A maioria dos poetas que amo já desapareceram todos!

Antes de começar, já vou dizendo que a culpa é toda dela

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
(…)

 

imageImagem. Lis Costa do blog Flor de Lis.

 

Pronto. Agora estou aqui pensando sobre a morte e suas analogias. Cada um tem a sua, pra mim a morte é apenas o mistério de estar aqui e amanhã não mais. Desaparecer. Algo que as pessoas não entendem. Olham e se perguntam “por que desaparecer?”. Oras, porque todos nós em algum momento desaparecemos.

Tom Jobim desapareceu, mas deixou um pouco do que foi o homem ou algo assim. Ele era o homem que me dizia “vem cá Luiza, dá-me a tua mão” e eu nem me chamo Luiza, mas o que importa o nome? Eu ia com ele. E pronto… Hoje a música se repete por aí, mas não vejo sua figura, ouço seus sons, seu sentir, mas o homem desapareceu…

E tanta gente seguiu o mesmo caminho. Tanta gente simplesmente desapareceu. Eu tenho uma lista inteira com nomes. Alguns me surpreenderam. Porque a gente espera por tudo, menos por isso. Alguém vem e te diz “ele morreu” – então acontece uma pausa natural. Leva alguns segundos pra que você entenda o real sentido daquela palavra. E só então você reage. Ou se trata de um espanto. Um desconforto. Descrédito… Enfim, nunca estamos prontos de fato.

O mais engraçado é que eu choro por qualquer coisa. Desenhos animados me fazem chorar. Filmes, seriados, livros…  Mas a morte. Bem, sempre que sei que alguém morreu, nada me ocorre. Lembro das lágrimas derramadas pelo Ayrton Senna (eu fiquei chateada porque esperava vê-lo correr mais). Mas não foi assim. Ele simplesmente desapareceu das manhãs de domingo. Mas você pode dizer que ao menos existiram aquelas manhãs em que carros se enfileiravam no grid e disputavam volta após volta o lugar mais alto no pódio. Sim, existiram aqueles dias, mas o homem e sua história ficou no passado. Perdeu-se. Desapareceu…

Enfim, a morte é esse mistério que a maioria de nós não alcança. Para um escritor a morte é um fascínio, afinal, somos deuses (não ria, o assunto é sério). Pense bem: criamos personagens, alinhavamos seus destinos. Determinamos o quanto irão sofrer até alcançar a utopia da vida: a tão sonhada felicidade. Determinamos cada ação e reação. Criamos um mundo inteiro para aquela figura que pode viver em tempos distintos ou tempos inexistentes nessa nossa realidade. Mas quando matamos um personagem, a descrição é simples, sem grandes latitudes porque estamos limitados pela vida. Incrivelmente limitados. Não é irônico? Sim. É completamente irônico. A vida nos limita. E até mesmo aqueles que ultrapassaram essa maldita barreira, dependeram de outros para descrever tal momento. Que o diga Virginia, Florbela, e tantos outros… A vida  limitando o individuo.

E claro, por favor, não me falem em psicografias. Elas não servem de alento para um autor, afinal, a consciência da escrita está no tempo de agora. Hoje. Não há conforto para aquele que consegue descrever a façanha da descoberta de um grande amor como tão bem o fez Jane Austen em Orgulho e Preconceito, embora me incomode e muito o fato de Lizziê só se dar conta do amor que sente por Mr. Darcy quando ela vê o tamanho de sua casa. Tudo bem. Há perdão nisso tudo porque eu percebi seus sentimentos por ele bem antes disso. Até porque eram assim o pensamento das senhoras do tempo de Austen que também sentiu na pele o drama de recusar o casamento. Há quem tenha esperado encontrar em suas missivas e diários um amor secreto. Um certo Mr. Darcy. Mas tudo isso desapareceu junto com a autora que deixou suas palavras, suas histórias, seus personagens. Mas ela em si, desapareceu…

