se tu deslizasses os dedos por este texto, sentirias a textura de nossa pele.
escritura. a pele é que diz tudo, o avesso das coisas, os olhares e as mudanças.
- com ondjaki.
A vida é essa coisa engraçada, tem dias em que você não quer a companhia dos outros. Quer apenas a si mesma. Difícil explicar isso àqueles que insistem em habitar sua existência com frases, sons, movimentos diversos. Tudo que você deseja é que se faça silêncio. Que o mundo se ausente e que absolutamente tudo desapareça…
Enfim, mas não é fácil estar sozinha. Não é fácil ficar do lado dentro e não sair desse ninho. Não é fácil proteger-se. Manter-se a salvo. Manter intacto esse mundo que ninguém consegue tocar além de você mesmo. Preservar-se. Não se deixar extinguir… Não perder o momento. Eternizá-lo… Acho que por isso, escrevo. É uma esperança vã de solidão. Não sei, talvez seja bobagem isso que estou dizendo…
No começo eu só queria ouvir uma velha canção, mas depois só queria ouvir o som do meu coração se precipitando dentro do peito. Pulsando seus ritmos inquietos. Não queria deixar entrar luz. Não queria abrir os olhos e queria que o teclado fosse capaz de captar o meu sentir sem qualquer movimento dos meus dedos. Respirei fundo dúzias de vezes e me vi em outras paisagens inúmeras vezes. Mas por mais que tenha tentado me trancar junto a esse conjunto de ilusões, voltei de lá muitas vezes, obrigada que fui pelos movimentos que insistiam a minha volta.
Passavam das cinco, ainda era tarde, ainda era sexta-feira e eu finalmente desisti. Fiquei apenas com a lembrança daqueles olhos negros, atentos e o aceno do lenço branco na plataforma da estação. Fiquei também com a sensação do último sonho onde nós dois, no alto do mundo observávamos a cidade e seus muitos telhados vermelhos.
Quando eu nasci, meu avô já tinha mais de setenta anos. Então é certo dizer que eu acompanhei uma pequena parte de sua “velhice”. Vi sua pele ganhar rugas, seu corpo fraquejar diante da doença que fez dele uma espécie de “resto de homem”. Vi sua voz perder a força. Seus músculos fraquejarem e acompanhei de perto a parte mais difícil de sua vida. Ele passou a depender dos outros para tudo e eu colhi muitas vezes o seu lamento. Não era fácil… Ele não conseguia mais descer as escadas para ir a sua biblioteca e tão pouco conseguia caminhar pela cidade como tanto gostava. Ficou impossível segurar os livros para ler e a caneta para escrever… Não conseguia mais vestir-se como tanto gostava e fazer a barba também não foi mais possível porque a pele tornou-se frágil e ganhou um cheiro forte porque os banhos não conseguiam compensar o estrago dos remédios. Ele passou a precisar de fraldas, sondas, e uma enfermeira. Os herdeiros do homem contavam os dias para a sua morte, mas ele não se rendia. Ano após ano, resistia. Não sei com que força… Mas sobrevivia.
Eu não sou uma pessoa de heróis, mas se me pedissem para escolher um herói para os meus dias, seria fácil. Seria o meu avô Américo que coloriu os meus dias de menina com sua simplicidade.
Não sei como ele veio para junto de mim no meio da tarde de hoje, mas sei que veio e eu senti seu abraço apertado e até acenei pra ele de dentro do trem e fui com ele em seu velho carro barulhento até em casa e lá contamos nossas alegrias e tristezas vividas ao longo dos dias até o nosso reencontro porque era assim que fazíamos…
E agora que a noite se desenha lá fora, as janelas se acendem e os sons aqui dentro aumentam, recolho minhas lembranças para dentro e fecho a tampa para não deixar nada escapar… Algumas coisas estão a salvo e eu acho que eu também!
(…)Às vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles