Missivas noturnas #7

É noite lá fora… É maio aqui dentro!

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Olá meu caro, onde andas tu?

Eu sei, com as estrelas a obervar-me do alto, por entre as nuvens, por cima dos telhados vermelhos e por entre as árvores da alameda que se exibe em linha e que estão mais verdes que antes porque é maio e finalmente posso dizer que é outono por aqui . Saudades crescentes de ti, viu?

[...] O mundo, para ele, se encolheu até ficar do tamanho de sua sala e, durante o tempo que for necessário para que ele venha a compreender isso, precisa ficar onde está. Só uma coisa é certa: não pode estar em nenhum outro lugar, seria absurdo para ele pensar em procurar um outro. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Estou aqui, a lembrar dos nossos dias de infância. Lembra-te? Eu era a menina mais nova a quem todos davam as mãos e levava por aí, com os pés libertos do chão. Acho que eu aprendi a voar nas mãos de vocês. Tinha a confiança de quem amava por sabê-los. Eu o sabia? Depois de tantas confissões é certo dizer que sim, não acha?

Oh, I’ve got lightning in my veins
Shifting like the handle of a slot machine
Love may still exist in another place
I’m just yanking back the handle, no expression on my face

É maio meu caro. O primeiro dia ao pouco se extingue. Virão outros. Trinta dias – porque maio tem sabor, aroma e muitas outras coisas mais… Lembra-te das brincadeiras de primeiro de maio? Eu as tenho em mim – como se fosse ontem. Começava cedo, a andar pelas ruas, ladeira abaixo, até o bosque – por entre as pedras rumo ao mar. Sua mão sempre junto a minha com a preocupação de quem não quer que o outro se perca. Colhíamos pedras e gravetos, folhas e sementes. Sentíamos o cheiro da paisagem morna. Percebendo-nos. Brincávamos de roda. Éramos incansáveis. Só vocês conseguiam me fazer ser criança de fato. Escalávamos árvores com facilidade e lá de cima gritávamos “homem a vista”. Caiamos numa gargalhada incomum que imitava o som das gaivotas. Lembra-te?

O vento cortas os seres pelo meio,
Só um desejo de nitidez ampara o mundo…
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.
(…) Mário de Andrade, Momento (abril de 1937)

Voltávamos para casa cantando. Quase sempre tu me levavas em teus ombros, olhando tudo por cima… Ninguém entendia aquela combinação de alegria e felicidade. Eu era tão pequena. Vocês já eram uma promessa de adultos. Esperavam tanto de vocês e tão pouco de mim. Eu era a menina que fazia vocês ouvir poesias. Lembra-te? Eu os obrigava a ir mais devagar. A T. certa vez, numa tarde de maio – anos mais tarde, diante da lareira, bebendo vinho, já mais velhas (embora eu seja sempre a mais nova) me confidenciou “você não nos deixou envelhecer, nos salvou dessa coisa de idade – foi depois de você que eu deixei de apagar velas” e ficamos lá, em suspenso revendo as coisas que aprendemos uns com os outros. Tanta coisa. É preciso respirar fundo, sorrir e se deixar conduzir pela mão dessas lembranças.

(…)uma sensação de portas que se fecham, de fechaduras que se trancam. É uma estação hermética, um longo momento de introspecção. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Sabe meu caro? Elas ainda estão por aqui, vivendo suas vidas – assim como eu também estou, vivendo o que tenho pra viver, mas confesso que tenho medo – nos vemos cada vez menos. Nos sabemos cada vez menos. Não temos tempo (é a nossa desculpa comum). Depois que você se foi tem sido assim. Nos falamos as vezes, nos escrevemos raramente. Mas as presenças estão escassas. E não sei se nos importamos. Foi assim quando o nono nos deixou. Lembra-te? A maioria de nós se perderam. Ele mantinha todos num laço, desfeito pela morte. Nós não e prometemos a você jamais deixar acontecer. Mas você não está mais aqui para nos cobrar a promessa feita. Você nos matinha atreladas – e agora que se foi, somos o que somos. Pessoas espaçadas, sem a preocupação da presença. Sem a preocupação de sentar-se a mesa, de misturar ingredientes, de ouvir as bobagens de sempre, de rir dos nossos inconvenientes, de nos esquecer das horas, de gargalhar com o som do carrilhão lá na sala. Ele ainda badala suas horas (eu ainda ouço seu eco direto dos meus pretéritos) mas é fato que não há mais ninguém para ouví-lo. Tão pouco para assustar-se com ele…