É claro que ela continua, assim como eu continuo e muitos de nós continuam por aqui. O homem inventou a idéia de continuidade, para não fazer de sua existência algo deveras desagradável. Então, nascem os filhos e ali, naquela figura pequena está o milagre da continuidade. Quanto peso para alguém tão pequeno e já tão comprometido com uma ciência que nem ao menos o alcança…
Enfim, tudo entregue ao  amanhã que também apresentará o ponto final dos mistérios da vida para inúmeras figuras: eu, você e tantos outros porque desaparecer é uma consequência natural…

Sim, há quem diga que há mais depois. Mas de certo mesmo, independente de crenças, é que temos o tempo presente, no qual pulsam corações, se atrevem olhares, se precipitam movimentos. A vida é o tempo presente. É consequência do agora. A vida é essa ciência que culmina no ato de desaparecer… Algo que eu considero poético, como os versos de um poeta qualquer que eu admiro.

Para fora de todas as casas, de todas as lógicas
e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa
mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida
.
(…) Álvaro de Campos – Passagem das  horas

Aviso. A maioria dos poetas que amo já desapareceram todos!

06

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A ilusão não demorou a voltar a pele de Augustus. Embora tentasse manter sua lucidez, aos poucos a fraqueza se apoderava de sua derme. Suas mãos se agarravam a terra como se ao fazê-lo pudesse reter a realidade em suas veias; mas o toque aquecido daquela mão macia e perfumada junto ao seu ombro o arrastou para dentro daquela ilusão tão desejada por ele.

Augustus já não era mais capaz de discernir realidades. Num movimento rápido de seu corpo, ele se uniu ao olhar dela, alcançando-a e colhendo seu toque uma vez mais. Suas mãos se reencontraram e ele pôs-se a beijá-la.

_ Andiamo voltare pra casa amore mio.

Não era fácil acreditar no que seus olhos viam. Ele relutava. Rompia com as imagens, cerrava os punhos numa retidão custosa. O pranto fugia por seu rosto

_ Ma me escuta: as nostras bambinas estão esperando por você em nostra casa. Você precisa vorta pra cuidar delas como me prometeu.
_ Ma io non consigo. Eu não posso fazer isso sem você. Ma vamo vorta junto pra casa.

Ele fechou os olhos tão logo as mãos dela aterrissaram em seu rosto para aquele carinho de mãos que ela gostava de entregar a ele desde que se conheceram; mas logo ele percebeu novamente sua realidade e a solidão que se compunha a sua volta. Meia dúzia de passos o levaram para baixo de uma árvore. Seu corpo deixou todo o peso se acomodar junto aquele tronco e silenciosamente ele passou a indagar sobre aquela promessa: ele era apenas o homem para quem elas corriam para abraçar no final da tarde quando ele estava de volta da lida; era o homem que vez ou outra as colocava na cama e lia histórias tolas até dormirem; era o homem que deixava beijos pela manhã antes de sair e sentia-se feliz por vê-las tranqüilas em suas camas em meio aquele sono lúcido e profundo. Mas todo o trabalho de educá-las sempre ficou para Antonia que vivia para elas; era atenciosa, carinhosa; mas sabia ralhar quando havia certos exageros. Ela dizia que Pérola era sensível, quieta e observadora; enquanto a mais velha: Paola era arredia, apressada e barulhenta. Sempre que falava das filhas, exaltando suas qualidades ela sorria e buscava reconhecer os traços deles dois nas pequenas. Antônia achava Pérola mais parece com o marido, enquanto Paola se parecia com ela e isso a fazia dizer “é preciso impor limites a essa menina desde já ou teremos sérios problemas nhá Maria” – mas o sorriso não desaparecia nem mesmo quando as preocupações se faziam perceber.

