Missivas Noturnas # 3

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São Paulo 20 de março de 2012…

Pensei
conheço-a tão bem
vivemos juntos há tanto tempo
conheço

a sua cabeça de pássaro
os seus braços brancos
e o seu ventre (…)

Zbigniew Herbert

Caríssima,

Em sua última carta falou-me do outono e dos tons cinzas da cidade que “veste” seus olhos. Sabe? Custa-me a imaginar qualquer cidade dos Estados Unidos. Não sei se sei o motivo disso. Estive em New York e amei certas ruas, certos lugares. Me senti parte de algo e de nada ao mesmo tempo. Me perdi. Fui outra (pra variar) – não fui coisa alguma…
E mesmo assim, confesso: me custa muito imaginar esse existir mais ao norte. Talvez se eu usasse outro adjetivo, uma vez que para mim “norte” é uma palavra que me leva para dentro. Que me devolve a mim mesma. Que me faz pele. Sombra. Coisa noturna. Diagrama… Qualquer coisa para dentro.

Há dias que quero escrever-te.
Mas está cada vez mais raro sentar-me aqui. E quando o faço os olhos vão em outras direções. As missivas ficam sempre para depois (esse que se demora cada vez mais). As vezes, como você, imagino missivas inteiras e as desenho em minha mente. Fico vendo as palavras. Percebendo as cores. Degustando as formas. Amadurecendo diálogos inteiros e acabo percebendo o olhar do outro (no caso o seu) por cima de minhas superfícies como se estivesse aqui dentro, junto a mim – como na cena daquele filme revisto milhares de vezes (A casa do lago) onde a escrita se transforma numa conversa natural com ausências de coisas comuns: tempo, espaço…

Então cá estamos nós duas a dialogar.
Você falando da avenida que percorre – onde se lembra de mim, ali na manhã, rumo aos seus caminhos. Com o cinza comum de sua cidade. As nuvens sempre cinza que não anunciam tempestades e nos pássaros voando baixo. Confesso. Passei um bom punhado de minutos observando esse desenho seu. Percebendo seus movimentos (inteiros – pela metade – recém iniciados – inacabados). Fui juntando tudo aqui em mim. Sua figura “misteriosa” – suas palavras perfeitas. Uma realidade que me acaricia porque não é minha e fiquei aqui com os versos de um poeta recém chegado.

Tempo da infância, cinza de borralho
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho
cobre isso tudo em que me denuncio

(…) Jorge de Lima

Fiquei aqui um bom tempo. Perdida. Ausente dos dias, apenas ouvindo o canto rouco do carrilhão do tempo ausente – de menina. Assustada. Escondida em baixo das cobertas. A salvo? Não sei, mas era o que eu pensava. E então percebo que o verão acabou e o outono chegou bem junto da minha janela. É tarde. É noite… E já não sei quando tudo isso aconteceu. Não sei qual foi a última vez em que me deixei ser palavras numa folha. Não sei quando foi que eu me perdi do papel… Foi tudo tão rápido.

E agora só penso em fazer uma prece e dizer-te que depois de passar esse par de horas inteiras contigo, só consigo respirar fundo e perceber-me de volta a cadeira, a mesa e a essa janela… É outono minha cara (para mim) e agora só falta me dizer quais são as cores da sua primavera porque imaginar não posso. Estou presa nesse tempo de poucas cores, embora lá fora exista árvores com suas cores (vermelho, amarelo, azul) mas é que São Paulo não sabe desenhar as estações muito bem. Acaba sempre misturando uma as outras…

Meu abraço a você nesse outono de faz de conta.
Lunna

Missivas noturnas

São Paulo, no meio das sombras da cidade…
Entre um passo e outro,

Mas há a vida que é para ser
intensamente vivida,
E há o amor que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo. Não mata.
Clarice Lispector

