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O Diário de uma solidão
A primavera das emoções – Capítulo 03

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Inquieta. Ela percorre pequenas distâncias. Vai de um lado ao outro. Pensa na cena que se repete em sua mente seguidamente. Olha pela janela, avista a pequena flor. Colhe seus traços. Lança para dentro de si o sentimento estranhamente morno e amarelado. E ela gira. Resmunga (como quem canta) uma canção sem versos conhecidos. As bordas da noite estão todas em suas veias.

Evangeline esta sentada perto da janela, com um livro em mãos. Observa atentamente Pérola e seus movimentos. Um olhar para as letras do livro. Dois olhares para Pérola. Aflita. Nada diz. O silêncio de seus lábios não é o mesmo de seus pensamentos. Movimentos rápidos. De um lado para o outro. Mexe na tinta. Busca cores perfeitas. Nada encontra. Ela simplesmente não espera que alguém apareça do outro lado de suas linhas para lhe falar um pouco do absurdo que nutria em seu íntimo.

Fechava os punhos. Os olhos. Poderia gritar bem alto e assustar todos os pássaros que partiriam em revoada, mas de nada adiantaria. Sua irmã continuaria sendo aquela megera indócil. Deixou correr água da jarra para a bacia. Lavou o rosto seguidamente. Sentindo a umidade suave da água a percorrer (gotejar) os lábios, que molhados, sentiam o sabor incolor daquele liquido que não conseguia lavar a substância que permanecia em sua derme. Enxugou as mãos. O rosto. Percorreu mais alguns quilômetros dentro daquele ambiente que mostrou-se pequeno. Lembrou-se da figura de sua mãe e não percebeu a presença de Evangeline em momento algum.

Ela permanecia quieta em seu canto de sofá, com o livro apoiado em suas mãos que por sua vez encontravam aconchego junto aos joelhos. Era preciso não ser percebida. Pensava ela ser aquele um momento antes da criação. Já o tinha testemunhado outras vezes desde que as aulas começaram. Pérola se inquietava. Era quase um transe. Como se suas falanges saltassem todas por cima das superfícies humanas. Era preciso se organizar. A mente. A pele. Os sentimentos. Era como perceber a água no copo e a água nos lábios e depois. E depois (?) apenas misturar as tintas e confeccionar as ilusões – como goles lentos que saciam a sede.

Mas não se tratava de ilusões. Não naquela tarde prestes a cair. Se tratava da realidade e daquela cena lamentável onde uma flor foi ao chão. Maltratada. Ficou ali, esquecida, como se nunca tivesse sido ofertado a ela um destino melhor. Mas a realidade convergiu em ilusão pouco depois e um coração foi desenhado na tela com ajuda de um carvão. Um coração de água a escorrer. Tudo sem precisão. Sem detalhe. Algo escapava a compreensão daquela menina. O fundo branco feito a neve. O coração frio, sem sangue, sem o vermelho que lhe serve de aconchego. Tudo abstrato e doce. Tudo vazio. Angústia de querer gritar e não ter som.

As tintas agrediram a tela, misturando-se. Aquilo seria um grito? De certo… A confusão não estava dando sinais de ser passageira e poucas vezes Evangeline havia assistido tamanho tormento. Quis se aproximar, mas não encontrou caminho para seus pés. Permaneceu em seu lugar. Imperceptível.

Pérola foi e voltou até a janela onde havia colocado aquela flor. “Seria amor? Estaria a menina apaixonada? Mas ela é tão jovem”, questionava Evangeline. O pior era não conseguir pensar em absolutamente ninguém naquela fazenda. Nenhum rapaz que estivesse a sua altura. Que soubesse falar de tintas e telas. Citar grandes artistas ou entender as palavras favoritas daquela menina ou ser capaz de ler seus livros favoritos. “Seria ele um homem simples? Do campo?” – um pânico natural começava a surgir na pele daquela mulher que conhecia bem os estragos que uma paixão é capaz de causar. “Seria insuportável para ela” – concluiu. E como não encontrou alento em seu íntimo, apenas virou a página. Tentou ler. Mas estava quase tão inquieta quanto Pérola que num rompante, pegou o chapéu. A capa. Saiu apressada, sem dizer palavra que fosse. Apenas foi. Rumo aos destinos de sempre. Evangeline ainda alcançou a porta, mas só teve como visão o rastro deixado por Pérola.

