Missivas noturnas #7

É noite lá fora… É maio aqui dentro!

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Olá meu caro, onde andas tu?

Eu sei, com as estrelas a obervar-me do alto, por entre as nuvens, por cima dos telhados vermelhos e por entre as árvores da alameda que se exibe em linha e que estão mais verdes que antes porque é maio e finalmente posso dizer que é outono por aqui . Saudades crescentes de ti, viu?

[...] O mundo, para ele, se encolheu até ficar do tamanho de sua sala e, durante o tempo que for necessário para que ele venha a compreender isso, precisa ficar onde está. Só uma coisa é certa: não pode estar em nenhum outro lugar, seria absurdo para ele pensar em procurar um outro. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Estou aqui, a lembrar dos nossos dias de infância. Lembra-te? Eu era a menina mais nova a quem todos davam as mãos e levava por aí, com os pés libertos do chão. Acho que eu aprendi a voar nas mãos de vocês. Tinha a confiança de quem amava por sabê-los. Eu o sabia? Depois de tantas confissões é certo dizer que sim, não acha?

Oh, I’ve got lightning in my veins
Shifting like the handle of a slot machine
Love may still exist in another place
I’m just yanking back the handle, no expression on my face

É maio meu caro. O primeiro dia ao pouco se extingue. Virão outros. Trinta dias – porque maio tem sabor, aroma e muitas outras coisas mais… Lembra-te das brincadeiras de primeiro de maio? Eu as tenho em mim – como se fosse ontem. Começava cedo, a andar pelas ruas, ladeira abaixo, até o bosque – por entre as pedras rumo ao mar. Sua mão sempre junto a minha com a preocupação de quem não quer que o outro se perca. Colhíamos pedras e gravetos, folhas e sementes. Sentíamos o cheiro da paisagem morna. Percebendo-nos. Brincávamos de roda. Éramos incansáveis. Só vocês conseguiam me fazer ser criança de fato. Escalávamos árvores com facilidade e lá de cima gritávamos “homem a vista”. Caiamos numa gargalhada incomum que imitava o som das gaivotas. Lembra-te?

O vento cortas os seres pelo meio,
Só um desejo de nitidez ampara o mundo…
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.
(…) Mário de Andrade, Momento (abril de 1937)

Voltávamos para casa cantando. Quase sempre tu me levavas em teus ombros, olhando tudo por cima… Ninguém entendia aquela combinação de alegria e felicidade. Eu era tão pequena. Vocês já eram uma promessa de adultos. Esperavam tanto de vocês e tão pouco de mim. Eu era a menina que fazia vocês ouvir poesias. Lembra-te? Eu os obrigava a ir mais devagar. A T. certa vez, numa tarde de maio – anos mais tarde, diante da lareira, bebendo vinho, já mais velhas (embora eu seja sempre a mais nova) me confidenciou “você não nos deixou envelhecer, nos salvou dessa coisa de idade – foi depois de você que eu deixei de apagar velas” e ficamos lá, em suspenso revendo as coisas que aprendemos uns com os outros. Tanta coisa. É preciso respirar fundo, sorrir e se deixar conduzir pela mão dessas lembranças.

(…)uma sensação de portas que se fecham, de fechaduras que se trancam. É uma estação hermética, um longo momento de introspecção. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Sabe meu caro? Elas ainda estão por aqui, vivendo suas vidas – assim como eu também estou, vivendo o que tenho pra viver, mas confesso que tenho medo – nos vemos cada vez menos. Nos sabemos cada vez menos. Não temos tempo (é a nossa desculpa comum). Depois que você se foi tem sido assim. Nos falamos as vezes, nos escrevemos raramente. Mas as presenças estão escassas. E não sei se nos importamos. Foi assim quando o nono nos deixou. Lembra-te? A maioria de nós se perderam. Ele mantinha todos num laço, desfeito pela morte. Nós não e prometemos a você jamais deixar acontecer. Mas você não está mais aqui para nos cobrar a promessa feita. Você nos matinha atreladas – e agora que se foi, somos o que somos. Pessoas espaçadas, sem a preocupação da presença. Sem a preocupação de sentar-se a mesa, de misturar ingredientes, de ouvir as bobagens de sempre, de rir dos nossos inconvenientes, de nos esquecer das horas, de gargalhar com o som do carrilhão lá na sala. Ele ainda badala suas horas (eu ainda ouço seu eco direto dos meus pretéritos) mas é fato que não há mais ninguém para ouví-lo. Tão pouco para assustar-se com ele…

