Promoção no sótão

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.

Poema Passagem das Horas – Álvaro de Campos

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Caderno Fernando Pessoa da Saraiva
160 páginas – 11 x 18 cm.

Pra concorrer é bem simples, deixe aí no comentário o seu poema favorito de Fernando Pessoa – que pode ser de Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro ou do próprio pessoa. A promoção vai até as 18 horinhas de hoje.

Eu vou escolher aquele que eu mais gostar dentre todos.
Não sou legal? Ok. Não diga o que você pensou…

A poesia de Álvaro de Campos #4

lisboa-tranviasSegunda-feira lá fora. Sol ardendo por cima das coisas. É outono (já me disseram) e eu dei de ombros. Não dou a mínima para o calendário. Me mantenho atenta as coisas que sinto. Por isso Pessoa. Por isso Álvaro de Campos… E o olhar lá para fora vez ou outra…

1

( A Raul de Campos)

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Lisboa, uns seis ou sete meses antes do Opiário
Agosto 1913

Pág. 59
Organização e notas de Teresa Rita Lopes
Companhia das Letras

Fernando Pessoa escreveu três sonetos com datas fictícias numa clara tentativa de dar uma passado ao poeta Álvaro de Campos. Por isso os versos parecem um desenho de uma personagem que começa a se explicar. Campos está ali nos dizendo que “não sabe se de fato sente” ou “se sente o outro (Pessoa) ou a ele mesmo”. Ele está surgindo, deixando-se tocar pelo mundo moderno, mas Pessoa o faz “antigo” ao desenhar seu passado através desses poemas.

Me fecho em concha e mergulho numa ilusão que me permite ver um homem junto a mesa, com dezenas de livros abertos, pesquisando o mundo a sua volta para compor um personagem, que terá muito de si mesmo como nenhum outro. Então lá está Pessoa em contato com um mundo, ausentando-se dele enquanto desenha Campos e seu passado. Consciente ou não de que é sua melhor invenção.

A poesia de Álvaro de Campos #1

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Leio Campos desde sempre, é meu eterno livro de cabeceira. Minha bíblia. Meu norte. O livro que eu busco quando o corpo pesa e a mente sente o tranco. São os versos de uma vida inteira. Devorados. De forma consciente. As vezes, de forma completamente inconsciente.

Mas há tempos que eu perdi a noção de livro quanto o assunto é Campos. Leio de acordo com a vontade que bate a porta (meu cuore) e pronto, mas agora decidi ler suas páginas, como livro. Tomando-o. Sentindo-o. Virando páginas. Tudo em ordem natural. Sem este saltar desenfreado por suas folhas. Respeitar a ordem. Tudo se inicia ali na página 53 e vem com um poema que parece desenhar o fim – o desintegrar-se. Desaparecer. Mas é justamente o instante do descobrir-se.

1

Tão pouco heráldica a vida!
Tão sem tronos e ouropéis quotidianos!
Tão de si própria oca, tão do sentir-se despida
Afogai-me, ó ruído da acção, no som dos versos oceanos!

Sede abençoados, carros, comboios e trens
Respirar regulas de fábricas, motores trementes a atroar
Com você crônica
Sede abençoados, vós ocultais-me a mim…

Vós ocultais o silêncio real e inteiro da Hora
Vós despis de seu murmúrio o mistério
Aquele que dentro de mim quase grita, quase, quase chora
Dorme em vosso embalar férreo,

Levai-me para longe de eu saber que a vida é que sinto
Enchei de banal e de material o meu ouvido vosso
A vida que eu vivo, é a vida que me minto
Só tenho aquilo que (…) só quero o que ter não posso.

Poesia. Fernando Pessoa – Álvaro de Campos
Edição Theresa Rita Lopes

Inevitável não indagar sobre o homem por trás do verso, não é mesmo? Mas lendo Pessoa encontramos um eco do homem sobre o poeta “Num jacto, e a máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos – a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem“.

