São Paulo 20 de março de 2012…
Pensei
conheço-a tão bem
vivemos juntos há tanto tempo
conheçoa sua cabeça de pássaro
os seus braços brancos
e o seu ventre (…)Zbigniew Herbert
Em sua última carta falou-me do outono e dos tons cinzas da cidade que “veste” seus olhos. Sabe? Custa-me a imaginar qualquer cidade dos Estados Unidos. Não sei se sei o motivo disso. Estive em New York e amei certas ruas, certos lugares. Me senti parte de algo e de nada ao mesmo tempo. Me perdi. Fui outra (pra variar) – não fui coisa alguma…
E mesmo assim, confesso: me custa muito imaginar esse existir mais ao norte. Talvez se eu usasse outro adjetivo, uma vez que para mim “norte” é uma palavra que me leva para dentro. Que me devolve a mim mesma. Que me faz pele. Sombra. Coisa noturna. Diagrama… Qualquer coisa para dentro.
Há dias que quero escrever-te.
Mas está cada vez mais raro sentar-me aqui. E quando o faço os olhos vão em outras direções. As missivas ficam sempre para depois (esse que se demora cada vez mais). As vezes, como você, imagino missivas inteiras e as desenho em minha mente. Fico vendo as palavras. Percebendo as cores. Degustando as formas. Amadurecendo diálogos inteiros e acabo percebendo o olhar do outro (no caso o seu) por cima de minhas superfícies como se estivesse aqui dentro, junto a mim – como na cena daquele filme revisto milhares de vezes (A casa do lago) onde a escrita se transforma numa conversa natural com ausências de coisas comuns: tempo, espaço…
Então cá estamos nós duas a dialogar.
Você falando da avenida que percorre – onde se lembra de mim, ali na manhã, rumo aos seus caminhos. Com o cinza comum de sua cidade. As nuvens sempre cinza que não anunciam tempestades e nos pássaros voando baixo. Confesso. Passei um bom punhado de minutos observando esse desenho seu. Percebendo seus movimentos (inteiros – pela metade – recém iniciados – inacabados). Fui juntando tudo aqui em mim. Sua figura “misteriosa” – suas palavras perfeitas. Uma realidade que me acaricia porque não é minha e fiquei aqui com os versos de um poeta recém chegado.
Tempo da infância, cinza de borralho
tempo esfumado sobre vila e rio
e tumba e cal e coisas que eu não valho
cobre isso tudo em que me denuncio(…) Jorge de Lima
Fiquei aqui um bom tempo. Perdida. Ausente dos dias, apenas ouvindo o canto rouco do carrilhão do tempo ausente – de menina. Assustada. Escondida em baixo das cobertas. A salvo? Não sei, mas era o que eu pensava. E então percebo que o verão acabou e o outono chegou bem junto da minha janela. É tarde. É noite… E já não sei quando tudo isso aconteceu. Não sei qual foi a última vez em que me deixei ser palavras numa folha. Não sei quando foi que eu me perdi do papel… Foi tudo tão rápido.
E agora só penso em fazer uma prece e dizer-te que depois de passar esse par de horas inteiras contigo, só consigo respirar fundo e perceber-me de volta a cadeira, a mesa e a essa janela… É outono minha cara (para mim) e agora só falta me dizer quais são as cores da sua primavera porque imaginar não posso. Estou presa nesse tempo de poucas cores, embora lá fora exista árvores com suas cores (vermelho, amarelo, azul) mas é que São Paulo não sabe desenhar as estações muito bem. Acaba sempre misturando uma as outras…
Meu abraço a você nesse outono de faz de conta.
Lunna