(…) Tenho de inventar a estrada a cada passo e isso significa que nunca posso ter certeza de onde me encontro. Uma sensação de andar em círculos, de sempre voltar atrás pelo mesmo caminho, de partir em várias direções ao mesmo tempo. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Maio chegou e nenhuma de nós se ocupou de pensar naquela cozinha, de ir até lá para ferver a água, espalhar xícaras pela mesa – para lembrar nossas coisas agradáveis, comuns a todas nós. Elas estão por aí… E eu estou por aqui (com a distancia de um oceano inteiro) com a lembrança que chegou até mim nesse fim de tarde. É maio, disse-me ao sentar-me aqui, como forma de me fazer entender o sentido – repito diversas vezes para ver se algo munda aqui dentro. Comecei ouvindo sua canção. Aquela que te fazia cantar feito um louco na cozinha. Lembra-te? Eu sei que sim… E quando dei por mim estava a compor todas essas linhas e a lembrar que maio era o seu mês. Lembrei então do seu telefonema no meio da tarde (anos atrás – não era maio). Você nos pediu para ir ao seu encontro.  E lá fomos nós. Estávamos lá, por você, sentadas – apreensivas. Não tínhamos ideia do que seria dito e você o fez quase em tom de confissão. Fomos as primeiras a saber “eu consegui. Eu estou amando alguém que me ama também”. Você. Justamente você (que como eu) achava que nunca iria amar. O nosso silêncio durou o tempo necessário para percebê-lo: seus olhos brilhavam – seu corpo inteiro reagia. Uma verdadeira ebulição de sentimentos seus por alguém que era uma perfeita continuação de teu existir. Fomos felizes por você. Como sempre…

É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Fernando Pessoa

Enfim, é maio… (sigo repetindo isso, já percebeu, não é?)
Dias felizes virão, um tanto vazio porque não estais mais aqui com teu sorriso eterno de menino. Sei que só posso recordar o teu abraço – penso que aprendi a abrir os braços e deixar o humano chegar até mim através de ti… Tantas coisas minhas são tuas, mas acho que isso tu sempre soubestes: o riso em comum, o olhar de soslaio, a indiferença crescente para com as bobagens e a gargalhada que deixava todos a nossa volta furiosos. Quantos tampas nossos braços receberam pela solidão do nosso sentir e saber.

Os ventos virão de todos os nortes. 
Os dilúvios cairão sobre os mundos. 
Tu não morrerás.
Não há nuvens que te escureçam. 
Não há ventos que te desfaçam.
Não há águas que te afoguem.
Tu és a própria nuvem.
O próprio vento.
A própria chuva sem fim. . .
Cecília Meireles

É meu caro, como um vento, tudo isso passou. Por mim e por todos nós. Maio chegou, mas o fez sem você. Esteja onde estiver, parte de ti jamais se foi… Tu sabes. Eu bem sei que sabes… Então vou cantar o refrão da sua música favorita em alto tom e sei que vais ouvir e vais cantar comigo.

Oh, the rhythm of my heart
Is beating like a drum
With the words “I love you”
Rolling off my tongue
Oh, never will I roam
For I know my place is home
Where the ocean meets the sky
I’ll be sailing

Lunna

Mário de Andrade

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“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!”

A história do homem – o mito do poeta

 

O homem nasceu Mário Raul de Moraes Andrade no dia 09 de outubro de 1893 – o poeta se inventou Mário de Andrade, mas não há datas, nem fatos determinantes, somente sua poesia. Ele disse em vida que o poeta que habitava em sua pele, surgiu para o mundo num estalo, quando escreveu seu primeiro poema em 1904.

Na Rua Aurora eu nasci
Na aurora de minha vida
E numa aurora cresci.

