Lendo Caio Fernando Abreu

Caio F.Dias atrás alguém me enviou um e-mail dizendo que “se eu conhecesse de fato Caio Fernando Abreu não o leria, tão pouco o citaria”. Já estava lendo “triângulo das águas” – “limite branco” e “fragmentos” do autor. Há tempos não o lia porque não suporto modismos e a internet fez de Caio Fernando Abreu uma espécie de vírus, com dúzias de citações atribuídas ao autor.

Tinha lido “limite branco” em 2003 – foi quando eu o (re) descobri enquanto autor, mas confesso que nunca fui atrás do homem Caio Fernando Abreu porque pra mim, as biografias são na verdade uma espécie de mapa, obrigando-nos a certas direções.

O homem por trás do autor não me interessa. Não sei seus caminhos. Seus passos. Não tomo para mim suas direções. O que me interessa é o autor. A figura emblemática que olha para o mundo em busca de si mesmo e acaba por descobrir-se no outro, um personagem que surge sem que ele procure por isso.caiofernandessite

Enfim, fico eu com suas palavras “queria tanto que alguém me amasse por alguma coisa que eu escrevi”.

O livro “Fragmentos” da LPM reúne contos de Caio Fernando Abreu, os primeiros são excelentes. Te levam para dentro da história. “Os sapatinhos vermelhos” é de longe o melhor conto do livro e sem dúvida alguma, um dos melhores de Caio. Adoro a narrativa que nos leva de encontro a uma mulher que se transforma ao calçar aqueles belos sapatos vermelhos.

“Segunda-feira no escritório, quando a viram caminhando com dificuldade, cabelos presos, vestida de marrom, gola fechada, e quiseram saber o que era – um sapato novo, ela explicou muito simples, apertado demais, não é nada. Voltavam a doer, os ferimentos, quando ameaçava chuva. E ao abrir a terceira gaveta do armário para ver o papel de seda azul-clarinho guardando os sapatos, sentia um leve estremecimento. Tentava – tentava mesmo? – não ceder. Mas quase sempre o impulso de calçá-los era mais forte. Porque afinal, dizia-se, como num conto de Sonia Coutinho, há tantas sextas-feiras, tantos luminosos de néon, tantos rapazes solitários e gostosos perdidos nesta cidade suja. Só pensou em jogá-los for quando as varizes começaram a engrossar, escalando as coxas, e o médico então apalpou-a nas virilhas e depois avisou quê”… pág. 30

Os contos seguem, alguns são mais interessantes que outro. Como a vida, que as vezes nos manda vestir bons e maus momentos. A gente traga tudo como se fosse um cigarro velho, encontrado no bolso da calça, todo amassado…

Nota. Antes que alguém pergunte, eu não fumo. Mas as vezes, quando eu escrevo, elevo meus dois dedos ao ar e sinto como se houvesse um cigarro por lá. Até repito o gesto conhecido. Levando o cigarro imaginário até a boca. Tragando a fumaça e soltando-a em seguida. Não, eu nunca quis fumar… (risos)

Já “limite branco” é um livro sobre um jovem amedrontado. Que tem tanto medo de crescer quando de existir. Os diários do personagem no livro são sem dúvida alguma a parte mais interessante, porque é exatamente quando ele dialoga com o leitor e impõe a ele o seu ritmo de jovem com medo do próprio destino – de fazer a escolha errada e não ser aquilo que dele esperam…

Deixei por último “triângulo das águas” porque é o meu favorito. É uma leitura contínua. E  por isso, deixo aqui um trecho que em muito se assemelha comigo. Já cheguei a escrever em tempos outros sobre as xícaras que adquiri ao longo dos anos e o simbolismo dela pra mim, mas jamais, até ler esse livro, encontrei uma definição tão perfeita quando ao tema.

