
Aos que se foram em corpos, aos que me restam em alma.
Auden
Lembro que ela tinha pouco mais de sete anos quando se apaixonou pela primeira vez. Sorriso maroto, afoito com seus olhos atentos a toda forma de movimento. Não perdia um risco, uma letra. Não perdia absolutamente nada. Sentava na escada no final da tarde com seu velho livreto de capa verde. Um presente daquela mulher que lia poesias de Auden, Dinckinson, Eliot e que a fazia adormecer em meio a narrativa inquietante daqueles versos que entregava seus sentimentos todos as nuvens que eram as sombras de sua infância…
Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via…
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia…
Só quando te perdi
É que eu te conheci…
(…) Fernando Pessoa – pág. 212
Enquanto cumpria seu ritual de espera, observava o mundo e seus tolos movimentos, alguns eram absolutamente desnecessários, enquanto outros eram contagiantes; como o daquela farfalla (borboleta) que ficava “farfallando” a sua frente até que ela interrompesse seu vôo com suas duas pequeninas. Todo um cuidado foi tomado para não machucar suas asas e ali com os olhos entre as mãos junto aquele pequenino ser, a menina calou-se (justo ela que falava sem parar) seus olhos romperam um limiar como nunca antes e em meio as lágrimas, ela devolveu aquele pequeno ser de asas azuis ao ar. A pequenina não fugiu; permaneceu “farfallando” pelos arredores, de flor em flor, de folha em folha, se aquecendo com os últimos raios de sol. O sorriso que se desenhou naqueles lábios foram a tradução de uma paixão que iria com ela por toda a vida. Ela poderia ter se apaixonado pelos pássaros, que também tem asas e voam muito mais alto que a farfalla, mas não são tão alegres e desengonçados como aquele pequenino ser que seria desenhado milhares de vezes em folhas diversas. Era uma paixão, dessas que invadem e ditam o ritmo de toda uma existência…
“Minha amiga deve ser um pássaro,
Porque voa!
Deve ser imortal, porque morre!
Tem ferrão tal e qual a abelha.
Ah, singular amiga, tu me intrigas!”
Emily Dickinson
Mais tarde, a bordo de seus doze anos, novamente se apaixonou. Paixão humana, densa. A mulher que lá estava diante dela usava óculos a frente dos olhos e quando precisava observar algum aluno, inclinava-se pra frente e olhava por sobre as lentes. Era um gênio. Dizia palavras inquietantes, citava poetas ilustres e sabia tanto e de tantas coisas. Sobre sua mesa, deixava livros de homens e mulheres que pra ela ainda eram ilustres desconhecidos. Bebias-os. Páginas inteiras em poucos minutos. Queria chegar no dia seguinte e dizer “tem mais?” e as duas se encontravam na biblioteca, e em alguns cantos secretos adquiridos ao longo daquela trajetória. Liam uma para a outra. Trocavam opiniões, sorrisos, olhares. Ela foi sua primeira correspondente sem selo. Durante as férias, linhas inteiras foram escritas e entregues no primeiro dia de aula quando soube que aquele seria o último ano na companhia daquela mulher. Chorou uma semana inteira. Não poderia ser assim. A mulher estava de fato indo embora: viver outras aldeias, outras escolas, outros alunos. Como era injusto. Mas não adiantava esbravejar. Seria assim e ela, a professora, prometeu manter contato, com linhas inteiras de literatura e notícias… A paixão seria mantida, renovada a cada carta ofertada aos olhos da menina que se apaixonava por todos aqueles dizeres: escritos a moda antiga, em folha amarelecida com caneta tinteiro; letra desenhada, adocicada que ela namorava com entusiasmo, como quem cumpre um ritual recém adquirido. Chegava da escola, verificava a correspondência no móvel de entrada, e em meio a tantos envelopes estranhoas, descobria aquela composição fina, rica em textura e deliciosamente recheado com palavras. Ela corria para a cozinha onde preparava o seu chá, sentando-se junto a mesa para se deliciar com aquelas linhas… Até que um dia o silêncio se impos, restando apenas o vento a tumultuar os envelopes sobre o móvel.
“As tuas insatisfações, por outro lado,
Chegam pela ranhura da caixa do correio com regularidade amorosa,
Brancas e vazias, expansivas como monóxido de carbono.”