Boa noite,

A noite já está presente neste meu cenário. Meu olhar percebe as luzes da cidade lá fora. As janelas começam a ganhar contornos internos. Adoro observar janelas enquanto imagino vidas inteiras em conformidades lá dentro. Sentei-me aqui para escrever esta breve missiva e confesso que não esperava que o destino de minhas palavras fossem você. Mas a tua lembrança povoou meus pensamentos e não resisti. Preparei uma xícara de chá que segue esfriando aqui ao lado da mesa: soltando aquela fumaça leve e perfumada pelo ar (tão gostosa de espiar) enquanto reviro as minhas lembranças todas: você sabe (eu sei que sabe) que o mês de maio é o mês da minha pele: o ritmo da palavra, a empatia dos dias, o simbolismo da estação. Tantos detalhes que culminam numa sensação agradável que me faz desejar que haja mais que apenas trinta e um dias em sua paisagem… Mas não importa, porque maio desaparece feito um sopro dado por cima da palma da mão, carregando seja lá o que… Maio carrega-me com ele, fico sem uma parte de mim.

Acho que isso é coisa de “escrevinhadores”.
Mário de Andrade gostava de abril. Não sei porque. Não pergunte. Apenas sei. Seus versos vem falando desse mês e a palavra “abril” parece ter o ritmo de suas linhas. Então quanto leio seus versos é como se abril se apoderasse da paisagem, desafiando o calendário… Lá estão os dias de abril com aquele sabor de outono, bolo de milho, broa sobre a mesa. Coisas antigas, um rapaz a rascunhos palavras numa folha de ontem que chega até mim nos dias de hoje…

Eu tenho essa mania, acho que já deve saber: interpretar a alma das pessoas em minhas linhas. É como se eu saísse de mim e por um instante (breve) eu conseguisse ser outra pessoa. Sentindo todas as coisas que aquele corpo a minha frente sente. Pensando o que ela pensa. Fico em um estado de dormência. Não sinto os músculos e tão pouco toco as superfícies nas quais habito. Sou outra e pronto… Quando o transe passa, o papel se enche de palavras e eu finalmente volto a ser essa figura inacabada que te abraça no começo das manhãs, no final da tarde ou no meio da noite. Insanidade. Dirão muitos. Eu já me acostume, mas e você? (risos)

Bem, a solidão já se acomodou aqui junto a mim. Sua companhia faz da noite um momento único. Posso ver e sentir a escuridão penetrando minhas falanges, dando aconchego ao meu existir e perfumando minhas laterais. Sou outra. Uma figura humana atraída pelo fascínio das sombras que se arrastam pelas calçadas e pelas ruas. Aos poucos percebo que o silêncio irrompe a cidade e os humanos vão desaparecendo aos poucos.

Hoje estou aqui ouvindo a mesma canção. Você sabe bem o que isso significa, não é mesmo? Não sou eu aqui a escrever-te. Não de todo… Não há lua lá fora, nem estrelas. Esta nublado. É dezembro (estou repetindo isso sem parar na tentativa de me convencer, mas está difícil). Não sei, deve ser porque não gosto de dezembro. Não sei mesmo e não vou procurar uma resposta porque hoje eu estou assim. Acordei como quem desfalece e demorou um bom tempo até que eu voltasse a vida. Sei lá, há momentos que nem mesmo as palavras me salvam. Eu apenas desfaleço e pronto. Me esqueço em algum canto e sou outra. Qualquer uma. Vazia de sensações e tudo mais… Mas aconteceu que de repente eu estava lá nos teus braços. Você se lembra? Foi no meio da manhã. Estávamos deitados, vendo qualquer coisa na televisão e eu me perdi por um segundo nos teus braços. Pareceu uma vida inteira. Queria ficar ali, mas o dia estava nos chamando para fora e você saltou dali para a vida que se conta através das horas. Senti você escorrendo pela vidraça da janela do quarto. Como chuva…

