Eu ainda escrevo diários #4

100_2594Fotografia. Lis Costa  – “por cima dos telhados vermelhos

“Uma vida sem sustos. É o que desejo pra mim.
Não estou dizendo uma vida sem decepções,
frustrações ou êxtases: sem sustos apenas.
Quero aceitar a potência dos meus sentimentos
e não ficar embaraçada diante de reações incomuns.
Poder receber uma ventania de pé,
mesmo que ela me desloque de onde eu estava.
De pé, mesmo com medo.”

(Martha Medeiros)

25 DE MAIO – a tarde se desenha lá fora. O silêncio é meu desejo único nesse momento. Quero uma casa vazia. Uma paisagem de nuvens. Um lugar que não se encontre no mapa. Uma estrada de terra. Uma rede entre árvores…

Quero escrever maio. Apenas maio. Fazer uma pausa. Não deixar correr os dias. Ler todos os livros novamente. Fazer anotações perdidas. Ouvir a mesma canção milhares de vezes. Sair para caminhar e sentir a textura junto aos meus pés: pedras, folhas, galhos. Me unir as nuvens. Grudar minhas impressões nas árvores. Mergulhar em lagos de águas limpas… Voltar para casa, com as mãos nos bolsos e ilusões a escorrer da pele. Escrever até não restar mais nada – apenas a exaustão de quem se sabe nas palavras e não na vida… Ser essa coisa sem sentido. Perdida. Iludida. Confusa. Incompreendida…

Aquecer a água. Macerar ervas colhidas há pouco lá fora: hortelã, gengibre, gotas de limão, cascas de maçã, cidreira. Sentir o cheiro grudado nas mãos. Forrar o chão com uma manta. Acumular almofadas e voltar o calendário para os primeiros dias de maio… Tudo de novo. Ouvir a água apitar. Encher a xícara. Detê-las entre as mãos e sentir os aromas (tudo misturado). Coisas inteiras na lembrança. Sentir novamente até esgotar a saudade do abraço. Ouvir novamente as poesias na voz daquela mulher que ainda se senta na escada e me convida para seu ritual de espera. Vamos nos olhar e perceber os ponteiros se mover lentamente. Então vamos correr para junto daquele homem de braços abertos para nós. Jujubas vermelhas pra mim. Beijos apaixonados pra ela. Ouvir ao fundo os mitos e lendas narrado com a intensidade de alguém que sabe mais dos dias passados e se prende a eles porque sabe bem o valor de uma saudade. Observar suas rugas e sorrir por saber que ela sabe o segredo de se libertar do tempo… Ouvir o eco das risadas amigas pela casa. Sentir o vento da correria das pernas daquelas crianças que se sabiam, se conheciam e juravam que jamais iriam crescer. Cumpriram suas promessas, eu sei, cada um a sua maneira. Sentir saudades espaçadas, caprichadas e depois deitar minha cabeça no colo do “meu homem” aquele que se foi e talvez nem saiba ter ido.  Tudo isso sem um só movimento do corpo. Tudo dentro, da pele, da alma. Apenas sensação de coisas voltando a viver, dentro dos dias de maio… Um organismo, uma célula, em constante movimento para não perder substancia, sentido e densidade.

E saber que é impossível parar o tempo. É preciso deixar correr e trocar, dentro de alguns dias, a folha do calendário. Será “giugno” e os sabores serão outros. Não mais outono. Não mais “maggio” e suas sensações inteiras de temperos, ingredientes, xícaras de chá e taças de vinho. Livros abertos. Linhas preenchidas. Serão dias de inverno que não me alcançam porque levam-me de encontro aos dias de férias. Verão. Até ouço o apito do trem e me percebo junto a estação. 

Nota. Eu já disse isso antes, mas é porque sigo acreditando que será preciso outra vida para me libertar de certas coisas…

Missivas noturnas #9

São Paulo, 15 de maio de 2012…

janelas noturnas

Caríssima Alessandra,

Vejo janelas acesas ao longo da rua escura. É tarde demais para alguns, mas já é muito cedo para outros. Não sei se de fato estou desperta – sei que sinto meu pulsar. Minha mente caminha ao longo da cumprida alameda de árvores em fila. Não as vejo, dado a escuridão, mas sei de seus contornos porque já os decorei… Letreiros de loja ajudam a desnudar a madrugada que caminha lentamente para aquilo que aprendi a chamar de “fim”. Não é seu fim, visto que retornará mais tarde, quando as horas em pares completarem seus ciclos… Enfim, leio suas linhas, que chegaram até mim num envelope roxo com selos curiosos e uma caligrafia arredonda. O envelope atravessou a porta num movimento rápido, seguro. Atravessou a superfície, sendo empurrado – por uma “mão imaginária”. Lembrei-me dos tempos de espera em que meus olhos sempre se punham por entre as cortinas para espiar a caixa de correspondência vermelha. Sempre que voltava das ruas tinha algo para mim… Foi assim durante anos inteiros. Agora, o movimento é outro, a porta fechada e alguém que empurra por baixo o envelope que vem ao meu encontro. Os dias são outros, os movimentos também…

