Sim, eu escrevo diário…

Assim como a vida escreve estações”!

image

(…)e deixamos de confiar no poema
no poeta
na metáfora
e em todas as mentiras
neste equinócio
com pronúncia de outono
e voz de setembro esquecido
[de repente parece que o mundo murchou
para os que amam por acaso
nestes dias lentos].
(…)

Um poema, de Jorge Pimenta
para a estação de setembro

Então é isso, eu ainda escrevo diários e faço isso ao som das quatro estações do ano, embora nem sempre sinta plenamente todas elas, mas eu sei delas o tempo todo. Em São Paulo é comum ter as quatro estações do ano num só dia. Ontem mesmo, no meio da tarde se fez inverno. Os ventos sopraram fortes e eu quase me deixei levar por eles… Depois veio a chuva fina, úmida, fria e por fim o sol se impôs por um segundo ou dois por entre as nuvens. Então caiu a noite com seu véu de sombras mornas e o verão ensaiou sua volta…

Eu pouco ou nada falei aqui sobre meu livro “diário das quatro estações – volume noturno” aqui porque estava anestesiada com a presença dele em minhas mãos. Foram apenas 50 (cinquenta) exemplares artesanais. Todos feitos por mim. Ou seja, carregam muito mais que apenas os meus delírios. Carregam também parte de mim. Eu gosto desse manifesto artesanal – de você saber o livro, ser parte dele e ir para as mãos das pessoas que passam a possuí-lo.

Enfim, eu não pretendia falar dele aqui. Mas a menina das estações enviou-me um e-mail falando do seu olhar sobre aquelas páginas que chegaram até ela pelos correios. Foi impossível entregar pessoalmente. A vida é feita de momentos e o nosso ainda anda longe, caminha distante, junto as montanhas. Precisamos dar voltas inteiras antes de nos perdemos na mesma paisagem. Eu não tenho pressa. Ela disse também não ter… Enfim, há para nós o conforto das missivas!

O que ela leu, e alguns de vocês também leram foi um combinado dos meus delírios que são mantidos a salvo da tal realidade que eu mantenho do lado de fora dos meus dias. Sempre que alguém me pergunta “você viu que o mundo está em crise?” – eu disfarço o sorriso e me limito a dizer “humhum” e claro que internamente me questiono “e quando foi que não esteve?” – só mudam os sintomas, mas a história é sempre a mesma…

Mas antes que alguém resolva perguntar, vou logo dizendo: para mim, escrever diários é cumprir uma espécie de ritual. Final do dia. Hora incerta. Apenas noite, sombras se configurando do lado de fora, tudo escuro. A lua, as estrelas, o céu, as nuvens e o vento brincando pela paisagem… Uma vela acesa, um incenso inventando formas pelo ar, a música certa e um breve olhar ao redor. Tudo vai ficando mais lento, mais quieto e de repente é como não restasse mais nada além daquele diálogo meu para com ele. Faço minhas confissões e pronto. Bebo um gole de chá e tudo volta a ser vida, barulho, dia, sol, ruas e calçadas…  

(…)
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão às medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre, se ainda recordas

Cecília Meireles, em Solombra, pág. 794

Eu sei que tem muita gente que também escreve diários  e ao fazê-lo “inventam” uma forma de diálogo tão simples e tão necessária porque ali naquelas folhas a gente  escreve para si mesmo, é como se estivéssemos olhando no espelho e dizendo “olá, como foi o seu dia?” e essa pergunta, cada vez menos comum nos dias de hoje é o bastante para que a gente relaxe e confesse o pulsar mais lento, mais breve, mais intenso, mais rápido…

image

23 de setembro…

Por aqui a primavera chegou com sabores e essências do outono. O vento beija minha janela, o sol lambisca de leve os jardins que não estão coloridos. Mas há lá fora qualquer coisa de primavera. Ou será que é aqui dentro de mim? Não sei, mas prefiro o manifesto do não saber, ao menos por enquanto.