(…) Tenho de inventar a estrada a cada passo e isso significa que nunca posso ter certeza de onde me encontro. Uma sensação de andar em círculos, de sempre voltar atrás pelo mesmo caminho, de partir em várias direções ao mesmo tempo. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Maio chegou e nenhuma de nós se ocupou de pensar naquela cozinha, de ir até lá para ferver a água, espalhar xícaras pela mesa – para lembrar nossas coisas agradáveis, comuns a todas nós. Elas estão por aí… E eu estou por aqui (com a distancia de um oceano inteiro) com a lembrança que chegou até mim nesse fim de tarde. É maio, disse-me ao sentar-me aqui, como forma de me fazer entender o sentido – repito diversas vezes para ver se algo munda aqui dentro. Comecei ouvindo sua canção. Aquela que te fazia cantar feito um louco na cozinha. Lembra-te? Eu sei que sim… E quando dei por mim estava a compor todas essas linhas e a lembrar que maio era o seu mês. Lembrei então do seu telefonema no meio da tarde (anos atrás – não era maio). Você nos pediu para ir ao seu encontro.  E lá fomos nós. Estávamos lá, por você, sentadas – apreensivas. Não tínhamos ideia do que seria dito e você o fez quase em tom de confissão. Fomos as primeiras a saber “eu consegui. Eu estou amando alguém que me ama também”. Você. Justamente você (que como eu) achava que nunca iria amar. O nosso silêncio durou o tempo necessário para percebê-lo: seus olhos brilhavam – seu corpo inteiro reagia. Uma verdadeira ebulição de sentimentos seus por alguém que era uma perfeita continuação de teu existir. Fomos felizes por você. Como sempre…

É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Fernando Pessoa

Enfim, é maio… (sigo repetindo isso, já percebeu, não é?)
Dias felizes virão, um tanto vazio porque não estais mais aqui com teu sorriso eterno de menino. Sei que só posso recordar o teu abraço – penso que aprendi a abrir os braços e deixar o humano chegar até mim através de ti… Tantas coisas minhas são tuas, mas acho que isso tu sempre soubestes: o riso em comum, o olhar de soslaio, a indiferença crescente para com as bobagens e a gargalhada que deixava todos a nossa volta furiosos. Quantos tampas nossos braços receberam pela solidão do nosso sentir e saber.

Os ventos virão de todos os nortes. 
Os dilúvios cairão sobre os mundos. 
Tu não morrerás.
Não há nuvens que te escureçam. 
Não há ventos que te desfaçam.
Não há águas que te afoguem.
Tu és a própria nuvem.
O próprio vento.
A própria chuva sem fim. . .
Cecília Meireles

É meu caro, como um vento, tudo isso passou. Por mim e por todos nós. Maio chegou, mas o fez sem você. Esteja onde estiver, parte de ti jamais se foi… Tu sabes. Eu bem sei que sabes… Então vou cantar o refrão da sua música favorita em alto tom e sei que vais ouvir e vais cantar comigo.

Oh, the rhythm of my heart
Is beating like a drum
With the words “I love you”
Rolling off my tongue
Oh, never will I roam
For I know my place is home
Where the ocean meets the sky
I’ll be sailing

Lunna

Cheiro de café na minha atmosfera…

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Hoje pela manhã, ao abrir o armário da cozinha, fui tomada de assalto por uma lembrança tão logo o cheiro do café ocupou-se de minha atmosfera. Lembrou-me os dias na casa da nona e seu velho armário de guardar ingredientes. Ela acondicionava tudo dentro de latas: arroz, feijão, açúcar, farinha, café, aveia, biscoitos, bolachas e outras coisas mais. A lata do café era aberta pela manhã e no final da tarde: café da manhã e o café das cinco (a nona não era inglesa – mas havia herdado alguns costumes de vizinhos ingleses, que celebravam as cinco horas com uma mesa farta. E como eram um casal simpático, sempre estendia convites aos vizinhos italianos) – ela, enquanto humana, repetia os gestos e os convites.

Então, pouco depois do meio da tarde, o cheiro do bolo de fubá ou baunilha gritava junto as nossas narinas. A mesa posta no quintal (quando não chovia) fazia urdir as vozes infantis que se amontoavam ao redor da mesa. Devorávamos a xícara de café com leite, alguns biscoitos e grossas fatias de bolo para depois ouvirmos atentamente um novo capítulo de alguma história grega ou celta. Aos poucos, nossos movimentos eram contidos pela dócil e gentil voz da nona e então seguíamos para o banho e o descanso para o jantar. Um pouco de televisão, algumas “guerras” de almofadas e a vida seguia existindo lá fora, porque lá dentro daquela casa, o tempo urdia sua própria trama e a gente esquecia de crescer. Funcionava muito bem, até porque quando uma lembrança assim salta de dentro de mim, me sinto de volta aquela velha casa, com varanda, casinha no fundo (onde o nono jogava baralho) e ao lado a velha oficina do nono onde ele fabricava “seus brinquedos” e mais atrás  os pés de fruta lado a lado mais ao fundo. Dizia o nono que havia um pé de frutas para cada neto especial. Eu contei uma vez: jabuticaba (duas) – laranjeira (duas) – macieira – mangueira e abacateiro (uma de cada) – e de tanto pensar em todas essas coisas, quase me esqueço que o tempo passou e eu cresci. É preciso respirar fundo, olhar bem a minha volta para me convencer da realidade… rs

Tudo isso sendo lembrado assim, pelo sutil cheiro do café
no armário da minha cozinha.

“a menina que um dia, eu fui”…

A culpa do escrito abaixo, é claro
que é sempre dela e dela também…

Lunna

Não tenho saudades da minha infância. Mas gosto de lembrar os meus dias de menina a quem a mãe perguntava pela manhã com um ar de preocupada e um olhar atento as reações “você dormiu?” e em meio a um sorriso levado eu respondia “uhummm”. Era uma resposta imprecisa, insensata. Que não dizia nada. Já o meu rosto vivia (ainda vive) com aquele desenho escuro ao redor dos olhos.

