Tomando nota “hoje é segunda-feira”…

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Amanheceu lá fora. De um fôlego só. Os ponteiros estão indóceis comigo. Será só comigo? Não acompanham o dia e suas cores de ocasião: é manhã. Nem dez horas. Parece tarde. O almoço já se faz anunciar junto a paisagem lá de fora… Os cheiros. Os sons. As cores. Tudo transborda.

Um avião cruza o céu. Decola. Se enrosca nas nuvens. Tem gente de partida. Mais tarde com certeza (dependendo do vento) haverá gente em fase de chegada…

É segunda. Falta-me a palavra de algum poeta. Mas nada me incomoda nesse dia de hoje. Estou aqui a beber chá, água, café. Estou aqui a comer fruta. A pensar em chocolate. Falta-me apetite para tantas coisas. E ainda sim, sinto muitas coisas.

Não chove em São Paulo. Não nesta manhã. Há nuvens por toda a parte. Mas não chove. O sol inventa sombras e chega a varanda de casa. Está preguiçoso. Até parece novembro. Outono. Saudades. Mas é primavera e diz-se há tempos que primavera é tempo de missivas e poesias. Então vou ali, rascunhar folhas e ler Alexandre O´Neill.

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra “amigo”.

“Amigo” é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

“Amigo” (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
“Amigo” é o contrário de inimigo!
“Amigo” é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

“Amigo” é a solidão derrotada!

“Amigo” é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
“Amigo” vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neill,
in No Reino da Dinamarca

Você vem?

Sim, eu escrevo diário…

Assim como a vida escreve estações”!

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(…)e deixamos de confiar no poema
no poeta
na metáfora
e em todas as mentiras
neste equinócio
com pronúncia de outono
e voz de setembro esquecido
[de repente parece que o mundo murchou
para os que amam por acaso
nestes dias lentos].
(…)

Um poema, de Jorge Pimenta
para a estação de setembro

Então é isso, eu ainda escrevo diários e faço isso ao som das quatro estações do ano, embora nem sempre sinta plenamente todas elas, mas eu sei delas o tempo todo. Em São Paulo é comum ter as quatro estações do ano num só dia. Ontem mesmo, no meio da tarde se fez inverno. Os ventos sopraram fortes e eu quase me deixei levar por eles… Depois veio a chuva fina, úmida, fria e por fim o sol se impôs por um segundo ou dois por entre as nuvens. Então caiu a noite com seu véu de sombras mornas e o verão ensaiou sua volta…

Eu pouco ou nada falei aqui sobre meu livro “diário das quatro estações – volume noturno” aqui porque estava anestesiada com a presença dele em minhas mãos. Foram apenas 50 (cinquenta) exemplares artesanais. Todos feitos por mim. Ou seja, carregam muito mais que apenas os meus delírios. Carregam também parte de mim. Eu gosto desse manifesto artesanal – de você saber o livro, ser parte dele e ir para as mãos das pessoas que passam a possuí-lo.

Enfim, eu não pretendia falar dele aqui. Mas a menina das estações enviou-me um e-mail falando do seu olhar sobre aquelas páginas que chegaram até ela pelos correios. Foi impossível entregar pessoalmente. A vida é feita de momentos e o nosso ainda anda longe, caminha distante, junto as montanhas. Precisamos dar voltas inteiras antes de nos perdemos na mesma paisagem. Eu não tenho pressa. Ela disse também não ter… Enfim, há para nós o conforto das missivas!

O que ela leu, e alguns de vocês também leram foi um combinado dos meus delírios que são mantidos a salvo da tal realidade que eu mantenho do lado de fora dos meus dias. Sempre que alguém me pergunta “você viu que o mundo está em crise?” – eu disfarço o sorriso e me limito a dizer “humhum” e claro que internamente me questiono “e quando foi que não esteve?” – só mudam os sintomas, mas a história é sempre a mesma…

Mas antes que alguém resolva perguntar, vou logo dizendo: para mim, escrever diários é cumprir uma espécie de ritual. Final do dia. Hora incerta. Apenas noite, sombras se configurando do lado de fora, tudo escuro. A lua, as estrelas, o céu, as nuvens e o vento brincando pela paisagem… Uma vela acesa, um incenso inventando formas pelo ar, a música certa e um breve olhar ao redor. Tudo vai ficando mais lento, mais quieto e de repente é como não restasse mais nada além daquele diálogo meu para com ele. Faço minhas confissões e pronto. Bebo um gole de chá e tudo volta a ser vida, barulho, dia, sol, ruas e calçadas…  

(…)
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão às medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre, se ainda recordas

Cecília Meireles, em Solombra, pág. 794

Eu sei que tem muita gente que também escreve diários  e ao fazê-lo “inventam” uma forma de diálogo tão simples e tão necessária porque ali naquelas folhas a gente  escreve para si mesmo, é como se estivéssemos olhando no espelho e dizendo “olá, como foi o seu dia?” e essa pergunta, cada vez menos comum nos dias de hoje é o bastante para que a gente relaxe e confesse o pulsar mais lento, mais breve, mais intenso, mais rápido…

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23 de setembro…

Por aqui a primavera chegou com sabores e essências do outono. O vento beija minha janela, o sol lambisca de leve os jardins que não estão coloridos. Mas há lá fora qualquer coisa de primavera. Ou será que é aqui dentro de mim? Não sei, mas prefiro o manifesto do não saber, ao menos por enquanto.