Uma xícara de chá, por favor…

clip_image002

É manhã. É segunda-feira. É dia de sol, sem vento. Mas há o canto constante de um pássaro na jabuticabeira que exibe seus pequenos frutos verdes. Estarão pretos nos próximos dias…

Um ritual que sempre me acompanha é o de preparar um chá (diferente a cada estação). Eu não sinto a presença da primavera em mim. Não sinto o desenho de estação alguma nesse momento. Mas é aquele momento de vazio na pele e na alma depois que algo se conclui. O fim sempre causa em minha pele um cansaço natural e até tudo passar, fico aqui em mim, comigo mesma com a sensação de que preciso descobrir por onde começar…

Então, vou para a cozinha: faço bolo, brinco com o cão, lavo a louça, aprecio o cenário e pronto: lá vai a água para o fogo e a xícara para a mesa. O ritual começa…

Um pano branco para reter as ervas: canela em pau, folhas de hortelã menta, uma rodela média de limão, folhas de amora e flores de camomila. Junto as pontas do pano, amarrando-as cuidadosamente e acomodando-a dentro da xícara que recebe a água fervente. Tampo com o pires e enquanto aguardo, leio poesias.

Tomo nos olhos delicadamente
esta noite – jardim de puro tempo
com ramos de silêncio unindo os mundos

Tudo quanto quisesse aqui se encontra
nos arroios de estrelas – pelos bosques
onde há risos (e próximos soluços?).

Sinto perfume e orvalho – imagens tênues
que inventa a solidão, para fazer-te
de repente saudade. E vejo em tudo

essas cansadas lágrimas antigas,
essas longas histórias sucessivas
com seus berços e guerras – glórias? – túmulos

Recolho a noite em minhas pálpebras
Uma vida cantada me rodeia
Mas perguntou-me até onde me alcança
o canto que me envolve e me protege. (
…)

Cecília Meireles

Chegou setembro lá fora…

Foto0003Céu de setembro por aí…

Hoje começou o simpático mês da flores e das folhas também porque se de um lado do oceano as flores se multiplicam pela paisagem, do outro lado são as folhas que se “derramam” pelo chão da paisagem… O mês de setembro é o nono mês do ano no Calendário Gregoriano, mas seu nome vem do latim septem (sete) porque era o sétimo mês no Calendário Romano que começava em março.

Quando o Calendário Gregoriano foi criado, incluíram dois meses em homenagem ao Cônsul romano Júlio César (Julho) e ao Imperador Augusto César (Agosto) por isso o mês de Setembro deixou de ser o sétimo mês e passou a ser o nono…
Na Grécia Antiga, setembro chamava-se Boedromion, mas em muitos estados gregos este mês era conhecido como Demetrion por causa de Demeter.

Eu gosto de Setembro, mas não consigo visualizar o número nove em suas letras. E sempre foi assim, talvez por conhecer a simbologia de “septem”. Não sei. Gosto do número sete e o mês de Julho parece saltar por cima das coisas, afrontando a história. Afinal, lá vem o poder dos romanos interferindo na história.

Enfim, é setembro…
Será que teremos primavera?

 

(…) Não de agosto, como os antigos, embora comigo mesmo costumasse repetir que os agostos haviam invadido setembro, avançado sobre outubro até descobrir o novembro que ia em meio. Me veio numa tarde de sábado, em novembro. Em comum com os agostos de antes, a chuva. E bateu à porta, essa mesma que pintei inteira de amarelo para dar uma ilusão de luz às sombras desta casa”. (…) – o marinheiro, “triângulo das águas” – parte integrante do post “inventário de um escritor de Caio Fernando Abreu no portal Arte e Cultura, para ler é só clicar aqui…

Antes das quatro estações…

convite

O primeiro foi um caderno velho, usado para costura, com espiral, capa xadrez pendendo para o vermelho, já com poucas folhas de amarelo tom. Por aí se imagina a idade do distinto. Meia dúzia de palavras, muitas sensações e a certeza de que escrever pretéritos seria uma promessa a ser cumprida dia após dia

“não tenho muito o que dizer, sou nova, cheiro a leite e fralda suja, segundo a nona, é preciso comer muita polenta pra ser gente e a gargalhada gostosa dela se espelhava pelo quintal onde ela estende a roupa até hoje. Adoro o cheiro de lençol lavado que se espalha pelo quintal e o vento que tumultua o tecido de forma prazerosa para os meus sentidos. Eu não tenho muito o que dizer, sou nova ainda, mais envelheço a cada nova badalada do carrilhão no meio da sala, mas não tenho pressa, nem medo, tudo acontece quando deve de fato acontecer, assim diz o nono e eu vou com ele”.

O segundo foi um caderno novo, capa dura, elegante, num tom meio cinza, com muitas folhas de branco tom. Era perfeitas, mas eram muitas e brancas. Difícil saber o que escrever. Dúzias de dias e nenhuma palavra, nenhuma sensação e a promessa a ser cumprida foi para o fundo da gaveta até que no meio de uma tarde de outono choveu…

“o dia me mandou para dentro, estava na jabuticabeira a colher seu frutos e vi quando tudo pretejou. Não podia negar essa novidade as tuas páginas. Ficou tão lindo o céu, nunca antes o tinha visto assim. Lembro-me de certa manhã em que tudo escureceu e a vida se tornou mais gentil, mas não tinha visto o céu, as nuvens quase ao alcance das mãos, os raios sobre as águas salgadas do mar, os pássaros voando ao longe num tom de desespero, as ruas ficando desertas, as janelas sendo fechadas com pressa. Não, eu não tinha visto ainda a beleza de uma tempestade. Agora chove e a cidade se afoga”…

Vieram o terceiro, o quarto, o quinto e alguns simplesmente foram abandonados pelo caminho. A promessa aos poucos foi sendo rasgada ao meio. Ignorada. Até que um velho caderno de capa azul, presente antigo irrompeu a paisagem e sacudiu a poeira sobre a promessa e disse em palavras tímidas “inventar uma nova forma ou aguardar pela forma existente? É preciso romper preceitos, não sepultar os pretéritos. É preciso desenhá-los em finas folhas em branco porque promessas são promessas” – era 21 de junho de um ano qualquer, surgia ali o Diário das Estações, de forma tímida, reservada que levaria um ano inteiro para tornar-se um horizonte e quando o fez, perdeu a timidez e invadiu cadernos de capas duras coloridas, com linhas muitas e distintas, cadernos de capa preta, finos, com páginas insuficientes e telas iluminadas não apenas pela modernidade, mas pelo desejo de ver pretéritos conjugados no tempo presente… Simplesmente porque:

“um dia ela acordou e percebeu que precisava por ordem em seus pretéritos e mesmo sem saber se haveria tempo o bastante, ela simplesmente foi lá e o fez”…

Diário das estações
Adriana Costa, Letícia Alves, Lunna Guedes e Suzana Martins
Lançamento dia 27 de agosto às 16 horas
Biblioteca Alceu Amoroso Lima, 777

Lá fora…

Drummond disse:
“O outono é uma estação mais da alma que do coração!”

Eu costumo dizer:
O outono é minha licença poética”.

coisas do blog 105coisas do blog 111
A paisagem lá de fora…

O dia de hoje me mandou lá pra fora. Há dias que meus pés pedem calçadas, ruas, caminhos de pedras e folhas… Gosto do som dos passos por sobre folhas secas; do sabor dos ventos junto as folhas que são lançadas ao ar num vôo sereno e breve… O sol brilha no alto céu, por entre as nuvens, iluminando o verde das montanhas…

O que me leva a entender que não importa o que diz o calendário, para os meus olhos, corpo e alma é Outono por aqui e de certo é outono em algum outro lugar também…

Houve uma época em minha vida que eu simplesmente decidi ignorar os anos, os dias, as estações, as fases da lua… Afinal, porque tenho que limitar minha existência aos ritmos impostos por esses tolos humanos que vivem se impondo regras, rótulos e formas estúpidas de rotina…

coisas do blog 124coisas do blog 125
Sensações de outono pelo caminho…

Desde então sou mais feliz (muito mais) porque com isso, descobri minhas próprias estações, fases, dias, horas. Sei do sol e sua marcha pelo céu; sei da lua e sua luz que desaparece nas noites mais escuras e mesmo assim continua lá, envolta por suas próprias sombras, feito eu que as vezes me ausento, fujo e me escondo dentro dessas paredes que nem sempre tem janelas e portas… Sei também das folhas secas, verdes, das flores amarelas, vermelhas e principalmente das azuis. Adoro chá de flores azuis. Já experimentou? Sei também dos dias alaranjados e dos dias cinzas que tanto amo, as vezes esses dias (cinzas) se ocupa de dias inteiros, numa sequencia poética que permite a existência das poças pelo caminho…

Eu sou isso que vês: uma menina no sótão que gosta de espiar a dança que acontece do lado de fora da pele…

 

Diário das Estações

livro aberto

Pronto, agora é oficial. A contagem regressiva teve início.
Logo, é impossível não ocupar-me de certas ansiedades que consomem a pele e alcançam a alma…

 

Diário das Estações – edição 2010/2011
Adriana CostaLetícia AlvesLunna Guedes e Suzana Martins
Lançamento dia 27 de agosto de 2011

 

Eu já sei que agosto agora tardará a chegar.