Eu não dormia. Ela sabia, mas como toda manhã fingia não saber. Entrava no meu quarto. Lia histórias e eu fechava os olhos. Se fossem os malditos contos de fada, fazia isso ainda mais rápido. Odiava-os, tanto quanto o rosa, as bonecas e as roupas de menina (saias, vestidos e sapatinhos). Eu fingia dormir. Fechada os olhos e suspirava fundo, como quem morre. As vezes dormia mesmo ou pensava que dormia. Nunca soube direito. Lembro que acordava no meio da noite e pegava a lanterna para iluminar o branco do teto. Ficava delirando. Inventava histórias. Inventava coisas. Viajava por por paisagens inteiras. As vezes abria a janela, sentava no parapeito e ficava espiando as estrelas e quando o dia chegava com sua brisa fria, sentia na pele um arrepio e corria para debaixo do edredom. Gostava de dormir quando tudo ficava claro. Eu nunca tive medo do escuro. Sempre gostei de sombras. Já o dia nunca me conquistou…

Eu fui menina de jogar bola. De não usar maquiagem. De espiar a mãe se enfeitando para a sua vida de consultas. Ela era uma mulher e eu uma menina (meio moleque) meio arteira. Meio insatisfeita com as outras crianças – principalmente com as meninas que brincavam de bonecas. Eram bobas e queriam ser modelos – eu queria sim ser o modelo oposto. Queria me ver emburrada era me enfiar num vestido. Queria me ver feliz era me deixar vestir minha jardineira vermelha. Calçar meu tênis e sair correndo com a piparola. Chutando bola. Sentando na escada para esperar pelo babo. Inventando histórias, amigos ocultos. Conversando com adultos. Falando pouco e ouvindo muito. Inventando pessoas… Chacoalhando as pernas no ar. Observando o movimento do balanço sem nunca sentar nele – chupando sorvete e lambuzando a blusa. Pisando sobre poças… Fechando os olhos e abrindo os braços para voar, sabendo que a imaginação poderia me levar para todo e qualquer lugar…

Nos meus dias de menina, o meu quarto era o melhor lugar no mundo. Duas janelas e entre elas uma mesa. Primeiro foi uma máquina de escrever, depois um computador. O som sempre ligado em Chopin, Mozart e Bizet (entre outros). Os cadernos (mesmo em dias de computador) se acumulavam ao lado dos livros. Hoje, eu confesso, sinto saudades dos diários escritos ao longo da minha infância.

E ao lançar meu olhar para lá, percebo algo engraçado: a menina cresceu (mas não é uma certeza – as vezes duvido disso). Acontece que a menina que vive em mim hoje parece ser a mesma de ontem… Travessa. Feliz. Inconstante. Diferente das outras. Continuo gostando do vermelho e não tolerando o rosa e menos ainda as coisas de menina. Não pinto a cara. Não uso saias. Nem vestidos. Sou assim: menina de calças e camisetas, tênis e caretas… E palavras (claro)…

Livros para o mês de novembro…

livros de novembroEm casa era uma festa. Livros espalhados por todos os cantos com suas muitas capas coloridas, duras, repletas de palavras interessantes. Minha mãe gostava dos contos indianos (acho que eu já disse isso em algum lugar) enquanto o meu pai tinha uma preferência natural pelos livros jurídicos – mas também lia os famosos clássicos da literatura. Mas apenas aqueles com os quais se identificasse. Dava pra contar nos dedos. Sério…

Mas a noite, depois do jantar, nos sentávamos no sofá e pronto. Escolhíamos um livro e líamos (as vezes apenas nós três, as vezes mais pessoas – dependia do dia. Houve uma época que várias pessoas começaram a chegar em casa depois do jantar. Uma delas uma vez trouxe um bolo. Outra numa outra ocasião trouxe um prato de biscoitos… E teve quem trouxesse chá quente, café com leite e por aí vai). Eu achava engraçado. Sentávamos no sofá e tocava a campainha (que era um sino – três vezes). Numa dessas vezes, a vizinha, uma senhora simpática que tinha um cão (presente do filho que tentou levá-la para morar em sua casa e como não conseguiu, deu o cão para fazer-lhe companhia – para onde ela ia levava aquele labrador negro. Lindo). Trouxe um livro de presente para o grupo (a essa altura já eram sete pessoas sentadas no sofá) – o livro era “Amar verbo intransitivo de Mário de Andrade”. Foram cinco noites lendo o livro. Cada um lia um trecho. Cada um com sua voz, sua emoção, seu entusiasmo e curiosidade. As vezes eu esquecia a história (que eu já conhecia) e prestava atenção nas reações de cada um. Havia quem esfregasse as mãos. Quem cruzasse os braços. Que respirasse fundo… Havia de tudo. E havia eu (aquela menina de olhos atentos) sendo moldada pelas noites em “família”. Na última leitura feita, éramos vinte e três pessoas… Entre eles os dois netos da senhora e seu cão (aliás, ele prestava muita atenção na leitura também, mas havia quem dizia que ele estava dormindo. Eu nunca acreditei nisso).