O homem foi de tudo um pouco. Fez de tudo um pouco. A arte era sua condição e assim sendo foi poeta, romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte, fotografo…

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta
Mário de Andrade

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinquenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!
Se um deus morrer, irei ao Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as melhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta,
Mas um dia afinal toparei comigo…
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

Mas sobretudo, Mário de Andrade foi Paulistano e escreveu a cidade em linhas. Ele reinventou sua São Paulo que para ele era desvairada – ele foi crítico com sua gente paulistana a quem considerava limitada, enfiada no saco e contida no passo. Ele queria uma São Paulo moderna, gigante, como o próprio nome pedia. Mas ele via uma São Paulo comum, pequena e limitada ao rótulo imposto por um punhado de senhoras conservadoras.

São Paulo! comoção da minha vida…
Os meus amores são flores feitas de original…
Arlequinal!… Traje de losangos… Cinza e Ouro…
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paria… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!
São Paulo! comoção de minha vida…
Galicismo a berrar nos desertos da América!

O poeta, ou seria o homem? Mário de Andrade por assim dizer, foi um dos fundadores do modernismo brasileiro ao lado de outro Andrade, o Oswald. Ele praticamente criou a poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Paulicéia Desvairada, escrito nos dias em que o Grupo dos Cinco inventava uma nova forma de arte e porque não dizer  de vida na pacata e silenciosa São Paulo dos anos 20 que viu e aumentou os escândalos dos senhores modernistas.

É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?…

Mário de Andrade, o homem – foi traído por seu coração e morreu em fevereiro de mil novecentos e quarenta e cinco. Impossível saber tudo que aquele velho músculo cansado aguentou. Morreu. Sem ver sua poesia resgatada – porque ser moderno teve o seu preço. E ele pagou moeda por moeda. Sendo esquecido. Suas palavras abandonadas. Morreu no exílio de sua existência. O poeta sobreviveu. Impossível dizer como, já que a palavra foi deixada de lado, no canto da história. O modernismo era uma praga que ninguém queria lembrar e ele era a flor do modernismo.

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar de uma vez:
E só tirar a cortina
Que entra luz nesta escuridez.

Mário nasceu para ser diferente, misterioso; gostava de dizer “há um lado hediondo no meu caráter” – mas ninguém além dele o via assim porque enquanto Oswald era o devasso, o piadista, Mário era visto como sendo o erudito, sem vícios ou abusos, apenas o correto. Sentia-se incomodado, coberto de vergonha por tal condição, mas era arrimo de família, não podia se deixar levar por aquilo que gostaria de ser.

Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha do Sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel… quasei móvel: é gostoso

E enquanto muitos por aí se divertem tentando imaginar ou compreender os mistérios do homem – discutindo sua cor, seu sexo, seus amores – vamos deixar os rótulos do homem de lado e nos ater ao poeta.

Tive quatro amores eternos…
O primeiro era uma donzela,
O segundo… eclipse, boi que fala, cataclisma,
O terceiro era a rica senhora,
O quarto és tu… E eu afinal me repousei dos meus cuidados.

Vamos imaginar seus passos pela cidade, não essa que aqui temos, a outra, aquela que ele “beijou” com seus versos. E imaginá-lo com as mãos no bolso, o olhar ao longe, vez ou outra por cima dos ombros para ver quem vem e quem vai… Brincando com sua vaidade e sensualidade, aprumando os ouvidos para saber o que dele falam. Claro, dá pra imaginar um sorriso quando passa pela biblioteca que leva o seu nome e talvez, entre, sente-se e dedique-se a uma missiva. A quem escreverá? Há mistérios que merecem prevalecer, pois nos permiti certos sabores.  

Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade…

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade…

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

Maio no sótão…

Gosto quando a poesia transborda as segundas aqui no Sótão porque pra mim poesia é segunda pele. É olhar  para dentro. É resposta entregue sem que a pergunta fosse feita. É o vento lá fora. É o vento aqui dentro. É a janela aberta. Porta fechada. Ruga na face. Sorriso nos lábios. Lágrimas nos olhos. Música que se repete no som. Filme antigo revisto milhares de vezes. Poesia é xícara de chá quente. O cachorro dormindo no meio do caminho. O corpo acomodado entre os lençóis. Eu acordada até mais tarde. Eu dormindo pela manhã, depois de ver as cores do dia… É orvalho. Chuva no telhado. Guarda chuva vermelho… Ah! Poesia… Não faltou poesia em 2011 e não há de faltar nunca… Mas é bom perceber que em maio, o post mais lido contou com a presença de Mário de Andrade. Eu sei que ele iria preferir abril, mas eu gosto mesmo é de “sentir maio”…