É que Campos já existia, mas não tinha um passado e é isso que Pessoa organiza a partir desse poema. O passado do homem. De Campos – o Álvaro – que é também o auge de Pessoa. É ele. É outra coisa. São muitas coisas e nada é…

Mostra Plural – mais um projeto…

Foi assim. A Francy´s convidou e eu disse “vou pensar” e os desenhos começaram a surgir em minha mente. Alguma coisa sempre acontece e quando percebi já estava pensando na idéia como um todo: colunistas fixos, convidados, matérias. Tudo foi se desenhando na linha do horizonte do meu olhar…

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O projeto é novo. E claro que ainda vai sofrer ajustes aqui e ali, mas o importante mesmo é que será contínuo e surge para ser uma voz nesse silencioso universo literária que anda carente de críticas e olhares mais atentos. Queremos “construir” um espaço reservado para falar da arte e de sua concepção. Abrir janelas…

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Com base nisso, aceitei o convite da Francy´s para editar a revista “Mostra Plural” que saí do singular.

Então é isso. Um projeto em fase de gestação que acabou sendo abraçado por várias pessoas queridas, como a Luciana Nepomuceno (Drops de Anis), Raquel Stanick (Açúcar ou Adoçante), Ricardo Novais (A graça do futebol) e Suzana Guimarães (Há uma varanda dentro de mim) – isso para citar apenas os que aceitaram ser colunistas fixos da revista. 

Bem, eu só posso agradecer a dedicação e o carinho de cada um deles ao preparar textos deliciosos para esse Volume Um que será lançado hoje a tarde no Flores na Varanda aqui em São Paulo.

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Plural como o Universo é o nome da matéria assinada por mim sobre Fernando Pessoa – esse poeta multifacetado que é tão plural quanto a proposta da revista.

Meio de tarde. Começo de noite? Nuvens a passear por cima dos telhados de uma Lisboa mais calma. Talvez mais humana. O relógio não sabe das horas. Os dias nada sabem dos calendários. Ali, sobre a mesa, de madeira e seu tom escuro. Há um homem de corpo fino a pensar. Enlouquece. Rabisca milhares de palavras em folhas. Deseja fazer cessar as vozes que se repetem em sua mente. (…)

continua…

Para você ler a Revista Mostra Plural – basta entrar em contato com a Francy´s através do e-mail francysoliva@gmail.com e solicitar o seu exemplar. O Volume Um será distribuído gratuitamente a partir de segunda-feira (dia 28 de novembro de 2011).

E claro que já estamos trabalhando no Volume Dois/Janeiro 2012 – que terá como tema “cidades”. Então, se você deseja participar, basta enviar o seu material para avaliação desta que vos escreve até o dia 20 de dezembro de 2011 para o e-mail meninanosotao@gmail.com.

E se você está em São Paulo hoje, venha pegar o seu exemplar no Flores na Varanda…

Temporais…

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que não se pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero

(…)
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para o morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso, Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.

 

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Fotos.
Lu Guedessérie a ilusão das nuvens

Desde sempre que eu sei que tem gente que tem medo dos temporais. Eu nunca soube a razão de tanto estardilhaço por causa de alguns raios e trovões… Será que é a consciência humana cuspindo a realidade de dentro pra fora?

Não sei mesmo. Sei apenas que eu aprendi a admirar a força da natureza através das nuvens… E sempre que vejo a beleza daquelas enormes bolas de algodão, me perco. E quando são nuvens negras no céu: abro cortinas e janelas e vou lá pra fora. Sinto o vento. Sinto os raios. Sinto os trovões. Sou outra e penso em Fernando Pessoa que também era outro. Outros.

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Depois de ler esse poema de Álvaro de Campos fica a dúvida a saltitar em minha mente: o que realmente assusta as pessoas: os efeitos naturais (trovões, raios) ou os artificiais (confusões humanas, interpéries, desajustes)?

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Para os dias de outubro…

Dias de sol. Dias de nuvens. A prateleira com seus espaços. A mente com suas esquinas. A alma com suas calçadas. A janela que ainda não sabe nada de mim e a mesa com suas poucas coisas acumuladas. Lembrei-me dela que em outrora falou-me do caos de sua mesa. Tudo aqui nesse cenário está em ordem, ou quase tudo. Meus pensamentos ainda vivem lá por agosto e suas incertezas… E certas palavras estão coladas nos olhos. Ai essa menina e suas estações…

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1 – A menina que conversava com o verão – de Sally Nicholls
2 – Casa entre vértebras – Wesley Peres
3 – Ratos – Gordon Reece
4- A quintessência do desassossego – Fernando Pessoa