 

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A primavera das emoções – Capítulo 03

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A mão ficou estendida no ar, com a flor a disposição da jovem Cecília. Gesto inconveniente aquele. Ela não se moveu. Permaneceu ali, com os braços cruzados a frente do corpo. Incrédula. O resto do sol daquela tarde desmanchava-se pelos cantos e já era possível apreciar as sombras de árvores, cercas, alguns animais a pastar e as sombras deles próprios.
Com o pé todo apoiado. Depois de medir cuidadosamente toda aquela distância. Ele insistiu. Ganhou impulso. Aproximou-se. Buscou por ela sem perceber o incomodo causado naquela figura indiferente a existência daquele estranho homem sorumbático, com suas vestimentas sujas, rasgadas. Barba por fazer e cabelos desgrenhados.
Ele sorria enquanto ela não admitia aquele atrevimento. Num gesto abrupto, arrancou a flor da mão dele, lançando-a no chão. Gesto incomum a uma dama tão bela.  Mas ela teria pisado sobre aquela flor não fosse a vontade de desferir contra aquele homem a sua fúria.

_ Nunca mais ouse dirigir a palavra a mim. Entendeu bem seu imprestável?

A grosseria daquela jovem deixou Mário desolado. Ele nada disse. Permaneceu calado. Imóvel. Punhos cerrados. Pensou em se desculpar, mas nenhuma palavra saltou de seus lábios. Havia vergonha em seus gestos. Cabisbaixo, aceitou a humilhação e viu de soslaio os passos de Cecília que fugiu pela paisagem rumo ao lago. Estava enfurecida. Cuspia descasos para as árvores, as matas,  e tudo mais que encontrasse pela frente…
Mário ofuscado, respirou fundo. Os pés ainda ficaram no mesmo lugar, por alguns segundos. Tentativa vã de assimilar o caminho por inteiro. Já haviam passados muitos dias por aquele corpo. As lembranças estavam todas ao seu alcance. Sofria duas vezes. Mário colecionava muitas vergonhas, aquela era apenas mais uma fazendo-o percebe que não era nada. Estava abalado. O peso daquele momento ficaria nele por algum tempo. Inevitável. A dor que lhe cabia fazia arquear os ombros. Em seu íntimo só havia o silêncio e o deserto a acompanhar o céu onde a noite crescia. Seus olhos cansados só queriam apagar todas aquelas imagens imóveis. Todos aqueles sons ensurdecedores.

Sentiu-se resignado por um instante ao perceber sua condição. Sua solidão era imensa. Ninguém havia testemunhado seu equivoco. Coragem bandida, vazia. Os pés finalmente moveram-se e o coração voltou ao compasso. Ainda pulsava. Ainda havia vida para se viver… O que não havia mais em seu íntimo era o sabor da perfeição acerca daquela figura desaparecida. Agora, ela era apenas mais uma moça, exatamente como todas as outras da vila que zombavam dele durante as manhãs, as tardes, e as noites…

Enquanto ele seguia de volta para junto dos cavalos (seus amigos de todas as horas). Pérola aproximou-se lentamente, como quem conta os próprios passos. Esgueirava-se. Havia tristeza em seus movimentos. Lamentava aqueles gestos intempestivos de sua irmã que havia presenciado. Mário não a percebeu ali. Não a viu colher do chão a pequena flor de pétalas sensíveis e  frágeis. Era uma mancha a sujar de cores o chão daquela superfície perfeita que ela tanto amava. Recolheu-a junto ao peito. Sentiu seu perfume, detendo-a juntamente as narinas durante o caminho de volta. A pequena flor teria seu lugar junto a janela, num pequeno vaso. Permaneceria sendo a testemunha secreta de um sorriso perdido, de uma afeição que escorria como se fosse uma chávena caída no soalho. A ver-te, ela saberia, apenas ela…

