08

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

clip_image001

Já era noite quando Augustus chegou a casa. As meninas já estavam dormindo e Nhá Maria o esperava com uma vela em mãos, estava visivelmente preocupada. Ele estava todo molhado, a pele fria e o olhar indiferente a sua própria condição. Ela se apressou em buscar uma toalha. Quis ajudá-lo, tentou fazê-los tirar aquelas roupas molhadas, mas ele só quis saber das meninas. Arrastou-se até a cozinha, sentando-se a mesa com o pesar de mil anos sobre seus ombros e lá ficou. Pediu uma café quente, amargo e forte e o bebeu num gole só.

Nhá Maria sentia pena, mas tentava não demonstrar. Queria vê-lo comer, insistiu mais duas ou três vezes na tentativa de fazê-lo se livrar das roupas molhadas, mas ele só tirou o casaco pesado.

_ As meninas drumiram, mas a menina Pérola demorou que só pra drumi seu Augustus. Num queria de jeito nenhum ficá na cama a bichinha. Queria por que queria esperá pelo sinhô. Foi um custo pr´ela drumi. – Nha Maria, como de costume, retinha as mãos junto ao corpo em movimentos aflitivos, ainda haviam medo na pele daquela mulher que durante anos não podia olhar nos olhos de seu dono porque o tronco era sempre o destino dos negros que ousavam enfrentar o velho coronel.

Mas Augustus não se parecia em nada com aquele homem. Não dava pra imaginar aquele italiano com uma chibata em mãos surrando outro homem. Ele tinha um coração imenso, se preocupava com os seus empregados e gostava de sentar no meio deles no final da noite pra tomar uma caneca de café e ouvir as cantorias de sua gente que era sempre muito festiva.

Tão logo comprou a fazenda pôs a senzala abaixo e mandou construir no lugar delas um punhado de casas para onde se mudaram os primeiros empregados devidamente remunerados da fazenda que agora queriam render homenagens a professora de suas crianças dando ao lugar o nome de “Vila Don´Antônia”.

Nhá Maria gostava de pensar que ela ficaria satisfeita em ser lembrada por aquela gente que ela sempre considerou como sendo parte de sua família.

 

>> continua…

06

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

image 
A ilusão não demorou a voltar a pele de Augustus. Embora tentasse manter sua lucidez, aos poucos a fraqueza se apoderava de sua derme. Suas mãos se agarravam a terra como se ao fazê-lo pudesse reter a realidade em suas veias; mas o toque aquecido daquela mão macia e perfumada junto ao seu ombro o arrastou para dentro daquela ilusão tão desejada por ele.

Augustus já não era mais capaz de discernir realidades. Num movimento rápido de seu corpo, ele se uniu ao olhar dela, alcançando-a e colhendo seu toque uma vez mais. Suas mãos se reencontraram e ele pôs-se a beijá-la.

_ Andiamo voltare pra casa amore mio.

Não era fácil acreditar no que seus olhos viam. Ele relutava. Rompia com as imagens, cerrava os punhos numa retidão custosa. O pranto fugia por seu rosto

_ Ma me escuta: as nostras bambinas estão esperando por você em nostra casa. Você precisa vorta pra cuidar delas como me prometeu.
_ Ma io non consigo. Eu não posso fazer isso sem você. Ma vamo vorta junto pra casa.

