Lua do Carvalho…

lua do carvalho

Novembro é o mês do novo que sucede o velho. É a volta completa do relógio. O som dos oceanos. O ritmo dos céus. É o momento do passo mais atento – da cadência…

Em seus primeiros dias, as senhoras contam histórias de antigamente. Lembram a si mesmas e aos outros. Anotam pedidos em pequenos pedaços de papéis, fecham os olhos, voltam-se para o seu íntimo, amarram um ramo de hortelã para só então lançar nas chamas… Um punhado de canela completa a magia – é assim que elas celebram o novo. Porque para muitos a vida é cíclica. E sempre que algo termina, alguma coisa, em algum lugar se inicia…

O ritual de novembro “Samhain” (hemisfério norte) celebra o velho que se desfaz diante dos olhos – dando lugar ao novo que se veste de branco e cobre os campos.

A lua celebra o silêncio, o tempo do recolhimento. O momento de pensar o amanhã – celebrar o passo seguinte.

Sua direção é o Norte. Sua cor é o negro e sua sensação é a de espera. Seu sentido é a intuição. Sua magia é o silêncio. A reflexão. Seu som é o da quietude que encontramos em nosso íntimo para o qual nos voltamos. Sua arte é a ancestralidade. É preciso recordar o ontem. Saudar o que fomos e agradecer por todos aqueles que passaram por nós, contribuindo para tudo que somos e ainda seremos.
Sua meditação é o desprendimento,a final, é o momento oportuno para nos libertar das coisas acumuladas ao longo dos dias. Quantas coisas temos conosco que nada significam? Mas estão lá, acumulando a poeira dos tempos.
Seu símbolo maior é o carvalho que é uma lenda viva, já que representa tudo que é verdadeiro, saudável, estável e nobre.

A lua do Carvalho brilha intensamente no céu de novembro em cada uma de suas fases e nos lembra que os dias não são as mesmos e é preciso ensaiar os passos para que o aprendizado nos leve sempre adiante…

Nota 1 – Novembro tem algumas curiosidades interessantes: na noite do dia 31 de outubro para o dia 01 de novembro celebra-se Samhain (hemisfério norte) que é o último dia do ano pagão. A roda do ano gira, completando mais uma vez o seu ciclo.

Nota 2 – Alguns pagãos da wicca chamam esse dia de Halloween – que é uma festa que foi levada para os EUA pelos imigrantes irlandeses em meados do século XIX.
A palavra Halloween vem de “All Hallows´Even” –  “Hallow” é uma palavra do inglês antigo que quer dizer “pessoa santa” – ou seja  “noites de todos os santos”  e é justamente nesse dia em que os cristãos homenageiam todos os seus santos. Com o tempo, as pessoas passaram a se referir à Noite de Todos os Santos ou “All Hallows´Even” apenas como “Hallowe’en”, e hoje tornou-se simplesmente “Halloween”.
Na verdade, essa data nada tem a ver com o paganismo – ocorre que os wiccans (praticantes da wicca) adotaram a data em seus calendários, festejando-a como sendo “o dia das bruxas”.
Um equivoco que até o presente momento ninguém tomou o devido cuidado de corrigir, evitando que suas práticas rituais se misturem a falsos símbolos introduzidos a partir do cristianismo que se fundamentou no judaísmo e também no paganismo (e em muitas outras crenças) para criar os seus dogmas.
Por isso que eu digo que o paganismo não é uma religião. Cada qual pode adotar o caminho desejado, contudo, é  preciso pesquisar, estudar e compreender todos os símbolos rituais, pois os elementos aqui representados tem ligações estreitas para com a natureza…

Nota 3 – Alguns pagãos seguem o calendário do hemisfério sul na hora de fazer suas comemorações rituais, festejando o Beltane que é a festa do fogo. A festa da matéria, do corpo, do homem, do desejo, da manifestação da pele.