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Março chegou ao fim. Suas chuvas também. Tempo de dias azuis. Sempre azuis. Com pássaros a narrar a geografia da paisagem. Os diálogos de fim de tarde preenchiam os espaços entre o estábulo e a escadaria (cinco ou seis degraus) que levava para a varanda da Casa grande até a porta de entrada. Duas folhas amarelecidas que viviam abertas. Lá dentro, lugar proibido para muitos, vivia a família Alberoni. Isso era sabido por muitos. Havia respeito. Mas havia também o desejo de se saber aquela paisagem. Sentir os móveis. Perceber os passos. Os gestos. Perceber aquelas pessoas, tão bonitas e cheias de uma graça generosa.
Mário sempre acompanhava Augustus até aqueles pares de escadas. Sorria. Acenava. Se despedia. E voltava para seu canto de mundo. Onde os traços imitam estações. Outono. Tempo de folhas secas. Ele tinha suas lembranças acerca daquela estação. Em breve seria inverno e as folhas iriam cobrir o chão. Não havia o branco de sua terra natal. Não havia o frio tão intenso. Ali o frio era ameno e um cobertor bastava para afastar o frio da pele.
Mas ele pensava no desenho daquela ralassa. Ela nunca aparecia quando ele ali estava. Havia o desejo. Não realizado. Que não desaparecia. Ele contava o tempo. Manhã. Tarde. Noite. Madrugada. Ilusão. Realidade. Ele só a via passar pelos campos com seus olhos esverdeados e sua pele vermelha acastanhada iluminada por aquele resto de sol. O momento durava um minuto ou dois, quando muito, mas a sua felicidade só existia dessa maneira. Era pouco, mas para ele, era tudo que tinha e estava satisfeito com isso.

Março havia chegado ao fim. E os pássaros estavam a desaparecer dos ares azuis. Atrás da Casa grande as árvores se preparavam para adormecerem em segredo. Em breve seria inverno. Os dias mais curtos. Manhã. Tarde. Noite. Havia a dúvida quando aos passos daquela ragazza. Aguardar pelas tardes cercadas de um escuro sombrio. Descobrir que depois de tudo, ela não viria. Engolir o desconforto. Cuspir a solidão que insiste em machucar um coração que descobriu novos ritmos através daquela figura tão frágil sem saber ser.
Coragem. Implorou ele a si mesmo, naquele resto de tarde. Engoliu seco. Abaixou-se. Colheu do chão uma pequena flor. Amarela. Pétalas aveludadas. Nasciam ali mesmo, no meio do mato. Formavam pequenas ilhas coloridas.
Coragem. Disse ele a si mesmo ao respirar fundo e sentir a pele incomodada por aquela espécie de desconforto natural. Como de costume, os passos de Cecília surgiram quando as sombras começaram a se desenhar naquele cenário de quase noite. Seus braços. Suas pernas. Seu olhar. Tudo aleatório. Muito rápido. E ali, bem em frente a ela, interrompendo o seu passo. Sem muito pensar, estava ele…

 

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Era tarde. Passava das seis. Ele sabia o tempo através do sol que se punha aos poucos a oeste. As sombras já se precipitavam por cima da paisagem. Era a melhor hora do dia para ele… Encontrava uma pedra, sentava-se junto ao mato que crescia forte. Mascava seu capim verde e ficava esperando.

Ela não o via. Não o sabia. Ele a espiava. Sempre os mesmos movimentos. Tão bela. Pele cor de castanha. Olhos esverdeados. Cabelos longos, soltos, ao vento. Ela parecia arredia. Ele só sabia sorrir ilusões. A imaginava em seus braços. Conseguia sentir o gosto de seus lábios.

Seus olhos atentos cobria toda a paisagem. Não queria ser vista. Não queria ser seguida. Passos apressados… Diziam na vila que ela era moça safada. Desavergonhada. Mário dava de ombros. Não se importava com o que diziam. Aquela era a única moça que tinha sua atenção, todas as outras eram apenas moças e ele nada sabia delas, a não ser que riam umas com as outras quando ele passava. Diziam coisas nos ouvidos uma das outras. Era dele. Com certeza falavam de sua feiura, de seu descaso com os cabelos, com as roupas. Ele não se importava. As vezes mostrava a língua e elas corriam. Ele achava graça, mas era alertado pelos mais velhos que precisava pensar em casar e para isso era preciso mudar. Ele não ligava. Só se casaria se fosse com aquela ragazza, mas ela não fazia idéia de seu entusiasmo e era melhor não saber. Não era para ele. Aquela ragazza tinha outro destino, com toda certeza. O pai dela, Augustus, iria querer vê-la nas mãos de algum ilustre filho de fazendeiro. Ele não era ninguém. Um empregado com um quartinho numa vila, usando roupas rasgadas, com apenas dois pares de botas e um punhado de notas que estava juntando pra comprar uma casinha. Não reclamava da vida, mas para uma bela moça igual aquela era pouco. Não era nada.