Ele fechou os olhos tão logo as mãos dela aterrissaram em seu rosto para aquele carinho de mãos que ela gostava de entregar a ele desde que se conheceram; mas logo ele percebeu novamente sua realidade e a solidão que se compunha a sua volta. Meia dúzia de passos o levaram para baixo de uma árvore. Seu corpo deixou todo o peso se acomodar junto aquele tronco e silenciosamente ele passou a indagar sobre aquela promessa: ele era apenas o homem para quem elas corriam para abraçar no final da tarde quando ele estava de volta da lida; era o homem que vez ou outra as colocava na cama e lia histórias tolas até dormirem; era o homem que deixava beijos pela manhã antes de sair e sentia-se feliz por vê-las tranqüilas em suas camas em meio aquele sono lúcido e profundo. Mas todo o trabalho de educá-las sempre ficou para Antonia que vivia para elas; era atenciosa, carinhosa; mas sabia ralhar quando havia certos exageros. Ela dizia que Pérola era sensível, quieta e observadora; enquanto a mais velha: Paola era arredia, apressada e barulhenta. Sempre que falava das filhas, exaltando suas qualidades ela sorria e buscava reconhecer os traços deles dois nas pequenas. Antônia achava Pérola mais parece com o marido, enquanto Paola se parecia com ela e isso a fazia dizer “é preciso impor limites a essa menina desde já ou teremos sérios problemas nhá Maria” – mas o sorriso não desaparecia nem mesmo quando as preocupações se faziam perceber.

>> continua…

04

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

clip_image001

O corpo de Augustus permanecia imóvel junto aquela cadeira. Suas roupas agora estavam ensopadas. Seus olhos gotejavam a água da chuva que parecia emprestar a ele as lágrimas que já lhe faltavam; enquanto as lembranças se multiplicavam em sua mente, em sua pele, em suas feições…

Ele podia sentir o toque suave daqueles lábios que tantas vezes ele beijou; sentia junto as suas mãos úmidas e frias o calor e a textura daquela pele que tantas vezes ele despia. Tudo agora eram apenas lembranças se ecoando em seu âmago e a realidade era aquele amontoado de terra a esconder de seus olhos a figura pálida na qual sua bela Antônia havia se transformado nos últimos dias. Ele nem mesmo havia percebido sua doença. Não conseguia entender porque ela havia preferido sofrer em silêncio e se culpava por sua distração.

Tomado por uma forte insensatez, os olhos de Augustus viram uma ilusão colorida que o fez sorrir. Era ela e sua voz de seda… Ele suspendeu a mão, levando-a de encontro aquele rosto delicado que estava ali a sua frente; mas não foi possível alcançá-la. A ilusão se desfez, restando novamente apenas o vazio que fez com que ele mergulhasse o rosto em suas mãos, se rendendo uma vez ao desespero.

_ Ma, me perdoa Antônia. – gritava ele, enquanto seu corpo fragilizado pela dor que seu intimo embalava ia ao chão, ajoelhando-se como se entoasse uma reza, uma súplica, um lamento. Augustus confessava-se culpado e esperava uma punição pelos seus gestos egoístas; estava disposto a dar sua vida pela dela; estava disposto a qualquer coisa, mas era tarde demais, não havia que ele pudesse fazer.

E ali, em meio aquele pranto solitário, remoendo as terras do chão com as próprias mãos, ele implorava o perdão que ele não era capaz de dar a si mesmo.

 

>> continua…

03

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

image

Em poucos segundos o azul do céu se recolheu, um forte vento agitou as folhas mais altas das árvores para logo em seguida perturbar vestidos, casacos e chapéus. Seria uma resposta? Indagava-se ele em seu canto miserável…

As meninas foram levadas por Nhá Maria, empregada da casa grande, que antes tentou arrancar Augustus de sua cadeira, mas ele era pesado demais para que pudesse ser obrigado a qualquer movimento que não fosse desejado por ele. Desistiu. Abandonando-o ali para ocupar-se das meninas; pondo-se a correr, arrastando-as até a casa grande…

O véu da tarde rasgou-se ao meio, fez-se noite antes da hora em meio aquela cortina negra de nuvens que fez chover por toda a região. O silêncio até então intenso cedeu lugar aos trovões e aos relâmpagos que cortavam o céu de um lado ao outro em frações de segundos. O tormento agora não estava mais restrito aquele homem. Fazia tanto barulho que a caçula tapava os ouvidos com as mãos, encolhendo-se junto às pernas de Nhá Maria que tentava tranqüilizá-la “já vai passar bambina, já vai passar” – dizia ela, enquanto olhava para a janela e embalava sua preocupação em meio a seguidos suspiros profundos. Augustus não voltava pra casa.