Enfim, é novembro. Pra mim é o tempo de olhar para trás e recordar esse passado que faz de mim o que sou hoje… A paixão pela leitura, como sabem, não se perdeu, continua aqui em mim. Não cessa de forma alguma. Mas confesso que leio bem menos que antes. Não culpo o tempo. Culpo apenas a mim mesma – às vezes preciso me dedicar com mais intensidade as palavras que vivem em meu íntimo e falta tempo para as palavras dos outros.

Mas mesmo assim a paixão continua em mim e há dias em que eu simplesmente preciso abandonar a mim mesma e mergulhar naquelas páginas, cuja realidade me atraí. Gosto de dizer que sou abduzida por Jane Austen, Virginia Woolf, Fernando Pessoa, Eliot, Susan Fletcher, Lygia Fagundes Telles, A.S.Byatt e tantos outros…

Minha lista de livros para o mês de novembro: (foto acima)

01 – Papel Manteiga para embrulhar segredos  – Cristiane Lisboa (sugestão da Mariacininha) – o livro é delicioso (já li, mas vou ler novamente)…

02 – Inventário de um escritor irremediável – Caio Fernando Abreu

03 – A riqueza do mundo – Lya Luft

04 – Persuasão – Jane Austen (sim, eu já li. sim, eu ou ler de novo)

05 – Desfiz 75 anos – Rubem Alves (achei na Cultura em minhas andanças por lá, lembrei-me da “Mãe Gaia” e trouxe-o comigo…

Coisas boas de se lembrar…

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Depois de ler novamente um antigo post da Borboleta na qual ela falava do avô, viajei através das minhas próprias lembranças. Minha infância se exibiu diante dos meus olhos como se tudo tivesse acontecido no tempo de ontem. Ficou impossível não confundir um pouco da minha história com a dela; mesmo sendo tão diferentes, apresentam lá as suas semelhanças…

Mio nono usava boina e a tirava sempre que entrava em casa, segurando-a com as duas mãos a frente do peito enquanto limpava os pés: um depois do outro, lentamente. Mas quando tinha algo de importante a dizer para a Nona, sapateava ali mesmo no local, junto a porta e o tapete, enquanto amassava a bendita da boina entre as mãos. Ele abaixava a cabeça, olhava pra ela de soslaio e rapidamente a gente tinha que sair da cozinha. Descobri a importância das pressas nessa época. Ficavam lá os dois falando em dialeto pra ter certeza de que ninguém entenderia. Era prosa de adulto, não nos competia. Numa dessas conversas, os dois saíram de preto no final da tarde e só voltaram depois da noite feita, alta, tardia. Tinham ido para um funeral do outro lado da cidade…

Mio nono tinha uma “magrela” (bicicleta) na qual andava pela cidade inteira. A bendita tinha uma daquelas buzinas antigas, feito sino, que tocava pelas ruas a dentro, esquinas a fora. “e lá vai o Domingos com a sua magrela” diziam… As vezes eu ia na garupa dele, feito moleque mesmo, com as pernas abertas, segurando no banco e dizia “voa nono” e ele respondia “mas não sou pássaro bambina”… E eu me perdia em sorrisos demorados, daqueles ruidosos que se prolongam e causam dor no baço… “mas vai nono, voa” e no fim, ele simplesmente dizia “te segura bambina”…

Em casa, ele tinha uma xícara só sua que era para o “café preto” coado na hora. Ele detestava café de minutos. Tinha que ser café de agora. “O único vechio em questa casa sono io” dizia pra minha mamma. Ele chegava, largava a magrela no canto, perto da escada. Falava com as plantas e e batia palmas na porta de entrada (que as vezes era a porta de saída). Dizia ela “ma no tem ninguém in questa casa” e a gente aparecia para o ritual de boas vindas. É claro que sabíamos da presença dele muito antes disso, mas era preciso esperar pelas palmas…

Certa vez me disseram que ele tinha mais de oitenta anos. Eu era menina ainda, quando muito contava até vinte. Dava de ombros pra todos aqueles anos e me ocupava de alisar todas aquelas rugas que ele tinha no rosto e ao fazê-lo, ele parecia recordar a si mesmo, acabava sempre me contando alguma história interessante de seu tempo de moço. Era a sua forma de dizer que cada ruga no rosto era um ano inteiro em sua vida… Eu nunca achei que ele fosse um velho. Porque estava sempre cantando tarantela, pulando feito moleque e perturbando a nona com seus movimentos insanos. O tempo parecia ter feito uma curva e passado bem longe dele… E de certo ficou atrás de uma árvore qualquer espiando sua alegria de bambino recém saído dos cueiros.

Certo dia, depois de um passeio com sua magrela, ele chegou cansado. Sentou-se no banco e foi só então que eu percebi sua idade. Seu corpo começava a dar sinal de cansaço; seu coração já não queria mais saber de pulsar na mesma intensidade de antes e ele me disse “un uomo só é morto quando os olhos fecham e não abre de novo” e voltou a sorrir gostoso.

Acho que eu passei boa parte da minha infância apenas observando aquele homem engraçado, que chacoalhava a barriga quando ria; gostava da casa cheia, mesa no terreiro, música alegre, abraço apertado e beijo na boca.