Passava das seis. Lá estava ela com seu vestido branco. A longa saia subiam até os joelhos com ajuda das mãos para facilitar a caminhada por entre o mato.  Passava. Não o percebia. Todo dia era assim. Exceto quando chovia e ele se zangava com os céus. Ficava na varanda espiando a chuva. Nem podia dizer o que pensava. Todos felizes, menos ele, afinal, a chuva não lhe permitia ver sua prenda. Mas quando não chovia, ele a via passar, toda faceira, indo em direção ao lago. Diziam na vila que ela se encontrava com homens casados. Ele achava coisa de mulher invejosa, cuja beleza não era a mesma de Cecília…

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Mário era um rapaz quieto que se esforçava em não ser notado. Não recusava nenhum trabalho. Estava sempre bem disposto. Em poucas semanas já havia ganhado corpo e não se parecia mais com aquele fracote de antes, mas continuava descuidado com sua aparência. Não fazia a barba, não cortava os cabelos que estavam longos e embaraçados. Suas roupas surradas quase não eram lavadas e ele não se banhava com regularidade. Como passava a maior parte do seu tempo cuidando dos cavalos, o cheiro peculiar do animal tornou-se a fragrância natural de seu corpo, fato este que servia para deixar as moças da vila bem distante dele. Mas ele não parecia se importar com isso.

Sempre gentil e muito educado, se esforçava em ser útil. Ajudava as mulheres com tachos de água, lenhas para o fogão, fardos de roupas sujas. Recolhia as roupas do varal. Levantava as cadeiras no refeitório comunitário. Varria o chão. Lavava uma vez por semana. Consertava portas, janelas. Fazia tudo que fosse preciso para se manter ocupado. Era fácil perceber que ele escondia uma triste história de vida, mas também era ainda mais fácil perceber que Mário não estava disposto a compartilhar seus dramas com aquela gente.

Ele era sempre o primeiro a chegar para a lida e o último sair. Tornou-se amigo de Augustus que admirava o comprometimento do rapaz de quem só ouvia elogios. O estábulo novo que ajudou a erguer deu mais liberdade aos cavalos que nunca antes haviam sido tão bem cuidados.

Através de Tobias, Augustus tomou conhecimento dos pesadelos constantes que fazia Mário acordar aos gritos no meio da noite. Ele dizia qualquer coisa incompreensível para os italianos – era nesse momento em que lembravam que o rapaz não era um deles, porque na maior parte do tempo, não fosse o apelido de “alemão” não se lembrariam de sua origem.

Amigo das crianças, a quem ensinava as brincadeiras que havia aprendido no tempo da infância. Ele passou a ser chamado por elas de “fratello” e isso deu alento a sua pele que por alguns instantes se sentia como se fizesse parte daquela enorme família que vivia ali na Vila de Don´Atonia. Mas era mesmo com os cavalos que ele se sentia de fato a vontade. Era com eles que Mário fazia suas confidências em diálogos longos e sem cuidados. Não era preciso “se minha mãe estivesse aqui iria gostar de cavalgar em você. Ela gostava de cavalgar no final da tarde. Foi ela quem me ensinou a montar meu amigo. Ela me ensinou muitas coisas” – ele fazia uma pausa. Respira fundo. Olhava ao redor para certificar-se de sua solidão. Sentia os muitos aromas daquele lugar. Se perdia de si mesmo e voltava a conversar com seu amigo de quatro patas “ela iria gostar muito de você meu amigo, pode acreditar em mim”.

 

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Augustus se aproximou do rapaz, observando-o detalhadamente, como se ao repousar seus olhos sobre sua figura pudesse simplesmente sabê-lo. E aos seus olhos ele era uma pessoa confiável.

