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O Diário de uma solidão
A primavera das emoções – Capítulo 03

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Mário era um rapaz quieto que se esforçava em não ser notado. Não recusava nenhum trabalho. Estava sempre bem disposto. Em poucas semanas já havia ganhado corpo e não se parecia mais com aquele fracote de antes, mas continuava descuidado com sua aparência. Não fazia a barba, não cortava os cabelos que estavam longos e embaraçados. Suas roupas surradas quase não eram lavadas e ele não se banhava com regularidade. Como passava a maior parte do seu tempo cuidando dos cavalos, o cheiro peculiar do animal tornou-se a fragrância natural de seu corpo, fato este que servia para deixar as moças da vila bem distante dele. Mas ele não parecia se importar com isso.

Sempre gentil e muito educado, se esforçava em ser útil. Ajudava as mulheres com tachos de água, lenhas para o fogão, fardos de roupas sujas. Recolhia as roupas do varal. Levantava as cadeiras no refeitório comunitário. Varria o chão. Lavava uma vez por semana. Consertava portas, janelas. Fazia tudo que fosse preciso para se manter ocupado. Era fácil perceber que ele escondia uma triste história de vida, mas também era ainda mais fácil perceber que Mário não estava disposto a compartilhar seus dramas com aquela gente.

Ele era sempre o primeiro a chegar para a lida e o último sair. Tornou-se amigo de Augustus que admirava o comprometimento do rapaz de quem só ouvia elogios. O estábulo novo que ajudou a erguer deu mais liberdade aos cavalos que nunca antes haviam sido tão bem cuidados.

Através de Tobias, Augustus tomou conhecimento dos pesadelos constantes que fazia Mário acordar aos gritos no meio da noite. Ele dizia qualquer coisa incompreensível para os italianos – era nesse momento em que lembravam que o rapaz não era um deles, porque na maior parte do tempo, não fosse o apelido de “alemão” não se lembrariam de sua origem.

Amigo das crianças, a quem ensinava as brincadeiras que havia aprendido no tempo da infância. Ele passou a ser chamado por elas de “fratello” e isso deu alento a sua pele que por alguns instantes se sentia como se fizesse parte daquela enorme família que vivia ali na Vila de Don´Atonia. Mas era mesmo com os cavalos que ele se sentia de fato a vontade. Era com eles que Mário fazia suas confidências em diálogos longos e sem cuidados. Não era preciso “se minha mãe estivesse aqui iria gostar de cavalgar em você. Ela gostava de cavalgar no final da tarde. Foi ela quem me ensinou a montar meu amigo. Ela me ensinou muitas coisas” – ele fazia uma pausa. Respira fundo. Olhava ao redor para certificar-se de sua solidão. Sentia os muitos aromas daquele lugar. Se perdia de si mesmo e voltava a conversar com seu amigo de quatro patas “ela iria gostar muito de você meu amigo, pode acreditar em mim”.

 

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O Diário de uma solidão
A primavera das emoções – Capítulo 03

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Malaquias não gostou nada do que ouviu e tratou de cobrar satisfação daquele jovem que para ele não passava de um vagabundo. Ele o encarou nos olhos, rangeu os dentes e partiu em direção a ele. Ficando ali, bufando feito um boi bravo e pensando em dúzias de impropérios a serem ditos. Mas só fez cobrar explicações.

_ Eu posso saber como foi que se enfiou no meio dos meus italianos? Você não estava no porto seu maledeto.
_ Não senhor. – disse sem desviar o olhar. Ele não demonstrava medo e parecia não estar gostando do modo como estava sendo encarado. _ Eu estava na vila de São Paulo quando o senhor parou para alimentar os cavalos.
_ Ah! Eu vou lhe dar uma bela lição seu vagabundo. – disse Malaquias, enquanto recuava as mangas de sua camisa e partia para cima de Mário, agarrando-o pelo colarinho da camisa que de tão velha acabou rasgando.
Mário não gostava de brigas, mas também não fugia de uma. E mesmo estando fraco, teve forças suficientes para segurar os pulsos daquele homem que percebeu que teria uma boa briga pela frente.
_ O senhor esta enganado. Eu não sou um vagabundo. Não sou italiano como toda essa gente aí, mas sou gente e tenho dois braços. Posso trabalhar. Sei lidar com a terra, com os bichos e com madeira. Eu só quero um trabalho, um lugar pra viver e um prato de comida…
_ Pois vai ter que procurar isso em outro lugar, porque aqui não tem espaço pra gente da sua espécie. – gritou.