Eu sei que ele não está mais aqui. Sei? Eu não sei de nada, de coisa alguma; sei o que me disseram; mas há tempos que não dou importância para o que dizem as pessoas. Até porque, enquanto escrevo e revejo todas essas coisas, ele está aqui comigo e parece que é ele dedilhando as teclas do piano e cantando uma de suas canções… E posso bebericar um bom vinho e espiar a mim mesma crescendo pelos cantos da casa. Se prestar bastante atenção, ouço o meu próprio eco

 

Um pouco do que sou e da criança que fui…

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Certa vez, lia com minha mãe um livro de contos indianos… A literatura indiana estava entre as suas leituras favoritas. Eu gostava de ouvir a voz dela narrando com entusiasmo aqueles contos. Me sentia pulverizada por todas aquelas ilusões, cores, sons e sensações. Era meu conto de fadas.

Ela tinha esse livro de capa laranja, com uma bela ilustração de Ganesh na capa e nele havia essa frase que ela gostava de repetir constantemente, além de sempre anotá-la por todos os cantos: agendas, cadernos de rascunhos, pedaços de papeis que ela deixava em alguns lugares da casa para serem encontrados por nós.

A frase dizia:

“O verbo “amar” em indiano e persa tem o mesmo significado que “ser amigo”. “Eu te amo” traduzido literalmente significa “te considero como amigo” e “eu não gosto de você” simplesmente quer dizer “não te considero como amigo”…

Ao encontrar aquele velho pedaço de papel com sua caligrafia bem definida, levemente inclinada para a direita, distâncias perfeitas, lembrei-me dos dias em que nos sentávamos junto a escada que dava para a varanda e para a porta da frente, também chamada de porta de entrada em alguns momentos e de saída em outros (rs). Eu gostava de rascunhar ilusões e ela gostava de ler seus contos indianos. Então ficávamos por lá. Eu fazendo meus desenhos com os ouvidos atentos a todas aquelas histórias. Sempre havia alguma reflexão a ser feita no final de cada história e a gente se divertia muito com nossas observações, as dela sempre mais sensatas e as minhas recheadas com a ilusão dos poucos anos. Tudo é tão simples quando somos crianças e ela sempre acabava sorrindo e eu sempre queria saber o que ia por trás daquele sorriso. Certa vez ela me disse “se um dia você crescer, encontre um meio de preservar essa criança linda que eu e o seu pai inventamos”…

E lá se vão vinte e tantos anos e quando eu me sento aqui para escrever, seja um post, um artigo, uma matéria ou uma história qualquer, sinto essa criança que eles inventaram por perto, balançando as perninhas, olhando de lado, sorrindo com todos os dentes e gesticulando com as mãos de forma frenética…

Eu não gostava das mesmas coisas que as outras crianças gostavam, mas ficava lá, no meu mundo assistindo suas brincadeiras de infância. Não me aproximava e eu sei que elas me achavam esquisita. Me olhavam as vezes e diziam coisas junto aos ouvidos uma das outras. Alguns minutos depois me esqueciam e voltavam a reinar em seus mundos de faz de conta.

Eu achava graça, porque os adultos me rotulavam com seus adjetivos vários e me deixavam furiosa com aquelas afagos em meus cabelos. Eu queria mordê-los, mas era bem comportada, então só imaginava o feito. Mordi tanta gente em meu imaginário. Mas nunca quis morder aquelas crianças. De fato, eu nunca me interessei por elas…

As páginas dos livros e eu…

Depois de escrever a matéria “ler é bom pra cachorro” onde aproveitei pra falar dessa minha paixão por livros que começou, até onde me lembro, nos primeiros anos de vida, resolvi aproveitar o embalo para responder a esse questionário sobre livros. Arte da dona Borboleta – onde já se viu convidar uma leitora compulsiva para falar ou responder perguntas sobre livros. Dá pra imaginar aonde isso me leva?

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1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Que pergunta mais difícil essa.
Vamos lá: Quase todos os livros que estão na minha humilde prateleira já foram lidos e (re)lidos, mesmo os que não gostei de ler porque eu sempre acho que é tudo uma questão de ponto de vista. Vira a página, muda o momento, quem sabe desperta outro sentir. Mas tem alguns que eu leio de novo e de novo e novamente: Olhos de menina, Susan Fletcher – Durante aquele estranho chá, Lygia Fagundes Telles – Possessão, A.S. Byatt, A vida das abelhas, Maurice Maeterlinck – Poesias, Álvaro de Campos – Orgulho e Preconceito, Jane Austen – Mansfield Park, Jane Austen – As ondas, Virginia Woolf…

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Não exatamente, eu não gosto de abandonar livros, mas tentei dias atrás (re)ler Crime e Castigo e percebi que pra mim esse é um livro de verão e não combina com os tons e os sabores do outono. Li uma dúzia de páginas e pronto: deixei-o lá a esperar pelo próximo verão. Os mesmo ocorre com os livros de Clarice, suas palavras pra mim tem sabor de verão e não adianta me obrigar a outro tempo, outra atmosfera.

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Um único? (vontade de gritar) Notou o pânico? (deixei a pergunta para responder por último) – mas acabei escolhendo “Poesia de Álvaro de Campos” – mas você não imagina a dor de abandonar outros títulos. Daria um  jeito de burlar isso.