Uma xícara de chá, por favor…

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É manhã. É segunda-feira. É dia de sol, sem vento. Mas há o canto constante de um pássaro na jabuticabeira que exibe seus pequenos frutos verdes. Estarão pretos nos próximos dias…

Um ritual que sempre me acompanha é o de preparar um chá (diferente a cada estação). Eu não sinto a presença da primavera em mim. Não sinto o desenho de estação alguma nesse momento. Mas é aquele momento de vazio na pele e na alma depois que algo se conclui. O fim sempre causa em minha pele um cansaço natural e até tudo passar, fico aqui em mim, comigo mesma com a sensação de que preciso descobrir por onde começar…

Então, vou para a cozinha: faço bolo, brinco com o cão, lavo a louça, aprecio o cenário e pronto: lá vai a água para o fogo e a xícara para a mesa. O ritual começa…

Um pano branco para reter as ervas: canela em pau, folhas de hortelã menta, uma rodela média de limão, folhas de amora e flores de camomila. Junto as pontas do pano, amarrando-as cuidadosamente e acomodando-a dentro da xícara que recebe a água fervente. Tampo com o pires e enquanto aguardo, leio poesias.

Tomo nos olhos delicadamente
esta noite – jardim de puro tempo
com ramos de silêncio unindo os mundos

Tudo quanto quisesse aqui se encontra
nos arroios de estrelas – pelos bosques
onde há risos (e próximos soluços?).

Sinto perfume e orvalho – imagens tênues
que inventa a solidão, para fazer-te
de repente saudade. E vejo em tudo

essas cansadas lágrimas antigas,
essas longas histórias sucessivas
com seus berços e guerras – glórias? – túmulos

Recolho a noite em minhas pálpebras
Uma vida cantada me rodeia
Mas perguntou-me até onde me alcança
o canto que me envolve e me protege. (
…)

Cecília Meireles

Chegou setembro lá fora…

Foto0003Céu de setembro por aí…

Hoje começou o simpático mês da flores e das folhas também porque se de um lado do oceano as flores se multiplicam pela paisagem, do outro lado são as folhas que se “derramam” pelo chão da paisagem… O mês de setembro é o nono mês do ano no Calendário Gregoriano, mas seu nome vem do latim septem (sete) porque era o sétimo mês no Calendário Romano que começava em março.

Quando o Calendário Gregoriano foi criado, incluíram dois meses em homenagem ao Cônsul romano Júlio César (Julho) e ao Imperador Augusto César (Agosto) por isso o mês de Setembro deixou de ser o sétimo mês e passou a ser o nono…
Na Grécia Antiga, setembro chamava-se Boedromion, mas em muitos estados gregos este mês era conhecido como Demetrion por causa de Demeter.

Eu gosto de Setembro, mas não consigo visualizar o número nove em suas letras. E sempre foi assim, talvez por conhecer a simbologia de “septem”. Não sei. Gosto do número sete e o mês de Julho parece saltar por cima das coisas, afrontando a história. Afinal, lá vem o poder dos romanos interferindo na história.

Enfim, é setembro…
Será que teremos primavera?

 

(…) Não de agosto, como os antigos, embora comigo mesmo costumasse repetir que os agostos haviam invadido setembro, avançado sobre outubro até descobrir o novembro que ia em meio. Me veio numa tarde de sábado, em novembro. Em comum com os agostos de antes, a chuva. E bateu à porta, essa mesma que pintei inteira de amarelo para dar uma ilusão de luz às sombras desta casa”. (…) – o marinheiro, “triângulo das águas” – parte integrante do post “inventário de um escritor de Caio Fernando Abreu no portal Arte e Cultura, para ler é só clicar aqui…

Lá fora…

Drummond disse:
“O outono é uma estação mais da alma que do coração!”

Eu costumo dizer:
O outono é minha licença poética”.

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A paisagem lá de fora…

O dia de hoje me mandou lá pra fora. Há dias que meus pés pedem calçadas, ruas, caminhos de pedras e folhas… Gosto do som dos passos por sobre folhas secas; do sabor dos ventos junto as folhas que são lançadas ao ar num vôo sereno e breve… O sol brilha no alto céu, por entre as nuvens, iluminando o verde das montanhas…

O que me leva a entender que não importa o que diz o calendário, para os meus olhos, corpo e alma é Outono por aqui e de certo é outono em algum outro lugar também…

Houve uma época em minha vida que eu simplesmente decidi ignorar os anos, os dias, as estações, as fases da lua… Afinal, porque tenho que limitar minha existência aos ritmos impostos por esses tolos humanos que vivem se impondo regras, rótulos e formas estúpidas de rotina…

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Sensações de outono pelo caminho…