Mário de Andrade…

clip_image002Imagem. A. Joukowski

 

Louvação da Tarde

Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha do Sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel… quase móvel: é gostoso
Com o papagaio louro do ventinho
Pousado em minha mão, pelas ilhotas
Dos teus perfumes me perder, rolando
Sobre a desabitada rodovia.
Só tu me desagregas, tarde vasta,
da minha trabalheira. Sigo livre,
Deslembrado da vida, lentamente.
Com o pé esquecido do acelerador.
E a maquininha me conduz, perdido
De mim, por entre cafezais coroados,
Enquanto meu olhar maquinalmente
Traduz a língua norte-americana
Dos rastos dos pneumáticos na poeira.
O doce respirar do forde se une
Aos gritos pontiagudos das graúnas
Aplacando meu sangue e meu ofego.
São murmúrios severos, repetidos,
Que me organizam todo o ser vibrante
Num método sadio. Só no exílio
De teu silêncio, os ritmos maquinares
Sinto, metodizando, regulando
O meu corpo. E talvez meu pensamento…

Tarde, recreio do meu dia, é certo
Que só no teu parar se normaliza
A onda de todos os transbordamentos
Da minha vida inquieta e desregrada.
(…)

 

Mário de Andrade, o homem, nasceu Mário Raul de Moraes Andrade, no dia 9 de outubro, filho de Carlos Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade; na Rua Aurora, 320, em São Paulo.  Já o poeta, surgiu para o mundo num estalo, quando escreveu seu primeiro poema em 1904.

Há muito o que falar de Mário de Andrade, tanto do homem, quando do poeta e escritor, que dedicou anos de sua vida a criar um legado cultural para a cidade de São Paulo que era sua pátria, seu país, sua pele e sua alma. Mas eu sempre acho que um artista não se identifica pelas coisas que dizem dele e sim pelas coisas que disse ele, e no caso, todos os escritos deixados por ele diz muito do homem que ele foi.

No caso do poema Louvação da tarde podemos dizer que se trata de uma “metamorfose” – algo que ocorre com todos os artistas, escritores ou não. O poema foi escrito em outubro de 1925 e publicado em 1930 como poema final da série denominada “Tempo da Maria” no livro “Remate de males”. Esse poema representa a passagem da poesia mais exterior dos primeiros tempos de luta modernista para a poesia mais interior.
Mário de Andrade fala do poema numa carta a Manuel Bandeira em 12 de dezembro de 1925. Ele usa o humor em suas linhas para dizer que está fazendo poemas mais difíceis de ler, cujo objetivo seria manifestar um lirismo mais profundo. E é justamente a partir desse poema que a poesia de Mário de Andrade se constrói cada vez mais em torno do próprio eixo do poeta, ou seja, o eu se manifesta de forma mais acentuada. Mário passa a falar de si mesmo.

O grupo dos cinco…

imageO grupo dos Cinco, desenho de Anita Malfatti, 1922 –
Tarsila no sofá, Mário e Anita ao piano, Oswald e Menotti no chão.

Ao chegar de Paris, em junho de 1922, Tarsila instalou seu ateliê na Rua Vitória – coração da Paulicéia em tempos idos. Ela havia estudado desenho na França e se enchia de entusiasmo pela atmosfera inquieta das ruas paulistanas onde a Semana de Arte Moderna ainda era discutida. Ali se reencontrou com Anita Malfatti, autora das famosas “estranhas” telas, que tinha aprendido a gostar, depois de tê-las conhecido na exposição de 1917.
foi Anita Malfatti quem me apresentou a artista numa confeitaria elegante onde tomávamos chá “Esta é Tarsila, paulista, pintora e vem de Paris”. Pintora? Tinha eu na frente uma das criaturas mais belas, mais harmoniosas e mais elegantes que me fora dado ver. É claro que todos se apaixonaram por Tarsiladizia o artigo de Menotti del Picchia publicado em “A Gazeta”.
Anita Malfatti tinha um defeito na mão direita que ela gostava de ironizar, chamando-se de “Anita Malfeita”. Ela ainda não havia se recuperado do artigo, escrito pelo senhor Lobato que tinha por objetivo atingir os “futuristas” e acabou mirando na pessoa mais frágil do grupo. Defendida por Mário, Oswald e Menotti que a elegeram como “musa inspiradora” – isso não foi o bastante. O estrago já estava feito e ela passou a ser à sombra de seu próprio talento.