>> para saber mais clique aqui.

 

Um punhado de jujubas vermelhas…

180120111105200120111110

Hoje eu me deparei com uma dessas lembranças gostosas, fáceis de embalar – feito pão bengala que a gente carrega até em casa…

Certa vez viajava rumo à casa da nona e um rapaz sentou-se no banco da frente. Eu estava com o olhar preso à janela admirando as minhas formas favoritas nas nuvens: vi um cão correndo com as orelhas chacoalhando, um urso com uma lágrima saindo dos olhos e muitas outras coisas mais.

Foi quando aquele estranho surgiu do nada e disse pra mim: “são apenas nuvens menina, não vai demorar pra você perceber que são apenas nuvens. Nada mais“. Eu não o conhecia, mas assim que olhei pra ele uma antipatia natural desenhou em mim. Ele era apenas um estranho, desses que a gente vê apenas uma vez na vida e pensa que nunca mais irá saber dele. Até que você cresce e se dá conta que esse tipo de gente marca presença e praticamente impossível esquecê-lo.

Eu tinha em mãos um daqueles saquinhos de jujubas (balinhas coloridas) que mio babo sempre me dava e lembro que minha única reação naquele momento foi oferecer a ele as minhas balinhas e ao fazê-lo, eu disse: “as vermelhas são as minhas favoritas, mas das azuis eu não gosto. Se quiser eu te dou todas elas. Contanto que você fique quieto em seu canto e deixe meus desenhos de nuvens em paz“. Tente imaginar a cabeça inclinada pra esquerda, um olhar infantil de reprovação e um sorriso pequeno que parecia caçoar da existência daquele adulto tolo. Pronto. Essa figura aí na sua mente era eu a bordo de dois pares de anos.

Ele me olhou espantado. Mas rapidamente voltou para o seu mundo e por alguns segundos me deixou em paz. Tudo muito rápido. Lá estava ele novamente a me observar do alto de sua antipatia humana. Mas dessa vez foi diferente. Ele me pediu todas as balinhas azuis: “quando eu era criança eu também não gostava das azuis, não tinha o gosto que diziam que tinha e nem eram docinhas como as outras. Sempre gostei mais das laranjas. Mas hoje eu vou aceitar as suas azuis”. – claro que eu recolhi todas as azuis rapidamente e entreguei a ele. Era um adulto bobo mesmo. E ao observar aquelas jujubas azuis, de gosto sem graça em suas mãos, ele acabou sorrindo “eu prometo deixar os seus desenhos de nuvens em paz, mas antes eu preciso de um favorzinho seu” – disse ele com uma voz mais adocicada, não menos sem graça que antes. Eu dei de ombros, finge que poderia atendê-lo, mas não estava muito disposta. Ele achou graça da minha atitude e despejou seu pedido “será que você pode me dizer que desenhos têm suas nuvens hoje? É que faz muito tempo que eu só consigo enxergar nuvens“…

Não era nada impossível pra mim, afinal, os desenhos estavam lá mesmo. Era tão fácil vê-los, bastava observá-las e pronto: um pirata, um cavalo alado, um dragão soltando fumaça pela boca, um cão correndo atrás do rabo, um gato deitado no muro, um sorvete de chocolate…

Ele desceu na estação seguinte com os bolsos da capa cheios de balinhas azuis. Ele era um desses homens de negócio que vivem por aí. Deveria ter lá os seus quarenta e poucos anos. E somando os anos, ele deve ter hoje os seus sessenta e poucos anos. Deve viver numa dessas casas de vila e com toda certeza não deve se lembrar da menina para a qual ele ficou acenando da estação enquanto o trem seguia sua sina de trilhos e estações…