A atitude de Malaquias não agradou Augustus que estava em dúvida se interferia ou não, mas diante do chamado de Pérola que se aproximou, tocando em seu braço em meio a uma aflição pouco agradável que pode ser percebida até mesmo por Evangeline que se mantinha afastada, mas participando a sua maneira.

_ Papai, por favor – não o deixe continuar com isso.
_ O que faz aqui bambina? – estranhou Augustus, que ainda tentou afastar a filha daquele cenário nada conveniente para uma menina de quinze anos, mas ela se recusou a deixar o local.
_ Não pude deixar de ouvir o diálogo e lhe peço. Deixo-o ficar. Não é o senhor mesmo quem sempre me disse que não se deve negar a um homem a chance de ter um trabalho digno e um prato de comida? Então meu pai, é justamente o que o senhor está fazendo com esse rapaz apenas porque ele não é italiano. Acha isso justo papai?

Augustus respirou fundo sem desviar o olhar de sua filha. Sentia-se orgulho por perceber que seus ensinamentos não haviam se perdido ao longo dos anos. Sentiu-se envaidecido por ver tais valores ali  naquela figura lúcida de sua menina. Ele deixou em seu rosto um carinho de mãos. Em seus olhos um sorriso e um aceno com a cabeça que parecia dizer “você está certa bambina, o rapaz pode ficar”.

_ Malaquias. – disse usando um tom de voz mais firme. Ele ainda estava atento a sua menina, mas logo a deixou ali para se dirigir a ele. _ O rapaz pode ficar…
_ Mas ele não é um dos seus…
_ Não entendeu o que eu disse? Terei que repetir?
_ Não senhor. – disse, enquanto recuava.

Malaquias sentiu-se ofendido, mas Augustus era o patrão. Era o dinheiro dele que determinava o que deveria ou não ser feito. Embora estivesse furioso e com vontade de esmurrar aquele “maldito alemão”. Ele engoliu seu desconforto e se afastou, tendo seus movimentos seguidos de perto por Tobias que havia se aproximado de forma a deixar bem claro quem mandava ali.

 

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O Diário de uma solidão
A primavera das emoções – Capítulo 03

celeiro

Os passos eram lentos. A paisagem pedia atenção. Tobias achava graça dos movimentos da professora. Qualquer descoberta feita (um simples inseto) era motivo para olhares estranhos. Evangeline levantava a sobrancelha esquerda, afastava o pescoço para trás, paralisando o corpo que se via completamente imóvel diante de tão horrendo ser. E se sentia algo estranho no chão, agarrava a saia do vestido, movendo o pé cuidadosamente para o lado, fechando os olhos para não ver o que havia esmagado com suas botas francesas. Ela tinha medo de sapos, cobras, borboletas, pássaros grandes e mesmo pequenos. Qualquer coisa que se movesse a assustava. Ela nada sabia do campo. Era uma moça da cidade. Acostumada com os confortos que uma fazenda não dispunha. Fato este que fazia Tobias se divertir em seu íntimo. Ele era discreto com o seu sorriso. Era ameno com seus olhares e quase sempre fingia não ver tudo aquilo que considerava um absurdo.

Mas de repente, Tobias percebeu-se sozinho – obrigando-se a olhar para trás. Lá estava Evangeline, alguns passos atrás. Ela havia interrompido sua caminhada e parecia distraída com qualquer coisa – de imediato ele pensou numa cobra, mas o mato estava rasteiro “não pode ser” – pensou ele que imediatamente se pôs a correr para saber o que havia acontecido.

_ Está tudo bem professora McBrown?
Não houve resposta. Mas ela parecia bem. Seu olhar exibia um brilho intenso. Uma alegria impar. Não parecia assustada. Tão pouco incomodada. Assim mesmo ele procurou por pequenos animais, insetos. Mas nada encontrou.

