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O Diário de uma solidão
A primavera das emoções – Capítulo 03

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A mão ficou estendida no ar, com a flor a disposição da jovem Cecília. Gesto inconveniente aquele. Ela não se moveu. Permaneceu ali, com os braços cruzados a frente do corpo. Incrédula. O resto do sol daquela tarde desmanchava-se pelos cantos e já era possível apreciar as sombras de árvores, cercas, alguns animais a pastar e as sombras deles próprios.
Com o pé todo apoiado. Depois de medir cuidadosamente toda aquela distância. Ele insistiu. Ganhou impulso. Aproximou-se. Buscou por ela sem perceber o incomodo causado naquela figura indiferente a existência daquele estranho homem sorumbático, com suas vestimentas sujas, rasgadas. Barba por fazer e cabelos desgrenhados.
Ele sorria enquanto ela não admitia aquele atrevimento. Num gesto abrupto, arrancou a flor da mão dele, lançando-a no chão. Gesto incomum a uma dama tão bela.  Mas ela teria pisado sobre aquela flor não fosse a vontade de desferir contra aquele homem a sua fúria.

_ Nunca mais ouse dirigir a palavra a mim. Entendeu bem seu imprestável?

A grosseria daquela jovem deixou Mário desolado. Ele nada disse. Permaneceu calado. Imóvel. Punhos cerrados. Pensou em se desculpar, mas nenhuma palavra saltou de seus lábios. Havia vergonha em seus gestos. Cabisbaixo, aceitou a humilhação e viu de soslaio os passos de Cecília que fugiu pela paisagem rumo ao lago. Estava enfurecida. Cuspia descasos para as árvores, as matas,  e tudo mais que encontrasse pela frente…
Mário ofuscado, respirou fundo. Os pés ainda ficaram no mesmo lugar, por alguns segundos. Tentativa vã de assimilar o caminho por inteiro. Já haviam passados muitos dias por aquele corpo. As lembranças estavam todas ao seu alcance. Sofria duas vezes. Mário colecionava muitas vergonhas, aquela era apenas mais uma fazendo-o percebe que não era nada. Estava abalado. O peso daquele momento ficaria nele por algum tempo. Inevitável. A dor que lhe cabia fazia arquear os ombros. Em seu íntimo só havia o silêncio e o deserto a acompanhar o céu onde a noite crescia. Seus olhos cansados só queriam apagar todas aquelas imagens imóveis. Todos aqueles sons ensurdecedores.

Sentiu-se resignado por um instante ao perceber sua condição. Sua solidão era imensa. Ninguém havia testemunhado seu equivoco. Coragem bandida, vazia. Os pés finalmente moveram-se e o coração voltou ao compasso. Ainda pulsava. Ainda havia vida para se viver… O que não havia mais em seu íntimo era o sabor da perfeição acerca daquela figura desaparecida. Agora, ela era apenas mais uma moça, exatamente como todas as outras da vila que zombavam dele durante as manhãs, as tardes, e as noites…

Enquanto ele seguia de volta para junto dos cavalos (seus amigos de todas as horas). Pérola aproximou-se lentamente, como quem conta os próprios passos. Esgueirava-se. Havia tristeza em seus movimentos. Lamentava aqueles gestos intempestivos de sua irmã que havia presenciado. Mário não a percebeu ali. Não a viu colher do chão a pequena flor de pétalas sensíveis e  frágeis. Era uma mancha a sujar de cores o chão daquela superfície perfeita que ela tanto amava. Recolheu-a junto ao peito. Sentiu seu perfume, detendo-a juntamente as narinas durante o caminho de volta. A pequena flor teria seu lugar junto a janela, num pequeno vaso. Permaneceria sendo a testemunha secreta de um sorriso perdido, de uma afeição que escorria como se fosse uma chávena caída no soalho. A ver-te, ela saberia, apenas ela…

>> continua…

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O Diário de uma solidão
A primavera das emoções – Capítulo 03