Não choveu! Sabemos disso e eu precisei sair por aí. As ruas resmungam qualquer coisa sobre pessoas, cães e paisagens. Tudo sem eficiência alguma. Até o segundo passo quando encontrei aquele rapaz que conduzia uma senhora (sua avó por certo) pelo braço. Uma cena delicada que me dizia tanto. Ainda percebo os detalhes daquela caminhando pela calçada que vinha de encontro aos meus pés. Por deus, eu poderia escrever qualquer coisa sobre aquele momento. Eu me apaixonei de imediato. Percebi aquela doçura daquelas almas. Fiquei lá imaginando os caminhos, colhendo os pequenos movimentos até que o rapaz percebeu a mim ali, no meio do passo e acho que ele pensou qualquer coisa estranha, alheia a mim e o conto que surgia em minha mente ficou ali por cima das faixas brancas da rua que eu atravessei. Eu odiei aquele rapaz com todas as minhas forças por alguns segundos. Parecia tão perfeita aquela cena até ele descobrir meu olhar para cima deles. Mas a culpa foi minha. Fui tão afoita no meu olhar… O que fazer? Meu olhar hoje está afoito. E não chove… (risos) Há nuvens no céu, mas não há prenúncio de chuva, não sinto no ar aquele perfume de terra molhada, de folhas banhadas, de aroma de laranjeira… Não sinto a presença molhada das águas… Saudades. É o que sinto daquelas tardes úmidas cheirando a bolo e colhendo diálogos nossos na cozinha. Você se lembra? Parece que foi há um milhão de anos. Algumas coisas andam mesmo distantes de mim…

O clima anda rebelde. Já percebemos isso. Eu e você. Num mesmo dia vivemos dúzias de estações. Parece que não nos contentamos apenas com quatro, não é mesmo? Tivemos até algumas tempestades. Ouvi alguns trovões no meio da tarde e sei que você também ouviu… Mas tudo se esparramou pela paisagem e nada aconteceu.

Bem, vou colher algumas sombras ao longo do caminho e ir ao teu encontro, me perder em teus braços como sempre faço. Quem sabe a noite confecciona ilusões de sombras minhas e suas e fiquemos então (eu e você) pelo chão da nossa memória a degustar o que sempre seremos…

Ps. Ainda lamento ter perdido o conto, a imagem daqueles dois corpos caminhando pela calçada, virando a esquina ainda permanece aqui e em mim e eu nada posso fazer porque me falta o argumentos que ele roubou de mim com sua tola apresentação “me chamo Ednei” disse ele, arrancando qualquer coisa de mim (que não foi devolvida). Estranho olhar o humano no mundo real das coisas, quando são ilusões apenas são figuras silenciosas que nada podem dizer ou fazer sem que eu permita…

Enfim, meu silêncio vai pousar em seus lábios e eu vou esquecer-me desse dia em algum momento. Tudo será saudade ou simples lembrança que não se alcança…

Sua, sempre sua…

Mário e Anita…

Um amor que nunca foi entregue ao outro: ele nunca se afastou de fato, mas de seu mesmo, só deu a ela a sua amizade…

imageO Encontro, Mário de Andrade (sentado), Anita Malfatti (sentada, ao centro)
e amigos na exposição de Zina Aita(à esquerda de Anita), em São Paulo, em 1922.

“Sentia uma comoção reverente, religiosa diante daquela figura feminina, soberanamente enérgica e artista… Foi então que… eu lhe falei de nós dois… Disse-lhe que para as almas como as nossas, enclausuradas no sacrifício conventual das artes, apenas um socorro existe: amizade… Disse-lhe que os amores me sacrificaram… ficamos os dois… mudos, parados, horrorizados”.

Ao entrar em um salão na rua Líbero Badaró, em São Paulo, num sábado chuvoso de dezembro de 1917, o jovem poeta, então aos 24 anos, inseguro e cultivando o luto pela morte do pai, Mário de Andrade se depara com quadros vibrantes, imagens disformes, com cores que não correspondiam à realidade. Explodiu em uma sonora gargalhada que não era de escárnio, e sim de fascínio. O jovem poeta voltou oito vezes à mostra.