Lembrei-me de você na semana que passou, estava a ler algumas coisas minhas (antigas) e lá estavam palavras de um tempo onde tudo é para fora – ainda estava aprendendo a entender o outro enquanto personagem. Ainda estava entendendo a mim mesma enquanto figura humana. Fazia dúzias de rascunhos, abandonando-os em seguida. Não chegava ao fim de nada porque tal e qual Pessoa considerava um sofrimento finalizar as coisas. Então as deixava por lá. Comecei dúzias de vezes um diário, esquecendo-os pelos cantos por onde passava. Não voltava a ele durante dias e quando me lembrava dele, sorria com o sabor dos dias esquecidos. Nada tinha de fato para dizer a ele. Não me arrependo de não ter contado os meus dias, porque os lembro. Minha memória é algo estranho. Lembro-me de coisas impossíveis. Estão lá em algum canto de mim e de repente, como um vento afoito, uma tempestade que não se anuncia (embora sempre se sinta) se aproximasse pelos flancos e pronto: fizesse chover momentos inteiros. Um relâmpago. Um trovão. Essa semana lembrei-me de meu avô – o negro. O homem. Um possível herói. Uma pessoa comum, que aprendeu a escrever depois dos trinta e que se divertia com os versos que chegavam aos seus olhos. Como adorava poesia aquele velho homem do qual nunca soube de fato a idade até morrer. E quando morreu, perdeu-se do tempo, afinal, ninguém contaria mais os seus anos. Ele tinha quase noventa anos me disse alguém (não lembro quem, embora lembre os contornos daquela figura que tinha voz aveludada, macia, calma, mansa e parecia lamentar aquela perda). Ele se foi, era junho quando isso aconteceu, mas me lembrei de tudo isso em maio… Porque maio me empurra para dentro, não permite que eu fique a deriva e mesmo saindo para as ruas, me encolho por inteira. Acomodo as mãos dentro do bolso. Olho para o chão ao invés de olhar para frente e nada sei eu dos dias e suas horas cansativas. Sei eu da noite e das janelas que se acendem lá fora. Sei eu das muitas janelas acesas. Umas assim estão por medo, outras por vontade própria – uma ou outra por felicidade de saber a noite… A minha é uma dessas. Eu sei a noite e também que é maio…

E sei de ti que me falou de seus dias numa missiva com sabor de diário escrito na mesa da cozinha com uma xícara de café (cheirando gostoso e forte) numa casa escura onde o silêncio se aconchega. Ao longe um cão late e o guarda da rua apita para espantar sabe-se lá o que… Esta para amanhecer e os movimentos finalmente começam. São poucos. Mas servem para anunciar qualquer coisa de dia. Os passos curtos vasculham os cômodos da casa, reconhecendo-os. Percebendo-os e de repente o dia salta para dentro da casa pelos vidros das portas e janelas. Não sei o que fazes nessa hora, mas eu sei o que faria. Iria para a rua, espiar por cima do portão e do muro (na casa do mio nono, o portão era baixo e o muro também) ficava lá por alguns minutos, sentindo aquela brisa da manhã, mais úmida, mais fria. Tão gostosa. Purificadora. E fechava os olhos para sentir o carinho do sol na minha face. Lembrava músicas minhas e depois, bebia água e seguia para a cama. Sempre fui dessas que dormem cedo (risos). Afinal, seis horas – seis e meia é cedo pra muita gente, não é mesmo?

Meu carinho a você e durma bem, sabendo que suas palavras foram muito bem vindas junto a mim… Ah! Meu dia está longe de despertar, mas as coisas seguem saltando para dentro de mim. Se aconchegando. Se arrumando como se estivessem um pouco fora de lugar, porque afinal, é maio…

 

Lunna

Eu ainda escrevo diários #3

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se tu deslizasses os dedos por este texto, sentirias a textura de nossa pele.
escritura. a pele é que diz tudo, o avesso das coisas, os olhares e as mudanças.
- com ondjaki.