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Março chegou ao fim. Suas chuvas também. Tempo de dias azuis. Sempre azuis. Com pássaros a narrar a geografia da paisagem. Os diálogos de fim de tarde preenchiam os espaços entre o estábulo e a escadaria (cinco ou seis degraus) que levava para a varanda da Casa grande até a porta de entrada. Duas folhas amarelecidas que viviam abertas. Lá dentro, lugar proibido para muitos, vivia a família Alberoni. Isso era sabido por muitos. Havia respeito. Mas havia também o desejo de se saber aquela paisagem. Sentir os móveis. Perceber os passos. Os gestos. Perceber aquelas pessoas, tão bonitas e cheias de uma graça generosa.
Mário sempre acompanhava Augustus até aqueles pares de escadas. Sorria. Acenava. Se despedia. E voltava para seu canto de mundo. Onde os traços imitam estações. Outono. Tempo de folhas secas. Ele tinha suas lembranças acerca daquela estação. Em breve seria inverno e as folhas iriam cobrir o chão. Não havia o branco de sua terra natal. Não havia o frio tão intenso. Ali o frio era ameno e um cobertor bastava para afastar o frio da pele.
Mas ele pensava no desenho daquela ralassa. Ela nunca aparecia quando ele ali estava. Havia o desejo. Não realizado. Que não desaparecia. Ele contava o tempo. Manhã. Tarde. Noite. Madrugada. Ilusão. Realidade. Ele só a via passar pelos campos com seus olhos esverdeados e sua pele vermelha acastanhada iluminada por aquele resto de sol. O momento durava um minuto ou dois, quando muito, mas a sua felicidade só existia dessa maneira. Era pouco, mas para ele, era tudo que tinha e estava satisfeito com isso.

Março havia chegado ao fim. E os pássaros estavam a desaparecer dos ares azuis. Atrás da Casa grande as árvores se preparavam para adormecerem em segredo. Em breve seria inverno. Os dias mais curtos. Manhã. Tarde. Noite. Havia a dúvida quando aos passos daquela ragazza. Aguardar pelas tardes cercadas de um escuro sombrio. Descobrir que depois de tudo, ela não viria. Engolir o desconforto. Cuspir a solidão que insiste em machucar um coração que descobriu novos ritmos através daquela figura tão frágil sem saber ser.
Coragem. Implorou ele a si mesmo, naquele resto de tarde. Engoliu seco. Abaixou-se. Colheu do chão uma pequena flor. Amarela. Pétalas aveludadas. Nasciam ali mesmo, no meio do mato. Formavam pequenas ilhas coloridas.
Coragem. Disse ele a si mesmo ao respirar fundo e sentir a pele incomodada por aquela espécie de desconforto natural. Como de costume, os passos de Cecília surgiram quando as sombras começaram a se desenhar naquele cenário de quase noite. Seus braços. Suas pernas. Seu olhar. Tudo aleatório. Muito rápido. E ali, bem em frente a ela, interrompendo o seu passo. Sem muito pensar, estava ele…

 

>> continua…

Juntos fazemos aurora…

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É sempre manhã quando sua boca encontra a minha e me fala de estrelas e meus olhos descobrem as luas que seus dedos fazem em minha pele.
É sempre manhã quando seu cheiro invade minhas narinas e eu te percebo ali no canto da cama, junto ao lençol, espiando meus vendavais. Suas tempestades criam enxurradas em minha derme aquecida pelo sonho perdido, mas que falava de ti junto a mim. Há resquícios do que foi em meu íntimo…
É sempre manhã por despertar quando você fala em meus ouvidos “eu te amo” e eu sinto saudades pelo resto do dia. Porque é tarde, é noite e a manhã só se faz presente quando você está comigo…
Então eu sorrio, te olho, te devoro. Me jogo em teus braços e me deixo ficar porque ali, aninhada em tua pele é sempre manhã. Você sabe, porque juntos fazemos aurora…

“Terceira Noite”

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Nos últimos dias tenho evitados as escadas. Não é porque chove. A chuva não me impede de cultivar os degraus; mas é porque há dias em que eu preciso de outros cantos, outras paisagens. Como agora, em que voltei ao meu reino: o quarto…

As vezes eu quero estar cercada por paredes altas, portas fechadas e sentir a ausência dos movimentos alheios. Não é sempre assim, mas hoje, é o único desejo que tenho e se tivesse chaves fecharia absolutamente tudo. Lacrando a porta de entrada e as janelas…

Quero ficar aqui com papéis em branco que irão ganhar outra cor conforme o tempo se ocupa de suas badaladas.