Diz-se nas entrelinhas da história, que Mário apaixonou-se por Tarsila, motivo esse que levou Anita a odiá-la, afastando-se assim da até então amiga. Mas as estrelinhas desses modernistas dizem tantas coisas. Há quem acredite que Mário era homossexual e eu confesso que acho errado tentar classificá-lo com rótulos. Ele era Mário de Andrade e por ser artista, sua condição maior era a paixão por todas as coisas.

Apaixonou-se sim, mas amar, o amor que narramos em sonetos, romances e folhetins – esse nem mesmo suas cartas parecem ser capazes de revelar. Há segredos que permitem que ele seja esse símbolo maior da história da literatura brasileira, porque como tão bem sabemos, o artista silencioso, cuja vida não assombra, não faz barulho não é ninguém. Poderia eu citar vários exemplos disso aqui, mas creio ser totalmente desnecessário.

O fato é que, o amor de Anita por Mário é um amor a moda antiga, narrado em missivas que da primeira a última vai permitindo que o véu caia por terra. Conhecemos uma Anita fragmentada, que era várias e uma só ao mesmo tempo: as artes plásticas conheceram a figura talentosa, que foi corajosa até certo ponto; a figura doce, as vezes desinibida coube apenas aos amigos; a figura doméstica, prendada, comedida ficou a cargo da família e a figura pública coube a imprensa que acompanhou diversos estágios de uma vida que terminou sem grandes atrativos.

Cometi um crime de lesa-amizade. Escrevi uma carta sentimental a um amigo. Perdoe-me” (…)  -  Em 27 de dezembro, retoma o assunto: “Hoje não tenho medo nem vergonha de a ter escrito, mas quero que a rasgues por cavalheirismo à minha amizade. Sei que o farás com carinho“.

Pra mim, fecho aspas em sua vida quando ela escreve sua mais bela missiva, endereçada a Mário de Andrade, anos após a sua morte. Afinal, tenho pra mim que somente Mário de Andrade conheceu de fato Anita Malfati, em seus momentos mais íntimos, receosos, femininos, inseguros, ousados, avessos…Tudo mais que sabemos dela, são apenas ilusões acerca de uma personagem que se deixou machucar pelas duras palavras de Monteiro Lobato (a quem odeio por isso, como não canso de dizer). Acho que a palavra depois de dita não pede desculpas. Eu sei que ele se desculpou, mas o estrago já havia sido feito.

Estou tremendo um pouco, sabes, nunca em minha vida dei isto a creatura alguma” (…) – escreveu Anita em 19 de dezembro de 1923 ao confessar seu amor por Mário.

Anita escreveu 77 cartas a Mário. Ele não respondeu todas. Ela escreveu em papel azul, lilás, rosa, amarelo, verde, branco ou cinza, de acordo com o coração. O amor, às vezes, era declarado por meio da luz violeta do dia, de um cardeal papo de fogo pousado na mesa, da louça de florzinha para o chá, da saudade. As vezes, se zangava com o silêncio de Mário, que respondia uma a cada duas cartas de Anita. Não se sabe quantas ficaram pelo meio do caminho, mas é fácil imaginar, dada a eficiência dos correios nos dias atuais (risos) – sabe-se que ao menos uma dessas missivas foi destruída por Mário, a pedido da própria Anita. E como pertencia a uma família conservadora, imagina-se que seus familiares devem ter se ocupado de destruir uma ou outra, quiçá, inúmeras…

(…)Tenho medo de ter desapontado a você. Quando se espera tanto de um amigo, este fica assustado, pois sabe que por nós mesmos nada podemos fazer e ficamos querendo, querendo ser grandes artistas e tristes de ficarmos aquém da expectativa.
Procurei todas as técnicas e voltei à simplicidade, diretamente, não sou mais moderna nem antiga, mas escrevo e pinto, o que me encanta.
Escrevo pois para você, grande e querido amigo, ai se eu pudesse consolá-lo, quanta felicidade para todos nós.