Abre aspas: Só consigo imaginar que o insípido senhor Lobato sofra em algum inferno existencial por tal feito. Enfim, eu não o leio, não o tolero e acho que ele é como muitos que estão por aí que não vêem e se sente no direito de inquirir o outro. Fecha Aspas.

Anita amargou uma crise criativa, passando a nutrir uma intensa paixão por Mário de Andrade que nunca foi correspondida. Eles eram amigos, mas ela desejava muito mais…
Quando Anita “introduziu” Tarsila no grupo, apresentando-a, uma espécie de combinação mágica aconteceu. Cinco pessoas. Cinco artistas. Cinco gênios. Cinco indivíduos. Cinco personalidades distintas. Cinco amigos. O famoso grupo dos cinco, que culminou em viagens, encontros apaixonados, brigas, polêmicas em cartas, em jornais e rancor para toda a vida. No início, foi uma grande festa: todos se visitavam; discutiam uns com os outros, deliravam, imaginavam o futuro, planejavam produções. Tudo que ali era debatido virava a proposta de um livro ou artigos animados para os jornais e revistas da época.
Oswald comprou um Cadillac verde, onde transportava os amigos, a toda a velocidade, aos lugares mais distantes: na fazenda de Tarsila varavam noites cantando ao piano, conversando, imaginando obras de arte. Mário chegou a fazer um verso para o carro, descrevendo-o como a Cadillac da glauca ilusão” – fazíamos fugas desabaladas dentro da noite, na Cadillac verde de Oswaldo de Andrade, a meu ver a figura mais característica e dinâmica do movimento, para ir ler as nossas obras-primas em Santos, no Alto da Serra, na Ilha das Palmas”…
Foram oito anos ininterruptos vivendo a maior orgia intelectual que a história artística brasileira registra, e justamente por isso, nada foi perdoado, a sociedade burguesa que a tudo assistiu, classificou o “grupo dos cinco” com seu preconceito cheio de veneno. Inventaram vícios, condenaram atitudes tidas como hostis. Criticaram com veemência certas “liberdades”. Classificaram “champanha com éter”, diziam uns. “As almofadas viraram coxins” diziam outros, entre muitos outros maldizeres que se espalharam de orelha em orelha, de boca em boca.
Para se ter uma idéia da força do grupo, os poemas de Paulicéia Desvairada, de Mário de Andrade surgiram das discussões do grupo, tanto quanto a novela O Homem e a Morte, de Menotti del Picchia – ambos publicados em 1922 – ano em que Oswald marcou encontro com Tarsila diante da Vênus de Milo, no museu do Louvre, em Paris. Foi o fim do Grupo dos Cinco…

Esse post faz parte do diário de criação da novela “o diário de uma solidão” – os argumentos dessa pesquisa foram utilizados por mim para compor o personagem de Pérola Alberoni, artista plástica que se envolve com o modernismo e modernistas ao voltar de Paris em 1916…

Diário de criação

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Estou acrescentando as categorias desse blog a tag “diário de criação” e faço isso por dois motivos: não quero perder o backstory de “o diário de uma solidão” que foi um dos mais gratos trabalhos de pesquisa feito por mim desde que resolvi me dedicar a arte escrita. Foi preciso investigar atentamente a cidade de São Paulo, a Semana de Arte Moderna e a vida de alguns artistas, tais como Mário de Andrade, Oswald, Tarsila, Anita e até o deprimente Monteiro Lobato. Segundo e acho que foi o mais decisivo, foi o fato de ser questionada por e-mail por vários seres, dito escritores, que me questionaram sobre o uso do backstory ou diário de criação.
Senhores escritores ou pessoas que apreciam a escrita: escrever não é apenas sentar-se diante da tela ou da folha em branco e escrever. Nem mesmo o senhor Jack Kerouac que não permitia que seu texto fosse editado conseguiu escrever sem um backstory, prova disso é o livro “Diários de Jack Kerouac” que nos permite um olhar bastante interessante sobre o seu processo criativo.
É preciso muito empenho na hora de escrever um livro, nenhuma idéia convence sozinha. O trabalho do autor pode ser árduo, exige muita disciplina e há de se respeitar certos elementos: temporais, existenciais, entre outros.