_ Me escute bem ragazzo, eu só vou dizer uma vez. Você vai ficar, mas io non pretendo me arrepender por isso.
_ Não irá senhor, – ele não pode concluir o que pretendia dizer. Augustus o fez silenciar, afinal, ele estava falando.
_ Não quero ouvir nenhuma reclamação ao seu respeito. – E quero deixar bem claro que só vai ficar em minhas terras por causa da minha bambina que intercedeu por você. Ela é a criatura mais doce que eu conheço e não gostaria de vê-la decepcionada por nada nesse mundo. Então se eu souber que você causou algum problemas em minhas terras, eu o ponho pra correr daqui. Estamos conversados alemão?
_ Sim senhor. Eu lhe prometo que nunca terá uma só razão para reclamar de mim. Eu vou fazer valer a confiança que está pondo em mim. Pode ter certeza, não irá se arrepender por permitir que eu fique em suas terras. Obrigado senhor…
_ Não agradeça ragazzo, não é necessário. Aqui em minhas terras todo mundo recebe por aquilo que faz. Está me entendendo?
_ Sim senhor.
_ Ótimo, agora podemos voltar para a festa – disse ele, enquanto dava o braço para a filha que se mostrou orgulhosa da sensatez de seu pai. Ela exibia aquele seu lindo sorriso que era a maior riqueza de Augustus.

Aquele foi o primeiro contato de Evangeline com Pérola. Assim mesmo, à distância, mas bastou para perceber que aquela menina era alguém sensível, delicada e que amenizava todos os cenários a sua volta com seu jeito sempre doce e gentil. Ela que até então só tinha daquela jovem as suas próprias ilusões – agora tinha uma figura para se ocupar. Não era muito, mas pareceu ser o suficiente para aquele primeiro momento.

Mário que minutos antes havia agradecido a jovem com um breve aceno, também ficou a observar aquela cena, embora seu olhar seguisse de perto os passos de Malaquias que havia deixado marcas em seu braço ao segurá-lo, mas era preciso esquecer, afinal, ele havia conquistado o que desejava e era só o que de fato importava. Malaquias iria embora no final da tarde com as burras cheias de dinheiro, ganho em cima daquela gente que tinha o mesmo desejo que ele…

Mário esqueceu-se rapidamente de seu desafeto e voltou ao seu prato de comida, afinal, fazia tempos que ele não fazia uma refeição descente.

 

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Malaquias não gostou nada do que ouviu e tratou de cobrar satisfação daquele jovem que para ele não passava de um vagabundo. Ele o encarou nos olhos, rangeu os dentes e partiu em direção a ele. Ficando ali, bufando feito um boi bravo e pensando em dúzias de impropérios a serem ditos. Mas só fez cobrar explicações.

_ Eu posso saber como foi que se enfiou no meio dos meus italianos? Você não estava no porto seu maledeto.
_ Não senhor. – disse sem desviar o olhar. Ele não demonstrava medo e parecia não estar gostando do modo como estava sendo encarado. _ Eu estava na vila de São Paulo quando o senhor parou para alimentar os cavalos.
_ Ah! Eu vou lhe dar uma bela lição seu vagabundo. – disse Malaquias, enquanto recuava as mangas de sua camisa e partia para cima de Mário, agarrando-o pelo colarinho da camisa que de tão velha acabou rasgando.
Mário não gostava de brigas, mas também não fugia de uma. E mesmo estando fraco, teve forças suficientes para segurar os pulsos daquele homem que percebeu que teria uma boa briga pela frente.
_ O senhor esta enganado. Eu não sou um vagabundo. Não sou italiano como toda essa gente aí, mas sou gente e tenho dois braços. Posso trabalhar. Sei lidar com a terra, com os bichos e com madeira. Eu só quero um trabalho, um lugar pra viver e um prato de comida…
_ Pois vai ter que procurar isso em outro lugar, porque aqui não tem espaço pra gente da sua espécie. – gritou.

A atitude de Malaquias não agradou Augustus que estava em dúvida se interferia ou não, mas diante do chamado de Pérola que se aproximou, tocando em seu braço em meio a uma aflição pouco agradável que pode ser percebida até mesmo por Evangeline que se mantinha afastada, mas participando a sua maneira.

_ Papai, por favor – não o deixe continuar com isso.
_ O que faz aqui bambina? – estranhou Augustus, que ainda tentou afastar a filha daquele cenário nada conveniente para uma menina de quinze anos, mas ela se recusou a deixar o local.
_ Não pude deixar de ouvir o diálogo e lhe peço. Deixo-o ficar. Não é o senhor mesmo quem sempre me disse que não se deve negar a um homem a chance de ter um trabalho digno e um prato de comida? Então meu pai, é justamente o que o senhor está fazendo com esse rapaz apenas porque ele não é italiano. Acha isso justo papai?