Ando apaixonada. Isso é um fato. As palavras dela me seduziram e eu nem sei narrar ao certo como foi que isso aconteceu. Descobri sua existência através da Menina de Asas e desde então, suas cores invadem minha paisagem. Ela me faz sentir o movimento de abrir envelopes e colher folhas com dizeres de ontem e antes de ontem. O tempo parece desatento quando ela chega e completamente iludido quando ela vai embora.

Foi dialogando com ela que surgiu “Terceira Noite” e os versos foram se desenhando aos poucos. Já são seis. Não sei serão mais… Eu nunca sei nada sobre os passos que permeiam calçadas. Sei apenas o que sinto e por hora, sinto vontade de me esconder entre as cobertas e de lá ficar apreciando a chama da vela que arde num canto oposto ao meu.

Ah! Já ia esquecendo: hoje é segunda-feira e como dia da Lua e da Poesia, atrevo-me a deixar aqui os versos dessa ilusão denominada “terceira noite”.

Trago em mim
um punhado de lembranças
que servem apenas para enfeitar
móveis e paredes com seus objetos
onde além da poeira, acumulam-se também:
sorrisos (alguns) – lágrimas (muitas)
E algumas ambições vazias…

Meu rastro ficou na última esquina
onde antes havia uma menina
Que escrevia versos, como se fosse poeta,
narrando uma vida tão antiga quanto a minha!

Ontem pela manhã eu corria pelas ruas
Subia em árvores, cobiçava horizontes
Mas hoje, o que sou, ignora o que foi movimento
E sente saudades daquele menina que inventava primaveras!

A noite de hoje, me pega pelo braço
Se faz inverno, me manda para dentro
Onde o medo se aconchega pelo avesso
O coração se acovarda
A alma se apega aos pretéritos
E suas esquinas de sol e cores…
Eu só tenho sombras, tudo mais é memória gasta!

Trago em mim
Essa lembrança vã de ter asas e voar,
…por cima de todas as coisas humanas
Numa espécie de desenho que permanece
Enquanto o resto se apaga!

Paixão segundo Lu Guedes

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Aos que se foram em corpos, aos que me restam em alma.
Auden

Lembro que ela tinha pouco mais de sete anos quando se apaixonou pela primeira vez. Sorriso maroto, afoito com seus olhos atentos a toda forma de movimento. Não perdia um risco, uma letra. Não perdia absolutamente nada. Sentava na escada no final da tarde com seu velho livreto de capa verde. Um presente daquela mulher que lia poesias de Auden, Dinckinson, Eliot e que a fazia adormecer em meio a narrativa inquietante daqueles versos que entregava seus sentimentos todos as nuvens que eram as sombras de sua infância…

Amei-te e por te amar
Só a ti eu não via…
Eras o céu e o mar,
Eras a noite e o dia…
Só quando te perdi
É que eu te conheci…
(…) Fernando Pessoa – pág. 212