>> continua…

05

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A paisagem inteira daquele lugar se comprimia sobre Augustus que permanecia ali junto ao chão, em seu estado de abandono, sem forças para levantar-se, com as mãos sujas de terra, o corpo molhado e ele totalmente indiferente ao frio que aos poucos se ocupava daquela derme castigada pela obrigação de continuar a existir.

“Non me lasciarmi, per favore, Antônia; vorta pro tuo amoré, vita mia”. – gritava aos céus, e se não fosse à forte chuva, e seus trovões ensurdecedores, alguém, de certo, teria ouvido…

A promessa feita a Antônia repentinamente se impôs como única lembrança em sua mente. Ele podia ouvir aquela voz fraca, frágil se repetindo junto aos seus ouvidos ao mesmo tempo em que sentia aquela mão fragilizada, já sem forças junto as suas, retendo seus movimentos, obrigando-o a ouvi-la. Ele queria que ela não se cansasse, mas ela só tinha um pensamento naquele instante. Era o seu último esforço. Ele insistiu para que descansasse; que deixasse as palavras para depois, mas ela queria ser ouvida… Queria colher junto a ele promessa de que iria se dedicar as meninas depois que ela se fosse. Ele se recusava; consentir era o mesmo que aceitar sua partida e isso ele não podia fazer, mas não houve outro meio.

Ela seguiu insistindo, usando o pouco de forças que ainda lhe restava. De seus lábios secos e já sem cor brotavam aquelas palavras parcas “ma me promete que vai cuidar delas amore mio, per favore, io non vou ter paz se não ouvir de ti a promessa de que irá cuidar das nostras bambinas. Io quero ouvir a tua promessa!” – e ele assentiu, prometendo o que não sabia de fato, naquele momento, se seria capaz de cumprir.

Depois de colher a promessa feita, Antônia finalmente descansou. A mão cedeu e Augustus colheu aquele último sorriso lúcido de seus lábios que recebeu um último beijo, permanecendo ali junto a pele já sem vida de sua amada que recebia aquele carinho de movimentos curtos e a súplica que se perdia junto aquele corpo que exibia uma calma inabalável como se estivesse apenas repousando para despertar tempos depois. A confusão de Augustus teve início, ele pediu para que todos saíssem para que ela pudesse descansar, parecia incapaz de compreender a morte de sua esposa, se recusando a dar ouvidos as palavras do médico que lamentava o ocorrido.

_ Eu sinto muito senhor Augustus…
_ Ela só está dormindo doutor e nós vamos deixá-la descansar. É do que ela precisa agora, não é?

O médico respirou fundo, recuou um ou dois passos, baixou a cabeça e concordou; acompanhando-o até a sala onde um café forte foi servido junto com as lágrimas da empregada que havia aprendido o valor de uma amizade através daquela mulher que ela chamava de don´Antônia, assim como todas as mulheres da fazenda o faziam.

Levou algum tempo para que Augustus aceitasse aquele desfecho e autorizasse os últimos cuidados para com a esposa que teve os cabelos penteados, a pele banhada em essência e vestida com sua melhor roupa. Junto ao pescoço a medalhinha de nossa senhora que ela havia ganhado no dia de seu casamento e nas mãos o rosário que havia sido um presente de sua mãe.

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04

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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O corpo de Augustus permanecia imóvel junto aquela cadeira. Suas roupas agora estavam ensopadas. Seus olhos gotejavam a água da chuva que parecia emprestar a ele as lágrimas que já lhe faltavam; enquanto as lembranças se multiplicavam em sua mente, em sua pele, em suas feições…

Ele podia sentir o toque suave daqueles lábios que tantas vezes ele beijou; sentia junto as suas mãos úmidas e frias o calor e a textura daquela pele que tantas vezes ele despia. Tudo agora eram apenas lembranças se ecoando em seu âmago e a realidade era aquele amontoado de terra a esconder de seus olhos a figura pálida na qual sua bela Antônia havia se transformado nos últimos dias. Ele nem mesmo havia percebido sua doença. Não conseguia entender porque ela havia preferido sofrer em silêncio e se culpava por sua distração.