Trecho da última carta escrita por ela à Mário de Andrade, dez anos após a sua morte…

Para ler a carta na integra, clique aqui…

 

Esse post faz parte do diário de criação
da novela “o diário de uma solidão

imageFoto do espetáculo “Quasi”, da Companhia Incomodada de Teatro – que encenava a relação
entre os modernistas Mário de Andrade e Anita Malfatti.
Esteve em cartaz em São Paulo e Belo Horizonte no ano de 2005.
 

Para saber mais sobre Anita Malfati:
Anita Malfatti – No Tempo e no Espaço
Marta Rossetti Batista

Cartas a Anita Malfatti
Marta Rossetti Batista

 

Tomando nota “hoje é segunda-feira”…

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Amanheceu lá fora. De um fôlego só. Os ponteiros estão indóceis comigo. Será só comigo? Não acompanham o dia e suas cores de ocasião: é manhã. Nem dez horas. Parece tarde. O almoço já se faz anunciar junto a paisagem lá de fora… Os cheiros. Os sons. As cores. Tudo transborda.

Um avião cruza o céu. Decola. Se enrosca nas nuvens. Tem gente de partida. Mais tarde com certeza (dependendo do vento) haverá gente em fase de chegada…

É segunda. Falta-me a palavra de algum poeta. Mas nada me incomoda nesse dia de hoje. Estou aqui a beber chá, água, café. Estou aqui a comer fruta. A pensar em chocolate. Falta-me apetite para tantas coisas. E ainda sim, sinto muitas coisas.

Não chove em São Paulo. Não nesta manhã. Há nuvens por toda a parte. Mas não chove. O sol inventa sombras e chega a varanda de casa. Está preguiçoso. Até parece novembro. Outono. Saudades. Mas é primavera e diz-se há tempos que primavera é tempo de missivas e poesias. Então vou ali, rascunhar folhas e ler Alexandre O´Neill.

Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra “amigo”.

“Amigo” é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

“Amigo” (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
“Amigo” é o contrário de inimigo!
“Amigo” é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

“Amigo” é a solidão derrotada!

“Amigo” é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
“Amigo” vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neill,
in No Reino da Dinamarca

Você vem?

Sim, eu escrevo diário…

Assim como a vida escreve estações”!

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(…)e deixamos de confiar no poema
no poeta
na metáfora
e em todas as mentiras
neste equinócio
com pronúncia de outono
e voz de setembro esquecido
[de repente parece que o mundo murchou
para os que amam por acaso
nestes dias lentos].
(…)

Um poema, de Jorge Pimenta
para a estação de setembro

Então é isso, eu ainda escrevo diários e faço isso ao som das quatro estações do ano, embora nem sempre sinta plenamente todas elas, mas eu sei delas o tempo todo. Em São Paulo é comum ter as quatro estações do ano num só dia. Ontem mesmo, no meio da tarde se fez inverno. Os ventos sopraram fortes e eu quase me deixei levar por eles… Depois veio a chuva fina, úmida, fria e por fim o sol se impôs por um segundo ou dois por entre as nuvens. Então caiu a noite com seu véu de sombras mornas e o verão ensaiou sua volta…

Eu pouco ou nada falei aqui sobre meu livro “diário das quatro estações – volume noturno” aqui porque estava anestesiada com a presença dele em minhas mãos. Foram apenas 50 (cinquenta) exemplares artesanais. Todos feitos por mim. Ou seja, carregam muito mais que apenas os meus delírios. Carregam também parte de mim. Eu gosto desse manifesto artesanal – de você saber o livro, ser parte dele e ir para as mãos das pessoas que passam a possuí-lo.

