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O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Nhá Maria cortou um pedaço de bolo e deixou ali sobre a mesa para Augustus que continuava a cultivar suas lembranças. Vez ou outra uma lágrima corria a solto pelo seu rosto. Ele não a detinha, seus movimentos estavam cada vez mais escassos. Já não levava a caneca de café a boca.

Ela preferiu ficar em silêncio a dizer aquele homem que aquela dor que ele estava sentindo iria passar, afinal, ela ainda sentia a dor da perda do filho que foi posto numa carroça com ferros no pescoço quando tinha pouco mais de cinco anos. Era uma peça, não era gente e foi dado em troca de algumas moedas. Ela ainda enxergava o olhar amedrontado do seu menino que foi embora chorando, gritando por ela e tudo que Nhá Maria pode fazer foi tampar os ouvidos para tentar não ouvir aqueles gritos que com o tempo foram ficando mais distantes, mas ainda estavam lá em seu íntimo. Ela se lembrava dele quando a noite caía e ela se recolhia a escuridão que em alguns dias era tão negra quanto ela. Nada sabia do menino que foi dela durante alguns anos, tudo tão breve, tão dolorido. Mas ao menos ela tinha sua menina, que só não foi embora como as outras porque era filho do Coronel.

Ela tinha suas dores, mas a maioria já estava perdida. Os dias haviam passado e ela havia se acostumado com o sabor de certas ausências; mas entendia a dor de Augustus que pouco havia perdido em sua vida, até aqueles dias, ele somava conquistas e agora tinha que aprender a aceitar aquela derrota imposta a ele pela vida.

Nhá Maria nunca antes tinha segurado nas mãos de um branco como o fazia naquele momento. Não se sentiu constrangida por oferecer a ele o pouco que tinha e ele agradeceu com um sorriso opaco pelo muito que estava recebendo. Alguns minutos depois ele recolheu-se, arrastando seu corpo pesado até o quarto. No meio do caminho pensou em ver suas meninas, mas temeu assustá-las com sua figura destruída e não completou o movimento junto a porta. Deteve-se. A lembrança da promessa feita a sua amada novamente floresceu em sua mente fazendo-o buscar forças em seu íntimo “io vou cuidar delas amore mio como te prometi, mas io te juro que non sei como”.

Não distante dali, ainda na cozinha, Nhá Maria permanecia sentada com o pensamento nos dias seguintes. Não seriam fácies, ela sabia. A única certeza que nutria em seu peito era que ela estaria ali, como estava agora, junto aquela mesa que era iluminada pela luz de uma vela já pela metade. Em seu intimo ela embalava algumas saudades, algumas dores e se sentia humana como sempre foi. Mas houve um tempo antes em que ela não tinha o direito de se sentir assim. Agora isso já era motivo para um sorriso gostoso que crescia em seus lábios ao ouvir em forma de eco pela casa inteira a risada gostosa de Don´Antônia que segundos depois fez surgir lágrimas no rosto daquela negra que a menina Pérola tanto gostava de acariciar. Ela sentia as rugas que não tinha em seu rosto, tão lisinho e perfeito. A menina não enxergava cores, enxergava apenas o humano que existia ali naquele ser, que respirou fundo ao perceber que iria sentir muitas saudades daquela mulher abençoada…

Final do primeiro capítulo…

09

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Augustus seguia desorientado, bebia uma segunda caneca de café amargo em meio a intensos suspiros que ardiam em seu íntimo como se fosse um veneno a fazer seu efeito lentamente. Seu corpo parecia esperar pelo tombo no instante seguinte, mas havia aquela promessa gritando com ele, dizendo a ele que era preciso orientar-se. Suas mãos ásperas agarraram-se as mãos negras de Nhá Maria, muito mais ásperas que a dele. Ali naqueles vãos haviam marcas dos dias de escravidão. Tantas dores, perdas e ela suportava tudo sem nem saber direito o que já havia sentido. Mas ela entendia bem o que aquela velho homem sentia, era dor que se cristalizava em seu íntimo.

Ela não sabia dizer coisas bonitas, suas palavras eram simples, cheias de erros que freqüentemente eram corrigidos por don´Antônia, a mulher que ensinou a ela em poucos dias que olhar nos olhos é enxergar horizontes e havia tanta beleza numa simples frase que ela foi as lágrimas. Foi a primeira vez que Nhá Maria ganhou de uma pessoa tão branca um abraço como aquele, tão gostoso. Ela ainda sentia em sua pele aquele conforto natural e já fazia tempo, mas sempre que as mãos passeavam pela pele de seus braços lá estava a sensação agradável que a fazia sorrir.