Tomado por uma forte insensatez, os olhos de Augustus viram uma ilusão colorida que o fez sorrir. Era ela e sua voz de seda… Ele suspendeu a mão, levando-a de encontro aquele rosto delicado que estava ali a sua frente; mas não foi possível alcançá-la. A ilusão se desfez, restando novamente apenas o vazio que fez com que ele mergulhasse o rosto em suas mãos, se rendendo uma vez ao desespero.

_ Ma, me perdoa Antônia. – gritava ele, enquanto seu corpo fragilizado pela dor que seu intimo embalava ia ao chão, ajoelhando-se como se entoasse uma reza, uma súplica, um lamento. Augustus confessava-se culpado e esperava uma punição pelos seus gestos egoístas; estava disposto a dar sua vida pela dela; estava disposto a qualquer coisa, mas era tarde demais, não havia que ele pudesse fazer.

E ali, em meio aquele pranto solitário, remoendo as terras do chão com as próprias mãos, ele implorava o perdão que ele não era capaz de dar a si mesmo.

 

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03

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Em poucos segundos o azul do céu se recolheu, um forte vento agitou as folhas mais altas das árvores para logo em seguida perturbar vestidos, casacos e chapéus. Seria uma resposta? Indagava-se ele em seu canto miserável…

As meninas foram levadas por Nhá Maria, empregada da casa grande, que antes tentou arrancar Augustus de sua cadeira, mas ele era pesado demais para que pudesse ser obrigado a qualquer movimento que não fosse desejado por ele. Desistiu. Abandonando-o ali para ocupar-se das meninas; pondo-se a correr, arrastando-as até a casa grande…

O véu da tarde rasgou-se ao meio, fez-se noite antes da hora em meio aquela cortina negra de nuvens que fez chover por toda a região. O silêncio até então intenso cedeu lugar aos trovões e aos relâmpagos que cortavam o céu de um lado ao outro em frações de segundos. O tormento agora não estava mais restrito aquele homem. Fazia tanto barulho que a caçula tapava os ouvidos com as mãos, encolhendo-se junto às pernas de Nhá Maria que tentava tranqüilizá-la “já vai passar bambina, já vai passar” – dizia ela, enquanto olhava para a janela e embalava sua preocupação em meio a seguidos suspiros profundos. Augustus não voltava pra casa.


>> continua…

 

03

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Em poucos segundos o azul do céu se recolheu, um forte vento agitou as folhas mais altas das árvores para logo em seguida perturbar vestidos, casacos e chapéus. Seria uma resposta? Indagava-se ele em seu canto miserável…

As meninas foram levadas por Nhá Maria, empregada da casa grande, que antes tentou arrancar Augustus de sua cadeira, mas ele era pesado demais para que pudesse ser obrigado a qualquer movimento que não fosse desejado por ele. Desistiu. Abandonando-o ali para ocupar-se das meninas; pondo-se a correr, arrastando-as até a casa grande…

O véu da tarde rasgou-se ao meio, fez-se noite antes da hora em meio aquela cortina negra de nuvens que fez chover por toda a região. O silêncio até então intenso cedeu lugar aos trovões e aos relâmpagos que cortavam o céu de um lado ao outro em frações de segundos. O tormento agora não estava mais restrito aquele homem. Fazia tanto barulho que a caçula tapava os ouvidos com as mãos, encolhendo-se junto às pernas de Nhá Maria que tentava tranqüilizá-la “já vai passar bambina, já vai passar” – dizia ela, enquanto olhava para a janela e embalava sua preocupação em meio a seguidos suspiros profundos. Augustus não voltava pra casa.