>> continua…

 

03

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

image

Em poucos segundos o azul do céu se recolheu, um forte vento agitou as folhas mais altas das árvores para logo em seguida perturbar vestidos, casacos e chapéus. Seria uma resposta? Indagava-se ele em seu canto miserável…

As meninas foram levadas por Nhá Maria, empregada da casa grande, que antes tentou arrancar Augustus de sua cadeira, mas ele era pesado demais para que pudesse ser obrigado a qualquer movimento que não fosse desejado por ele. Desistiu. Abandonando-o ali para ocupar-se das meninas; pondo-se a correr, arrastando-as até a casa grande…

O véu da tarde rasgou-se ao meio, fez-se noite antes da hora em meio aquela cortina negra de nuvens que fez chover por toda a região. O silêncio até então intenso cedeu lugar aos trovões e aos relâmpagos que cortavam o céu de um lado ao outro em frações de segundos. O tormento agora não estava mais restrito aquele homem. Fazia tanto barulho que a caçula tapava os ouvidos com as mãos, encolhendo-se junto às pernas de Nhá Maria que tentava tranqüilizá-la “já vai passar bambina, já vai passar” – dizia ela, enquanto olhava para a janela e embalava sua preocupação em meio a seguidos suspiros profundos. Augustus não voltava pra casa.


>> continua…

 

02

Para ler o capítulo anterior, clique aqui…

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

image

A pele de Augustus nutria inúmeros tormentos enquanto sua mente alimentava a culpa por aquele desfecho; as mãos pareciam envergonhadas, retidas junto ao corpo, enquanto os olhos vasculhavam os arredores em busca de perdão pelos erros cometidos. O momento era de lamento. Ele rejeitava sua própria teimosia, pensava em como tudo seria diferente se ele não tivesse suas ambições. O sonho realizado expunha finalmente seu preço; os dissabores eram muitos e as forças quase nenhuma.

As pessoas aos poucos se afastavam; já não havia mais o que fazer ali. Alguns ainda tentavam ser gentis antes de voltar para suas vidas; diziam entender a dor que Augustus sentia. Outros davam de ombros ao se lembrar das próprias perdas, superadas há tempos; para estes a cura estava no dia seguinte, afinal, a vida continuava para os que haviam ficado.

Os olhos de Augustus ignoravam tudo que era paisagem, mergulhando no mais alto céu em busca de uma resposta capaz de levar alívio ao seu coração. Queria uma justificativa para aquela perda que não lhe parecia justa. Implorava secretamente uma explicação, pois para ele tudo estava fora de lugar. Seu pensamento subiu aos céus sem que ninguém percebesse; aquele era um diálogo sem testemunhas entre ele e seu Deus de quem sempre se lembrou; nos bons e maus momentos, então era justo exigir dele uma resposta. Uma espécie de grito irrompeu seu íntimo, rasgando-o ao meio “não é justo signore. Ma perche a tirastes de mim? Ma que foi que fiz eu pra ti? Eu não fui egoísta, ma io só queria um pedaço de chão pra criar uns boizinhos e cuidá da minha famiglia. Ma che de errado tem nisto? Diga-me. Io te peço”.

Nenhuma palavra de conforto o alcançou, nenhuma resposta; ele se sentia desolado, sozinho, abandonado junto as lembranças de uma vida que já não tinha mais sentido algum pra ele.

>> continua…

02

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

image

A pele de Augustus nutria inúmeros tormentos enquanto sua mente alimentava a culpa por aquele desfecho; as mãos pareciam envergonhadas, retidas junto ao corpo, enquanto os olhos vasculhavam os arredores em busca de perdão pelos erros cometidos. O momento era de lamento. Ele rejeitava sua própria teimosia, pensava em como tudo seria diferente se ele não tivesse suas ambições. O sonho realizado expunha finalmente seu preço; os dissabores eram muitos e as forças quase nenhuma.