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Ulisses. Até hoje não consegui me aproximar dele. Acho que ainda não é o momento. Sei lá. O tive em minhas mãos e disse agora vai. Não foi… Outros livros me sequestraram o sentido…

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
Amar verbo intransitivo, Mário de Andrade – A menina que roubava livros, Markus Zusak – Triângulo das Águas, Caio Fernando Abreu – Cem anos de solidão, Garcia Marques e Emma, Jane Austen.

6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Livros de Mitologia Grega. Ouvia as histórias sendo narradas por minha nona e queria saber mais e mais. O mesmo aconteceu com a Mitologia Céltica e Egípcia. Pra mim era tudo uma espécie de “contos de fadas” só que bem melhor. Fui uma criança chata que odiava a Chapeuzinho e torcia para o lobo só para a história ficar mais interessante. Detestava a Branca de Neve e adorava a Bruxa Má. Detestava a Cinderela e por aí vai. Claro que ouvi todas essas histórias na escola como toda criança e foi assim que eu descobri que o tédio existia.

7. Qual o livro que achaste chato e mesmo assim leste até o fim? Por quê?
Noite e dia, de Virginia Woolf, os personagens me tiraram do sério com suas dúvidas, pareciam fazer aquele jogo infantil do bem-me-quer – mal-me-quer. rs E li porque adoro Virginia e não me arrependo e já estou lendo de novo… Os originais de Laura, de Wladimir Nabokov: me decepcionei no decorrer da leitura, mas o li porque queria compreender o ritmo do autor.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Por onde eu começo? Todos os livros de Jane Austen, Virginia Woolf, Susan Fletcher e Caio Fernando Abreu. Eles tem total licença para serem obrigatórios, mesmo leitura sendo prazer e não obrigação… Citando alguns: Dom Casmurro, Machado de Assis (mas esqueçam a traição de Capitu e prestem atenção na mãe de Bentinho). Amar, verbo intransitivo, Mário de Andrade (retrato de uma sociedade hipócrita). Livro do Desassossego, Fernando Pessoa (necessidade humana). O casamento do céu e do inferno, William Blake.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Wild Night, Emily Dickinson: (poesia) porque poesia é sempre bem vinda nos meus dias – As ondas, Virginia Woolf: porque esse livro sempre pede para ser lido – A dança cósmica das feiticeiras,  porque preciso meditar minhas ilusões. Diários de Jack Kerouac, Jack Kerouac: porque eu adoro me aventurar nas palavras desse autor e verificar suas loucuras acerca da criação de seus livros – Razão e Sentimento, Jane Austen: porque é outono e o outono sempre me pede para ler Austen – Diário do Hospício e O cemitério dos vivos, Lima Barreto: porque esse livro pediu para vir comigo num outro dia quando estive na Cultura e eu o trouxe. Claro, agradeço a todos os deuses por ter feito isso. 

10. Indica dez amigos para o Meme Literário.
Dez? Não sei… Vou indicar apenas aqueles que despertam em mim alguma curiosidade para saber o que estão a ler.

Long Haired Lady do blog 2 + 2 = 5
Keila do blog Atitude do Pensar
Cris do blog Cafofo on line
Letícia do blog Tempestade
Taty do blog When she danced
Suzana Martins do blog Entre Marés

Hoje o dia é dele…

…e o post também!

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Ele ainda é um menino com seu sorriso gostoso a brincar com o cachorro pelos cantos da casa. Ele faz arte, me beija na boca, tenta me pegar no colo pra tirar meus pés do chão. Mesmo sabendo que eu vivo nas nuvens. Ele não se importa. Faz cara de bravo (ou tenta, ele não sabe muito bem como se faz essas coisas). Tem suas primaveras, gosta do verão, adora o inverno, mas não sei bem o que pensa de fato sobre o outono…

Eles gosta de janelas e portas. Adora acender a lareira. Bebe vinho e come pasta. Tem lembranças várias, algumas são comigo, outras são com outros. Gosta de árvores: jabuticabeiras e laranjeiras. Se encanta com o brilho da lua e também com o brilho do sol. Sabe das nuvens e suas formas. Adora jujubas e bolo com cobertura.

Esfrega as mãos uma nas outras e as vezes fica em silêncio me espiando de longe. Lê Jane Austen e capítulos vários, as vezes os mesmos dezenas de vezes e nem reclama. Gosta de canecas e chá de frutas vermelhas, folhas verdes… Disse que não gostava de ficar cozinha, mas vive por lá e diz pra quem quiser ouvir que “adora beliscar a cozinheira”. Eu confesso que nunca ouvi nenhuma reclamação acerca desse último fato… (risos)

Ele já foi descrito em versos vários, contos inteiros. É personagem principal da minha história e eu vivo dizendo que sou melhor hoje graças a ele. E lá se vão os anos em fila. São oito ao lado dele. Diz ele. Eu não sei direito… Sou péssima na hora de somar voltas de ponteiros e me entender com os calendários.

Mas sei com certeza que hoje o dia é dele. E não importa qual é a soma dos anos que abraçam a sua pele. Vou dizer (não é segredo) ninguém acredita nos anos que ele diz ter. E olha que ele já foi velho um dia, mas isso foi antes de mim porque o tempo passou e o que era ruga virou riso e o homem virou voltou a ser esse menino lindo que eu tanto amo…

Buon compleanno amore mio.