Eles já haviam passado por ali antes. A paisagem ainda era a mesma de antes, mas somente agora o sol alcançava aquele cenário, realçando o contraste daquela construção completamente perdida no meio da paisagem.

_ Eu estou muito bem Tobias. Me desculpe se o assustei, sim?
_ A senhora me deu um baita susto mesmo. Pensei até que tivesse visto uma cobra ou um sapo. – disse ele enquanto coçava a cabeça, hábito bastante comum aquela figura do campo.
_ Não. Que horror. Não mesmo. Só de imaginar algo assim já sinto arrepios ao longo dos braços e pernas. – disse ela enquanto alisava os braços com as mãos como se seus gestos servissem para libertar-la daquela estranha sensação.
_ Na verdade eu parei aqui para olhar o celeiro da filha de Augustus. Ele parece estar sendo abraçado por aquelas árvores e a luz do sol reflete nele como se fosse o centro de tudo aqui…
_ Engraçado. Agora a senhora pareceu até a menina Pérola falando. Ela fala essas coisas bonitas às vezes.
_ Tobias?
_ Sim professora.
_ Acha que a filha do Augustus pode estar lá no celeiro agora?
_ Acho não professora. Ela deve de estar dançando lá com os italianos. A menina Pérola adora dançar a tal da tarantela.
_ Que pena. – lamentou em meio a um suspiro.
_ Oras, a senhora quer ir até lá? É isso? Por que se for isso, eu levo à senhora até lá agora mesmo. São apenas mais alguns passos. Se a senhora não estiver cansada… Eu tenho certeza que a menina Pérola não há de se importar. Eu acho até que ela vai ficar muito da satisfeita.
_ Não sei. Acho melhor conhecê-la primeiro, afinal, não tive um só contato com ela desde que cheguei.
_ Eu tô sabendo disso professora. Mas a menina Pérola passa a maior parte do tempo lá no celeiro. Então acho que de um jeito ou de outro a senhora vai ter que ir até lá…

 

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06

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A ilusão não demorou a voltar a pele de Augustus. Embora tentasse manter sua lucidez, aos poucos a fraqueza se apoderava de sua derme. Suas mãos se agarravam a terra como se ao fazê-lo pudesse reter a realidade em suas veias; mas o toque aquecido daquela mão macia e perfumada junto ao seu ombro o arrastou para dentro daquela ilusão tão desejada por ele.

Augustus já não era mais capaz de discernir realidades. Num movimento rápido de seu corpo, ele se uniu ao olhar dela, alcançando-a e colhendo seu toque uma vez mais. Suas mãos se reencontraram e ele pôs-se a beijá-la.

_ Andiamo voltare pra casa amore mio.

Não era fácil acreditar no que seus olhos viam. Ele relutava. Rompia com as imagens, cerrava os punhos numa retidão custosa. O pranto fugia por seu rosto

_ Ma me escuta: as nostras bambinas estão esperando por você em nostra casa. Você precisa vorta pra cuidar delas como me prometeu.
_ Ma io non consigo. Eu não posso fazer isso sem você. Ma vamo vorta junto pra casa.

Ele fechou os olhos tão logo as mãos dela aterrissaram em seu rosto para aquele carinho de mãos que ela gostava de entregar a ele desde que se conheceram; mas logo ele percebeu novamente sua realidade e a solidão que se compunha a sua volta. Meia dúzia de passos o levaram para baixo de uma árvore. Seu corpo deixou todo o peso se acomodar junto aquele tronco e silenciosamente ele passou a indagar sobre aquela promessa: ele era apenas o homem para quem elas corriam para abraçar no final da tarde quando ele estava de volta da lida; era o homem que vez ou outra as colocava na cama e lia histórias tolas até dormirem; era o homem que deixava beijos pela manhã antes de sair e sentia-se feliz por vê-las tranqüilas em suas camas em meio aquele sono lúcido e profundo. Mas todo o trabalho de educá-las sempre ficou para Antonia que vivia para elas; era atenciosa, carinhosa; mas sabia ralhar quando havia certos exageros. Ela dizia que Pérola era sensível, quieta e observadora; enquanto a mais velha: Paola era arredia, apressada e barulhenta. Sempre que falava das filhas, exaltando suas qualidades ela sorria e buscava reconhecer os traços deles dois nas pequenas. Antônia achava Pérola mais parece com o marido, enquanto Paola se parecia com ela e isso a fazia dizer “é preciso impor limites a essa menina desde já ou teremos sérios problemas nhá Maria” – mas o sorriso não desaparecia nem mesmo quando as preocupações se faziam perceber.