Nota. Para os que estão pouco acostumados com a linguagem de criação, o backtory é uma espécie de documento que serve como base para o escritor. A escrita é livre, basicamente intuitiva; ou as vezes pode ser uma espécie de diálogo entre o personagem e seu criador, servindo para que se estabeleça um contato mais intimo entre criatura e criador. Logo, não é esse o momento de se preocupar com forma ou qualidade de texto.
Ele pode ser escrito primeira pessoa, em terceira ou misturando, regras gramáticas ou qualquer outra regra conceitual. É de uso exclusivo do autor, portanto, só ele precisa entender o que está descrito ali.
É claro que pode acontecer do backstory ser tão fascinante, tão rico que daria um livro, pode sim acontecer, mas é preciso conter o entusiasmo e se lembrar que se trata da base, do suporte de toda uma história. É a mecânica, as engrenagens que vão tornar possível a arquitetação de toda uma trama.

Livros para o mês de julho

Julho começou sem eu perceber (sentir) sua presença. Estava desatenta e hoje pela manhã quando olhei para o calendário: lá estava julho e seus dias… Ao todo, contados na ordem natural dos humanos (doze dias passados). Para onde foram? Comecei a questionar, mas desisti, afinal, há dias que não deixam marcas profundas, apenas passam por nós…

Enfim, só me ocorreu selecionar livros para ler nos dias seguintes de julho.
Nada mais. Afinal, ainda restam dias no mês de julho, não é mesmo?

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1 – Mário de Andrade – melhores poemas
2 – Starhawk – A dança Cósmica das Feiticeiras
3 – Emily Dickinson – Wild Night
4 – Virginia Woolf – Noite e Dia
5 – Lima Barreto – Diário do Hospício e Cemitério dos vivos
6 – Álvaro de Campos – poesia
7 – Jack Kerouac – diário
8 – Jane Austen – Mansfield Park

Remate dos males, Mário de Andrade

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LOUVAÇÃO MATINAL (excerto)

Que a vida de cada qual seja um projeto de casa!
Sêco, o projeto agride o ôlho da gente no papel,
Porém quando a casa se agarra no lombo da terra,
Ela se amiga num átimo com tudo o que enxerga em volta,
Se adoça, perde a solidão que tinha no projeto,
Se relaciona com a existência, um homem vive nela,
E ela brilha da fôrça do indivíduo e o glorifica

Deflorar a virgindade boba do que tem de vir!…
Eu nunca andei metido em sortes nem feitiçarias,
Não posso contar como é a sala das cartomantes,
E minhas mãos só foram lidas pelos beijos das amadas,
Porém sou daqueles que sabem o próprio futuro,
E quando a arraiada começa, não solto a rédea do dia,
Não deixo que siga pro acaso, livre das minhas vontades.
O meu passado… Não sei. Nem nunca matuto nele.
Quem vê na noite? o que enxerga na natureza assombrada?
O que passou, passou; nossa vaidade é tão constante,
Os preconceitos e as condescendências são tão fáceis
Que o passado da gente não é mais
Que um sonho bem comprido aonde um poder de sombras lentas
Mostram que a gente sonhou. Porém não sabe o que sonhou…
Não recapitular! Nunca rememorar!
Porém num rasgo matinal, em coragem perpétua
Ir continuando o que um dia a gente determinou!

Eu trago na vontade todo o futuro traçado!
Não turtuveio mais nem gesto meu para indeciso!
Passam por mim pampeiros de ambições e de conquistas,
Chove tortura, estrala o mal, serenateia a alegria,
Futuro está gravado em pedra e não se apaga mais!
Por isso é que o imprevisto é para mim mais imprevisto,
Guardo na sensação o medo ágil da infância,
Eu sei me rir! Eu sei me lastimar com ingenuidade!