Augustus respirou fundo sem desviar o olhar de sua filha. Sentia-se orgulho por perceber que seus ensinamentos não haviam se perdido ao longo dos anos. Sentiu-se envaidecido por ver tais valores ali  naquela figura lúcida de sua menina. Ele deixou em seu rosto um carinho de mãos. Em seus olhos um sorriso e um aceno com a cabeça que parecia dizer “você está certa bambina, o rapaz pode ficar”.

_ Malaquias. – disse usando um tom de voz mais firme. Ele ainda estava atento a sua menina, mas logo a deixou ali para se dirigir a ele. _ O rapaz pode ficar…
_ Mas ele não é um dos seus…
_ Não entendeu o que eu disse? Terei que repetir?
_ Não senhor. – disse, enquanto recuava.

Malaquias sentiu-se ofendido, mas Augustus era o patrão. Era o dinheiro dele que determinava o que deveria ou não ser feito. Embora estivesse furioso e com vontade de esmurrar aquele “maldito alemão”. Ele engoliu seu desconforto e se afastou, tendo seus movimentos seguidos de perto por Tobias que havia se aproximado de forma a deixar bem claro quem mandava ali.

 

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Ela queria ficar. Permanecer ali naquele cenário. Participar daquelas cores. Vigiar de perto as páginas de todos aqueles livros. Observar as matérias em francês das revistas cuidadosamente acomodadas pelos cantos daquele lugar. Um mundo a parte. Uma ilusão tão intima. E Evangeline ali, invadindo algo que não lhe pertencia. Sentiu-se incomodada, embora ainda existisse em sua derme o desejo de ali permanecer. De continuar sentindo tudo na ponta dos dedos. O sorriso em seus lábios foi como um suspiro intenso que gera ao mesmo tempo: conforto e desconforto.

Ela passou pela porta, olhando cuidadosamente para os cantos. Lembrou-se por um instante de outros cenários e daquele homem perdido em suas ilusões de arte. Agora ela tinha certeza de que ele era nada. Não era ninguém. Não havia arte em suas veias. Faltava-lhe tanto. Era apenas um homem em ruínas, sendo sustentado pelo desejo de ser mais. Seu desespero agora já não justificava-se mais “estou tendo um momento ruim” que se espalhava ao longo dos dias e dos anos. Poucas vezes ela viu aquelas mãos criarem alguma arte de fato. No começo, ele até demonstrava talento ao desenhá-la seguidamente. Mas nunca estava satisfeito. Era a busca pela perfeição “eu não posso aceitar menos” – se justificava constantemente.

Evangeline voltou a si quando estavam bem distantes do celeiro e bem perto daquela festa italiana. Era possível perceber toda a alegria daquela gente, que naquele momento já não contava mais com a presença de Augustus que se ocupava da figura de um jovem rapaz que afastado do grupo, alimentava-se junto a sombra de uma árvore. A presença do dono da fazenda junto a ele, o fez levantar-se de forma apressada, abandonando o prato de comida, com pesar,  no chão.

Tobias que também havia percebido aquele estanho movimento, preocupou-se.

_ A senhora espere aqui um instante professora. Eu vou ver se o seu Augustus está precisando de minha ajuda. – disse com alguma pressa e partiu de encontro a Augustus a fim de estar presente caso fosse necessário.

Evangeline não se deteve. Aproximou-se o suficiente para ouvir o que estava sendo dito, ao mesmo tempo em que uma jovem muito bem vestida também se juntou a ela, ali naquela distancia segura. Gentil, exibiu um breve sorriso, mas não se deteve a meia distância, preferiu dar pequenos passos que foram acompanhados de perto pela professora.

Já de pé, o jovem tratou de limpar as mãos em suas calças maltrapilhas para cumprimentar Augustus que apenas o observava sem qualquer reação ou intenção de lhe estender a mão. Os braços permaneciam ali, cruzados a frente do corpo e sua postura exibia uma insatisfação que não fugia a percepção de nenhum daqueles senhores que ali estavam.

_ Qual é o tuo nome ragazzo?
_ Me chamo Mário… – ele hesitou. Respirou fundo, recordando a própria história e recusando o sobrenome que carregava. _ Mário Schemberg senhor.