Enquanto cumpria seu ritual de espera, observava o mundo e seus tolos movimentos, alguns eram absolutamente desnecessários, enquanto outros eram contagiantes; como o daquela farfalla (borboleta) que ficava “farfallando” a sua frente até que ela interrompesse seu vôo com suas duas pequeninas. Todo um cuidado foi tomado para não machucar suas asas e ali com os olhos entre as mãos junto aquele pequenino ser, a menina calou-se (justo ela que falava sem parar) seus olhos romperam um limiar como nunca antes e em meio as lágrimas, ela devolveu aquele pequeno ser de asas azuis ao ar. A pequenina não fugiu; permaneceu “farfallando” pelos arredores, de flor em flor, de folha em folha, se aquecendo com os últimos raios de sol. O sorriso que se desenhou naqueles lábios foram a tradução de uma paixão que iria com ela por toda a vida. Ela poderia ter se apaixonado pelos pássaros, que também tem asas e voam muito mais alto que a farfalla, mas não são tão alegres e desengonçados como aquele pequenino ser que seria desenhado milhares de vezes em folhas diversas. Era uma paixão, dessas que invadem e ditam o ritmo de toda uma existência…

“Minha amiga deve ser um pássaro,
Porque voa!
Deve ser imortal, porque morre!
Tem ferrão tal e qual a abelha.
Ah, singular amiga, tu me intrigas!”

Emily Dickinson

Mais tarde, a bordo de seus doze anos, novamente se apaixonou. Paixão humana, densa. A mulher que lá estava diante dela usava óculos a frente dos olhos e quando precisava observar algum aluno, inclinava-se pra frente e olhava por sobre as lentes. Era um gênio. Dizia palavras inquietantes, citava poetas ilustres e sabia tanto e de tantas coisas. Sobre sua mesa, deixava livros de homens e mulheres que pra ela ainda eram ilustres desconhecidos. Bebias-os. Páginas inteiras em  poucos minutos. Queria chegar no dia seguinte e dizer “tem mais?” e as duas se encontravam na biblioteca, e em alguns cantos secretos adquiridos ao longo daquela trajetória. Liam uma para a outra. Trocavam opiniões, sorrisos, olhares. Ela foi sua primeira correspondente sem selo. Durante as férias, linhas inteiras foram escritas e entregues no primeiro dia de aula quando soube que aquele seria o último ano na companhia daquela mulher. Chorou uma semana inteira. Não poderia ser assim. A mulher estava de fato indo embora: viver outras aldeias, outras escolas, outros alunos. Como era injusto. Mas não adiantava esbravejar. Seria assim e ela, a professora, prometeu manter contato, com linhas inteiras de literatura e notícias… A paixão seria mantida, renovada a cada carta ofertada aos olhos da menina que se apaixonava por todos aqueles dizeres: escritos a moda antiga, em folha amarelecida com caneta tinteiro; letra desenhada, adocicada que ela namorava com entusiasmo, como quem cumpre um ritual recém adquirido. Chegava da escola, verificava a correspondência no móvel de entrada, e em meio a tantos envelopes estranhoas, descobria aquela composição fina, rica em textura e deliciosamente recheado com palavras. Ela corria para a cozinha onde preparava o seu chá, sentando-se junto a mesa para se deliciar com aquelas linhas… Até que um dia o silêncio se impos, restando apenas o vento a tumultuar os envelopes sobre o móvel.

As tuas insatisfações, por outro lado,
Chegam pela ranhura da caixa do correio com regularidade amorosa,
Brancas e vazias, expansivas como monóxido de carbono.”
Sylvia Plath

Mais tarde, a paixão foi pela dor. As perdas e derrotas somadas a levaram de encontro a certeza de que viver era uma coisa dolorida e era preciso ser assim para que tudo fizesse sentido. Então sofria até a exaustão, distanciava-se de quem se aproximasse e por fim, construiu um silêncio devastador que a manteria mergulhada naquela dor insuportável. Viver é essa coisa doída e se sofria, sentia-se resignada porque os poetas sofrem e ela já imaginava fazer parte daquele seleto grupo de sofredores que sabiam muito bem o quanto dói viver. Anos inteiros mergulhados naquela dor que rasgava a pele com memórias que não se gastavam, não se cansavam. Enquanto pode, ela se obrigou aquele caminho tortuoso onde ainda haviam marcas daquele incêndio irresponsável que havia transformado parte de sua história em cinzas. Nada é por acaso, diziam os mais sábios a quem ela dava de ombros, sofrendo seguidamente a dor que lhe cabia e que de certa forma a alimentava…