>> continua…

 

02

Para ler o capítulo anterior, clique aqui…

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A pele de Augustus nutria inúmeros tormentos enquanto sua mente alimentava a culpa por aquele desfecho; as mãos pareciam envergonhadas, retidas junto ao corpo, enquanto os olhos vasculhavam os arredores em busca de perdão pelos erros cometidos. O momento era de lamento. Ele rejeitava sua própria teimosia, pensava em como tudo seria diferente se ele não tivesse suas ambições. O sonho realizado expunha finalmente seu preço; os dissabores eram muitos e as forças quase nenhuma.

As pessoas aos poucos se afastavam; já não havia mais o que fazer ali. Alguns ainda tentavam ser gentis antes de voltar para suas vidas; diziam entender a dor que Augustus sentia. Outros davam de ombros ao se lembrar das próprias perdas, superadas há tempos; para estes a cura estava no dia seguinte, afinal, a vida continuava para os que haviam ficado.

Os olhos de Augustus ignoravam tudo que era paisagem, mergulhando no mais alto céu em busca de uma resposta capaz de levar alívio ao seu coração. Queria uma justificativa para aquela perda que não lhe parecia justa. Implorava secretamente uma explicação, pois para ele tudo estava fora de lugar. Seu pensamento subiu aos céus sem que ninguém percebesse; aquele era um diálogo sem testemunhas entre ele e seu Deus de quem sempre se lembrou; nos bons e maus momentos, então era justo exigir dele uma resposta. Uma espécie de grito irrompeu seu íntimo, rasgando-o ao meio “não é justo signore. Ma perche a tirastes de mim? Ma que foi que fiz eu pra ti? Eu não fui egoísta, ma io só queria um pedaço de chão pra criar uns boizinhos e cuidá da minha famiglia. Ma che de errado tem nisto? Diga-me. Io te peço”.

Nenhuma palavra de conforto o alcançou, nenhuma resposta; ele se sentia desolado, sozinho, abandonado junto as lembranças de uma vida que já não tinha mais sentido algum pra ele.

>> continua…

02

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A pele de Augustus nutria inúmeros tormentos enquanto sua mente alimentava a culpa por aquele desfecho; as mãos pareciam envergonhadas, retidas junto ao corpo, enquanto os olhos vasculhavam os arredores em busca de perdão pelos erros cometidos. O momento era de lamento. Ele rejeitava sua própria teimosia, pensava em como tudo seria diferente se ele não tivesse suas ambições. O sonho realizado expunha finalmente seu preço; os dissabores eram muitos e as forças quase nenhuma.

As pessoas aos poucos se afastavam; já não havia mais o que fazer ali. Alguns ainda tentavam ser gentis antes de voltar para suas vidas; dizendo entender a dor que Augustus sentia. Outros davam de ombros ao se lembrar das próprias perdas, superadas há tempos. Para estes a cura estava no dia seguinte, afinal, a vida continuava para os que haviam ficado.

Os olhos de Augustus ignoravam tudo que era paisagem, mergulhando no mais alto céu em busca de uma resposta capaz de levar alívio ao seu coração. Queria uma justificativa para aquela perda que não lhe parecia justa. Implorava secretamente uma explicação, pois para ele tudo estava fora de lugar. Seu pensamento subiu aos céus sem que ninguém percebesse; aquele era um diálogo sem testemunhas entre ele e seu Deus de quem sempre se lembrou; nos bons e maus momentos, então era justo exigir dele uma resposta. Uma espécie de grito irrompeu seu íntimo, rasgando-o ao meio “não é justo signore. Ma perche a tirastes de mim? Ma que foi que fiz eu pra ti? Eu não fui egoísta, ma io só queria um pedaço de chão pra criar uns boizinhos e cuidá da minha famiglia. Ma che de errado tem nisto? Diga-me. Io te peço”.

Nenhuma palavra de conforto o alcançou, nenhuma resposta; ele se sentia desolado, sozinho, abandonado junto às lembranças de uma vida que já não tinha mais sentido algum pra ele.