Nota 4 – Os rituais pagãos tem duração de um ciclo completo e suas horas de poder correspondem as quatro estações do ano: 12 e 18 horas e 0 e 6 horas (que são as horas maiores) e 15 e 21 horas e 3 e 9 horas (que são as horas menores). O ciclo do dia corresponde ao ciclo da roda do ano. Com começo, meio e fim. O dia nasce, cresce, envelhece e morre. São ciclos naturais e perfeitos e independe de tempo, essa ciência humana. A natureza corresponde apenas a luz e a escuridão. O momento da luz, do sol, da vida, da caminhada. E o momento da escuridão, da lua, do descanso, da reflexão, da morte, do ponto final. E como tudo que acaba num ponto, recomeça no outro.

A lenda do Jack O´lantern…

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A noite começa a acontecer lá fora. Vejo “restos” de nuvens. Percebo a escuridão pelas alamedas. Acendo um incenso. Me perco dentro de mim. Lá fora, prédios depois de prédios e janelas que começam a ganhar contornos de luzes. Saudade de outros tempos. Cidades inteiras. Lugares onde eu não estive. Sei de tudo. Sinto tudo. Nada me pertence. Eu sou “outras paisagens”. Eu sou lendas que me contaram na infância. Eu sou o passo que ficou na areia depois da marcha…

Ali na cozinha, deixo arder os elementos todos: a cebola doura no sal e no azeite. O tomate se desfaz no calor. Na água ferve o macarrão. E eu me surpreendo repetindo gestos antigos que me foram ensinados no tempo de ontem. Pico a salsa. Espero tudo ferver. Apago o fogo. Lanço a erva no “sugo” vermelho e percebo a casa inteira participando daquele aroma.

É tarde ainda. Quase noite. Lembro das horas do dia. Do passeio com o cão. Revisito paisagens inteiras. Cenários curiosos de pessoas, prédios, lojas, árvores, ruas. Percebo novamente as palavras da carta escrita para mim no dia de ontem… Tudo vai se tornando pretérito, essa figura feito inverno… Aqui é quase verão, mas mesmo nos dias mais quentes eu não o percebo. Não o sinto. É primavera, mas em mim é quase outono porque também é quase novembro… Tempo de lendas. Histórias mal contadas. É quase novembro…

Quando criança, eu gostava de me sentar no sofá. Cabeça esquecida no colo do nono que resmungava suas histórias de faz de conta. Lendas de outros tempos. Sempre havia o que ouvir. Motivos para sorrir. Eu nunca gostei de contos de fadas (chapeuzinho, cinderela, branca de neve) preferia as histórias do nono que eram seguidas de xícaras de chá adocicadas. Cada noite uma xícara. Uma surpresa. Um biscoito amanteigado…

Dizia o nono: Jack era um menino que perdeu seus pais para escuridão. E como nunca acharam os corpos dele, Jack que ficou sozinho, não perdia as esperanças de encontrá-los. Ele acreditava com todas as suas forças que seus pais iriam voltar para casa. E como o lugar onde moravam era muito escuro, Jack passou a colher frutas e a usar uma colher para fazer lanternas que ele espalhava pelos caminhos da floresta até sua casa. Quando a noite começava a se fazer, ele acendia uma por uma as lanternas de frutas, formando uma trilha que serviria para trazer seus pais de volta para casa.

O Deus da Morte que sabia muito bem qual era o destino dos pais de Jack ficou surpreso com a dedicação diário do menino e pediu a Deusa que explicasse ao menino o que havia de fato acontecido com os seus pais. Queria que ele parasse de esperar por eles, já que eles não mais voltariam da terra do verão. A Deusa apreciou a dedicação do menino durante alguns dias e feliz, por perceber que o amor que ele sentia pelos pais era o que movia seus atos foi ter com ele. Explicou a ele, com calma, o que havia acontecido. Falou do inverno. Do verão. Do Deus da Vida e da Morte. Do senhor do outro mundo. E para sua surpresa, ele se entregou. Chorou durante dias inteiros. Sentiu-se perdido. Pela primeira vez deu conta de sua solidão. E durante todos aqueles dias não acendeu suas lanternas. Ficava parado diante da porta apreciando a escuridão. Não se movia. Com o tempo as lágrimas cessaram. Mas a tristeza não desaparecia.