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05

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A paisagem inteira daquele lugar se comprimia sobre Augustus que permanecia ali junto ao chão, em seu estado de abandono, sem forças para levantar-se, com as mãos sujas de terra, o corpo molhado e ele totalmente indiferente ao frio que aos poucos se ocupava daquela derme castigada pela obrigação de continuar a existir.

“Non me lasciarmi, per favore, Antônia; vorta pro tuo amoré, vita mia”. – gritava aos céus, e se não fosse à forte chuva, e seus trovões ensurdecedores, alguém, de certo, teria ouvido…

A promessa feita a Antônia repentinamente se impôs como única lembrança em sua mente. Ele podia ouvir aquela voz fraca, frágil se repetindo junto aos seus ouvidos ao mesmo tempo em que sentia aquela mão fragilizada, já sem forças junto as suas, retendo seus movimentos, obrigando-o a ouvi-la. Ele queria que ela não se cansasse, mas ela só tinha um pensamento naquele instante. Era o seu último esforço. Ele insistiu para que descansasse; que deixasse as palavras para depois, mas ela queria ser ouvida… Queria colher junto a ele promessa de que iria se dedicar as meninas depois que ela se fosse. Ele se recusava; consentir era o mesmo que aceitar sua partida e isso ele não podia fazer, mas não houve outro meio.

Ela seguiu insistindo, usando o pouco de forças que ainda lhe restava. De seus lábios secos e já sem cor brotavam aquelas palavras parcas “ma me promete que vai cuidar delas amore mio, per favore, io non vou ter paz se não ouvir de ti a promessa de que irá cuidar das nostras bambinas. Io quero ouvir a tua promessa!” – e ele assentiu, prometendo o que não sabia de fato, naquele momento, se seria capaz de cumprir.

Depois de colher a promessa feita, Antônia finalmente descansou. A mão cedeu e Augustus colheu aquele último sorriso lúcido de seus lábios que recebeu um último beijo, permanecendo ali junto a pele já sem vida de sua amada que recebia aquele carinho de movimentos curtos e a súplica que se perdia junto aquele corpo que exibia uma calma inabalável como se estivesse apenas repousando para despertar tempos depois. A confusão de Augustus teve início, ele pediu para que todos saíssem para que ela pudesse descansar, parecia incapaz de compreender a morte de sua esposa, se recusando a dar ouvidos as palavras do médico que lamentava o ocorrido.

_ Eu sinto muito senhor Augustus…
_ Ela só está dormindo doutor e nós vamos deixá-la descansar. É do que ela precisa agora, não é?

O médico respirou fundo, recuou um ou dois passos, baixou a cabeça e concordou; acompanhando-o até a sala onde um café forte foi servido junto com as lágrimas da empregada que havia aprendido o valor de uma amizade através daquela mulher que ela chamava de don´Antônia, assim como todas as mulheres da fazenda o faziam.

Levou algum tempo para que Augustus aceitasse aquele desfecho e autorizasse os últimos cuidados para com a esposa que teve os cabelos penteados, a pele banhada em essência e vestida com sua melhor roupa. Junto ao pescoço a medalhinha de nossa senhora que ela havia ganhado no dia de seu casamento e nas mãos o rosário que havia sido um presente de sua mãe.