(…)E tudo sempre é agora. As palavras distendem,
Sob a tensão, tropeçam, escorregam, perecem,
Apodrecem com a imprecisão, não querem manter-se no lugar,
Não querem quedar-se quietas. Vozes ríspidas,
Irritadas, zombeteiras, ou apenas tagarelas,
Sem cessar as criticam
(…) T.S.Eliot

Conta essa lenda, que os anos passaram e as paixões se multiplicaram: por objetos, pessoas, sentimentos, palavras, lugares, multidões inteiras. As vezes, ela se arrasta para um canto e chora incessantemente. Depois abre o sorriso e saí por aí, vagando pelas calçadas, colhendo olhares de uma gente que nada sabe sobre ela. Ela gosta de saber que é uma estranha pra quem está lá fora. As vezes se abandona junto as varandas bem merecidas com xícaras de chá e lembra das palavras que chegavam naquelas finas folhas amarelecidas que falavam de uma vida tranquila, vivida ao lado de um pequeno cão de nome engraçado e se convence de que nada mudou. A mulher apenas esqueceu-se dela e há satisfação nisso porque ser esquecida é algo que definitivamente não a incomoda.

(…)
Ele era o meu Norte, o meu Sul, o meu Leste e Oeste,
Enquanto viveu foi minha semana de trabalho,
o meu descanso de domingo,
Meu meio-dia, minha meia-noite, minha fala, meu canto;
Era meu amor e deveria ser eterno. Não foi: enganei-me.
Auden

Hoje, ela anda apaixonada por outras coisas: pela palavra da menina que se explica em seus posts. Pelo medo que atinge a pele da mulher que tem sido desenho para os seus versos, pelo homem que anda distante e perto, pelos rascunhos que ela descobre quando revira a gaveta; pelos livros que ela encontra pelo caminho, pelas vidas que ela inventa e pelos amigos que se ofertam em palavras. A maioria vem de longe e nunca hão de se encontrar e ela sabe que de repente, um dia haverá aquele silêncio natural e alguém, em algum lugar, será esquecido…. Ela é menina ainda, também é mulher. Não é uma apenas. Isso ela nunca foi. Ela é várias e sabe disso. E sabe também que nunca estará sozinha de fato porque suas paixões seguem fazendo sombra em sua derme e basta uma canção de fundo para ela reviver um pouco de tudo isso. Ainda agora quando o sorriso chega aos lábios e as lágrimas aos olhos, ela sente aquela dor que a silencia e diz “grite com o papel que passa”. E ela deixa tudo e vai viver sua paixão, sentindo tudo excessivamente até que a exaustão a leve pra cama, e lá, deitada de bruços, com a cabeça enfiada no travesseiro e os olhos grudados na paisagem, ela acaba se perdendo junto as nuvens brancas, cinzas, claras e escuras; saboreando apenas mais uma de suas muitas paixões. Enquanto isso: ela descansa de si mesma e resmunga versos antigos:

Podia viver – viveu. Podia morrer – morreu.
Se não estiver viva
Os céus não podem guardar seu segredo!
Senti um funeral dentro de mim,
Duas borboletas saíram ao meio dia,
Tendo como destino o mar
E sem flor alguma para abraçar,
restou apenas a solidão comum do céu
Emily Dickinson

E se você é um desses humanos que acredita que a paixão seja essa coisa vaga, que vive na pele de uns muito mais de que de outros. Sou feliz por saber que essa menina que é brisa fria junto a minha pele não pensa como você porque pra ela, paixão é alimento da alma, é movimento, silêncio, veneno que fica no copo, água que caí do céu, sol que brilha entre as folhas da jabuticabeira, olhos se revelando a outros olhos, lábios se precipitando junto a outros lábios, mãos se acariciando enquanto passos são inventados junto as calçadas, abraços entregue a braços abertos, pé frio sendo aquecido no meio da noite, latido pedindo afago, palavras narrando vidas, histórias, ilusões, personagens saltando da pele humana na qual se esbarra pelas esquinas, encontro inusitado no vagão do trem, sentimento que surge ao apanhar um graveto no meio do caminho, desencontros causados pelos ponteiros desorientados, páginas escritas por outros que parecem narrar o que vai aqui dentro…
Paixão é o que faz essa menina escrever, dançar, rasgar-se, encantar-se. É o que faz dela esse ser entusiasmado e atento as coisas mais simples como um punhado de nuvens vagando pelo céu e avisando “é hora de mudar de estação”…