O Deus da Morte ficou aflito quando percebeu que teria que buscá-lo em breve. Pois o menino não mais se alimentava. Jack morreu de tristeza. Sozinho. E sua tristeza era tamanha, que  ele acabou perdido na floresta. Sozinho. Dizem que era possível ouvir seu choro ao longe, no meio da noite escura, por entre os galhos mais altos. Era um eco forte e causava arrepios em quem ouvia. Era Jack, o menino perdido, triste e solitário.

Nessa altura da história, eu já estava suspirando, imaginando a solidão do menino no meio da floresta. Queria saber o final. Queria saber se o Deus da Morte o havia encontrado. E veio o sorriso do nono. Largo. Gostoso. tranquilizador.

A Deusa que também ouvia o choro de Jack procurou pelas crianças que viviam numa vila próxima a floresta e entregou a elas uma faísca de sua sagrada chama, pedindo a elas que na noite de Samhain acendessem as lanternas de Jack. E assim foi feito. Jack encontrou a trilha que ele mesmo havia feito e ao caminhar por ela, encontrou o caminho para a terra do verão onde seus pais esperavam por ele.

Os habitantes da vila passaram a acreditar que a trilha feita por Jack também ajudariam outros espíritos a encontrar seus caminhos na noite de Samhain (lê-se souem) e todo ano, construíam lanternas de frutas e espalhavam pela floresta até as casas…

Surgiu assim as “Jack O´lantern”… É claro que existem diversas histórias acerca das lanternas de Jack, mas até hoje nenhuma me agradou tanto quanto está. E claro que desde então eu construo minha lanterna de abóbora e deixo-a em minha janela…

imageJack O´lantern feito por mim no ano passado…

Litha

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Nuvens de junho – ainda outono

O vento tem variedade
nas formas de parecer
se vens me dizer verdade,
Porque é que me vens dizer?
Verdades, quem as quer?

Se a vida é o que é,
então está bem o que está
Para que ir pé ante pé
Até ontem e até já
E até onde nada há?
(…)
Fernando Pessoa

O sol atravessa o céu. De leste para o oeste. As horas cantam através dos ventos que incomodam as folhas no alto das árvores. Junho aos poucos vai se perdendo; o  outono já se perdeu dos calendários, mas continua aqui dentro de mim. Cada vez mais tenho certeza que as estações do ano não são as mesmas que vivem dentro de mim. Não mesmo. Eu tenho minhas próprias estações, são como fases lunares. Cecília disse “tenho fases como a lua” – eu vou além, “tenho as minhas próprias estações”. As vezes ou primavera durante um dia inteiro, mas de repente me vejo sendo outono, desejando mantas, vinhos, lareiras e varandas bem definidas, com livros e páginas em branco para serem por mim preenchidas… Então acordo e me vejo verão, desejando calçadas e frases de Clarice Lispector… Quando não, quero abraços apertados, beijos de estalo e lembranças antigas a viver em porta retratos. Ai esse inverno da minha alma…

Mas hoje eu quero ir lá para fora, celebrar meus passos antigos: colher gravetos, reuní-los, envolvê-los com uma fita e atear fogo a vida. Quero incendiar as verdades nunca ditas, as mentiras que sobrevivem nas mentes humanas. Quero lembrar que para cada vida há um legado de morte. O fim é apenas um passo adiante e nem sempre há o abismo para nos receber…

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meu novo diário – manhã de inverno…

O inverno do lado de baixo do equador.
O inverno trouxe o sol e seu brilho não tão forte. Já não há motivos para blusas de lã… Os pássaros despertam com o dia e cantam no fundo do quintal. As farfallas voam pela paisagem, uma ou duas: laranja e vermelho se confundem no corpo daquelas pequenas formas encantadas. Um pássaro afoito se choca com o vidro da janela, me assusto e lembro das montanhas esbranquiçadas.

(…)Enrola o cordão à roda
Do teu dedo sem razão
tudo é uma espécie de moda
E acaba na ocasião
Desenrola esse cordão!(…)
Fernando Pessoa

Tantos rituais se formam ao longo da paisagem e eu me sinto feliz por  não prender a falsos deuses de alegorias muitas. Nada tenho contra a fé alheia, mas aqui dentro de mim só há espaço para as coisas que de fato sinto porque o sentir me faz humana e meu deus não pode ser menos e nem mais: ele também é humano e falho. Não é soberano, não está acima e nem abaixo. É finito, morre todos os dias (como eu) e nasce todos os dias (como eu). Ama, odeia, chora, sorri e tem lembranças da infância (como eu).