Don´Antônia nem era branca de verdade, sua pele era levemente avermelhada, feito castanha. Era bonita, sabia sorrir, e gostava de olhar nos olhos das pessoas. Nos finais da tarde, sentava-se na varanda e pegava suas meinas no colo, contava histórias para passar o tempo. Era o seu jeito de esperar “por tuo amore”. Nhá Maria havia aprendido dúzias de palavras em italiano e as vezes achava graça ao repetir as palavras de Don´Antônia que sorria e dizia “vai acabar falando italiano melhor que eu” e as duas se permitiam sorrisos prolongados que podiam ser ouvidos a distância…

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08

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Já era noite quando Augustus chegou a casa. As meninas já estavam dormindo e Nhá Maria o esperava com uma vela em mãos, estava visivelmente preocupada. Ele estava todo molhado, a pele fria e o olhar indiferente a sua própria condição. Ela se apressou em buscar uma toalha. Quis ajudá-lo, tentou fazê-los tirar aquelas roupas molhadas, mas ele só quis saber das meninas. Arrastou-se até a cozinha, sentando-se a mesa com o pesar de mil anos sobre seus ombros e lá ficou. Pediu uma café quente, amargo e forte e o bebeu num gole só.

Nhá Maria sentia pena, mas tentava não demonstrar. Queria vê-lo comer, insistiu mais duas ou três vezes na tentativa de fazê-lo se livrar das roupas molhadas, mas ele só tirou o casaco pesado.

_ As meninas drumiram, mas a menina Pérola demorou que só pra drumi seu Augustus. Num queria de jeito nenhum ficá na cama a bichinha. Queria por que queria esperá pelo sinhô. Foi um custo pr´ela drumi. – Nha Maria, como de costume, retinha as mãos junto ao corpo em movimentos aflitivos, ainda haviam medo na pele daquela mulher que durante anos não podia olhar nos olhos de seu dono porque o tronco era sempre o destino dos negros que ousavam enfrentar o velho coronel.

Mas Augustus não se parecia em nada com aquele homem. Não dava pra imaginar aquele italiano com uma chibata em mãos surrando outro homem. Ele tinha um coração imenso, se preocupava com os seus empregados e gostava de sentar no meio deles no final da noite pra tomar uma caneca de café e ouvir as cantorias de sua gente que era sempre muito festiva.

Tão logo comprou a fazenda pôs a senzala abaixo e mandou construir no lugar delas um punhado de casas para onde se mudaram os primeiros empregados devidamente remunerados da fazenda que agora queriam render homenagens a professora de suas crianças dando ao lugar o nome de “Vila Don´Antônia”.

Nhá Maria gostava de pensar que ela ficaria satisfeita em ser lembrada por aquela gente que ela sempre considerou como sendo parte de sua família.

 

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07

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Enquanto caminhava de volta pra a casa grande em meio a lentos passos e a chuva que seguia caíndo, Augustus recordava certo fim de tarde de sol pelas colinas. Era dia de festa, todos estavam ensaiando movimentos alegres; as moças contavam em seus dedos quantos cavalheiros iriam tirá-las para dançar, mas Antônia preferia ocupar-se da decoração do local ao lado do irmão. Levava o cesto com bandeirolas coloridas de um lado para o outro enquanto ele subia na escada para pendurá-las.

Havia dúzias de raparigas naquela região, mas nenhuma outra conseguiu conquistar a atenção de Augustus que se escondia atrás do tronco de árvores para poder observar sua ragazza. Naquele fim de tarde, ele abandonou suas tarefas para ficar ali a espiá-la, ao menos até ter sua orelha puxada pelo pai que estava a esperar pelas coisas que ele deveria ter entregue no armazém. 

Antônia era filha do dono das terras onde ele trabalhava; Augustus era apenas um dos muitos homens que ajudava no cultivo dos mais de mil pés de oliveira, cujo fruto era utilizado na produção do melhor azeite de toda a Europa. Ele já tinha os seus sonhos de homem, embora fosse apenas um garoto: guardava cada centavo que ganhava para comprar o seu pedaço de terra; usava roupas velhas, maltrapilhas, sapatos furados, botas com solas gastas sem se importar com os risos que se multiplicavam a sua volta. Era do seu sonho que ele estava cuidando. Mas naquela noite, ele buscou por sua melhor beca; tomou banho, perfumou-se e foi para a festa encontrar sua prenda, que era cortejada por dúzias de rapazes, mas nunca aceitava os convites que lhe eram feitos; dançava apenas com seu pai e seu irmão vez ou outra. Na maior parte do tempo ela permanecia num canto, quieta, a espiar as outras meninas, empolgadas como sempre, como se a qualquer momento fossem encontrar um príncipe. Mas o que ninguém sabia é que ela já tinha encontrado o seu…