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04

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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O corpo de Augustus permanecia imóvel junto aquela cadeira. Suas roupas agora estavam ensopadas. Seus olhos gotejavam a água da chuva que parecia emprestar a ele as lágrimas que já lhe faltavam; enquanto as lembranças se multiplicavam em sua mente, em sua pele, em suas feições…

Ele podia sentir o toque suave daqueles lábios que tantas vezes ele beijou; sentia junto as suas mãos úmidas e frias o calor e a textura daquela pele que tantas vezes ele despia. Tudo agora eram apenas lembranças se ecoando em seu âmago e a realidade era aquele amontoado de terra a esconder de seus olhos a figura pálida na qual sua bela Antônia havia se transformado nos últimos dias. Ele nem mesmo havia percebido sua doença. Não conseguia entender porque ela havia preferido sofrer em silêncio e se culpava por sua distração.

Tomado por uma forte insensatez, os olhos de Augustus viram uma ilusão colorida que o fez sorrir. Era ela e sua voz de seda… Ele suspendeu a mão, levando-a de encontro aquele rosto delicado que estava ali a sua frente; mas não foi possível alcançá-la. A ilusão se desfez, restando novamente apenas o vazio que fez com que ele mergulhasse o rosto em suas mãos, se rendendo uma vez ao desespero.

_ Ma, me perdoa Antônia. – gritava ele, enquanto seu corpo fragilizado pela dor que seu intimo embalava ia ao chão, ajoelhando-se como se entoasse uma reza, uma súplica, um lamento. Augustus confessava-se culpado e esperava uma punição pelos seus gestos egoístas; estava disposto a dar sua vida pela dela; estava disposto a qualquer coisa, mas era tarde demais, não havia que ele pudesse fazer.

E ali, em meio aquele pranto solitário, remoendo as terras do chão com as próprias mãos, ele implorava o perdão que ele não era capaz de dar a si mesmo.

 

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03

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Em poucos segundos o azul do céu se recolheu, um forte vento agitou as folhas mais altas das árvores para logo em seguida perturbar vestidos, casacos e chapéus. Seria uma resposta? Indagava-se ele em seu canto miserável…

As meninas foram levadas por Nhá Maria, empregada da casa grande, que antes tentou arrancar Augustus de sua cadeira, mas ele era pesado demais para que pudesse ser obrigado a qualquer movimento que não fosse desejado por ele. Desistiu. Abandonando-o ali para ocupar-se das meninas; pondo-se a correr, arrastando-as até a casa grande…

O véu da tarde rasgou-se ao meio, fez-se noite antes da hora em meio aquela cortina negra de nuvens que fez chover por toda a região. O silêncio até então intenso cedeu lugar aos trovões e aos relâmpagos que cortavam o céu de um lado ao outro em frações de segundos. O tormento agora não estava mais restrito aquele homem. Fazia tanto barulho que a caçula tapava os ouvidos com as mãos, encolhendo-se junto às pernas de Nhá Maria que tentava tranqüilizá-la “já vai passar bambina, já vai passar” – dizia ela, enquanto olhava para a janela e embalava sua preocupação em meio a seguidos suspiros profundos. Augustus não voltava pra casa.


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O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Em poucos segundos o azul do céu se recolheu, um forte vento agitou as folhas mais altas das árvores para logo em seguida perturbar vestidos, casacos e chapéus. Seria uma resposta? Indagava-se ele em seu canto miserável…

As meninas foram levadas por Nhá Maria, empregada da casa grande, que antes tentou arrancar Augustus de sua cadeira, mas ele era pesado demais para que pudesse ser obrigado a qualquer movimento que não fosse desejado por ele. Desistiu. Abandonando-o ali para ocupar-se das meninas; pondo-se a correr, arrastando-as até a casa grande…

O véu da tarde rasgou-se ao meio, fez-se noite antes da hora em meio aquela cortina negra de nuvens que fez chover por toda a região. O silêncio até então intenso cedeu lugar aos trovões e aos relâmpagos que cortavam o céu de um lado ao outro em frações de segundos. O tormento agora não estava mais restrito aquele homem. Fazia tanto barulho que a caçula tapava os ouvidos com as mãos, encolhendo-se junto às pernas de Nhá Maria que tentava tranqüilizá-la “já vai passar bambina, já vai passar” – dizia ela, enquanto olhava para a janela e embalava sua preocupação em meio a seguidos suspiros profundos. Augustus não voltava pra casa.