Enfim, eu não pretendia falar dele aqui. Mas a menina das estações enviou-me um e-mail falando do seu olhar sobre aquelas páginas que chegaram até ela pelos correios. Foi impossível entregar pessoalmente. A vida é feita de momentos e o nosso ainda anda longe, caminha distante, junto as montanhas. Precisamos dar voltas inteiras antes de nos perdemos na mesma paisagem. Eu não tenho pressa. Ela disse também não ter… Enfim, há para nós o conforto das missivas!

O que ela leu, e alguns de vocês também leram foi um combinado dos meus delírios que são mantidos a salvo da tal realidade que eu mantenho do lado de fora dos meus dias. Sempre que alguém me pergunta “você viu que o mundo está em crise?” – eu disfarço o sorriso e me limito a dizer “humhum” e claro que internamente me questiono “e quando foi que não esteve?” – só mudam os sintomas, mas a história é sempre a mesma…

Mas antes que alguém resolva perguntar, vou logo dizendo: para mim, escrever diários é cumprir uma espécie de ritual. Final do dia. Hora incerta. Apenas noite, sombras se configurando do lado de fora, tudo escuro. A lua, as estrelas, o céu, as nuvens e o vento brincando pela paisagem… Uma vela acesa, um incenso inventando formas pelo ar, a música certa e um breve olhar ao redor. Tudo vai ficando mais lento, mais quieto e de repente é como não restasse mais nada além daquele diálogo meu para com ele. Faço minhas confissões e pronto. Bebo um gole de chá e tudo volta a ser vida, barulho, dia, sol, ruas e calçadas…  

(…)
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão às medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre, se ainda recordas

Cecília Meireles, em Solombra, pág. 794

Eu sei que tem muita gente que também escreve diários  e ao fazê-lo “inventam” uma forma de diálogo tão simples e tão necessária porque ali naquelas folhas a gente  escreve para si mesmo, é como se estivéssemos olhando no espelho e dizendo “olá, como foi o seu dia?” e essa pergunta, cada vez menos comum nos dias de hoje é o bastante para que a gente relaxe e confesse o pulsar mais lento, mais breve, mais intenso, mais rápido…

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23 de setembro…

Por aqui a primavera chegou com sabores e essências do outono. O vento beija minha janela, o sol lambisca de leve os jardins que não estão coloridos. Mas há lá fora qualquer coisa de primavera. Ou será que é aqui dentro de mim? Não sei, mas prefiro o manifesto do não saber, ao menos por enquanto.

Eu sigo pensando em missivas…

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Faz alguns dias que eu não escrevo “o diário de uma solidão”. Algumas partes do meu corpo, da minha mente ainda estão em silêncio. Definitivamente eu não consigo pensar no momento. Já tentei sentar-me aqui, diante da tela e levar a história adiante. Li e reli os dois primeiros capítulos e percebi que sei muito bem o que eu quero do personagem, dos movimentos seguintes. Mas não há movimento algum em meus dedos. É tudo silêncio. E há tempos que eu aprendi que não adianta obrigar-me a desenhar palavras. As coisas não acontecem assim…
As outras coisas estão indo bem. Tenho escrito missivas, algumas estão aqui “abandonadas” sobre a mesa – tenho lido muitos livros, que se acumulam sobre os cantos por onde passo – assistido filmes, que se amontoam na tela de ilusões fáceis e tenho também caminhado por calçadas irregulares. O pensamento se sente como um pássaro. E lá fora o outono acena pra mim, mas o calendário insiste em lembrar-me da primavera…
Sim, hoje é aniversário da Francy´s, essa criança primaveril que gosta de flores, luz do sol e canto de pássaros. É mesmo uma criança e merece versos de Caeiro…

Então é isso, é quase primavera
e eu sigo pensando em missivas

A arte de escrever cartas

imageVez ou outra alguém escreve para o meu e-mail perguntando “como é que se escreve uma carta?” – e eu sempre acabo buscando uma resposta em meu íntimo para essa pergunta. Revejo meus atos, minhas manhãs e manias milhares de vezes e acabo sempre dizendo “com palavras”.

