Antes de começar, já vou dizendo que a culpa é toda dela…
Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
(…)
Imagem. Lis Costa do blog Flor de Lis.
Pronto. Agora estou aqui pensando sobre a morte e suas analogias. Cada um tem a sua, pra mim a morte é apenas o mistério de estar aqui e amanhã não mais. Desaparecer. Algo que as pessoas não entendem. Olham e se perguntam “por que desaparecer?”. Oras, porque todos nós em algum momento desaparecemos.
Tom Jobim desapareceu, mas deixou um pouco do que foi o homem ou algo assim. Ele era o homem que me dizia “vem cá Luiza, dá-me a tua mão” e eu nem me chamo Luiza, mas o que importa o nome? Eu ia com ele. E pronto… Hoje a música se repete por aí, mas não vejo sua figura, ouço seus sons, seu sentir, mas o homem desapareceu…
E tanta gente seguiu o mesmo caminho. Tanta gente simplesmente desapareceu. Eu tenho uma lista inteira com nomes. Alguns me surpreenderam. Porque a gente espera por tudo, menos por isso. Alguém vem e te diz “ele morreu” – então acontece uma pausa natural. Leva alguns segundos pra que você entenda o real sentido daquela palavra. E só então você reage. Ou se trata de um espanto. Um desconforto. Descrédito… Enfim, nunca estamos prontos de fato.
O mais engraçado é que eu choro por qualquer coisa. Desenhos animados me fazem chorar. Filmes, seriados, livros… Mas a morte. Bem, sempre que sei que alguém morreu, nada me ocorre. Lembro das lágrimas derramadas pelo Ayrton Senna (eu fiquei chateada porque esperava vê-lo correr mais). Mas não foi assim. Ele simplesmente desapareceu das manhãs de domingo. Mas você pode dizer que ao menos existiram aquelas manhãs em que carros se enfileiravam no grid e disputavam volta após volta o lugar mais alto no pódio. Sim, existiram aqueles dias, mas o homem e sua história ficou no passado. Perdeu-se. Desapareceu…
Enfim, a morte é esse mistério que a maioria de nós não alcança. Para um escritor a morte é um fascínio, afinal, somos deuses (não ria, o assunto é sério). Pense bem: criamos personagens, alinhavamos seus destinos. Determinamos o quanto irão sofrer até alcançar a utopia da vida: a tão sonhada felicidade. Determinamos cada ação e reação. Criamos um mundo inteiro para aquela figura que pode viver em tempos distintos ou tempos inexistentes nessa nossa realidade. Mas quando matamos um personagem, a descrição é simples, sem grandes latitudes porque estamos limitados pela vida. Incrivelmente limitados. Não é irônico? Sim. É completamente irônico. A vida nos limita. E até mesmo aqueles que ultrapassaram essa maldita barreira, dependeram de outros para descrever tal momento. Que o diga Virginia, Florbela, e tantos outros… A vida limitando o individuo.
E claro, por favor, não me falem em psicografias. Elas não servem de alento para um autor, afinal, a consciência da escrita está no tempo de agora. Hoje. Não há conforto para aquele que consegue descrever a façanha da descoberta de um grande amor como tão bem o fez Jane Austen em Orgulho e Preconceito, embora me incomode e muito o fato de Lizziê só se dar conta do amor que sente por Mr. Darcy quando ela vê o tamanho de sua casa. Tudo bem. Há perdão nisso tudo porque eu percebi seus sentimentos por ele bem antes disso. Até porque eram assim o pensamento das senhoras do tempo de Austen que também sentiu na pele o drama de recusar o casamento. Há quem tenha esperado encontrar em suas missivas e diários um amor secreto. Um certo Mr. Darcy. Mas tudo isso desapareceu junto com a autora que deixou suas palavras, suas histórias, seus personagens. Mas ela em si, desapareceu…
É claro que ela continua, assim como eu continuo e muitos de nós continuam por aqui. O homem inventou a idéia de continuidade, para não fazer de sua existência algo deveras desagradável. Então, nascem os filhos e ali, naquela figura pequena está o milagre da continuidade. Quanto peso para alguém tão pequeno e já tão comprometido com uma ciência que nem ao menos o alcança…
Enfim, tudo entregue ao amanhã que também apresentará o ponto final dos mistérios da vida para inúmeras figuras: eu, você e tantos outros porque desaparecer é uma consequência natural…
Sim, há quem diga que há mais depois. Mas de certo mesmo, independente de crenças, é que temos o tempo presente, no qual pulsam corações, se atrevem olhares, se precipitam movimentos. A vida é o tempo presente. É consequência do agora. A vida é essa ciência que culmina no ato de desaparecer… Algo que eu considero poético, como os versos de um poeta qualquer que eu admiro.
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas
e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa
mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.
(…) Álvaro de Campos – Passagem das horas
Aviso. A maioria dos poetas que amo já desapareceram todos!