Aquele, sem dúvida alguma, não era um sobrenome italiano o que serviu apenas para deixar Augustus ainda mais impaciente, algo que se podia perceber apenas pela contração dos músculos de sua face.

_ Você não é italiano. – afirmou.

Mário ficou sem jeito, jamais renegaria suas origens, embora lamentasse profundamente a herança que levava em suas veias. Mas antes que ele dissesse qualquer coisa, Malaquias, o homem responsável pela vinda de toda aquela gente para as terras de Augustus interviu, afinal ele não cometia erros.
_ Claro que ele é italiano seu Augustus. – interferiu. _ Eu peguei essa gente toda lá no porto de Santos como sempre faço quando o senhor me pede gente para trabalhar nas suas terras.
_ Ele está certo. – apressou-se Mário nas explicações. _ Eu não sou italiano. Sou alemão senhor, – disse, se dirigindo uma vez mais a Augustus. _ cheguei ao Brasil com os meus pais, vindo da Alemanha há coisa de seis ou sete anos. – entre outras coisas, faltava-lhe a certeza acerca do tempo passado desde a sua chegada. Já havia lhe acontecido tantas coisas que sua mente sentia certa desorientação com relação a suas próprias direções, revisitadas em poucos segundos, arrancando de seu âmago um suspiro demorado, intenso.

 

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Evangeline mantinha a esperança de encontrar Pérola em seu celeiro. Sua pele estava atenta aos movimentos ao redor. Pouca coisa se movia. Alguns galhos, algumas folhas. Pássaros que sobrevoavam a paisagem. Mais nada. Ali, naquela fazenda, paz era algo muito diferente. Era um estado mais prolongado, só perturbado pelo pensamento que se mantinha inquieto, como sempre. Ela pensava milhares de coisas ao mesmo tempo. Lembrava-se da voz de Augustus e sua paixão, quase palpável, por sua filha caçula. A preocupação para com as limitações que a vida na fazenda impunha a ela. A saudade que sentia de sua falecida esposa. Ele parecia contar nos dedos das mãos todos os anos passados: dez no total. Parecia muito em alguns momentos, mas em outros, o tempo simplesmente divergia.

Ali naquela fazenda, era possível ser triste e andar triste pelos caminhos que os pés descobriam. As vezes parecia que não havia qualquer coisa de destino por ali. Era o que Evangeline estava aprendendo a chamar de “milagre outro”. Uma coisa mais prática que combinava com a sesta longa, depois do almoço sempre cheio de comidas bem feitas.

A porta estava fechada. Encostada. Tobias arrastou aquela pesada combinação de madeira. Puxando pelo ferrolho. Ele estava acostumado. Fazia isso todas as manhãs, bem cedo. Antes das seis. Bem antes… De tão pesada que era, havia cedido. Era preciso arrastá-la até certo ponto. Um monte de terra limitava os movimentos. Era qualquer coisa poética que Pérola gostava de apreciar. Ela chegava ali com seu lampião e ficava observando os movimentos de Tobias como se decorasse cada um deles…

_ Entre professora.

É preciso dizer, que aquele lugar tinha sua própria forma de paz. A paz do que é certo, do que não corre, mas se move. A paz das ausências, da tintas e pincéis, das telas pelas paredes representando figuras com as quais Evangeline já havia tido contato: um homem que observa o horizonte e seus inúmeros pés da café em chamas. Lagos, trabalhadores, a vila italiana, crianças brincando com os cães, uma jovem bem vestida, caminhando com sua sombrinha em um fim de tarde. A casa grande, suas inúmeras janelas e seus ipês floridos ao longo do jardim. O gado sendo conduzido pelos peões ao longo das estradas de terra com a poeira se levantando. Os gansos sendo alimentados pelas matronas e suas crianças de mãos. Sua gente estrangeira se tornando brasileira dia após dia. Tudo sem cor. Mas era tão fácil imaginar cada uma daquelas cores tamanha a perfeição dos traços da menina Pérola.

Evangeline se viu ali, sentindo tudo na ponta dos dedos: os móveis cuidadosamente em seus lugares. O sofá que convidava a se sentar, ao lado de suas poltronas e de frente para a mesinha onde xícaras de chá e cestos com biscoitos seriam servidos. O piano para o começo da noite quando a mente já apresentava cansaço. Os livros na parte de cima do celeiro. Os janelões todos abertos. O maior de todos tinha a mais bela vista de todos. Mas era a direita que havia uma mesa onde se percebia rascunhos iniciados. Ficou fácil perceber o quanto de cuidado havia naquela arte. Era uma paz natural, de tudo que se conhece e tudo que ainda está por conhecer.