Desde então sou mais feliz (muito mais) porque com isso, descobri minhas próprias estações, fases, dias, horas. Sei do sol e sua marcha pelo céu; sei da lua e sua luz que desaparece nas noites mais escuras e mesmo assim continua lá, envolta por suas próprias sombras, feito eu que as vezes me ausento, fujo e me escondo dentro dessas paredes que nem sempre tem janelas e portas… Sei também das folhas secas, verdes, das flores amarelas, vermelhas e principalmente das azuis. Adoro chá de flores azuis. Já experimentou? Sei também dos dias alaranjados e dos dias cinzas que tanto amo, as vezes esses dias (cinzas) se ocupa de dias inteiros, numa sequencia poética que permite a existência das poças pelo caminho…

Eu sou isso que vês: uma menina no sótão que gosta de espiar a dança que acontece do lado de fora da pele…

 

Litha

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Nuvens de junho – ainda outono

O vento tem variedade
nas formas de parecer
se vens me dizer verdade,
Porque é que me vens dizer?
Verdades, quem as quer?

Se a vida é o que é,
então está bem o que está
Para que ir pé ante pé
Até ontem e até já
E até onde nada há?
(…)
Fernando Pessoa

O sol atravessa o céu. De leste para o oeste. As horas cantam através dos ventos que incomodam as folhas no alto das árvores. Junho aos poucos vai se perdendo; o  outono já se perdeu dos calendários, mas continua aqui dentro de mim. Cada vez mais tenho certeza que as estações do ano não são as mesmas que vivem dentro de mim. Não mesmo. Eu tenho minhas próprias estações, são como fases lunares. Cecília disse “tenho fases como a lua” – eu vou além, “tenho as minhas próprias estações”. As vezes ou primavera durante um dia inteiro, mas de repente me vejo sendo outono, desejando mantas, vinhos, lareiras e varandas bem definidas, com livros e páginas em branco para serem por mim preenchidas… Então acordo e me vejo verão, desejando calçadas e frases de Clarice Lispector… Quando não, quero abraços apertados, beijos de estalo e lembranças antigas a viver em porta retratos. Ai esse inverno da minha alma…

Mas hoje eu quero ir lá para fora, celebrar meus passos antigos: colher gravetos, reuní-los, envolvê-los com uma fita e atear fogo a vida. Quero incendiar as verdades nunca ditas, as mentiras que sobrevivem nas mentes humanas. Quero lembrar que para cada vida há um legado de morte. O fim é apenas um passo adiante e nem sempre há o abismo para nos receber…

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meu novo diário – manhã de inverno…

O inverno do lado de baixo do equador.
O inverno trouxe o sol e seu brilho não tão forte. Já não há motivos para blusas de lã… Os pássaros despertam com o dia e cantam no fundo do quintal. As farfallas voam pela paisagem, uma ou duas: laranja e vermelho se confundem no corpo daquelas pequenas formas encantadas. Um pássaro afoito se choca com o vidro da janela, me assusto e lembro das montanhas esbranquiçadas.

(…)Enrola o cordão à roda
Do teu dedo sem razão
tudo é uma espécie de moda
E acaba na ocasião
Desenrola esse cordão!(…)
Fernando Pessoa

Tantos rituais se formam ao longo da paisagem e eu me sinto feliz por  não prender a falsos deuses de alegorias muitas. Nada tenho contra a fé alheia, mas aqui dentro de mim só há espaço para as coisas que de fato sinto porque o sentir me faz humana e meu deus não pode ser menos e nem mais: ele também é humano e falho. Não é soberano, não está acima e nem abaixo. É finito, morre todos os dias (como eu) e nasce todos os dias (como eu). Ama, odeia, chora, sorri e tem lembranças da infância (como eu).

Hoje celebra-se Litha na cultura neopagã que muitos tomam para si como sendo religião. Eu não. Apenas acompanho o movimento do sol desde a Aurora ao Crepúsculo e mergulho nessa existência tão minha quanto a sua e digo “namaste”. Não me ocupo do seu deus e não espero que se ocupe do meu…

Acho que todas as coisas se explicam a partir
de um movimento simples: transformação.
Então nada se acaba de fato…

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Minhas estações…

Promessas da estação.

 

A Long Haired Lady do blog 2 + 2 + 5 disse-me que iria cobrar uma promessa feita por mim aqui nessas linhas. Pois bem, aviso aos navegantes: estou cumprindo minha promessa, linha por linha.

Ao todo já são 25 poemas editados…
Alguns inventados, outros reinventados…
Tem também aqueles que perderam o sentido e os que nem deveriam ter existidos…image

Soam as horas no meio da sala
Meus passos pequenos,
…são guiados por mãos asperas,
Até a varanda bem merecida no fundo da casa!
Tudo  memória gasta…
Os olhos colhem tudo que é paisagem
O sorriso se apressa na moldura da face
As nuvens se preparam no céu
A chuva não tarda a chegar
Os telhados vermelhos esperam por ela!
O dia segue envelhecendo…

Eu não entendo…
Por que só vejo rugas na face do homem
que me conduz pelas esquinas do dia?

Série. Morning´s gray
Terceiro Poema