“Eu acompanhava com a cabeça a música vinda da sala, ao mesmo tempo em que esmagava as ervas para jogá-las dentro do bule. Esperando a água chiar, determinava com cuidado, e para sempre, a cor da xícara de cada um de nós, colocando-as em círculo ao redor do bule.
Escolhi a vermelha para Arthur, que dá ordens, prega pregos, corta fios e sem parar faz coisas pela casa. Separei a azul celeste para Isis, azul no tom exato de sua voz aguda quando canta, cristal retinindo na luz. Determinei que a verde mais clara pertenceria a Júlio, que se enreda em palavras, movimentos, e me parece – pelo menos agora, em plena noite – que o movimento tem exatamente essa cor, sobretudo às três horas das tardes de sol quente. Hesitei um pouco até encontrar minha própria cor, mas acabei escolhendo o branco, não só porque assim me visto sempre, mas também porque é meu ofício fazer coisas brancas, preparar os chás, assar os pães, lavar a louça. Para Ricardo, cujos cabelos claros às vezes brilham, ouro, com uma inspiração separei certeiro a amarela. Não tive dúvidas ao destinar a Martha, que tira a poeira da casa e lava o chão, a xícara verde escuro. Para Linda, por sua dança de meneios harmoniosos, mansa curvaturas, separei a cor-de-rosa”.(…) págs. 20 e 21

Antes de encerrar, um aviso, eu continuo não sabendo “Caio Fernando Abreu”. O homem pra mim é apenas uma figura pálida, ora de óculos, ora sem óculos. Ora cabisbaixo. Isolado. Perdido. Debruçado sobre sua velha máquina de escrever. É isso. No mais é pura geografia descartada como se nada fosse. Então, é pouco provável que eu deixe de ler ou citar Caio nos dias que seguem meus passos…

Para saber mais sobre Caio, clique aqui

Anotar, para não esquecer!

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(..) O poeta deve desconfiar dos aplausos, do êxito e até passar a abominar o que escreveu logo depois de o ter escrito. (…)
Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. Alguém se encarregará de institucionalizar o escritor, desde os amigos, os conterrâneos, os companheiros de luta, até todas aquelas pessoas ou coisas que abominou e combateu. Acabarão por lhe encontrar coerência, evolução harmoniosa, enquadramento numa tradição. Servir-se-ão dele, utilizá-lo-ão, homenageá-lo-ão. Sabem que assim o conseguirão calar, amordaçar, reduzir.
É claro que falo do peta e não do poetastro, do industrial e comerciante de poemas, do promotor de venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que se recusou a servir-se a si e a servir, que constantemente se sublevou. (…)

Ruy Belo, Todos os Poemas II, 2004

E  tudo era possível

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo, Homem de Palavra[s]
Lisboa, Editorial Presença, 1999 (5ª ed.)

Livros para o mês de novembro…

livros de novembroEm casa era uma festa. Livros espalhados por todos os cantos com suas muitas capas coloridas, duras, repletas de palavras interessantes. Minha mãe gostava dos contos indianos (acho que eu já disse isso em algum lugar) enquanto o meu pai tinha uma preferência natural pelos livros jurídicos – mas também lia os famosos clássicos da literatura. Mas apenas aqueles com os quais se identificasse. Dava pra contar nos dedos. Sério…

Mas a noite, depois do jantar, nos sentávamos no sofá e pronto. Escolhíamos um livro e líamos (as vezes apenas nós três, as vezes mais pessoas – dependia do dia. Houve uma época que várias pessoas começaram a chegar em casa depois do jantar. Uma delas uma vez trouxe um bolo. Outra numa outra ocasião trouxe um prato de biscoitos… E teve quem trouxesse chá quente, café com leite e por aí vai). Eu achava engraçado. Sentávamos no sofá e tocava a campainha (que era um sino – três vezes). Numa dessas vezes, a vizinha, uma senhora simpática que tinha um cão (presente do filho que tentou levá-la para morar em sua casa e como não conseguiu, deu o cão para fazer-lhe companhia – para onde ela ia levava aquele labrador negro. Lindo). Trouxe um livro de presente para o grupo (a essa altura já eram sete pessoas sentadas no sofá) – o livro era “Amar verbo intransitivo de Mário de Andrade”. Foram cinco noites lendo o livro. Cada um lia um trecho. Cada um com sua voz, sua emoção, seu entusiasmo e curiosidade. As vezes eu esquecia a história (que eu já conhecia) e prestava atenção nas reações de cada um. Havia quem esfregasse as mãos. Quem cruzasse os braços. Que respirasse fundo… Havia de tudo. E havia eu (aquela menina de olhos atentos) sendo moldada pelas noites em “família”. Na última leitura feita, éramos vinte e três pessoas… Entre eles os dois netos da senhora e seu cão (aliás, ele prestava muita atenção na leitura também, mas havia quem dizia que ele estava dormindo. Eu nunca acreditei nisso).