Parece obvio demais, mas é verdade. Uma carta se faz com palavras, mas não são simples palavras. É um conjunto delas que visam estabelecer um diálogo entre você e a pessoa que mergulha naquela composição de folhas (no tempo passado e para algumas pessoas no tempo presente). Hoje as cartas invadiram os e-mails, alguns blogs, mas não perdeu de todo o sentido, embora, eu prefira sentir o cheiro do papel, observar os detalhes da caligrafia, conhecer os caminhos por onde o envelope passou através de seus carimbos…

Claro que antes existia a demora natural dos correios e hoje existia a agilidade natural da internet que mudou o conceito de correspondência. Mas algumas coisas não se perdem.

Eu por exemplo, gosto de escrever cartas, que eu chamo carinhosamente de “missivas” porque a palavra me permite um sentir muito mais colorido, pelas manhãs. Antes do sol despertar ou com ele despertando, aos poucos. Então vem o canto dos pássaros e a festa das folhas. O sol parece beijá-las e o vento inciumado parece tocá-las de forma arredia. O dia começa para uns e termina para outros… Nesse meio tempo, eu lembro das pessoas que por alguma razão me causam “missivas”.

Existe todo  um ritual para escrever: uma xícara de chá, um cálice de vinho, folhas amarelas, envelopes coloridos (cada pessoa  uma cor – cada cor um sentir). Sento-me então diante da janela aberta e vou colhendo tudo que me chega. Começo sempre com uma frase que faça sentido para mim naquele momento e que seja capaz de exibir minhas cores junto aquela  pequena folha de papel.

Na escola, me diziam que sempre deveríamos começar pela data, logo no alto da página. Mas isso não me agrada. Também diziam que deveríamos usar a segunda linha para nos dirigir ao nosso correspondente: “à você, carissimo” e por aí vai. As vezes faço isso. As vezes vou direto as linhas e começo descrevendo meus cenários como forma de introduzir o meu correspondente a minha vivência natural. Quero participá-lo das minhas ilusões.

Nunca me lembro de coisas: “como você está?” – “espero que deveras esteja bem” como ele está? Acho tudo isso desnecessário, afinal, estar bem é uma conceito muito intimo e podemos sentir tudo isso de acordo com as palavras que nos chegam.

“Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher”. Trecho do livro de Carta a D. de André Gorz

Quando li o livro Carta a D. que o filósofo André Gorz escreveu essas palavras para sua amada, fiquei imaginando todos os cenários: pensei eu num final de tarde, mesa de frente para a janela, vento a perturbar cortinas, um chá esquecido na xícara, papéis inquietos sobre a mesa e uma saudade gostosa de quem estava logo ali no outro quarto… Uma espécie de distância necessária para a existência das cartas escritas por ele…

Missivas são sentimentos na folha, é o nosso avesso sem mistérios ou segredos. É ser transparente, é se deixar ver pelo outro que é aquele alguém que diante da folha irá sorrir ou chorar com o horizonte desenhado por você… E bem ali, naquela folha é possível saber o outro sem nunca estar de fato diante dele…

Logo: é uma espécie de diálogo solitário, mas também é um exercício delicioso, saboroso que só aqueles que o praticam podem afirmar seu sabor…

Uma missiva com sabor…

imageGênova (Itália) – vista do cais

São Paulo, manhã de maio…

Deixe-me deitar aqui um punhado de coisas sem sentido

…acontece que quando chego em casa, gosto de abrir as janelas no fim de tarde. É quase noite e as luzes já desenham falsas janelas e suas vidas encantadas. Fico de longe, entre as cortinas a apreciar a velha cidade com seus ares salgados. Os barcos vão chegando ao cais, parecem “cansados” de mais um dia de pesca… O silêncio parece uma cortina a se fechar ao longo da paisagem do porto. Tudo é silêncio e solidão lá pelas bandas do cais… Timidamente se levanta a cortina negra da noite com suas estrelas e seu luar mais claro que parece saltar de dentro do mar aberto… As águas parecem calmas e conforme as horas passam, começa seu canto. As ondas vem aos montes de encontro as pedras e mesmo distante posso ouví-las, ou seria melhor dizer que posso sentí-las como se nesse momento pedra eu fosse?