Mário de Andrade, Poesias Completas,

Essa semana um e-mail veio lembrar-me do estilo de escrita de Mário de Andrade que preferia “dar voz ao povo” ou seja, ele não gostava do português dos catedráticos, tão difícil de se compreender. E como estava lendo “remate dos males” achei que seria de bom tom, explicar a essa “querida pessoa” alguns “senões”:

Claro, alguém aí já deve ter ouvido falar do famoso português arcaico, mas daí a dizer que é legal falar “dez real” ou “pobrema” chega a ser lamentável. Sim, há de se dar voz ao povo, mas achar gracioso que um Presidente da República seja um incapaz quanto ao uso de sua língua natal e admirarem-no por ele fazer o discurso na “língua do povo” é duplamente lamentável.

Até porque senhores, o homem teve tempo de sobra para resolver esse “pequeno problema” de comunicação e de certo não foi por falta de condições financeiras que não o fez. Sabemos todos… 

Agora, acho melhor ler Mário de Andrade antes de usá-lo em discursos a favor de uma suposta voz do povo porque já imaginou o referido presidente lendo “remate dos males”?

Já que ela “dez maio” eu sentir “maio”…

O vento cortas os seres pelo meio,
Só um desejo de nitidez ampara o mundo…
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.
(…) Mário de Andrade, Momento (abril de 1937)

120420111297

Gente, eu preciso dizer o obvio: maio está chegando ao fim…
Lá se foi o mês com suas flores exclusivas (que aqui em casa resolveram abrir em abril e tudo indica que abrirão em junho também). O mês das trovoadas, que irrompe o céu da minha mente com seus versos, histórias e prazos.

Maio pra mim lembra Jane Austen e suas histórias que ao contrário do que disse o atendente da Cultura, são sempre atuais pra mim e eu continuo lá, torcendo para que a Lizzie e o Mr. Darcy encontrem um jeito de estarem juntos ou que Fanny Price sobreviva aqueles leões que tentam engoli-lá a cada página devorada por meus olhos…

Mas o mês de maio esse ano trouxe-me Virginia Woolf e sua deliciosa eloquência em “Noite e Dia” e no melhor “As Ondas”. Acho que a confusão de suas personagens em se amam ou não amam ou ainda se são capazes de amar é a dúvida da maioria dos mortais e eu provavelmente tenha me irritado com essas dúvidas por nunca as tive em minha pele e sempre fui mais adepta do “ou isto ou aquilo” – “ou sinto ou não sinto”. Sem o caminho do meio…

Logo, maio vive seus últimos momentos e amanhã já é o mês que vem. Ando arredia com essas simbologias, estando no último dia do meu mês preferido, me vejo contendo meu passo e desejando mais horas nesse dia que levará maio para longe de mim. Eu sei que tem gente feliz com isso. Não é mesmo Dona Borboleta? Compreendo seus rumores, ditos em dez maios e o título nos leva a uma metáfora. Seria proposital?

Sim, maio…
Está acabando, faltam algumas horas apenas e quando estiveres aí lendo, serão menos horas ainda e você saberá que o tempo passou e que ainda ontem eu estava festejando a chegada do mês com versos e agora estou aqui suspirando como quem morre (sim, porque o suspiro é isso, uma morte lenta, poética. Morte dos olhos, da boca, das narinas e dos sentidos). Fecha-se os olhos por um segundo e leva para dentro um ar mais ameno. Não há intensidade bastante, é como se fosse o último suspiro e quando  se volta, vamos lembrar Pessoa, já é outro. Ah! Pessoa tem tanto incomum com maio…

Maio esse ano me levou pra longe do blog em seus últimos dias. Eu fui outra e fiquei de escrever um post sobre “a menina que um dia eu fui”, mas não pude fazê-lo porque maio levou-me para longe de mim, afastou-me. Eu fui Aurora, Beatriz, Dara e ainda sigo sendo essas personagens que são mulheres cuja característica afronta meu “eu” e não me deixam de forma alguma abrir certas janelas, talvez por isso tenha ido ao encontro de Mário de Andrade esses dias. Eu o encontrei ali entre outros livros e ao ver “Remate dos Males” – sua série de poemas que mais me alcança e que me faz pensar: “o mundo ainda tem salvação porque há o sentir em muitos de nós” e mesmo que amanhã o mês seja outro, maio vai ficar comigo por mais alguns dias porque eu o levo aqui dentro e não o deixo, afinal, se o outono se encontra comigo o ano inteiro em pequenos detalhes que são só meus, porque seria diferente com o mês de maio?