Enfim, é novembro. Pra mim é o tempo de olhar para trás e recordar esse passado que faz de mim o que sou hoje… A paixão pela leitura, como sabem, não se perdeu, continua aqui em mim. Não cessa de forma alguma. Mas confesso que leio bem menos que antes. Não culpo o tempo. Culpo apenas a mim mesma – às vezes preciso me dedicar com mais intensidade as palavras que vivem em meu íntimo e falta tempo para as palavras dos outros.

Mas mesmo assim a paixão continua em mim e há dias em que eu simplesmente preciso abandonar a mim mesma e mergulhar naquelas páginas, cuja realidade me atraí. Gosto de dizer que sou abduzida por Jane Austen, Virginia Woolf, Fernando Pessoa, Eliot, Susan Fletcher, Lygia Fagundes Telles, A.S.Byatt e tantos outros…

Minha lista de livros para o mês de novembro: (foto acima)

01 – Papel Manteiga para embrulhar segredos  – Cristiane Lisboa (sugestão da Mariacininha) – o livro é delicioso (já li, mas vou ler novamente)…

02 – Inventário de um escritor irremediável – Caio Fernando Abreu

03 – A riqueza do mundo – Lya Luft

04 – Persuasão – Jane Austen (sim, eu já li. sim, eu ou ler de novo)

05 – Desfiz 75 anos – Rubem Alves (achei na Cultura em minhas andanças por lá, lembrei-me da “Mãe Gaia” e trouxe-o comigo…

Os livros de setembro…

Chegou setembro com seu falso colorido primaveril. Será outono em algum lugar e parte de mim canta isso para quem quiser ouvir. Outra parte de mim apenas sorri e diz “em breve será novembro e estaremos em casa”… Eu não sei dizer o que acontece, mas a lista sempre diminui quando chega setembro…

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01 – Uma carta para o mundo – Emily Dickinson
02 – Os Anos – Virginia Woolf (presente da Sandra Cajado)
03 – Durante aquele estranho chá – Lygia Fagundes Teles
04 – Os diários de Virginia Woolf – Biblioteca Mário de Andrade
05 – Câmara Cascudo e Mário de Andrade: Cartas – Biblioteca Mário de Andrade

Eu preciso dizer…

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Não tem outro jeito. Seu e-mail causou-me risos, claro, que antes disso. Causou fúria em meu íntimo. Deixou-me paralisada diante da tela. Inconformada. Como assim “você quer ser escritor, mas não gosta de ler?” – lamento informar, mas o que eu mais faço é ler. E nessas últimas semanas, por causa do lançamento do meu próximo livro o li exaustivamente. Dúzias de vezes. Quase o decorei. Alguns dizeres eu sei de cor e posso te mostrar onde está cada coisa. E é preciso ler muitas outras vezes até dizer que está de fato pronto.

Olha, lamento, mas se não gosta mesmo de ler como disse, escolha outra direção. Ainda dá tempo. Pelo que eu entendi é algo novo. Então tenta outra coisa. E por favor, eu te imploro, não faça um blog. Pra isso também é preciso gostar de ler: do bom e do melhor, do ruim e do pior…

Sei lá, tenta outra coisa. Já sei. Fica a dica. Vai ser presidente do Brasil… Teve um aí que conseguiu. Mas se não der certo tenta lá em Portugal, Itália, França. Tem dado certo nos últimos tempos. As pessoas (uma boa parte) se identifica com isso. Mas escritor não. Por favor.

Livros para o mês de julho

Julho começou sem eu perceber (sentir) sua presença. Estava desatenta e hoje pela manhã quando olhei para o calendário: lá estava julho e seus dias… Ao todo, contados na ordem natural dos humanos (doze dias passados). Para onde foram? Comecei a questionar, mas desisti, afinal, há dias que não deixam marcas profundas, apenas passam por nós…

Enfim, só me ocorreu selecionar livros para ler nos dias seguintes de julho.
Nada mais. Afinal, ainda restam dias no mês de julho, não é mesmo?