As pessoas aos poucos se afastavam; já não havia mais o que fazer ali. Alguns ainda tentavam ser gentis antes de voltar para suas vidas; dizendo entender a dor que Augustus sentia. Outros davam de ombros ao se lembrar das próprias perdas, superadas há tempos. Para estes a cura estava no dia seguinte, afinal, a vida continuava para os que haviam ficado.

Os olhos de Augustus ignoravam tudo que era paisagem, mergulhando no mais alto céu em busca de uma resposta capaz de levar alívio ao seu coração. Queria uma justificativa para aquela perda que não lhe parecia justa. Implorava secretamente uma explicação, pois para ele tudo estava fora de lugar. Seu pensamento subiu aos céus sem que ninguém percebesse; aquele era um diálogo sem testemunhas entre ele e seu Deus de quem sempre se lembrou; nos bons e maus momentos, então era justo exigir dele uma resposta. Uma espécie de grito irrompeu seu íntimo, rasgando-o ao meio “não é justo signore. Ma perche a tirastes de mim? Ma que foi que fiz eu pra ti? Eu não fui egoísta, ma io só queria um pedaço de chão pra criar uns boizinhos e cuidá da minha famiglia. Ma che de errado tem nisto? Diga-me. Io te peço”.

Nenhuma palavra de conforto o alcançou, nenhuma resposta; ele se sentia desolado, sozinho, abandonado junto às lembranças de uma vida que já não tinha mais sentido algum pra ele.

>> continua…

01

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

image

Tarde de sábado, céu azul com nuvens beliscando a paisagem, sem vento ou qualquer expressão de movimento que seja por parte da natureza que se mostrava estática diante daquela triste cena que ocupava parte da fazenda “Monte Sião”…

Sob a sombra de uma árvore na afastada paisagem do verde campo, alguns homens lançavam seguidamente pás de terra sobre aquele caixão que aos poucos era engolido pelas terras daquela fazenda. Um suspiro sofrido, doído pôde ser ouvido em meio a todo aquele silêncio que só foi substituído minutos depois pela voz grave do padre que se dedicava ao seu velho discurso, conhecido por quase todos naquela região.

Dentre todas as fazendas, Monte Sião era a que nutria a mais bela das paisagens: seu horizonte exibia o verde espetacular dos cafezais enquanto o céu parecia uma pintura cuidadosamente produzida para aquele fim de tarde: nuvens brancas se esparramavam pelo azul do céu imóvel, enquanto o sol ardia por cima de todas as coisas vivas… Nada se movia: a primavera aquecida não acalentava ventos e o calor do verão já se fazia sentir como promessa de dias demasiadamente quentes. E o mês de novembro estava apenas começando.

Sentado numa velha cadeira artesanal, sem forças e ainda tentando aceitar aquele destino desumano, estava Augustus, um italiano que havia atravessado o oceano em busca de um futuro melhor para ele e sua família há pouco mais de um ano; mas diante de sua nova realidade – futuro era uma palavra que já não apresentava mais um sentido possível. Seus olhos estavam visivelmente desolados, seu rosto inteiro refletia a dor que ele trazia em seu íntimo. Já não havia lágrimas capazes de externar seu sentimento de perda; tudo que tinha em sua pele era o vazio dos dias seguintes. Algumas pessoas passavam por ele e na tentativa de confortá-lo, davam-lhe tapinhas junto aos ombros. Deixavam palavras amáveis junto ao seu corpo; lembravam a ele que era preciso seguir adiante, afinal, havia suas duas meninas e era preciso se ocupar delas; lembravam-no que a educação de ambas agora dependia unicamente dele. Pediam para que fosse forte, insistiam dizendo “força homem, pense nas suas meninas”… Mas ele nada ouvia além da voz suave de sua bela Antônia que ressoava em seu íntimo…

>> clique aqui para ler o próximo capítulo…