A vida é essa coisa engraçada, tem dias em que você não quer a companhia dos outros. Quer apenas a si mesma. Difícil explicar isso àqueles que insistem em habitar sua existência com frases, sons, movimentos diversos. Tudo que você deseja é que se faça silêncio. Que o mundo se ausente e que absolutamente tudo desapareça…

Enfim, mas não é fácil estar sozinha. Não é fácil ficar do lado dentro e não sair desse ninho. Não é fácil proteger-se. Manter-se a salvo. Manter intacto esse mundo que ninguém consegue tocar além de você mesmo. Preservar-se. Não se deixar extinguir… Não perder o momento. Eternizá-lo… Acho que por isso, escrevo. É uma esperança vã de solidão. Não sei, talvez seja bobagem isso que estou dizendo…

No começo eu só queria ouvir uma velha canção, mas depois só queria ouvir o som do meu coração se precipitando dentro do peito. Pulsando seus ritmos inquietos. Não queria deixar entrar luz. Não queria abrir os olhos e queria que o teclado fosse capaz de captar o meu sentir sem qualquer movimento dos meus dedos. Respirei fundo dúzias de vezes e me vi em outras paisagens inúmeras vezes. Mas por mais que tenha tentado me trancar junto a esse conjunto de ilusões, voltei de lá muitas vezes, obrigada que fui pelos movimentos que insistiam a minha volta. 

Passavam das cinco, ainda era tarde, ainda era sexta-feira e eu finalmente desisti. Fiquei apenas com a lembrança daqueles olhos negros, atentos e o aceno do lenço branco na plataforma da estação. Fiquei também com a sensação do último sonho onde nós dois, no alto do mundo observávamos a cidade e seus muitos telhados vermelhos.

Quando eu nasci, meu avô já tinha mais de setenta anos. Então é certo dizer que eu acompanhei uma pequena parte de sua “velhice”. Vi sua pele ganhar rugas, seu corpo fraquejar diante da doença que fez dele uma espécie de “resto de homem”. Vi sua voz perder a força. Seus músculos fraquejarem e acompanhei de perto a parte mais difícil de sua vida. Ele passou a depender dos outros para tudo e eu colhi muitas vezes o seu lamento. Não era fácil… Ele não conseguia mais descer as escadas para ir a sua biblioteca e tão pouco conseguia caminhar pela cidade como tanto gostava. Ficou impossível segurar os livros para ler e a caneta para escrever… Não conseguia mais vestir-se como tanto gostava e fazer a barba também não foi mais possível porque a pele tornou-se frágil e ganhou um cheiro forte porque os banhos não conseguiam compensar o estrago dos remédios. Ele passou a precisar de fraldas, sondas, e uma enfermeira. Os herdeiros do homem contavam os dias para a sua morte, mas ele não se rendia. Ano após ano, resistia. Não sei com que força… Mas sobrevivia.

Eu não sou uma pessoa de heróis, mas se me pedissem para escolher um herói para os meus dias, seria fácil. Seria o meu avô Américo que coloriu os meus dias de menina com sua simplicidade.

Não sei como ele veio para junto de mim no meio da tarde de hoje, mas sei que veio e eu senti seu abraço apertado e até acenei pra ele de dentro do trem e fui com ele em seu velho carro barulhento até em casa e lá contamos nossas alegrias e tristezas vividas ao longo dos dias até o nosso reencontro porque era assim que fazíamos…

E agora que a noite se desenha lá fora, as janelas se acendem e os sons aqui dentro aumentam, recolho minhas lembranças para dentro e fecho a tampa para não deixar nada escapar… Algumas coisas estão a salvo e eu acho que eu também!

(…)Às vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.
Cecília Meireles

Sim, eu ainda escrevo diários #2

Exatamente como a vida escreve suas estações…

fim de tarde...