A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonhos, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida à ação, a ação, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve… (pág. 19 – a quintessência do desassossego – Fernando Pessoa)

Hoje é sexta…

“O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço”. …

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Sim, é isso mesmo: estou cansada!
Resolvi fazer uma faxina por aqui… (pleonasmo) Comecei limpando a lista de links desse blog. Havia diversos caminhos ali que já não me levavam a lugar algum e havia alguns caminhos que meus passos não desejavam… Logo. Não existem mais… É claro que estão por aí, mas não aqui…

Ando de paciência curta com certos blogs e seus dizeres. Alguns causam-me fadiga e como já passei do tempo de me obrigar a leituras desnecessárias, comecei a fazer a faxina. O reader já foi esvaziado dias antes. Agora chegou a vez do sótão.

Pra ser sincera, eu tive vontade mesmo de tirar a lista de link dali, mas por enquanto permanece. Pelo menos até amanhã…

É complicado. Sempre que minhas leituras se intensificam, me torno mais exigente com os conteúdos e não tolero certas coisas. Virginia Woolf segue comigo, assim como Jane Austen, Álvaro de Campos, Lya Luft, Emily Dickinson, Jack Kerouac e alguns autores recém chegados a minha mesa. Cartas estão sendo escritas. Receitas aprimoradas. Páginas estão perdendo o seu branco e ganhando o colorido das palavras… E quando olho para a tela do computador, certos blogues parecem uma extensão inválida das redes sociais e suas besteiras. Já notou como a linguagem na rede social é desrespeitada? O twitter te obriga aos seus 140 caracteres e parece que as pessoas se limitam ou já eram limitadas. Não sei…

Enfim, é cansaço. Eu acho. Daqui a pouco passa…
Mas a faxina continua!

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(…) A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas
Essas e o que faz falta nelas eternamente
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
(…) Fernando Pessoa

Livros para o mês de agosto…

Agosto atravessou a rua, veio ao meu encontro… De julho restou apenas as lembranças dos dias passados na companhia dos meus livros e algumas outras coisas também, um punhado delas, mas é agosto e alguns livros saltaram pra cima da mesa… Seleção feita. É hora de virar páginas!

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1 – As ondas – Virginia Woolf
2 –
Triângulo das Águas – Caio Fernando Abreu
3 –
O livro do dessassossego – Fernando Pessoa
4 –
A vida das abelhas – Maurice Maeterlinck
5 –
A riqueza do mundo – Lya Luft
6 –
Durante aquele estranho chá – Lygia Fagundes Telles
7 –
Emma – Jane Austen
8 –
Folhas da Relva – Walt Whitman
9 –
Quando eu fui outro – Fernando Pessoa


Alguns já foram lidos antes, mas sabe como é? O momento é outro, então o sabor também será outro… Vou de chá de menta nos próximos dias. Me acompanha?

Dia do amigo…

Há pessoas que passam por nossas vidas por acaso,
mas não é por acaso que elas permanecem…
Lilian Tonet

Vocês sabem bem que eu sou avessa a datas, calendários, ponteiros e coisas do gênero, mas hoje não resisti ao ver o comentário feito pela Lizete nos post anterior. Ela me fez lembrar que as vezes é preciso celebrar certos encontros e desencontros também.

Então vamos lá, celebre essa data comigo:

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Posso ter defeitos, viver ansioso
e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço
que a minha vida é a maior empresa do mundo,
e posso evitar que ela vá à falência
.

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Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões
e períodos de crise.

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Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas
e tornar-se um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si,
mas ser capaz de encontrar um oásis
no recôndito da sua alma.

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É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo…”
Fernando Pessoa 

 

Enfim, hoje é dia do amigo…

123º aniversário de Fernando Pessoa

 

1

Quando olho para mim não me percebo.image
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que repito, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Lisboa, uns seis a sete meses antes do Opiário – Agosto/1913

Fernando Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888 na cidade de Lisboa, Portugal e morreu em 30 de novembro de 1935 na mesma cidade. Acho que a história desse homem dispensa muitas linhas da minha parte. Afinal, os versos deixados por ele falam por si só e descrevem não apenas o homem, mas a sua própria história de um gênio que foi considerado louco, insensato…

Loucura essa que eu confesso beber…

(…)
Falhei em  tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até o campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e arvores,
E quando havia gente era igual a outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
(…)