Hoje celebra-se Litha na cultura neopagã que muitos tomam para si como sendo religião. Eu não. Apenas acompanho o movimento do sol desde a Aurora ao Crepúsculo e mergulho nessa existência tão minha quanto a sua e digo “namaste”. Não me ocupo do seu deus e não espero que se ocupe do meu…

Acho que todas as coisas se explicam a partir
de um movimento simples: transformação.
Então nada se acaba de fato…

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Minhas estações…

Chegou fevereiro…

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Tinha sombras e nuvens no meio do caminho…

O mês das iniciações. Das portas e janelas abertas… Menos tempestades, mais luz para criar sombras. E há quem tema as sombras que se estendem pelo caminho…

Em seu primeiro dia, as senhoras vestem suas capas, recolhem pedras, velas, incensos e sementes… Caminham até cruzar o rio, molhando os pés… O ritual de fevereiro é dedicado a Brigith, a Deusa do Fogo e da inspiração; Senhora da poesia, da ferraria e da cura.

A lua celebra a volta das trevas. É a continuidade. A dança da vida se reinventando em passos que nos conduzem por sobre folhas secas, águas calmas e a terra regenerada.

As mulheres se reunem numa clareira no meio da mata. Uma breve meditação tem inicio quando a mais velha de todas deita uma pedra no chão. É o começo do círculo. Todas repetem o mesmo gesto. Nada de palavras, apenas olhares silenciosos e atentos. O círculo se fecha deixando para trás as aflições humanas. Só participa quem é convidado. A mais velha leva o caldeirão para o centro. A mais nova, leva a terra e a escolhida coloca uma vela ungida com ervas dentro do caldeirão, como se estivesse plantando-a. Nenhuma chama pode ser acesa antes da invocação que é feita pela senhora que representa a figura da Anciã. A sabedoria de sua caminhava é reverenciada nesse momento. A idade não importa, só importa de fato os seus passos dados ao longo das estações. Ela não decora as palavra, pois sua longa prática permite que se sentir se exponha de forma natural.

Minha nona costumava dizer que esse era o tempo em que as sementes começavam a despertar do sono profundo para posteriormente brotarem e crescerem. Ela nos presentava com pequenas sementes de girassol que a gente deveria plantar no jardim de casa para acompanharmos a evolução natural da vida e dessa forma compreendessemos a roda do ano. Lembro ainda hoje quando ganhei minha primeira semente. Acompanhei cada momento de seu crescimento; até que a flor se abriu e seguia durante o dia os movimentos do sol.

Dizem que as mulheres lá na clareira, acendem a vela do caldeirão depois da invocação da Grande Deusa que é na verdade o Grande espirito sagrado da Terra. Cada povo diz uma coisa; cada cultura reza seu próprio canto. Mas lá na clareira, elas apresentam as oferendas: velas vermelhas, sementes, artes individuais, incensos, pedras, folhas em branco e tudo que cada uma que quiser apresentar. Então invocam os quatro elementos através de seus símbolos sagrados: sal representando a terra, uma lanterna com querosene representando o fogo, o incenso representando o ar e o cálice sagrado representando a água.

Dizem que nesse momento, prestando bastante atenção, é possível o som suave de um sino sendo tocado três vezes. As mulheres então dizem em voz alta “fogo do coração – fogo da mente – fogo do lar – fogo do vento – fogo da arte – fogo fora do tempo” e o novamente o som do sino é ouvido: três vezes. E as mulheres fazem um só coro “ele brilha para todos, ele arde para todos”. E novamente o som do sino; três vezes. Por fim, dizem que tudo silencia, as mulheres e toda a natureza ao redor delas. Cabisbaixas, de mãos dadas, elas elevam seus pensamentos, dando boas vindas a inspiração que se precipita no sentir, no existir, nos gestos que se repetem de geração em geração.

A mais velha de todas lê uma poesia previamente escolhida por ela e então acende a sua chama (a sua vela) e todas as demais fazem o mesmo. É o momento de reinventar a própria chama sagrada que vem do centro onde está o caldeirão que representa o grande útero sagrado de onde tudo vem e para onde tudo vai.