(…) e deixamos de confiar no poema / no poeta / na metáfora e em todas as mentiras / neste equinócio / com pronúncia de outono / e voz de setembro esquecido / de repente parece que o mundo murchou / para os que amam por acaso / nestes dias lentos.
(…)
Um poema, de Jorge Pimenta para setembro,
que eu tomo a liberdade de introduzir aos meus dias de maio

04 DE MAIO – O que posso eu dizer? Eu ainda me sento aqui, nessa última hora antes do fim. Nessa última hora antes da próxima. A primeira. Respiro fundo. Fecho os olhos por um segundo. Seleciono a música e percebo o dia que passou por mim. Vejo o que fiz. Sinto o que deixei. Dou de ombros. Respiro fundo novamente. Lembro-me das linhas dos livros lidos. Tantas palavras. A maioria delas ficou em mim… Lembro que no meio da tarde visitei outros cenários (antigos) por onde passei em tempos idos. Revejo a casa branca (um sobrado no meio da cidade) com suas janelas e portas azuis. Lembro-me do sonho interrompido. Dos projetos dos quais abri mãos. Lembro-me dos erros cometidos ao longo dos dias. São muitos, mas é uma lembrança rápida porque a noite lá fora vive e me chama. As horas passam em pares aqui dentro. Está quente (muitos dirão que não), mas eu sinto tudo arder aqui dentro. É um calor que faz tudo trepidar… Saudades crescentes (assim com a lua). Quero fazer arder à chama da vela, queimar o incenso, apreciar as labaredas dentro do meu caldeirão (para aqueles que não entendem como eu me autodenomino uma Bruxa – pensem no seguinte, eu não dou a mínima para rótulos, mas gosto da força dessa palavra e do constrangimento que causa em algumas pessoas). Eu tenho sonhos (muitos) dias desses sonhei com uma casa antiga, distante, no meio do nada. Eu estava sentada nos degraus que davam para esse quintal sem muros e para essa cozinha com mesa retangular e quatro cadeiras. Uma menina (mulher) estendia roupas no varal. Eram dois ou três. Não sei. Só sei que o sol foi chegando, com seus raios brandos, mansos. Agradáveis. E de repente as roupas já estavam estendidas e o vento, arteiro, tocava-as como carícias de pré-amor. Eu tinha um livro em mãos (não lembro qual) sei que deixei de lado o livro para apreciar aquela cena. Coisa dos dias de minha infância. Coisas minhas. Antigas. Saudades…
Eu tenho presságios também. Sinto coisas antes de acontecerem. Às vezes fecho os olhos e torço para estar errada. Já aprendi com os dias que não adianta – mas insisto. Não sei a quem quero vencer por cansaço. Mas aprendi a não dizer às pessoas o que vai acontecer a elas. Da pior maneira possível. Fechar os olhos não é fácil. Dói. Rasga ao meio. Pior mesmo é olhar nos olhos e saber alguém mais que suas palavras. Saber verdades. Saber mentiras. Saber tudo e nada.
Aprendi a ser mais para mim que para os outros. Aprendi que o silêncio põe fim ao barulho alheio e por fim, aprendi que fechar os olhos e respirar fundo é o mesmo que virar uma página.
Aprendi a ser sozinha, sombra que ninguém nota. Chuva no começo da manhã. Vento no fim de tarde. Crepúsculo e aurora. Madrugada alta. E por aqui, passados alguns minutos da última hora, sou eu mesma, em palavras que às vezes falam de mim, as vezes falam de personagens e muita gente não sabe distinguir quem é que vai nas linhas que se seguem…Poucas pessoas entenderam meus argumentos até hoje, mas já faz algum tempo que eu deixei de me preocupar com isso…

(…)
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão às medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre, se ainda recordas

Cecília Meireles, em Solombra, pág. 794

Missivas noturnas #7

É noite lá fora… É maio aqui dentro!

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Olá meu caro, onde andas tu?

Eu sei, com as estrelas a obervar-me do alto, por entre as nuvens, por cima dos telhados vermelhos e por entre as árvores da alameda que se exibe em linha e que estão mais verdes que antes porque é maio e finalmente posso dizer que é outono por aqui . Saudades crescentes de ti, viu?

[...] O mundo, para ele, se encolheu até ficar do tamanho de sua sala e, durante o tempo que for necessário para que ele venha a compreender isso, precisa ficar onde está. Só uma coisa é certa: não pode estar em nenhum outro lugar, seria absurdo para ele pensar em procurar um outro. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Estou aqui, a lembrar dos nossos dias de infância. Lembra-te? Eu era a menina mais nova a quem todos davam as mãos e levava por aí, com os pés libertos do chão. Acho que eu aprendi a voar nas mãos de vocês. Tinha a confiança de quem amava por sabê-los. Eu o sabia? Depois de tantas confissões é certo dizer que sim, não acha?