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Sigamos então, tu e eu
Enquanto o poente no céu se estende
como um paciente anestesiado sobre a mesa:
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça;
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão…

A Canção de amor, J.Alfred Prufrock
(Trad. Ivan Junqueira)

Em algum lugar de mim…

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Hoje eu acordei com saudades do tempo da minha infância. Eu não queria abrir os olhos, quis ficar presa aquela paisagem antiga que tem seu aconchego nos dias de ontem… Lembro-me que assim que chegava abril começava a contagem regressiva para julho: eram as famosas férias de verão… Durante muitos anos, esse foi o mês da minha vida. A sensação que eu tive pela manhã era que quando eu abrisse meus olhos eu estaria de volta àquela velha casa com quintal grande, chão feito de tijolos de construção, mastro de Santo Antonio, rosas vermelhas na lateral da casa e jabuticabeiras crescendo forte ao lado da laranjeira… Foi lá que eu percebi que jamais iria crescer.

Encontrávamos-nos anualmente no mesmo dia, como se combinássemos alguma coisa. Chegavamos um por vez e de repente a casa estava repleta de crianças. 

Foi lá também que eu aprendi que varanda é um objeto precioso na composição de uma casa. O café da manhã na casa do nono era regado a raios de sol ou gotas de chuva numa velha mesa feita de por ele. Era o lugar das refeições, de leituras, do jogos de fim de tarde, dos contos e causos. Do silêncio antes da volta pra casa quando as férias acabavam…

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Aquela casa guarda tantas lembranças, que eu acho que  quem mora por lá hoje deveria saber que na sala tinha um relógio insano que cantava de hora em hora e fazia a casa inteira cantar com ele e que o nono o acertava pontualmente as sete da manhã… Deveriam saber que o bendito som do carrilhão atordoava a todos nós na primeira noite. Era tão difícil dormir com aquele som que fazia a casa inteira cantar junto com ele. A gente cobria a cabeça com a coberta como se ao fazer isso estivessemos a salvo. E claro, deveriam saber também que há muitos passos felizes pelo terreiro e mãos apressadas a colher os frutos da jabuticabeira. Vez ou outra algumas crianças (as mais ousadas) escalavam os galhos da frondosa árvore só pra comer os frutos dos galhos mais altos. Eram os mais doces. Pode ter certeza de que vão ouvir gritos apavorados de um nono ressabiado, que ressoavam por todo o quintal e pela vizinhança também. Ele queria fazer seus bambinos descerem de lá de qualquer jeito. Santo medo que exercita a voz. Acho que também devem saber que naquela casa tem muitos esconderijos, todos inventados no meio de uma dessas tardes de julho… E tem o latido de um cão brincalhão que corre atrás de suas crianças e mesmo estando velho, abana o rabo e espera ano após ano por elas nas férias. Ele senta-se lá perto do velho portão que range ao ser aberto (a casa não tem campainha, mas o portão cumpre bem o papel de anunciar a chegada dos visitantes) e fica lá a esperar por suas crianças que correm para abraçá-lo. Há uma menina de perninhas tortas que sempre leva biscoitos no bolso pra ele e se senta na escada dos fundos, ao seu lado, e lê pra ele as poesias de Emily Dickinson e ele ouve atentamente. Com toda certeza eles não fazem idéia que os ossos desse cão estão lá no fundo do quintal, ao lado da jabuticabeira que prometeu rezar por ele. Então é bem provavel que alguém, vez ou outra, ouça um latido amigo por lá, na certa, ele está a chamar pelas crianças que simplesmente desapareceram do seu quintal…

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É justo dizer que o rompimento desta época tenha sido pela morte. Ainda me lembro da última vez que estivemos todos lá. Já não eramos mais crianças e fora as lembranças da infância, já não tinhamos mais nada em comum. O caixão estava bem no meio da sala. Eu o vi de relance. As pessoas estavam todas fantasiadas de luto, pareciam tristes e eu não quis me juntar a elas, na verdade, eu nunca tive uma relação amigável para com essa forma de morte, sempre me pareceu algo injusto.

Fui para o quintal e fiquei por lá ao lado da “menina dos meus olhos”. Nunca entendi porque não colocaram os ossos do nostro nono ali aos seus pés. Acho que ainda hoje não entendo, afinal, o nosso amigo de quatro patas estava lá. Seria justo, mas não foi assim… Ao inves disso, meias dúzia de homens levaram o caixão para o cemitério e novamente eu não quis fazer parte desse tolo ritual. Preferi ficar junto da jabuticabeira com minhas lembranças e saudades; recordando dias felizes de julho e gosto de acreditar que nos reunimos lá “os meninos e meninas” de ontem recordando tombos, brigas bobas que se resolviam com abraços, brincadeiras inventadas, esconderijos secretos, lugares preferidos, jogos de carta na sexta à noite, olhares perdidos, latidos, músicas, palavras… Tantas coisas boas. Quero acreditar que fizemos uma promessa silenciosa de não mais nos perdemos uns dos outros e claro que não cumprimos porque os adultos são assim mesmo: nunca cumprem as promessas feitas.