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01

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Tarde de sábado, céu azul com nuvens beliscando a paisagem, sem vento ou qualquer expressão de movimento que seja por parte da natureza que se mostrava estática diante daquela triste cena que ocupava parte da fazenda “Monte Sião”…

Sob a sombra de uma árvore na afastada paisagem do verde campo, alguns homens lançavam seguidamente pás de terra sobre aquele caixão que aos poucos era engolido pelas terras daquela fazenda. Um suspiro sofrido, doído pôde ser ouvido em meio a todo aquele silêncio que só foi substituído minutos depois pela voz grave do padre que se dedicava ao seu velho discurso, conhecido por quase todos naquela região.

Dentre todas as fazendas, Monte Sião era a que nutria a mais bela das paisagens: seu horizonte exibia o verde espetacular dos cafezais enquanto o céu parecia uma pintura cuidadosamente produzida para aquele fim de tarde: nuvens brancas se esparramavam pelo azul do céu imóvel, enquanto o sol ardia por cima de todas as coisas vivas… Nada se movia: a primavera aquecida não acalentava ventos e o calor do verão já se fazia sentir como promessa de dias demasiadamente quentes. E o mês de novembro estava apenas começando.

Sentado numa velha cadeira artesanal, sem forças e ainda tentando aceitar aquele destino desumano, estava Augustus, um italiano que havia atravessado o oceano em busca de um futuro melhor para ele e sua família há pouco mais de um ano; mas diante de sua nova realidade – futuro era uma palavra que já não apresentava mais um sentido possível. Seus olhos estavam visivelmente desolados, seu rosto inteiro refletia a dor que ele trazia em seu íntimo. Já não havia lágrimas capazes de externar seu sentimento de perda; tudo que tinha em sua pele era o vazio dos dias seguintes. Algumas pessoas passavam por ele e na tentativa de confortá-lo, davam-lhe tapinhas junto aos ombros. Deixavam palavras amáveis junto ao seu corpo; lembravam a ele que era preciso seguir adiante, afinal, havia suas duas meninas e era preciso se ocupar delas; lembravam-no que a educação de ambas agora dependia unicamente dele. Pediam para que fosse forte, insistiam dizendo “força homem, pense nas suas meninas”… Mas ele nada ouvia além da voz suave de sua bela Antônia que ressoava em seu íntimo…

>> clique aqui para ler o próximo capítulo…


Em algum lugar de mim…

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Hoje eu acordei com saudades do tempo da minha infância. Eu não queria abrir os olhos, quis ficar presa aquela paisagem antiga que tem seu aconchego nos dias de ontem… Lembro-me que assim que chegava abril começava a contagem regressiva para julho: eram as famosas férias de verão… Durante muitos anos, esse foi o mês da minha vida. A sensação que eu tive pela manhã era que quando eu abrisse meus olhos eu estaria de volta àquela velha casa com quintal grande, chão feito de tijolos de construção, mastro de Santo Antonio, rosas vermelhas na lateral da casa e jabuticabeiras crescendo forte ao lado da laranjeira… Foi lá que eu percebi que jamais iria crescer.

Encontrávamos-nos anualmente no mesmo dia, como se combinássemos alguma coisa. Chegavamos um por vez e de repente a casa estava repleta de crianças. 

Foi lá também que eu aprendi que varanda é um objeto precioso na composição de uma casa. O café da manhã na casa do nono era regado a raios de sol ou gotas de chuva numa velha mesa feita de por ele. Era o lugar das refeições, de leituras, do jogos de fim de tarde, dos contos e causos. Do silêncio antes da volta pra casa quando as férias acabavam…

