
Elegia
Rilke
Por que de estranhas terras eu te acompanho lua solitária
E durmo ouvindo os teus passos de anjo pela noite
Quando os velhos desejos desaparecidos voltam à flor das ondas
E a noite do exílio levanta as suas árvores de sonho,
De um tempo imemorial eu acompanho as tuas viagens,
Tu que vestes os mortos com o que cai do coração dos vivos
Eu te acompanho pelo céu escuro
Sentindo como tua a vertigem da morte que anuncia
Trad.Paulo Plínio Abreu
Velas tremeluzentes indicam as quatro direções. Ao centro uma chama contínua que representa a vida em todas as suas formas. Se fechar os olhos, pode se ouvir um coração pulsando ali… Cada um dos elementos completam o círculo: terra, fogo, água e ar. Os passos seguem no sentido horário e os primeiros sinais de dança são do vento que se manifesta no alto das folhas. A Lua plena de luz atinge o ponto máximo do céu noturno. Nuvens não impedem seu brilho… Diziam que iria chover, mas a chuva não se manifesta durante os minutos em que o cálice é erguido e seu líquido consagrado em nomes das forças naturais. Enquanto isso o incenso perfuma o ar numa espécie de saudação aos antigos espíritos que sempre são invocados por aquelas mulheres de aparência humana. Nada ali se assemelha aos mitos da Disney e tão pouco aos preceitos erguidos ao longo dos tempos pelos padres cristãos.
Tudo é intenso. A energia que é invocada na palavra daquelas mulheres que se despem, deixando a mostra a pele, os sentimentos, as verdades pessoais, as crenças cotidianas. Não há nada de demoníaco. Há apenas um canto sendo repetido como mantra de forma incansável “ela está em tudo, ela a tudo cobre” e por fim o licor é passado de mãos em mãos e um grito surge ao longe: uma coruja. Sinal de que a natureza está satisfeita. Elas dizem que a magia se manifesta da forma mais simples possível. Então um simples vento é visto com uma mensagem dos Deuses. E para que questionar essas verdades?
Hoje é quarta-feira, lua cheia, período da plenitude, da maré cheia de poder, quando a senhora com seu círculo completo e iluminado atravessa o céu, desfilando seu encanto sobre os humanos que ainda encontram tempo para olhar as estrelas. É a época das frutas, da maçã cheia de amor, da colheita. É o auge dos desejos, das vontades da pele, da alma e da mente. Na lua cheia a pergunta a ser feita é “você já colheu o que plantou?” e a resposta vem apenas com um aceno – enquanto um pequeno objeto é atirado as chamas que ardem e celebra junto com você a sua conquista.
“lua que ilumina as trevas,
feminino a vagar no negro véu,
bailarina de campos e oceanos.
Senhora da magia, menina das primeiras horas.
Tu fazes transbordar a maré dos amores.
Tu fazes a verdade ser prece que se entoa ao cair da noite
Tu que foste menina e hoje é mulher, mas não se esquece
dos primeiros passos, das primeiras vontades, dos primeiros desejos
Porque tu és um ciclo que se completa ao longo das estações
Eu te celebro grande Dama das trevas”
Nota. Ainda hoje muitos rituais (inclusive os da lua cheia) são praticados em segredo, embora atualmente muitos sejam feitos ao ar livre em praças e parques das principais cidades do mundo. A maioria destes pertencem a uma nova ordem, conhecida com o wicca que não é uma religião antiga, muito pelo contrário, ela se fundamenta no paganismo, mas sua existência data de meados de 1950 e é atribuída a Gerald Gardner.
Nota. 2 Acredita-se que o paganismo tenha surgido no exato momento em que o homem descobriu a agricultura, uma vez que a maioria dos rituais pagãos são festivais agrícolas, onde se celebra as sementes, o plantio, a colheita e a própria terra que é considerada o grande útero, de onde tudo provém. Nesses rituais também são celebrados os quatro elementos naturais e as quatro direções do planeta: norte, sul, leste e oeste.
Nota. 3 Ser pagão significa estar em contato com a natureza, respeitando seus ciclos, seus movimentos e interagindo com ela de maneira racional. Ao contrário do que continua sendo dito pela Igreja Católica – não basta não ser cristão para ser um pagão. Se você apenas não acredita no Deus cristão e em toda a legião de santos que provêm dessa ideologia religiosa, significa que talvez você seja ateu, mas não pagão. Porque para ser pagão é preciso estudo, dedicação e respeito acima de tudo com as leis naturais do paganismo que expõe aos seus praticantes a lei do retorno “não faça ao outro o que não gostaria que fizessem a você”.
“Ao homem é dado o direito de escolha, mas há tempos criaram um deus e um demônio, todos filho do mesmo homem que semeou sua verdade; colhida por muitos, mas não por mim. A minha verdade segue em meu coração e sempre que olho pra frente sinto sua chama arder em meu peito. Sei do sol durante os dias e da lua durantes as noites. Ouço o canto dos pássaros, o pio das corujas, sinto a força das águas e do sabor de cada uma das estações. Essa é minha prece, minha lei, minha verdade e é ela que eu ensino aos que vierem depois de mim. Se também será a verdade deles, não há como saber, porque eles são livres para caminhar tanto quanto eu.”. Trecho de “O caminho do mago”