Elas cantam, dançam e repartem entre elas os alimentos que trouxeram para celebrar o momento. O círculo então começa a ser desfeito. A mais velha se levanta, recolhe sua vela com todo cuidado para que ela não se apague, apanha um punhado da terra, pega a sua pedra e dá inicio a caminhada da volta. Satisfeita, ela já imagina o “dia seguinte”, quando irá retornar para celebrar outra estação…

Nota 1. Fevereiro tem algumas curiosidades: seu nome deriva da Deusa romana Fébrua, mãe de Marte também conhecida por Juno Fébrua ou Santa Febrônia (de febris, a febre do amor). Ela é Deusa da purificação. Originalmente, fevereiro tinha 29 e 30 dias quando era ano bissexto, mas o Imperador César Augusto ordenou que um dos dias de fevereiro fosse transferido para o mês de agosto para que este ficasse com 31 dias. Tudo para que o mês dele não tivesse menos dias que Julho que tinha esse nome por causa do Imperador Julio Cesar.

Nota 2. No dia 01 de fevereiro celebra-se o Festival do Fogo, também conhecido por “Imbolc ou Candlemas”. Nesta data celebra-se a Senhora do Fogo Criador, da Arte e da Magia. É uma data favorável ao despertar da consciência…

Nota 3. Fevereiro é considerado o mês da purificação, por isso, os pagãos aproveitam para purificar seus instrumentos mágicos que são quatro: cálice, athame, caldeirão e a colher de pau ou graveto de árvore.

Nota 4. Como fevereiro é o mês da purificação, é costume se colocar uma cabeça de alho em cada uma das janelas de sua casa no último dia do mês para proteger nossos lares durantes os demais meses do ano.

Nota 5. A lua de fevereiro recebe o nome de “lua casta” – sua cor é o branco. Sua sensação é a continuidade. Sua direção é o norte. Seu sentido é a intuição. Seu som é o das batidas do coração. Sua meditação é a aurora junto aos primeiros raios de sol. Seu símbolo maior é a águia em seu vôo sobre as coisas humanas. Por ser assim, essa lua que celebra a Deusa Triplice: a jovem, a mãe e anciã.

Lua Crescente…

A experiência é uma lanterna dependurada nas costas que apenas ilumina o caminho já percorrido.  Confúcio

  dança

Hoje amanheci com as lembranças de colinas adormecidas, envoltas por brumas para onde mulheres seguiam a passos lentos que permitiam a elas um olhar mais atento sobre os caminhos e as paisagens.

Se fechar os olhos, consigo ouvir o som das folhas que cobrem a trilha sendo pisadas pelos passos daquelas mulheres que seguem em sua marcha rumo ao topo da colina onde o verde e o azul se misturam e se confundem numa espécie de magia natural… Elas vem de diferentes direções, trazem em mãos uma pedra para formar o círculo consagrado por elas há muitas gerações. Ali unem-se seus antepassados e acreditam elas que amanhã suas filhas irão fazer o mesmos: repetindo cada gesto, movimento, palavras e pensamento…

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Seus corpos, suas mentes e seus espíritos são seus instrumentos sagrados e elas se movimentam ao redor das chamas que assim como essas senhoras, dançam, criando um desenho de movimentos impares… Há quem diga que nas noites de lua crescente, cheia e minguante, os homens (que não participam dessas celebrações) vêem de longe, lá em baixo o espirito da Deusa em forma de lâminas de fogo e se sentem honrados por tal visão, coisa comum apenas as mulheres.

Elas, as mulheres, jovens damas da vida assistem lá do alto o passeio da lua que saí do leste e marcha rumo ao oeste. Seu destino final. A vigília dura a noite toda, enquanto isso, chás são preparados no caldeirão; pães, biscoitos e bolos são oferecidos. A mais velha sempre conta suas histórias cheias de entusiasmo juvenil. Na certa ela ainda se lembra da primeira vez que seus passos seguiram os de sua mãe até o alto daquela colina.