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Aquela casa guarda tantas lembranças, que eu acho que  quem mora por lá hoje deveria saber que na sala tinha um relógio insano que cantava de hora em hora e fazia a casa inteira cantar com ele e que o nono o acertava pontualmente as sete da manhã… Deveriam saber que o bendito som do carrilhão atordoava a todos nós na primeira noite. Era tão difícil dormir com aquele som que fazia a casa inteira cantar junto com ele. A gente cobria a cabeça com a coberta como se ao fazer isso estivessemos a salvo. E claro, deveriam saber também que há muitos passos felizes pelo terreiro e mãos apressadas a colher os frutos da jabuticabeira. Vez ou outra algumas crianças (as mais ousadas) escalavam os galhos da frondosa árvore só pra comer os frutos dos galhos mais altos. Eram os mais doces. Pode ter certeza de que vão ouvir gritos apavorados de um nono ressabiado, que ressoavam por todo o quintal e pela vizinhança também. Ele queria fazer seus bambinos descerem de lá de qualquer jeito. Santo medo que exercita a voz. Acho que também devem saber que naquela casa tem muitos esconderijos, todos inventados no meio de uma dessas tardes de julho… E tem o latido de um cão brincalhão que corre atrás de suas crianças e mesmo estando velho, abana o rabo e espera ano após ano por elas nas férias. Ele senta-se lá perto do velho portão que range ao ser aberto (a casa não tem campainha, mas o portão cumpre bem o papel de anunciar a chegada dos visitantes) e fica lá a esperar por suas crianças que correm para abraçá-lo. Há uma menina de perninhas tortas que sempre leva biscoitos no bolso pra ele e se senta na escada dos fundos, ao seu lado, e lê pra ele as poesias de Emily Dickinson e ele ouve atentamente. Com toda certeza eles não fazem idéia que os ossos desse cão estão lá no fundo do quintal, ao lado da jabuticabeira que prometeu rezar por ele. Então é bem provavel que alguém, vez ou outra, ouça um latido amigo por lá, na certa, ele está a chamar pelas crianças que simplesmente desapareceram do seu quintal…

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É justo dizer que o rompimento desta época tenha sido pela morte. Ainda me lembro da última vez que estivemos todos lá. Já não eramos mais crianças e fora as lembranças da infância, já não tinhamos mais nada em comum. O caixão estava bem no meio da sala. Eu o vi de relance. As pessoas estavam todas fantasiadas de luto, pareciam tristes e eu não quis me juntar a elas, na verdade, eu nunca tive uma relação amigável para com essa forma de morte, sempre me pareceu algo injusto.

Fui para o quintal e fiquei por lá ao lado da “menina dos meus olhos”. Nunca entendi porque não colocaram os ossos do nostro nono ali aos seus pés. Acho que ainda hoje não entendo, afinal, o nosso amigo de quatro patas estava lá. Seria justo, mas não foi assim… Ao inves disso, meias dúzia de homens levaram o caixão para o cemitério e novamente eu não quis fazer parte desse tolo ritual. Preferi ficar junto da jabuticabeira com minhas lembranças e saudades; recordando dias felizes de julho e gosto de acreditar que nos reunimos lá “os meninos e meninas” de ontem recordando tombos, brigas bobas que se resolviam com abraços, brincadeiras inventadas, esconderijos secretos, lugares preferidos, jogos de carta na sexta à noite, olhares perdidos, latidos, músicas, palavras… Tantas coisas boas. Quero acreditar que fizemos uma promessa silenciosa de não mais nos perdemos uns dos outros e claro que não cumprimos porque os adultos são assim mesmo: nunca cumprem as promessas feitas.

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É justo dizer que de certa forma, aquela casa não existe mais: nem o céu que a cobria, nem a jabuticabeira, os caminhos que levavam até ela, as portas, os canteiros de rosas e cristas de galo, as venezianas, a varada, o cão… Absolutamente tudo se desfez a partir daquele dia… É como um sonho e sei que se passar em frente dela hoje, não vou reconhecê-la, tão pouco sabê-la, mas a saudade prevalece, inteira aqui dentro.

Diário das Estações, pág 85.
Autoria. Lunna Guedes
Coletânea Artesanal, 2009/2010