Passa da meia noite… Aconteceu e pronto. Tantas palavras. Tantos sons. Tantas lembranças. O olhar se perde pela janela da minha história e eu vou revendo coisas que são só minhas (as vezes eu divido um pouquinho) mas é tão pouco perto de tudo que tenho neste baú chamado “cuore” (coração – já disse que não gosto do som da palavra em português. É vaga. Vazia. Pálida).
Enfim, eu nasci para esse mundo, esse tempo, essa era a meia noite e um do dia 29 de novembro – chovia (segundo o que me disseram) falta-me a consciência acerca desse momento (risos). Sagitariana, lua em sagitário. Ascendente em peixes.
Escolhi uma vela laranja para acender (eu não apago velas) e mais tarde vou atrás de um galho de árvore para juntar a coleção. Porque eu aprendi com meus ancestrais a não contar o tempo e sim unir as lembrança através de galhos…
Enfim, para fechar esse ciclo, a querida Luciana Nepomuceno me brindou com suas palavras. Ela e o seu tempo. Ela e um pouco de mim…
A humanidade sonha: viajar no tempo. Digo eu: é fácil viajar no tempo, só é preciso uma noite de estrelas e que uma pessoa se ponha a mirar o firmamento. Eu. Ou você. Pronto. Os pontos de luz ali que chegam à nossa retina surgiram há milhares de anos. É isso, vemos e vivemos, no instante em que recebemos estrelas nos olhos, um evento que aconteceu há séculos. O tempo, o aprisionamos nos olhos ao bem abri-los. O tempo nos aprisiona em seu mistério ao bem fechá-los. Porque quando os fechamos para melhor sentir uma carícia, uma saudade, um doer, queremos nos colocar fora dele – tempo- mas é justo aí que ele opera, passa sem o sabermos e logo há histórias demais em nossa pele.
O momento – aparentemente tão trivial – em que abrimos ou fechamos os olhos ante as estrelas, quando refletido, dá-nos a noção do quão frágil é nosso próprio tempo. Finitude. Somos transitórios, é o que o tempo nos diz e, ao dizê-lo em estrelas que deixam de existir quando ainda as vemos, aprendemos o espaço. Aprendemos assim: somo pequenos. Não compreendemos – nem por entender, nem por abarcar – isso tudo que se chama vida. Ou morte. E que dizemos Universo porque certos nomes, mesmo sendo certos, são por demais assustadores.
Então, fantasias para uns – para todas as perguntas, uma resposta: o eterno. E aceitação para outros – para todos os eternos, uma pergunta. Quando aqui cheguei, neste sótão, logo entendi que a Lu era uma temerária. Eu sou. Fiquei imaginando que, tal como Mário Lago, ela fez um acordo com o tempo. Um assim: belezas em dias.
É na beleza deste intervalo que a gente se permite: sim, sou finita, mas não, ainda não o fim – que a vida se sabe mais. O conforto de se permitir generosidade no olhar que voltamos ao passado: poder deixar o que precisa ser lembrança; trazer, na mala do pensar, os amigos, os saberes, as cores e texturas do que nos fez ser um hoje. A alegria de aceitar não saber o futuro, ir pelo prazer do mover-se, caminho que é passo e encontros. Não temer a carne. Contar o tempo em xícaras de chá, folhas que se amarelam – nas árvores e nas mãos, em beijos, em sabores na ponta da língua. Deixar que seja o corpo o que ele se encaminha pra ser e rir-se em rugas nos cantos dos olhos como se dissesse: o seu tempo é o meu. O meu tempo sou eu.
Então, abro os olhos e vejo estrelas que me contam a alegria de estarem, também, na mira do olho da Lu. E celebro o tempo de sabermos, as duas, que não se precisa entender a beleza da amizade, mas vive-la.