Sylvia Plath
Mais tarde, a paixão foi pela dor. As perdas e derrotas somadas a levaram de encontro a certeza de que viver era uma coisa dolorida e era preciso ser assim para que tudo fizesse sentido. Então sofria até a exaustão, distanciava-se de quem se aproximasse e por fim, construiu um silêncio devastador que a manteria mergulhada naquela dor insuportável. Viver é essa coisa doída e se sofria, sentia-se resignada porque os poetas sofrem e ela já imaginava fazer parte daquele seleto grupo de sofredores que sabiam muito bem o quanto dói viver. Anos inteiros mergulhados naquela dor que rasgava a pele com memórias que não se gastavam, não se cansavam. Enquanto pode, ela se obrigou aquele caminho tortuoso onde ainda haviam marcas daquele incêndio irresponsável que havia transformado parte de sua história em cinzas. Nada é por acaso, diziam os mais sábios a quem ela dava de ombros, sofrendo seguidamente a dor que lhe cabia e que de certa forma a alimentava…
(…)E tudo sempre é agora. As palavras distendem,
Sob a tensão, tropeçam, escorregam, perecem,
Apodrecem com a imprecisão, não querem manter-se no lugar,
Não querem quedar-se quietas. Vozes ríspidas,
Irritadas, zombeteiras, ou apenas tagarelas,
Sem cessar as criticam
(…) T.S.Eliot
Conta essa lenda, que os anos passaram e as paixões se multiplicaram: por objetos, pessoas, sentimentos, palavras, lugares, multidões inteiras. As vezes, ela se arrasta para um canto e chora incessantemente. Depois abre o sorriso e saí por aí, vagando pelas calçadas, colhendo olhares de uma gente que nada sabe sobre ela. Ela gosta de saber que é uma estranha pra quem está lá fora. As vezes se abandona junto as varandas bem merecidas com xícaras de chá e lembra das palavras que chegavam naquelas finas folhas amarelecidas que falavam de uma vida tranquila, vivida ao lado de um pequeno cão de nome engraçado e se convence de que nada mudou. A mulher apenas esqueceu-se dela e há satisfação nisso porque ser esquecida é algo que definitivamente não a incomoda.
(…)
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste,
Enquanto viveu foi minha semana de trabalho,
o meu descanso de domingo,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha fala, meu canto;
Era meu amor e deveria ser eterno. Não foi: enganei-me.
Auden
Hoje, ela anda apaixonada por outras coisas: pela palavra da menina que se explica em seus posts. Pelo medo que atinge a pele da mulher que tem sido desenho para os seus versos, pelo homem que anda distante e perto, pelos rascunhos que ela descobre quando revira a gaveta; pelos livros que ela encontra pelo caminho, pelas vidas que ela inventa e pelos amigos que se ofertam em palavras. A maioria vem de longe e nunca hão de se encontrar e ela sabe que de repente, um dia haverá aquele silêncio natural e alguém, em algum lugar, será esquecido…. Ela é menina ainda, também é mulher. Não é uma apenas. Isso ela nunca foi. Ela é várias e sabe disso. E sabe também que nunca estará sozinha de fato porque suas paixões seguem fazendo sombra em sua derme e basta uma canção de fundo para ela reviver um pouco de tudo isso. Ainda agora quando o sorriso chega aos lábios e as lágrimas aos olhos, ela sente aquela dor que a silencia e diz “grite com o papel que passa”. E ela deixa tudo e vai viver sua paixão, sentindo tudo excessivamente até que a exaustão a leve pra cama, e lá, deitada de bruços, com a cabeça enfiada no travesseiro e os olhos grudados na paisagem, ela acaba se perdendo junto as nuvens brancas, cinzas, claras e escuras; saboreando apenas mais uma de suas muitas paixões. Enquanto isso: ela descansa de si mesma e resmunga versos antigos:
Podia viver – viveu. Podia morrer – morreu.
Se não estiver viva
Os céus não podem guardar seu segredo!
Senti um funeral dentro de mim,
Duas borboletas saíram ao meio dia,
Tendo como destino o mar
E sem flor alguma para abraçar,
restou apenas a solidão comum do céu
Emily Dickinson
E se você é um desses humanos que acredita que a paixão seja essa coisa vaga, que vive na pele de uns muito mais de que de outros. Sou feliz por saber que essa menina que é brisa fria junto a minha pele não pensa como você porque pra ela, paixão é alimento da alma, é movimento, silêncio, veneno que fica no copo, água que caí do céu, sol que brilha entre as folhas da jabuticabeira, olhos se revelando a outros olhos, lábios se precipitando junto a outros lábios, mãos se acariciando enquanto passos são inventados junto as calçadas, abraços entregue a braços abertos, pé frio sendo aquecido no meio da noite, latido pedindo afago, palavras narrando vidas, histórias, ilusões, personagens saltando da pele humana na qual se esbarra pelas esquinas, encontro inusitado no vagão do trem, sentimento que surge ao apanhar um graveto no meio do caminho, desencontros causados pelos ponteiros desorientados, páginas escritas por outros que parecem narrar o que vai aqui dentro…
Paixão é o que faz essa menina escrever, dançar, rasgar-se, encantar-se. É o que faz dela esse ser entusiasmado e atento as coisas mais simples como um punhado de nuvens vagando pelo céu e avisando “é hora de mudar de estação”…
“Escureceu: acinzentou-se de longe
O horizonte parado
Será a alma parda ou tom de monge…
meu corpo fatigado
Meu corpo fatigado da alma
Quantos poros terei para a calma!
Fernando Pessoa
Nota.
1 – Os poemas que intercalam os textos foram anotados ao longo dos dias em agendas que não tinha compromissos com outras coisas que não a paixão da menina que gosta de outono e farfallas, Chopan e páginas em branco, envelopes e caderno novo…