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1 – Mário de Andrade – melhores poemas
2 – Starhawk – A dança Cósmica das Feiticeiras
3 – Emily Dickinson – Wild Night
4 – Virginia Woolf – Noite e Dia
5 – Lima Barreto – Diário do Hospício e Cemitério dos vivos
6 – Álvaro de Campos – poesia
7 – Jack Kerouac – diário
8 – Jane Austen – Mansfield Park

Os lugares que me seduzem…

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Ao contrário do que se imagina por aí, não visito blogs em busca de respostas aos meus escritos e não conto os comentários um a um. É claro que gosto de dizeres e fico grata por todos que deixam aqui suas promessas de diálogos (sim, comentários pra mim são promessas de diálogos).

Mas como disse certa vez num blog que descobri recentemente e tem sido motivo de grande alegria aos meus olhos “já passei da idade de me obrigar a alguma coisa”. Só leio o que me agrada e só comento quando as palavras tocam o meu íntimo e me causam silêncio. Como disse há pouco em outro blog descoberto por mim também há pouco tempo (tão relativo a contagem dos dias, meses e anos) quando a palavra causa silêncio em meu íntimo é sinal de que a palavra escorreu pele a dentro; quando é o contrário apenas faz barulho e nada mais. Fica por aí, esparramado pelo jardim lá de fora brincando de ser primavera e como bem sabem, minha estação favorita é o outono, aquela mesma do silêncio.

Então, aviso aos navegantes: meus links ali ao lado estão desatualizados (estou sem tempo, vontade ou ânimo para me ocupar deles). Meu reader (a menina dos meus olhos) está em dia e tudo que leio lá são pequenos prazeres e se não me toca, não me ocupo e pronto.

Não me obrigo a nada e se não tenho palavras não me permito diálogos e pronto. A paisagem está fria e a taça vazia. A xícara ficou lá em casa (saudade). Vou-me agora: o dia está atravessando a rua…

As páginas dos livros e eu…

Depois de escrever a matéria “ler é bom pra cachorro” onde aproveitei pra falar dessa minha paixão por livros que começou, até onde me lembro, nos primeiros anos de vida, resolvi aproveitar o embalo para responder a esse questionário sobre livros. Arte da dona Borboleta – onde já se viu convidar uma leitora compulsiva para falar ou responder perguntas sobre livros. Dá pra imaginar aonde isso me leva?

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1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Que pergunta mais difícil essa.
Vamos lá: Quase todos os livros que estão na minha humilde prateleira já foram lidos e (re)lidos, mesmo os que não gostei de ler porque eu sempre acho que é tudo uma questão de ponto de vista. Vira a página, muda o momento, quem sabe desperta outro sentir. Mas tem alguns que eu leio de novo e de novo e novamente: Olhos de menina, Susan Fletcher – Durante aquele estranho chá, Lygia Fagundes Telles – Possessão, A.S. Byatt, A vida das abelhas, Maurice Maeterlinck – Poesias, Álvaro de Campos – Orgulho e Preconceito, Jane Austen – Mansfield Park, Jane Austen – As ondas, Virginia Woolf…

2 — Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Não exatamente, eu não gosto de abandonar livros, mas tentei dias atrás (re)ler Crime e Castigo e percebi que pra mim esse é um livro de verão e não combina com os tons e os sabores do outono. Li uma dúzia de páginas e pronto: deixei-o lá a esperar pelo próximo verão. Os mesmo ocorre com os livros de Clarice, suas palavras pra mim tem sabor de verão e não adianta me obrigar a outro tempo, outra atmosfera.

3 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Um único? (vontade de gritar) Notou o pânico? (deixei a pergunta para responder por último) – mas acabei escolhendo “Poesia de Álvaro de Campos” – mas você não imagina a dor de abandonar outros títulos. Daria um  jeito de burlar isso.