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É justo dizer que de certa forma, aquela casa não existe mais: nem o céu que a cobria, nem a jabuticabeira, os caminhos que levavam até ela, as portas, os canteiros de rosas e cristas de galo, as venezianas, a varada, o cão… Absolutamente tudo se desfez a partir daquele dia… É como um sonho e sei que se passar em frente dela hoje, não vou reconhecê-la, tão pouco sabê-la, mas a saudade prevalece, inteira aqui dentro.

Diário das Estações, pág 85.
Autoria. Lunna Guedes
Coletânea Artesanal, 2009/2010

Uma “missiva secreta” escrita pra você…

clip_image001Sentei-me aqui para ler o horizonte e a varanda começou a contar-me de ti em meio aos seus contornos antigos. Tem tanto de mim aqui nesses cantos. Tem tanto de outras pessoas, algumas delas já se foram. Outras apenas passam por aqui quando não tem outros lugares para ir. Tanto desse lugar já está em repouso, em silêncio e não sei se irá despertar. Creio que o sono profundo será seus sons daqui pra frente. Sinto na pele um anúncio de despedida. Ele parece acenar para mim com todos os seus pretéritos.

clip_image001[8]Os degraus ali debaixo contam lendas sobre uma menina e seus cachos que nunca tinham ido muito além de meia dúzia de esquinas até chegar até aqui dias antes do primeiro inverno branco de sua vida. Contam também encontros de braços que se vestiam de forma simples e natural. Sorrisos surgiam em meio a palavras carinhosas ofertadas por estranhas meninas das quais os nomes pareciam conhecidos como se o vento falasse delas há tempos… Falam ainda de um velho homem de aparência redonda e amável que movimentava todos os músculos de seu corpo quando gargalhava e levava todos com ele porque aquele som era contagiante. Ele se foi num dia de chuva, como gostava, cavalgando; estava ele em busca de um cavalo assustado, na certa iria acalmá-lo e traze-lo de volta pra casa. Ele sabia como poucos o que eles diziam e pobre daquele que dissesse “cavalos não falam nono” ele nada dizia, mas seu silêncio era feito faca afiada a atravessar as entranhas. Gostava daquele olhar livre de maldade, vestindo apenas descaso. Acho que herdei isso dele. Gosto de pensar que sim…

A casa agora está vazia, silenciosa. Falta o cão a andar de um lado para o outro e sinceramente faltam muitas outras coisas também. Já não é mais como antes. É apenas uma casca com recordações minhas e de tantos outros. Mas as últimas visitas parecem ter ofendido todas essas memórias. Lembro de quanto essa varanda reunia dúzias de olhares, centenas de sorrisos e a felicidade daquele homem que tinha ali naqueles movimentos a sua realização. Ele era feliz na maior parte do tempo e gostava da casa cheia, de amigos, mas preferia os cavalos, como eu prefiro os cães. Tem uma foto dele ao lado da lareira, é onde ficam as fotos das pessoas que já se foram. Uma alusão ao fogo e sua perversa motivação. Tudo dura pouco, não é mesmo? As coisas se acabam e você nem se dá conta disso. Quando abre os olhos numa manhã, percebe a casa vazia, ausente de passos e mesmo assim espera. Fica a centímetros da porta de entrada esperando que todos voltem; mas o passado não é um ioiô e só volta em partes, nada físico, apenas metafísico….

E a paisagem se perde do lado de dentro da gente. As lágrimas visitam a face e a pele fica inebriada. A melancolia toma conta do corpo e você aos poucos vai ouvindo aquelas conversas de fim de tarde, com xícaras e livros na mesa da varanda. A escada desenha passos e trás de volta a ilusão daqueles que não estão mais aqui. O sorriso da menina de cachos floresce por alguns segundos e eu a vejo ali, sentada, com seu livro ao lado daquela dama que ela tanto admirava, esperando pelo homem que hoje é apenas um mito, uma lenda que não desaparece porque ela o leva consigo em suas margens. Eu o vejo chegar com seus braços abertos para onde ela salta com toda a segurança porque sabe que ele a fará voar por cima de todas as coisas demasiadamente humanas.

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Mas basta uma leve distração pra tudo voltar ao vazio sem sons ou movimentos. De real, apenas o maldito carrilhão com seus sons que ultrapassam tempo e espaço. Ele assustava a menina em suas primeiras horas, depois passou a ser música para embalar uma juventude que teve suas euforias, seus dramas, decepções, mudanças. Teve tantas coisas e ele narrou a maioria delas. Hoje ele é apenas um móvel articulado que serve para despertar o que ainda resta de ilusão.

A casa está vazia e o eco dos meus passos me incomodam. Quero ir embora e dizer que não vou mais voltar, mas é mentira porque por enquanto esse cenário é tudo que eu tenho de meu. Minha história passa por aqui e essa história que me levou até você. Lembra? Você deu uma dúzia e meia de passos em minha direção e me presentou com o seu abraço. Há tempos que alguém não me abraçava porque eu não queria proximidade com humanos. Até você chegar, eu achava que eu tinha uma maldição reinando em minha derme. Mas você com seu sorriso de menino, seu abraço de homem e seu olhar canino foram ficando e hoje, não importa a distância, sempre há algo para te contar ou algo a ouvir de você…

Menina no sótão…