O Diário de uma solidão
A primavera das emoções – Capítulo 03
Inquieta. Ela percorre pequenas distâncias. Vai de um lado ao outro. Pensa na cena que se repete em sua mente seguidamente. Olha pela janela, avista a pequena flor. Colhe seus traços. Lança para dentro de si o sentimento estranhamente morno e amarelado. E ela gira. Resmunga (como quem canta) uma canção sem versos conhecidos. As bordas da noite estão todas em suas veias.
Evangeline esta sentada perto da janela, com um livro em mãos. Observa atentamente Pérola e seus movimentos. Um olhar para as letras do livro. Dois olhares para Pérola. Aflita. Nada diz. O silêncio de seus lábios não é o mesmo de seus pensamentos. Movimentos rápidos. De um lado para o outro. Mexe na tinta. Busca cores perfeitas. Nada encontra. Ela simplesmente não espera que alguém apareça do outro lado de suas linhas para lhe falar um pouco do absurdo que nutria em seu íntimo.
Fechava os punhos. Os olhos. Poderia gritar bem alto e assustar todos os pássaros que partiriam em revoada, mas de nada adiantaria. Sua irmã continuaria sendo aquela megera indócil. Deixou correr água da jarra para a bacia. Lavou o rosto seguidamente. Sentindo a umidade suave da água a percorrer (gotejar) os lábios, que molhados, sentiam o sabor incolor daquele liquido que não conseguia lavar a substância que permanecia em sua derme. Enxugou as mãos. O rosto. Percorreu mais alguns quilômetros dentro daquele ambiente que mostrou-se pequeno. Lembrou-se da figura de sua mãe e não percebeu a presença de Evangeline em momento algum.
Ela permanecia quieta em seu canto de sofá, com o livro apoiado em suas mãos que por sua vez encontravam aconchego junto aos joelhos. Era preciso não ser percebida. Pensava ela ser aquele um momento antes da criação. Já o tinha testemunhado outras vezes desde que as aulas começaram. Pérola se inquietava. Era quase um transe. Como se suas falanges saltassem todas por cima das superfícies humanas. Era preciso se organizar. A mente. A pele. Os sentimentos. Era como perceber a água no copo e a água nos lábios e depois. E depois (?) apenas misturar as tintas e confeccionar as ilusões – como goles lentos que saciam a sede.
Mas não se tratava de ilusões. Não naquela tarde prestes a cair. Se tratava da realidade e daquela cena lamentável onde uma flor foi ao chão. Maltratada. Ficou ali, esquecida, como se nunca tivesse sido ofertado a ela um destino melhor. Mas a realidade convergiu em ilusão pouco depois e um coração foi desenhado na tela com ajuda de um carvão. Um coração de água a escorrer. Tudo sem precisão. Sem detalhe. Algo escapava a compreensão daquela menina. O fundo branco feito a neve. O coração frio, sem sangue, sem o vermelho que lhe serve de aconchego. Tudo abstrato e doce. Tudo vazio. Angústia de querer gritar e não ter som.
As tintas agrediram a tela, misturando-se. Aquilo seria um grito? De certo… A confusão não estava dando sinais de ser passageira e poucas vezes Evangeline havia assistido tamanho tormento. Quis se aproximar, mas não encontrou caminho para seus pés. Permaneceu em seu lugar. Imperceptível.
Pérola foi e voltou até a janela onde havia colocado aquela flor. “Seria amor? Estaria a menina apaixonada? Mas ela é tão jovem”, questionava Evangeline. O pior era não conseguir pensar em absolutamente ninguém naquela fazenda. Nenhum rapaz que estivesse a sua altura. Que soubesse falar de tintas e telas. Citar grandes artistas ou entender as palavras favoritas daquela menina ou ser capaz de ler seus livros favoritos. “Seria ele um homem simples? Do campo?” – um pânico natural começava a surgir na pele daquela mulher que conhecia bem os estragos que uma paixão é capaz de causar. “Seria insuportável para ela” – concluiu. E como não encontrou alento em seu íntimo, apenas virou a página. Tentou ler. Mas estava quase tão inquieta quanto Pérola que num rompante, pegou o chapéu. A capa. Saiu apressada, sem dizer palavra que fosse. Apenas foi. Rumo aos destinos de sempre. Evangeline ainda alcançou a porta, mas só teve como visão o rastro deixado por Pérola.
>> continua…