“Escureceu: acinzentou-se de longe
O horizonte parado
Será a alma parda ou tom de monge…
meu corpo fatigado
Meu corpo fatigado da alma
Quantos poros terei para a calma!
Fernando Pessoa

Nota.
1 – Os poemas que intercalam os textos foram anotados ao longo dos dias em agendas que não tinha compromissos com outras coisas que não a paixão da menina que gosta de outono e farfallas, Chopan e páginas em branco, envelopes e caderno novo…

Uma “missiva secreta” escrita pra você…

clip_image001Sentei-me aqui para ler o horizonte e a varanda começou a contar-me de ti em meio aos seus contornos antigos. Tem tanto de mim aqui nesses cantos. Tem tanto de outras pessoas, algumas delas já se foram. Outras apenas passam por aqui quando não tem outros lugares para ir. Tanto desse lugar já está em repouso, em silêncio e não sei se irá despertar. Creio que o sono profundo será seus sons daqui pra frente. Sinto na pele um anúncio de despedida. Ele parece acenar para mim com todos os seus pretéritos.

clip_image001[8]Os degraus ali debaixo contam lendas sobre uma menina e seus cachos que nunca tinham ido muito além de meia dúzia de esquinas até chegar até aqui dias antes do primeiro inverno branco de sua vida. Contam também encontros de braços que se vestiam de forma simples e natural. Sorrisos surgiam em meio a palavras carinhosas ofertadas por estranhas meninas das quais os nomes pareciam conhecidos como se o vento falasse delas há tempos… Falam ainda de um velho homem de aparência redonda e amável que movimentava todos os músculos de seu corpo quando gargalhava e levava todos com ele porque aquele som era contagiante. Ele se foi num dia de chuva, como gostava, cavalgando; estava ele em busca de um cavalo assustado, na certa iria acalmá-lo e traze-lo de volta pra casa. Ele sabia como poucos o que eles diziam e pobre daquele que dissesse “cavalos não falam nono” ele nada dizia, mas seu silêncio era feito faca afiada a atravessar as entranhas. Gostava daquele olhar livre de maldade, vestindo apenas descaso. Acho que herdei isso dele. Gosto de pensar que sim…

A casa agora está vazia, silenciosa. Falta o cão a andar de um lado para o outro e sinceramente faltam muitas outras coisas também. Já não é mais como antes. É apenas uma casca com recordações minhas e de tantos outros. Mas as últimas visitas parecem ter ofendido todas essas memórias. Lembro de quanto essa varanda reunia dúzias de olhares, centenas de sorrisos e a felicidade daquele homem que tinha ali naqueles movimentos a sua realização. Ele era feliz na maior parte do tempo e gostava da casa cheia, de amigos, mas preferia os cavalos, como eu prefiro os cães. Tem uma foto dele ao lado da lareira, é onde ficam as fotos das pessoas que já se foram. Uma alusão ao fogo e sua perversa motivação. Tudo dura pouco, não é mesmo? As coisas se acabam e você nem se dá conta disso. Quando abre os olhos numa manhã, percebe a casa vazia, ausente de passos e mesmo assim espera. Fica a centímetros da porta de entrada esperando que todos voltem; mas o passado não é um ioiô e só volta em partes, nada físico, apenas metafísico….