Tudo bem, eu não me incomodo de lembrar disso por nós dois…

image

Diário das Estações, pág 22.
Autoria. Lunna Guedes
Coletânea Artesanal, 2009/2010

Bom fim de semana…

Farfalla

28082010728

Tanta coisa aconteceu nesses últimos meses: chás, beijos, enrosco, pessoas e seus muitos vai e vem; ruas, casas, cheiros e sabores. Experimentei olhares, provei sorrisos. Dancei comigo mesma pelos cantos da casa, mudei móveis de lugar, rasguei rascunhos, escrevi novelas e quase desisti de todas as minhas palavras…

E por fim, percebi que gosto do sabor da solidão em qualquer hora do dia e do silêncio no pulsar dos ponteiros ofegantes. Gosto das primeiras horas do dia, das últimas também. Amanhece, anoitece, surgem nuvens num céu de primavera e as tempestades de verão apagam as luzes da manhã, da tarde, enquanto os relâmpagos acedem as luzes da noite escura…

É verão (ou quase) diz o calendário, mas quando se está em São Paulo, o dia não é feito de uma só estação. Aqui temos mesmo as quatro estações ao longo de um único dia. Talvez seja por isso que essa cidade é meu país há tempos. rs

in Diário das Estações
pág, 78

E por falar em estações, as queridíssimas Geórgia e Flavia fizeram uma entrevista comigo para o blog “O que elas estão lendo” – sigam a trilha e veja o vento os leva…

28082010727

E aproveitando o espirito natalino que está “navegando” pelos blogs, vou imitar a queridíssima Borboleta. Pronto: vai ter “ho ho ho” aqui no Sótão. Logo ho ho ho é igual a presente. (risos)
Vou presentear o melhor comentário feito neste post sobre o verão que começa amanhã com o meu livro “diário das quatro estações”.

Então fiquem a vontade para dissertar suas sensações emoções acerca do verão e seus sabores.

Ps. A decisão do ho ho ho sai  no dia 24 porque o tal do Papai Noel não tem disponibilidade para outra data (muitos risos)

Bacio

O som do silêncio…

imageEu não sei quanto a você, mas eu me lembro com muita facilidade qual era o som do silêncio quando eu tinha quatro anos. Eu olhava para o mundo e via palavras, mas elas não me diziam absolutamente nada: ficavam lá, no mais completo e absoluto silêncio. Precisava que alguém desse sentido a elas, mais que isso, precisava que alguém desse voz a cada palavra escrita em muros, paredes, folhetos e por aí vai… Só assim elas faziam algum barulho.

Levou exatos três anos para o som do silêncio fazer barulho junto aos meus olhos.
A primeira palavra que eu escrevi foi o meu nome. Escrever foi bem simples, rápido. Não deu trabalho. O chato mesmo foi tentar compreender aqueles benditos símbolos, unindo-os de forma a fazer sentido. Levou bem mais de uma hora. Mas depois que consegui a façanha de escrever meu próprio nome, passei a escrevê-lo em todos os lugares. Não havia parede, pedaço de papel lá em casa que não tivesse meu nome; em diferentes tamanhos, formatos e cores. Todos os papéis que eu encontrava (de pão, de bala, jornal velho) rabiscava aquela breve composição de símbolos. Eu lembro de dizer alguém “eu já sei escrever o meu nome” e o fiz com um orgulho do tamanho da importância daquele ato.

O silêncio então, passou a fazer muito barulho. Tinha som de letras: nome de lojas, de carros, de placas, de ruas, de praças, bancos e tantas outras coisas mais. Minha mamma pacientemente ouvia atentamente todo aquele barulho.

É claro que eu não me lembro de todas essas coisas. Não mesmo. Lembro de algumas apenas, mas a maioria delas faz parte da lembrança daquela mulher cuja geografia sempre me fascinou. Ela tinha um diário intitulado “façanhas do tempo” onde eu encontrei a seguinte frase “ela tinha tanta pressa em compreender todos aqueles barulhos que depois que os aprendeu, nunca mais fez silêncio”…

Bem, hoje é sexta-feira e eu tenho muitos barulhos para fazer por aqui, a lua hoje se epõe a Vênus, então teremos quietude, mas nada de sossego, os medos estarão todos aí como se estivessem em uma vitrine. Então juízo e bom fim de semana…

Bacio