4 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Ulisses. Até hoje não consegui me aproximar dele. Acho que ainda não é o momento. Sei lá. O tive em minhas mãos e disse agora vai. Não foi… Outros livros me sequestraram o sentido…

5– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
Amar verbo intransitivo, Mário de Andrade – A menina que roubava livros, Markus Zusak – Triângulo das Águas, Caio Fernando Abreu – Cem anos de solidão, Garcia Marques e Emma, Jane Austen.

6– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Livros de Mitologia Grega. Ouvia as histórias sendo narradas por minha nona e queria saber mais e mais. O mesmo aconteceu com a Mitologia Céltica e Egípcia. Pra mim era tudo uma espécie de “contos de fadas” só que bem melhor. Fui uma criança chata que odiava a Chapeuzinho e torcia para o lobo só para a história ficar mais interessante. Detestava a Branca de Neve e adorava a Bruxa Má. Detestava a Cinderela e por aí vai. Claro que ouvi todas essas histórias na escola como toda criança e foi assim que eu descobri que o tédio existia.

7. Qual o livro que achaste chato e mesmo assim leste até o fim? Por quê?
Noite e dia, de Virginia Woolf, os personagens me tiraram do sério com suas dúvidas, pareciam fazer aquele jogo infantil do bem-me-quer – mal-me-quer. rs E li porque adoro Virginia e não me arrependo e já estou lendo de novo… Os originais de Laura, de Wladimir Nabokov: me decepcionei no decorrer da leitura, mas o li porque queria compreender o ritmo do autor.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Por onde eu começo? Todos os livros de Jane Austen, Virginia Woolf, Susan Fletcher e Caio Fernando Abreu. Eles tem total licença para serem obrigatórios, mesmo leitura sendo prazer e não obrigação… Citando alguns: Dom Casmurro, Machado de Assis (mas esqueçam a traição de Capitu e prestem atenção na mãe de Bentinho). Amar, verbo intransitivo, Mário de Andrade (retrato de uma sociedade hipócrita). Livro do Desassossego, Fernando Pessoa (necessidade humana). O casamento do céu e do inferno, William Blake.

9. Que livro estás a ler neste momento?
Wild Night, Emily Dickinson: (poesia) porque poesia é sempre bem vinda nos meus dias – As ondas, Virginia Woolf: porque esse livro sempre pede para ser lido – A dança cósmica das feiticeiras,  porque preciso meditar minhas ilusões. Diários de Jack Kerouac, Jack Kerouac: porque eu adoro me aventurar nas palavras desse autor e verificar suas loucuras acerca da criação de seus livros – Razão e Sentimento, Jane Austen: porque é outono e o outono sempre me pede para ler Austen – Diário do Hospício e O cemitério dos vivos, Lima Barreto: porque esse livro pediu para vir comigo num outro dia quando estive na Cultura e eu o trouxe. Claro, agradeço a todos os deuses por ter feito isso. 

10. Indica dez amigos para o Meme Literário.
Dez? Não sei… Vou indicar apenas aqueles que despertam em mim alguma curiosidade para saber o que estão a ler.

Long Haired Lady do blog 2 + 2 = 5
Keila do blog Atitude do Pensar
Cris do blog Cafofo on line
Letícia do blog Tempestade
Taty do blog When she danced
Suzana Martins do blog Entre Marés

Ler ou não ler, eis a questão…

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O assunto chateia-me e muito…
E já digo logo porque: primeiro porque acho que leitura é algo tão pessoal quanto escova de dente e escova de cabelos. Eu não empresto nenhuma das duas. Logo, também não empresto meus livros. Já fiz isso uma vez na vida e confesso: me arrependi e não faço mais…

Tudo bem, eu juro que me ajudou bastante na questão de trabalhar o desprendimento. Só chorei de raiva nos primeiros quinze dias. Depois fiz juras de morte ao humano que os levou e hoje dou de ombros… Passou.

