Assim como a vida escreve estações”!

(…)e deixamos de confiar no poema
no poeta
na metáfora
e em todas as mentiras
neste equinócio
com pronúncia de outono
e voz de setembro esquecido
[de repente parece que o mundo murchou
para os que amam por acaso
nestes dias lentos].
(…)
Um poema, de Jorge Pimenta
para a estação de setembro
Então é isso, eu ainda escrevo diários e faço isso ao som das quatro estações do ano, embora nem sempre sinta plenamente todas elas, mas eu sei delas o tempo todo. Em São Paulo é comum ter as quatro estações do ano num só dia. Ontem mesmo, no meio da tarde se fez inverno. Os ventos sopraram fortes e eu quase me deixei levar por eles… Depois veio a chuva fina, úmida, fria e por fim o sol se impôs por um segundo ou dois por entre as nuvens. Então caiu a noite com seu véu de sombras mornas e o verão ensaiou sua volta…
Eu pouco ou nada falei aqui sobre meu livro “diário das quatro estações – volume noturno” aqui porque estava anestesiada com a presença dele em minhas mãos. Foram apenas 50 (cinquenta) exemplares artesanais. Todos feitos por mim. Ou seja, carregam muito mais que apenas os meus delírios. Carregam também parte de mim. Eu gosto desse manifesto artesanal – de você saber o livro, ser parte dele e ir para as mãos das pessoas que passam a possuí-lo.
Enfim, eu não pretendia falar dele aqui. Mas a menina das estações enviou-me um e-mail falando do seu olhar sobre aquelas páginas que chegaram até ela pelos correios. Foi impossível entregar pessoalmente. A vida é feita de momentos e o nosso ainda anda longe, caminha distante, junto as montanhas. Precisamos dar voltas inteiras antes de nos perdemos na mesma paisagem. Eu não tenho pressa. Ela disse também não ter… Enfim, há para nós o conforto das missivas!
O que ela leu, e alguns de vocês também leram foi um combinado dos meus delírios que são mantidos a salvo da tal realidade que eu mantenho do lado de fora dos meus dias. Sempre que alguém me pergunta “você viu que o mundo está em crise?” – eu disfarço o sorriso e me limito a dizer “humhum” e claro que internamente me questiono “e quando foi que não esteve?” – só mudam os sintomas, mas a história é sempre a mesma…
Mas antes que alguém resolva perguntar, vou logo dizendo: para mim, escrever diários é cumprir uma espécie de ritual. Final do dia. Hora incerta. Apenas noite, sombras se configurando do lado de fora, tudo escuro. A lua, as estrelas, o céu, as nuvens e o vento brincando pela paisagem… Uma vela acesa, um incenso inventando formas pelo ar, a música certa e um breve olhar ao redor. Tudo vai ficando mais lento, mais quieto e de repente é como não restasse mais nada além daquele diálogo meu para com ele. Faço minhas confissões e pronto. Bebo um gole de chá e tudo volta a ser vida, barulho, dia, sol, ruas e calçadas…
(…)
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão às medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre, se ainda recordas
Cecília Meireles, em Solombra, pág. 794
Eu sei que tem muita gente que também escreve diários e ao fazê-lo “inventam” uma forma de diálogo tão simples e tão necessária porque ali naquelas folhas a gente escreve para si mesmo, é como se estivéssemos olhando no espelho e dizendo “olá, como foi o seu dia?” e essa pergunta, cada vez menos comum nos dias de hoje é o bastante para que a gente relaxe e confesse o pulsar mais lento, mais breve, mais intenso, mais rápido…

23 de setembro…
Por aqui a primavera chegou com sabores e essências do outono. O vento beija minha janela, o sol lambisca de leve os jardins que não estão coloridos. Mas há lá fora qualquer coisa de primavera. Ou será que é aqui dentro de mim? Não sei, mas prefiro o manifesto do não saber, ao menos por enquanto.