Augustus não se aproximava, ficava ali, como de costume, a espia-la: decorava seus traços, repetia os mesmos gestos, enquanto buscava coragem em seu íntimo para se aproximar da jovem que havia ateado fogo em seu coração. E lá estava ela, junto a mesa de doces, a degustar aqueles sabores típicos da Toscana, quando ele finalmente se aproximou. Nada disse, olhava para o chão, escondias as mãos atrás do corpo. estava nervoso. Mas num movimento repleto de confusão, entregou a ela uma pequena flor amarela recém colhida de algum jardim. Ela sorriu, buscando pela mão dele num gesto de agradecimento. Ele gaguejou qualquer coisa incompreensível e ela disse simplesmente “aceito” e ele a levou para dançar. Todos que acompanhavam aqueles movimentos souberam com antecedência o que viria a acontecer meses depois quando o pai de Antônia adentrou de mãos dadas com ela na capela para entregá-la a Augustus. Casaram-se e aquela passou a ser uma das mais lindas histórias de amor narradas incansavelmente pelos vales da Toscana…

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06

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A ilusão não demorou a voltar a pele de Augustus. Embora tentasse manter sua lucidez, aos poucos a fraqueza se apoderava de sua derme. Suas mãos se agarravam a terra como se ao fazê-lo pudesse reter a realidade em suas veias; mas o toque aquecido daquela mão macia e perfumada junto ao seu ombro o arrastou para dentro daquela ilusão tão desejada por ele.

Augustus já não era mais capaz de discernir realidades. Num movimento rápido de seu corpo, ele se uniu ao olhar dela, alcançando-a e colhendo seu toque uma vez mais. Suas mãos se reencontraram e ele pôs-se a beijá-la.

_ Andiamo voltare pra casa amore mio.

Não era fácil acreditar no que seus olhos viam. Ele relutava. Rompia com as imagens, cerrava os punhos numa retidão custosa. O pranto fugia por seu rosto

_ Ma me escuta: as nostras bambinas estão esperando por você em nostra casa. Você precisa vorta pra cuidar delas como me prometeu.
_ Ma io non consigo. Eu não posso fazer isso sem você. Ma vamo vorta junto pra casa.

Ele fechou os olhos tão logo as mãos dela aterrissaram em seu rosto para aquele carinho de mãos que ela gostava de entregar a ele desde que se conheceram; mas logo ele percebeu novamente sua realidade e a solidão que se compunha a sua volta. Meia dúzia de passos o levaram para baixo de uma árvore. Seu corpo deixou todo o peso se acomodar junto aquele tronco e silenciosamente ele passou a indagar sobre aquela promessa: ele era apenas o homem para quem elas corriam para abraçar no final da tarde quando ele estava de volta da lida; era o homem que vez ou outra as colocava na cama e lia histórias tolas até dormirem; era o homem que deixava beijos pela manhã antes de sair e sentia-se feliz por vê-las tranqüilas em suas camas em meio aquele sono lúcido e profundo. Mas todo o trabalho de educá-las sempre ficou para Antonia que vivia para elas; era atenciosa, carinhosa; mas sabia ralhar quando havia certos exageros. Ela dizia que Pérola era sensível, quieta e observadora; enquanto a mais velha: Paola era arredia, apressada e barulhenta. Sempre que falava das filhas, exaltando suas qualidades ela sorria e buscava reconhecer os traços deles dois nas pequenas. Antônia achava Pérola mais parece com o marido, enquanto Paola se parecia com ela e isso a fazia dizer “é preciso impor limites a essa menina desde já ou teremos sérios problemas nhá Maria” – mas o sorriso não desaparecia nem mesmo quando as preocupações se faziam perceber.

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05

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A paisagem inteira daquele lugar se comprimia sobre Augustus que permanecia ali junto ao chão, em seu estado de abandono, sem forças para levantar-se, com as mãos sujas de terra, o corpo molhado e ele totalmente indiferente ao frio que aos poucos se ocupava daquela derme castigada pela obrigação de continuar a existir.