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(…)
Ninguém chega a ser um nesta cidade,
As pombas se agarram nos arranha-céus, faz chuva.
Faz frio. E faz angústia… É este vento violento
Que arrebenta dos grotões da terra humana
Exigindo céu, paz e alguma primavera.
Mário de Andrade, Momento (abril de 1937)

Então é isso: acabou. É hora de virar a página.
Caríssimos, aproveito para desculpar-me pela ausência, mas como eu disse anteriormente: maio é o mês das trovoadas e realmente foi assim… rs

Mário de Andrade…

clip_image002Imagem. A. Joukowski

Louvação da Tarde

Tarde incomensurável, tarde vasta,
Filha do Sol já velho, filha doente
De quem despreza as normas da eugenia,
Tarde vazia, dum rosado pálido,
Tarde tardonha e sobretudo tarde
Imóvel… quasei móvel: é gostoso
Com o papagaio louro do ventinho
Pousado em minha mão, pleas ilhotas
Dos teus perfumes me perder, rolando
Sobre a desabitada rodovia.
Só tu me desagregas, tarde vasta,
da minha trabalheira. Sigo livre,
Deslembrado da vida, lentamente.
Com o pé esquecido do acelerador.
E a maquininha me conduz, perdido
De mim, por entre cafezais coroados,
Enquanto meu olhar maquinalmente
Traduz a língua norteamericana
Dos rastos dos penumáticos na poeira.
O doce respirar do forde se une
Aos gritos ponteagudos das graúnas
Aplacando meu sangue e meu ofego.
São murmúrios severos, repetidos,
Que me organizam todo o ser vibrante
Num método sádio. Só no exílio
De teu silêncio, os ritmos maquinares
Sinto, metodizando, regulando
O meu corpo. E talvez meu pensamento…

Tarde, recreio do meu dia, é certo
Que só no teu parar se normaliza
A onda de todos os transbordamentos
Da minha vida inquieta e desregada.
(…)

Mário de Andrade, o homem, nasceu Mário Raul de Moraes Andrade, no dia 9 de outubro, filho de Carlos Augusto de Moraes Andrade e Maria Luísa Leite Moraes Andrade; na Rua Aurora, 320, em São Paulo.  Já o poeta, surgiu para o mundo num estalo, quando escreveu seu primeiro poema em 1904.

Há muito o que falar de Mário de Andrade, tando do homem, quando do poeta e escritor, que dedicou anos de sua vida a criar um legado cultural para a cidade de São Paulo que era sua pátria, seu país, sua pele e sua alma. Mas eu sempre acho que um artista não se identifca pelas coisas que dizem dele e sim pelas coisas que disse ele, e no caso, todos os escritos deixados por ele diz muito do homem que ele foi.

No caso do poema Louvação da tarde podemos dizer que se trata de uma “metamorfose” – algo que ocorre com todos os artistas, escritores ou não. O poema foi escrito em outubro de 1925 e publicado em 1930 como poema final da série denominada “Tempo da Maria” no livro “Remate de males”. Esse poema representa a passagem da poesia mais exterior dos primeiros tempos de luta modernista para a poesia mais interior.
Mário de Andrade fala do poema numa carta a Manuel Bandeira em 12 de dezembro de 1925. Ele usa o humor em suas linhas para dizer que está fazendo poemas mais difíceis de ler, cujo objetivo seria manifestar um lirismo mais profundo. E é justamente a partir desse poema que a poesia de Mário de Andrade se contrói cada vez mais em torno do próprio eixo do poeta, ou seja, o eu se manifesta de forma mais acentuada. Mário passa a falar de si mesmo.