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02

Para ler o capítulo anterior, clique aqui…

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A pele de Augustus nutria inúmeros tormentos enquanto sua mente alimentava a culpa por aquele desfecho; as mãos pareciam envergonhadas, retidas junto ao corpo, enquanto os olhos vasculhavam os arredores em busca de perdão pelos erros cometidos. O momento era de lamento. Ele rejeitava sua própria teimosia, pensava em como tudo seria diferente se ele não tivesse suas ambições. O sonho realizado expunha finalmente seu preço; os dissabores eram muitos e as forças quase nenhuma.

As pessoas aos poucos se afastavam; já não havia mais o que fazer ali. Alguns ainda tentavam ser gentis antes de voltar para suas vidas; diziam entender a dor que Augustus sentia. Outros davam de ombros ao se lembrar das próprias perdas, superadas há tempos; para estes a cura estava no dia seguinte, afinal, a vida continuava para os que haviam ficado.

Os olhos de Augustus ignoravam tudo que era paisagem, mergulhando no mais alto céu em busca de uma resposta capaz de levar alívio ao seu coração. Queria uma justificativa para aquela perda que não lhe parecia justa. Implorava secretamente uma explicação, pois para ele tudo estava fora de lugar. Seu pensamento subiu aos céus sem que ninguém percebesse; aquele era um diálogo sem testemunhas entre ele e seu Deus de quem sempre se lembrou; nos bons e maus momentos, então era justo exigir dele uma resposta. Uma espécie de grito irrompeu seu íntimo, rasgando-o ao meio “não é justo signore. Ma perche a tirastes de mim? Ma que foi que fiz eu pra ti? Eu não fui egoísta, ma io só queria um pedaço de chão pra criar uns boizinhos e cuidá da minha famiglia. Ma che de errado tem nisto? Diga-me. Io te peço”.

Nenhuma palavra de conforto o alcançou, nenhuma resposta; ele se sentia desolado, sozinho, abandonado junto as lembranças de uma vida que já não tinha mais sentido algum pra ele.

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02

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A pele de Augustus nutria inúmeros tormentos enquanto sua mente alimentava a culpa por aquele desfecho; as mãos pareciam envergonhadas, retidas junto ao corpo, enquanto os olhos vasculhavam os arredores em busca de perdão pelos erros cometidos. O momento era de lamento. Ele rejeitava sua própria teimosia, pensava em como tudo seria diferente se ele não tivesse suas ambições. O sonho realizado expunha finalmente seu preço; os dissabores eram muitos e as forças quase nenhuma.

As pessoas aos poucos se afastavam; já não havia mais o que fazer ali. Alguns ainda tentavam ser gentis antes de voltar para suas vidas; dizendo entender a dor que Augustus sentia. Outros davam de ombros ao se lembrar das próprias perdas, superadas há tempos. Para estes a cura estava no dia seguinte, afinal, a vida continuava para os que haviam ficado.

Os olhos de Augustus ignoravam tudo que era paisagem, mergulhando no mais alto céu em busca de uma resposta capaz de levar alívio ao seu coração. Queria uma justificativa para aquela perda que não lhe parecia justa. Implorava secretamente uma explicação, pois para ele tudo estava fora de lugar. Seu pensamento subiu aos céus sem que ninguém percebesse; aquele era um diálogo sem testemunhas entre ele e seu Deus de quem sempre se lembrou; nos bons e maus momentos, então era justo exigir dele uma resposta. Uma espécie de grito irrompeu seu íntimo, rasgando-o ao meio “não é justo signore. Ma perche a tirastes de mim? Ma que foi que fiz eu pra ti? Eu não fui egoísta, ma io só queria um pedaço de chão pra criar uns boizinhos e cuidá da minha famiglia. Ma che de errado tem nisto? Diga-me. Io te peço”.

Nenhuma palavra de conforto o alcançou, nenhuma resposta; ele se sentia desolado, sozinho, abandonado junto às lembranças de uma vida que já não tinha mais sentido algum pra ele.

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