E a paisagem se perde do lado de dentro da gente. As lágrimas visitam a face e a pele fica inebriada. A melancolia toma conta do corpo e você aos poucos vai ouvindo aquelas conversas de fim de tarde, com xícaras e livros na mesa da varanda. A escada desenha passos e trás de volta a ilusão daqueles que não estão mais aqui. O sorriso da menina de cachos floresce por alguns segundos e eu a vejo ali, sentada, com seu livro ao lado daquela dama que ela tanto admirava, esperando pelo homem que hoje é apenas um mito, uma lenda que não desaparece porque ela o leva consigo em suas margens. Eu o vejo chegar com seus braços abertos para onde ela salta com toda a segurança porque sabe que ele a fará voar por cima de todas as coisas demasiadamente humanas.

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Mas basta uma leve distração pra tudo voltar ao vazio sem sons ou movimentos. De real, apenas o maldito carrilhão com seus sons que ultrapassam tempo e espaço. Ele assustava a menina em suas primeiras horas, depois passou a ser música para embalar uma juventude que teve suas euforias, seus dramas, decepções, mudanças. Teve tantas coisas e ele narrou a maioria delas. Hoje ele é apenas um móvel articulado que serve para despertar o que ainda resta de ilusão.

A casa está vazia e o eco dos meus passos me incomodam. Quero ir embora e dizer que não vou mais voltar, mas é mentira porque por enquanto esse cenário é tudo que eu tenho de meu. Minha história passa por aqui e essa história que me levou até você. Lembra? Você deu uma dúzia e meia de passos em minha direção e me presentou com o seu abraço. Há tempos que alguém não me abraçava porque eu não queria proximidade com humanos. Até você chegar, eu achava que eu tinha uma maldição reinando em minha derme. Mas você com seu sorriso de menino, seu abraço de homem e seu olhar canino foram ficando e hoje, não importa a distância, sempre há algo para te contar ou algo a ouvir de você…

Menina no sótão…

João Carlos Martins

“A VIDA É FEITA COM A DISCIPLINA DE ATLETA E A ALMA DE UM POETA”. (JCM)

 

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Eu confesso que não gosto de Carnaval, mas as vezes é bom saber que existe um meio de consagrar a lembrança ou a imagem de um homem quando este é sinônimo de exemplo para os demais.

Assisti ao desfile da Vai Vai “por acaso” (se é que de fato o acaso existe. Eu confesso que nunca dei credibilidade a ele). Enfim, quando a Vai Vai entrou na avenida, soube então que a escola contaria a vida de um homem que ainda está entre nós e isso por si só já mereceu a minha atenção porque nós temos a estranha mania de só valorizar aqueles que morreram e acredito deveras que muita gente até então, não fazia idéia de quem era o personagem João Carlos Martins que não conseguiu conter as lágrimas em pleno sambódromo.

Eu soube dele no Programa do Faustão, num desses dias em que o futebol te faz dormir e quando você acorda lá está aquele homem falando suas bobagens, mas algo enfim te chama atenção justamente quando você já estava pronta para fazer uso do controle remoto em mãos (eu confesso que televisão me faz dormir).

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Enfim, lá estava o homem e sua história: soube então que ele se apaixonou pela música e começou a tê-la em sua vida ainda menino e logo aos oito anos, seu pai o inscreveu em um concurso para executar obras de Bach do qual saiu vencedor. Foi então estudar no Liceu Pasteur… Anos mais tarde ele já estudava seis horas diárias de piano por dia visando alcançar a perfeição. Desejo da maioria dos artistas. E o resultado veio em seus primeiros concertos que recebeu atenção de toda crítica mundial especializada. O músico se apresentou no Carnegie Hall, acabou convidado a tocar com as maiores orquestras dos Estados Unidos e por fim gravou a obra completa de Bach para piano.  Mas o homem viu seu sonho de infância ruir durante um jogo de futebol em Nova Iorque. Um acidente causou o rompimento de um nervo que fez com que ele perdesse o movimento de sua mão direita. Parte dos movimentos foram recuperados depois de inúmeros tratamentos e ele precisou reaprender a tocar piano. Mas anos mais tarde novamente o homem se viu diante de um impedimento: uma doença chamada LER cuja causa é o excesso de movimentos repetitivos que provoca uma espécie de stress dos nervos o fez parar de tocar. Sua alma de artista novamente estava preso a um corpo como se este fosse sua jaula.