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Aos poucos os movimentos dessas senhoras vão se multiplicando pelo espaço, assim como as alegrias que geram sorrisos, e as lágrimas que geram silêncios.  A figura de uma Deusa tão antiga quanto o universo é invocada através de suas vozes que se tornam cantos e se unem ao som dos ventos que parece surgir das quatro direções do planeta; então é hora de “tecer o destino” com agulha em formato de lua crescente e um simples pedaço de pano: Dizem elas enquanto tecem:

Deusa da lua e da magia,
Mostre-me a resposta
Deusa dos mistérios
revela-me todos os destinos

O ritual da lua crescente se faz no sentido de “costurar” o que está separado, de tecer a trama do destino e costurar os próprios desejos. “Tecer significa criar, fazer sair da usa própria substância, como faz a aranha que urde sua própria teia”…

Mas tudo isso é lenda, mito narrado ao longos dos anos de geração para geração. Muitas coisas se perderam, mas outras permanecem por aí. E o que se percebe é que o silêncio de ontem virou o barulho de hoje…

Era uma vez um galho no meio do caminho…

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Era fim de tarde quando eu voltava pra casa e vi uma menina de olhos verdes carregando um galho de árvore que havia encontrado numa praça. Ela tinha dificuldade em carregá-lo, pois o tal galho parecia ser bem maior que o seu tamanho de menina. Me ofereci para ajudá-la e seu sorriso claro pareceu um agradecimento e lá fomos nós duas pela rua, puxando o tal galho.

Quando chegamos a frente de sua casa, um móvel antigo, com paredes esverdeadas por causa do tempo e um portão que me lembrava a casa de mio nono com seu bendito rangido que dispensava campainha; perguntei a ela o que pretendia fazer com aquele bendito galho e ouvi uma resposta simples “uma pessoa me disse que Deus mora dentro de uma árvore e como cortaram essa aqui, fiquei preocupada, então resolvi trazê-la pra casa para que ele saiba que pode morar aqui com a gente.

Tudo tão simples e agradável que eu tomei pra mim essa história. Não lembro de ter lido algo tão ingênuo e puro assim em lugar algum. E ficou bem fácil imaginar como surgem os mitos e lendas de uma vida inteira. Eles são necessários. Alimentam a mente, engrandecem a alma… A tal menina tinha oito anos, mas preferiu dizer que tinha “quase nove”.

Enfim, ninguém sabe dizer exatamente quando surgiu a idéia acerca das tais árvores de Natal. Histórias existem muitas: alguns dizem que a civilização egípcia considerava a Tamareira como sendo a árvore da vida, por isso a enfeitavam com doces e frutas para as crianças durante as festas. Já na Roma antiga, os romanos penduravam máscaras de Baco (deus do vinho) em pinheiros para comemorar a Sartunália. Na Alemanha, o padre Martinho Lutero (autor da Reforma protestante) montou um pinheiro, enfeitando com velas para mostrar as crianças como deveria estar o céu na noite do nascimento de Cristo. Já os povos bálticos cortavam o carvalho, levando-o para seus lares, enfeitando-os com os símbolos dos quatro elementos, o sol e a lua (algo bem próximo do que fazemos nos dias atuais) – essa tradição passou para os povos germânicos. O monge São Bonifácio tentou por fim a essa crença pagã, para tal, cortou um carvalho no alto de um monte para mostrar que não havia nenhum espírito nela, mas como não obteve sucesso, decidiu associar o formato triangular do pinheiro à Santíssima Trindade e suas folhas resistentes a eternidade de Jesus.

O que não falta são histórias, mitos e lendas que nos acompanham há muitas gerações. Eu mesma lembro-me de ter ouvido diferentes histórias acerca da tal árvore enfeitada com doces, bolinhas coloridas, sinos e tantas outras coisas mais…

Cada um de nós escolhe o melhor caminho com base em sensações, ilusões e heranças genéticas ou não. Eu sempre acreditei que todos nós somos resultados dos mitos e lendas que nos cercam e claro, cada um de nós, escolhe aquelas que tocam melhor o nosso sentir…

Quanto a mim: independente dos mitos e lendas acerca das “árvores de natal” me incomoda muito ver árvores abandonadas nas calçadas depois das festividades de fim de ano como se fosse parte de uma decoração que precisa ser descartada, afinal, depois de amanhã é carnaval…