Ainda faltava o contato, mas já existia a ciência daquela alma que levou Augustus ao encontro de Evangeline.

_ É mesmo uma pena que ela não esteja aqui Tobias.
_ A senhora diz isso porque professora?

Evangeline nada disse, apenas sorriu com um punhado de lembranças que a fez desabotoar o sorriso da face e suspirar fundo.

 

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A primavera das emoções – Capítulo 03

celeiro

Os passos eram lentos. A paisagem pedia atenção. Tobias achava graça dos movimentos da professora. Qualquer descoberta feita (um simples inseto) era motivo para olhares estranhos. Evangeline levantava a sobrancelha esquerda, afastava o pescoço para trás, paralisando o corpo que se via completamente imóvel diante de tão horrendo ser. E se sentia algo estranho no chão, agarrava a saia do vestido, movendo o pé cuidadosamente para o lado, fechando os olhos para não ver o que havia esmagado com suas botas francesas. Ela tinha medo de sapos, cobras, borboletas, pássaros grandes e mesmo pequenos. Qualquer coisa que se movesse a assustava. Ela nada sabia do campo. Era uma moça da cidade. Acostumada com os confortos que uma fazenda não dispunha. Fato este que fazia Tobias se divertir em seu íntimo. Ele era discreto com o seu sorriso. Era ameno com seus olhares e quase sempre fingia não ver tudo aquilo que considerava um absurdo.

Mas de repente, Tobias percebeu-se sozinho – obrigando-se a olhar para trás. Lá estava Evangeline, alguns passos atrás. Ela havia interrompido sua caminhada e parecia distraída com qualquer coisa – de imediato ele pensou numa cobra, mas o mato estava rasteiro “não pode ser” – pensou ele que imediatamente se pôs a correr para saber o que havia acontecido.

_ Está tudo bem professora McBrown?
Não houve resposta. Mas ela parecia bem. Seu olhar exibia um brilho intenso. Uma alegria impar. Não parecia assustada. Tão pouco incomodada. Assim mesmo ele procurou por pequenos animais, insetos. Mas nada encontrou.

Eles já haviam passado por ali antes. A paisagem ainda era a mesma de antes, mas somente agora o sol alcançava aquele cenário, realçando o contraste daquela construção completamente perdida no meio da paisagem.

_ Eu estou muito bem Tobias. Me desculpe se o assustei, sim?
_ A senhora me deu um baita susto mesmo. Pensei até que tivesse visto uma cobra ou um sapo. – disse ele enquanto coçava a cabeça, hábito bastante comum aquela figura do campo.
_ Não. Que horror. Não mesmo. Só de imaginar algo assim já sinto arrepios ao longo dos braços e pernas. – disse ela enquanto alisava os braços com as mãos como se seus gestos servissem para libertar-la daquela estranha sensação.
_ Na verdade eu parei aqui para olhar o celeiro da filha de Augustus. Ele parece estar sendo abraçado por aquelas árvores e a luz do sol reflete nele como se fosse o centro de tudo aqui…
_ Engraçado. Agora a senhora pareceu até a menina Pérola falando. Ela fala essas coisas bonitas às vezes.
_ Tobias?
_ Sim professora.
_ Acha que a filha do Augustus pode estar lá no celeiro agora?
_ Acho não professora. Ela deve de estar dançando lá com os italianos. A menina Pérola adora dançar a tal da tarantela.
_ Que pena. – lamentou em meio a um suspiro.
_ Oras, a senhora quer ir até lá? É isso? Por que se for isso, eu levo à senhora até lá agora mesmo. São apenas mais alguns passos. Se a senhora não estiver cansada… Eu tenho certeza que a menina Pérola não há de se importar. Eu acho até que ela vai ficar muito da satisfeita.
_ Não sei. Acho melhor conhecê-la primeiro, afinal, não tive um só contato com ela desde que cheguei.
_ Eu tô sabendo disso professora. Mas a menina Pérola passa a maior parte do tempo lá no celeiro. Então acho que de um jeito ou de outro a senhora vai ter que ir até lá…

 

>> continua…