Num momento de insensatez ou talvez devaneio, o homem vendeu todos os seus pianos e foi ser treinador de boxe. Não durou muito, a distância não diminuiu sua paixão pela música e ele voltou ao cenário para o qual nasceu para estar. Comprou novos instrumentos e reinventou-se enquanto pianista: o músico inovou ao fazer uso de um estilo único para tocar utilizando-se da mão esquerda. Novamente brilhou, mas não definitivamente, ao sair de um concerto em Sofia na Bulgária, foi assaltado e um golpe na cabeça tirou dele parte do movimento de suas mãos: a esquerda foi a mais afetada. Foram anos de tratamento, treinamentos e sofrimento para reaprender a fazer o que ele sempre soube: tocar piano. O músico sobreviveu naquele corpo; utilizava os dedos que podia, mas já não podia tocar como antes…

Em 2004 toda a dedicação do homem por sua alma virou um documentário fraco alemão chamado Die Martins Passion que venceu quatro festivais internacionais. No Brasil “Paixão segundo Martins” foi exibido pela Tv Cultura.

“Eu estava sem rumo, em 2003, já sabendo que não poderia mais tocar nem com a mão esquerda. Sonhei então, que estava tocando piano, com o Eleazar de Carvalho, que me dizia: – vem para cá, que eu vou te ensinar a reger”. disse João Carlos Martins em entrevista.

imageFoi então que o músico tornou-se maestro e como não podia segurar a batuta e tão pouco virar as páginas das partituras, o homem fez uso de sua memória, decorando nota por nota. Em maio de 2004, esteve em Londres para reger a English Chamber Orchestra, uma das maiores orquestras de câmara do mundo. Gravou seis Concertos Branndenburguenses de Bach, e em dezembro do mesmo ano gravou a Quatro Suítes Orquestrais de Bach com a Bachiana Chamber Orchestra.

No Brasil, ele criou a Fundação Bachiana juntamente com um grupo de músicos e empresários. Em 2007 foram 110 apresentações para mais de 200 mil pessoas e hoje é a única iniciativa de sucesso de uma orquestra privada no Brasil. O trabalho é feito não só pela Bachiana Filarmônica, mas também pela Orquestra Bachiana jovem que é formada por 35 novos talentos da música erudita brasileira. Atualmente o projeto recebe o incentivo do SESI São Paulo.  

Esse é um homem cujo conceito de herói encontra um sinônimo natural. Eu confesso minha admiração pela história de vida desse homem que não desistiu diante das adversidades e ouso aqui finalizar esse post com um texto publicado no blog do Maestro:

Existe apenas uma idade para sermos felizes, apenas uma época da vida de cada pessoa em que é possível sonhar, fazer planos e ter energia suficiente para os realizar apesar de todas as dificuldades e todos os obstáculos. Uma só idade para nos encantarmos com a vida para vivermos apaixonadamente e aproveitarmos tudo com toda a intensidade, sem medo nem culpa de sentir prazer. Fase dourada em que podemos criar e recriar a vida à nossa própria imagem e semelhança, vestirmo-nos de todas as cores, experimentar todos os sabores e entregarmo-nos a todos os amores sem preconceitos nem pudor. Tempo de entusiasmo e coragem em que toda a disposição de tentar algo de novo e de novo quantas vezes for preciso. Essa idade tão fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa… (Mario Quintana)

Parabéns a Vai Vai e ao Maestro João Carlos Martins
pela vitória,  no carnaval e na vida…

http://www.fundacaobachiana.org.br/

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Sobre o título da Vai-Vai “A Música vence!”, João Carlos Martins diz que “é a vitória da música clássica, é o nome de Bach do Sambódromo. Eu tive uma vida cheia de altos e baixos e é um reconhecimento da seriedade dos meus trabalhos, tanto na música quanto na parte social.”
Portal G1