“Non me lasciarmi, per favore, Antônia; vorta pro tuo amoré, vita mia”. – gritava aos céus, e se não fosse à forte chuva, e seus trovões ensurdecedores, alguém, de certo, teria ouvido…

A promessa feita a Antônia repentinamente se impôs como única lembrança em sua mente. Ele podia ouvir aquela voz fraca, frágil se repetindo junto aos seus ouvidos ao mesmo tempo em que sentia aquela mão fragilizada, já sem forças junto as suas, retendo seus movimentos, obrigando-o a ouvi-la. Ele queria que ela não se cansasse, mas ela só tinha um pensamento naquele instante. Era o seu último esforço. Ele insistiu para que descansasse; que deixasse as palavras para depois, mas ela queria ser ouvida… Queria colher junto a ele promessa de que iria se dedicar as meninas depois que ela se fosse. Ele se recusava; consentir era o mesmo que aceitar sua partida e isso ele não podia fazer, mas não houve outro meio.

Ela seguiu insistindo, usando o pouco de forças que ainda lhe restava. De seus lábios secos e já sem cor brotavam aquelas palavras parcas “ma me promete que vai cuidar delas amore mio, per favore, io non vou ter paz se não ouvir de ti a promessa de que irá cuidar das nostras bambinas. Io quero ouvir a tua promessa!” – e ele assentiu, prometendo o que não sabia de fato, naquele momento, se seria capaz de cumprir.

Depois de colher a promessa feita, Antônia finalmente descansou. A mão cedeu e Augustus colheu aquele último sorriso lúcido de seus lábios que recebeu um último beijo, permanecendo ali junto a pele já sem vida de sua amada que recebia aquele carinho de movimentos curtos e a súplica que se perdia junto aquele corpo que exibia uma calma inabalável como se estivesse apenas repousando para despertar tempos depois. A confusão de Augustus teve início, ele pediu para que todos saíssem para que ela pudesse descansar, parecia incapaz de compreender a morte de sua esposa, se recusando a dar ouvidos as palavras do médico que lamentava o ocorrido.

_ Eu sinto muito senhor Augustus…
_ Ela só está dormindo doutor e nós vamos deixá-la descansar. É do que ela precisa agora, não é?

O médico respirou fundo, recuou um ou dois passos, baixou a cabeça e concordou; acompanhando-o até a sala onde um café forte foi servido junto com as lágrimas da empregada que havia aprendido o valor de uma amizade através daquela mulher que ela chamava de don´Antônia, assim como todas as mulheres da fazenda o faziam.

Levou algum tempo para que Augustus aceitasse aquele desfecho e autorizasse os últimos cuidados para com a esposa que teve os cabelos penteados, a pele banhada em essência e vestida com sua melhor roupa. Junto ao pescoço a medalhinha de nossa senhora que ela havia ganhado no dia de seu casamento e nas mãos o rosário que havia sido um presente de sua mãe.

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04

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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O corpo de Augustus permanecia imóvel junto aquela cadeira. Suas roupas agora estavam ensopadas. Seus olhos gotejavam a água da chuva que parecia emprestar a ele as lágrimas que já lhe faltavam; enquanto as lembranças se multiplicavam em sua mente, em sua pele, em suas feições…

Ele podia sentir o toque suave daqueles lábios que tantas vezes ele beijou; sentia junto as suas mãos úmidas e frias o calor e a textura daquela pele que tantas vezes ele despia. Tudo agora eram apenas lembranças se ecoando em seu âmago e a realidade era aquele amontoado de terra a esconder de seus olhos a figura pálida na qual sua bela Antônia havia se transformado nos últimos dias. Ele nem mesmo havia percebido sua doença. Não conseguia entender porque ela havia preferido sofrer em silêncio e se culpava por sua distração.

Tomado por uma forte insensatez, os olhos de Augustus viram uma ilusão colorida que o fez sorrir. Era ela e sua voz de seda… Ele suspendeu a mão, levando-a de encontro aquele rosto delicado que estava ali a sua frente; mas não foi possível alcançá-la. A ilusão se desfez, restando novamente apenas o vazio que fez com que ele mergulhasse o rosto em suas mãos, se rendendo uma vez ao desespero.

_ Ma, me perdoa Antônia. – gritava ele, enquanto seu corpo fragilizado pela dor que seu intimo embalava ia ao chão, ajoelhando-se como se entoasse uma reza, uma súplica, um lamento. Augustus confessava-se culpado e esperava uma punição pelos seus gestos egoístas; estava disposto a dar sua vida pela dela; estava disposto a qualquer coisa, mas era tarde demais, não havia que ele pudesse fazer.

E ali, em meio aquele pranto solitário, remoendo as terras do chão com as próprias mãos, ele implorava o perdão que ele não era capaz de dar a si mesmo.