Repentinamente, aparece uma brisa fria, soprando suavemente a derme e eu me aconchego em mim mesma, entrelaçando os braços a frente do corpo. A lua segue construindo caminhos de sonhos e poesias pelo céu, enquanto o viajante, um estranho nessa terra, tenta descansar seu corpo exausto das aventuras do mar. Por esta noite estará em terra firme, abraçado a um périplo noturno, isolado do resto do mundo, imerso num pensamento só seu, uma saudade só sua… E sentado sobre a negra rocha na encosta do mar, fumando seu velho cachimbo, ele mergulha seus pés na água fria (pensando areia ser) e ali, por um instante se abraça a alfazema e participa da simbiose existente entre homem e mar. E eu cá, compreendo tão bem essa saudade… Mas diferente de mim, ele se lembra da rede lotada de peixes vermelhos, azuis, prateados que saltam pelo chão da embarcação, onde outrora havia vida e agora, ao bailar da escuridão, há apenas o som sôfrego das facas dos marujos se dedicam a limpa da carne que será vendida pela manhã. Silêncio e retidão. Reluz a faca no corte, atravessando as escamas; reluz o peixe atirada nas cestas. E ele, homem dos mares, sorri com seus poucos dentes a ignorância dos outros que nada sabem de seus caminhos pelo mar…

E o relógio no canto da sala avisa que onze horas são. A hora perfeita, quase encantada porque ainda não se fez meia noite e até lá tudo pode ser longo e distante, quase inalcançável. Um suspiro intenso enche o meu corpo de ar salgado, enquanto meus olhos procuram pelas garças que ralham com os homens e as vezes parecem deles zombar numa doce brincadeira de criança… A essa hora, dormem sobre o pouco de areia branca que existe entre as pedras – mas parecem alertas ao mundo, desatentas ao sono e aos sonhos dos outros… Se parecem comigo, ouso dizer. O sono não me toca e eu fico aqui a admirar as janelas e as desatenções humanas. Vago, de forma libertina, pelas lembranças da infância: minhas e de tantos outros. Rabisco histórias, brinco de ser outra e por hora sou aquele velho diante do mar, com os pés junto a água fria e sei dos oceanos que ele percorre e da saudade da pele branca que ele toca quando volta pra casa. De um passo a outro, sou aquela menina de passos lentos pelas ruas de pedregulhos a caminho da praça onde se deita na grama e se esquece do tempo que passa e ela nem se dá conta. 

Mas um dia desperta, em outra janela, distante, vestindo outra realidade, anos mais tarde e enfim percebo que tudo é encontrar qualquer coisa. E as imagens, as antigas e até mesmo as mais recentes atravessam os olhos e caminham para além de mim: são meus horizontes e em dado momento, a consciência se impõe como condição finita, não será mais possível alcançá-las e talvez a saudade me falte… Talvez eu vá ficando igual à armadilha que usam os pescadores para agarrar seus inúmeros peixes…

E agora, cá estou eu a me sentir como os versos de Campos:

(…)
…“e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?”…

Lunna em manhãs desatentas

Silêncio por favor…

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Estou a tecer missivas, compor versos, rascunhar frases inteiras, lendo livros, comendo chocolate, tomando chá quente, dando risada, e mimando o cão e o namorido… As horas andam mais inteiras e a mesa continua bagunçada…

Nossa, acabo de me lembrar: eu tinha treze anos quando descobri “Virginia Woolf” e não havia silêncio a minha volta, muito pelo contrário… Quer saber mais, segue a trilha