Oh, I’ve got lightning in my veins
Shifting like the handle of a slot machine
Love may still exist in another place
I’m just yanking back the handle, no expression on my face

É maio meu caro. O primeiro dia ao pouco se extingue. Virão outros. Trinta dias – porque maio tem sabor, aroma e muitas outras coisas mais… Lembra-te das brincadeiras de primeiro de maio? Eu as tenho em mim – como se fosse ontem. Começava cedo, a andar pelas ruas, ladeira abaixo, até o bosque – por entre as pedras rumo ao mar. Sua mão sempre junto a minha com a preocupação de quem não quer que o outro se perca. Colhíamos pedras e gravetos, folhas e sementes. Sentíamos o cheiro da paisagem morna. Percebendo-nos. Brincávamos de roda. Éramos incansáveis. Só vocês conseguiam me fazer ser criança de fato. Escalávamos árvores com facilidade e lá de cima gritávamos “homem a vista”. Caiamos numa gargalhada incomum que imitava o som das gaivotas. Lembra-te?

O vento cortas os seres pelo meio,
Só um desejo de nitidez ampara o mundo…
Faz sol. Fez chuva. E a ventania
Esparrama os trombones das nuvens no azul.
(…) Mário de Andrade, Momento (abril de 1937)

Voltávamos para casa cantando. Quase sempre tu me levavas em teus ombros, olhando tudo por cima… Ninguém entendia aquela combinação de alegria e felicidade. Eu era tão pequena. Vocês já eram uma promessa de adultos. Esperavam tanto de vocês e tão pouco de mim. Eu era a menina que fazia vocês ouvir poesias. Lembra-te? Eu os obrigava a ir mais devagar. A T. certa vez, numa tarde de maio – anos mais tarde, diante da lareira, bebendo vinho, já mais velhas (embora eu seja sempre a mais nova) me confidenciou “você não nos deixou envelhecer, nos salvou dessa coisa de idade – foi depois de você que eu deixei de apagar velas” e ficamos lá, em suspenso revendo as coisas que aprendemos uns com os outros. Tanta coisa. É preciso respirar fundo, sorrir e se deixar conduzir pela mão dessas lembranças.

(…)uma sensação de portas que se fecham, de fechaduras que se trancam. É uma estação hermética, um longo momento de introspecção. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Sabe meu caro? Elas ainda estão por aqui, vivendo suas vidas – assim como eu também estou, vivendo o que tenho pra viver, mas confesso que tenho medo – nos vemos cada vez menos. Nos sabemos cada vez menos. Não temos tempo (é a nossa desculpa comum). Depois que você se foi tem sido assim. Nos falamos as vezes, nos escrevemos raramente. Mas as presenças estão escassas. E não sei se nos importamos. Foi assim quando o nono nos deixou. Lembra-te? A maioria de nós se perderam. Ele mantinha todos num laço, desfeito pela morte. Nós não e prometemos a você jamais deixar acontecer. Mas você não está mais aqui para nos cobrar a promessa feita. Você nos matinha atreladas – e agora que se foi, somos o que somos. Pessoas espaçadas, sem a preocupação da presença. Sem a preocupação de sentar-se a mesa, de misturar ingredientes, de ouvir as bobagens de sempre, de rir dos nossos inconvenientes, de nos esquecer das horas, de gargalhar com o som do carrilhão lá na sala. Ele ainda badala suas horas (eu ainda ouço seu eco direto dos meus pretéritos) mas é fato que não há mais ninguém para ouví-lo. Tão pouco para assustar-se com ele…

(…) Tenho de inventar a estrada a cada passo e isso significa que nunca posso ter certeza de onde me encontro. Uma sensação de andar em círculos, de sempre voltar atrás pelo mesmo caminho, de partir em várias direções ao mesmo tempo. Paul Auster em “A invenção da Solidão”

Maio chegou e nenhuma de nós se ocupou de pensar naquela cozinha, de ir até lá para ferver a água, espalhar xícaras pela mesa – para lembrar nossas coisas agradáveis, comuns a todas nós. Elas estão por aí… E eu estou por aqui (com a distancia de um oceano inteiro) com a lembrança que chegou até mim nesse fim de tarde. É maio, disse-me ao sentar-me aqui, como forma de me fazer entender o sentido – repito diversas vezes para ver se algo munda aqui dentro. Comecei ouvindo sua canção. Aquela que te fazia cantar feito um louco na cozinha. Lembra-te? Eu sei que sim… E quando dei por mim estava a compor todas essas linhas e a lembrar que maio era o seu mês. Lembrei então do seu telefonema no meio da tarde (anos atrás – não era maio). Você nos pediu para ir ao seu encontro.  E lá fomos nós. Estávamos lá, por você, sentadas – apreensivas. Não tínhamos ideia do que seria dito e você o fez quase em tom de confissão. Fomos as primeiras a saber “eu consegui. Eu estou amando alguém que me ama também”. Você. Justamente você (que como eu) achava que nunca iria amar. O nosso silêncio durou o tempo necessário para percebê-lo: seus olhos brilhavam – seu corpo inteiro reagia. Uma verdadeira ebulição de sentimentos seus por alguém que era uma perfeita continuação de teu existir. Fomos felizes por você. Como sempre…