 

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03

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Em poucos segundos o azul do céu se recolheu, um forte vento agitou as folhas mais altas das árvores para logo em seguida perturbar vestidos, casacos e chapéus. Seria uma resposta? Indagava-se ele em seu canto miserável…

As meninas foram levadas por Nhá Maria, empregada da casa grande, que antes tentou arrancar Augustus de sua cadeira, mas ele era pesado demais para que pudesse ser obrigado a qualquer movimento que não fosse desejado por ele. Desistiu. Abandonando-o ali para ocupar-se das meninas; pondo-se a correr, arrastando-as até a casa grande…

O véu da tarde rasgou-se ao meio, fez-se noite antes da hora em meio aquela cortina negra de nuvens que fez chover por toda a região. O silêncio até então intenso cedeu lugar aos trovões e aos relâmpagos que cortavam o céu de um lado ao outro em frações de segundos. O tormento agora não estava mais restrito aquele homem. Fazia tanto barulho que a caçula tapava os ouvidos com as mãos, encolhendo-se junto às pernas de Nhá Maria que tentava tranqüilizá-la “já vai passar bambina, já vai passar” – dizia ela, enquanto olhava para a janela e embalava sua preocupação em meio a seguidos suspiros profundos. Augustus não voltava pra casa.


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O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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Em poucos segundos o azul do céu se recolheu, um forte vento agitou as folhas mais altas das árvores para logo em seguida perturbar vestidos, casacos e chapéus. Seria uma resposta? Indagava-se ele em seu canto miserável…

As meninas foram levadas por Nhá Maria, empregada da casa grande, que antes tentou arrancar Augustus de sua cadeira, mas ele era pesado demais para que pudesse ser obrigado a qualquer movimento que não fosse desejado por ele. Desistiu. Abandonando-o ali para ocupar-se das meninas; pondo-se a correr, arrastando-as até a casa grande…

O véu da tarde rasgou-se ao meio, fez-se noite antes da hora em meio aquela cortina negra de nuvens que fez chover por toda a região. O silêncio até então intenso cedeu lugar aos trovões e aos relâmpagos que cortavam o céu de um lado ao outro em frações de segundos. O tormento agora não estava mais restrito aquele homem. Fazia tanto barulho que a caçula tapava os ouvidos com as mãos, encolhendo-se junto às pernas de Nhá Maria que tentava tranqüilizá-la “já vai passar bambina, já vai passar” – dizia ela, enquanto olhava para a janela e embalava sua preocupação em meio a seguidos suspiros profundos. Augustus não voltava pra casa.


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02

Para ler o capítulo anterior, clique aqui…

O Diário de uma solidão

Fazenda Monte Sião – Capítulo 01

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A pele de Augustus nutria inúmeros tormentos enquanto sua mente alimentava a culpa por aquele desfecho; as mãos pareciam envergonhadas, retidas junto ao corpo, enquanto os olhos vasculhavam os arredores em busca de perdão pelos erros cometidos. O momento era de lamento. Ele rejeitava sua própria teimosia, pensava em como tudo seria diferente se ele não tivesse suas ambições. O sonho realizado expunha finalmente seu preço; os dissabores eram muitos e as forças quase nenhuma.

As pessoas aos poucos se afastavam; já não havia mais o que fazer ali. Alguns ainda tentavam ser gentis antes de voltar para suas vidas; diziam entender a dor que Augustus sentia. Outros davam de ombros ao se lembrar das próprias perdas, superadas há tempos; para estes a cura estava no dia seguinte, afinal, a vida continuava para os que haviam ficado.

Os olhos de Augustus ignoravam tudo que era paisagem, mergulhando no mais alto céu em busca de uma resposta capaz de levar alívio ao seu coração. Queria uma justificativa para aquela perda que não lhe parecia justa. Implorava secretamente uma explicação, pois para ele tudo estava fora de lugar. Seu pensamento subiu aos céus sem que ninguém percebesse; aquele era um diálogo sem testemunhas entre ele e seu Deus de quem sempre se lembrou; nos bons e maus momentos, então era justo exigir dele uma resposta. Uma espécie de grito irrompeu seu íntimo, rasgando-o ao meio “não é justo signore. Ma perche a tirastes de mim? Ma que foi que fiz eu pra ti? Eu não fui egoísta, ma io só queria um pedaço de chão pra criar uns boizinhos e cuidá da minha famiglia. Ma che de errado tem nisto? Diga-me. Io te peço”.

Nenhuma palavra de conforto o alcançou, nenhuma resposta; ele se sentia desolado, sozinho, abandonado junto as lembranças de uma vida que já não tinha mais sentido algum pra ele.

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