Mas o fato é que vira e mexe sai uma dessas pesquisas que aponta que a cada dia que passa o número de leitores diminuem e eu faço cara de paisagem e levanto a sobrancelhas (segundo a Francy´s). Moro em São Paulo, as vezes em Gênova. As vezes em nenhum desses dois lugares, mas enfim. São Paulo tem as melhores livrarias do país (sem sombra de dúvida) e as vezes algumas delas simplesmente ficam impraticáveis. A Cultura da Paulista e do Vila Lobos aos sábados lota. São milhares de títulos, assuntos e todos a disposição de seus frequentadores que se amontoam em pufes, almofadas, sofá, mesas e cadeiras. Ali, é um mundo a parte…

Mas as pesquisas insistem em dizer que diminuiu o número de leitores. Outra curiosidade. Os metrôs e ônibus de São Paulo são os locais favoritos dos leitores que arrastam seus livros de auto ajuda, espiritismo, ficção cientifica e tantos outros mais para lá. Leem em pé, sentados, amontoados uns sobre os outros. Mas estão lendo e não interessa se é Paulo Coelho ou Zibia Gasparetto. Não me interessa o que lêem, contanto que o façam… E se Paulo Coelho vende, bom pra ele e para o imaginário de alguém que amanhã pode vir a descobrir que há vida além daquelas páginas.

Mas eu li em algum lugar que livro bom é para ler no banheiro. Algumas pessoas fazem isso. O Marco mesmo é uma dessas pessoas. Eu não consigo. Não serve pra mim. Eu gosto de escadas, poltronas… Mas com certeza alguém irá torcer o nariz para esse meu costume.

É um assunto delicado. Alguém irá dizer “deixe São Paulo de lado e pense no resto do país, quiçá, no resto do mundo”. Oras, não vou sair do meu jardim para regar o jardim alheio.

Até porque as pessoas vestem-se de preconceitos o tempo todo. Quem gosta de Shakespeare acha um absurdo que o outro goste de Olavo Bilac. E quem lê Sartre não consegue compreender aquele que lê Caio Fernando Abreu. Há aquele que se sobressaí no meio da multidão e lê tudo que vê pela frente… Sorte dele. É feliz e eu espero que ele saiba disso…

Nunca fui leitora de massa. Odeio listas de livros. As escolares são revoltantes. Aquelas para o vestibular são uma verdadeira tortura e as que saem em jornais e revistas são uma piada. Não sou a favor de lista porque acho que a leitura não deve ser imposta por meia dúzia de senhores que nada fazem além de selecionar livros a partir de seus próprios sabores ou ao gosto de seu bolso. (rs)

Cresci ouvindo mitos, lendas e fui instigada naturalmente a conhecer esse mundo através das páginas. Foi assim com as poesias. E se estudei alemão foi para ler Goethe em seu idioma original, justamente por não tolerar traduções. Também fui estudar o grego,  o português, o francês e o inglês (iniciativa própria) para entender escritores que me fascinavam. Me decepcionei com uns e me apaixonei por outros.

Um livro é um caso de amor: desde a capa e suas ilustrações, a biografia de um autor ao conteúdo apresentado. Já abandonei livros no meio do caminho, depois de ler meia dúzia de páginas porque nada me diziam… A leitura pra mim é antes de tudo um diálogo íntimo e pessoal entre aquele mundo que se apresenta nas páginas e você. Logo, para se manter um diálogo é preciso sobretudo algo em comum…

Enquanto seguimos acreditando que é preciso ler os grandes clássicos ou que ler revistas de fofoca é um desperdício vamos ver diminuir o número de leitores nas pesquisas feitas por aí. Ninguém lê algo que não gosta, a não ser que seja obrigado a, mas o fará uma vez só e então para sempre esse hábito estará em segundo plano.

Lembro-me que no segundo grau (não sei como chamam hoje em dia) tivemos uma dessas listas e o título “Vidas secas” estava entre eles. Li porque não tive opção. Mas foi uma batalha seguir mantendo meus olhos naquelas páginas. Odiei cada personagem com toda intensidade possível. Nunca demorei tanto para ler um simples livro. Até hoje me lembro da maldita cena envolvendo a cadela Baleia. Até hoje Graciliano Ramos ocupa um lugar distinto em minha vida “eu o odeio” e nunca mais li nada dele.

Antes que perguntem: minha vida não sofreu nenhuma alteração depois de ler esse livro. Tirei um 10 na prova de literatura, mas perdi Graciliano pra sempre.