É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!
Fernando Pessoa

Enfim, é maio… (sigo repetindo isso, já percebeu, não é?)
Dias felizes virão, um tanto vazio porque não estais mais aqui com teu sorriso eterno de menino. Sei que só posso recordar o teu abraço – penso que aprendi a abrir os braços e deixar o humano chegar até mim através de ti… Tantas coisas minhas são tuas, mas acho que isso tu sempre soubestes: o riso em comum, o olhar de soslaio, a indiferença crescente para com as bobagens e a gargalhada que deixava todos a nossa volta furiosos. Quantos tampas nossos braços receberam pela solidão do nosso sentir e saber.

Os ventos virão de todos os nortes. 
Os dilúvios cairão sobre os mundos. 
Tu não morrerás.
Não há nuvens que te escureçam. 
Não há ventos que te desfaçam.
Não há águas que te afoguem.
Tu és a própria nuvem.
O próprio vento.
A própria chuva sem fim. . .
Cecília Meireles

É meu caro, como um vento, tudo isso passou. Por mim e por todos nós. Maio chegou, mas o fez sem você. Esteja onde estiver, parte de ti jamais se foi… Tu sabes. Eu bem sei que sabes… Então vou cantar o refrão da sua música favorita em alto tom e sei que vais ouvir e vais cantar comigo.

Oh, the rhythm of my heart
Is beating like a drum
With the words “I love you”
Rolling off my tongue
Oh, never will I roam
For I know my place is home
Where the ocean meets the sky
I’ll be sailing

Lunna

Cheiro de café na minha atmosfera…

k2

Hoje pela manhã, ao abrir o armário da cozinha, fui tomada de assalto por uma lembrança tão logo o cheiro do café ocupou-se de minha atmosfera. Lembrou-me os dias na casa da nona e seu velho armário de guardar ingredientes. Ela acondicionava tudo dentro de latas: arroz, feijão, açúcar, farinha, café, aveia, biscoitos, bolachas e outras coisas mais. A lata do café era aberta pela manhã e no final da tarde: café da manhã e o café das cinco (a nona não era inglesa – mas havia herdado alguns costumes de vizinhos ingleses, que celebravam as cinco horas com uma mesa farta. E como eram um casal simpático, sempre estendia convites aos vizinhos italianos) – ela, enquanto humana, repetia os gestos e os convites.

Então, pouco depois do meio da tarde, o cheiro do bolo de fubá ou baunilha gritava junto as nossas narinas. A mesa posta no quintal (quando não chovia) fazia urdir as vozes infantis que se amontoavam ao redor da mesa. Devorávamos a xícara de café com leite, alguns biscoitos e grossas fatias de bolo para depois ouvirmos atentamente um novo capítulo de alguma história grega ou celta. Aos poucos, nossos movimentos eram contidos pela dócil e gentil voz da nona e então seguíamos para o banho e o descanso para o jantar. Um pouco de televisão, algumas “guerras” de almofadas e a vida seguia existindo lá fora, porque lá dentro daquela casa, o tempo urdia sua própria trama e a gente esquecia de crescer. Funcionava muito bem, até porque quando uma lembrança assim salta de dentro de mim, me sinto de volta aquela velha casa, com varanda, casinha no fundo (onde o nono jogava baralho) e ao lado a velha oficina do nono onde ele fabricava “seus brinquedos” e mais atrás  os pés de fruta lado a lado mais ao fundo. Dizia o nono que havia um pé de frutas para cada neto especial. Eu contei uma vez: jabuticaba (duas) – laranjeira (duas) – macieira – mangueira e abacateiro (uma de cada) – e de tanto pensar em todas essas coisas, quase me esqueço que o tempo passou e eu cresci. É preciso respirar fundo, olhar bem a minha volta para me convencer da realidade… rs

Tudo isso sendo lembrado assim, pelo sutil cheiro do café
no armário da minha cozinha.

Missiva noturna #4

vera marmelo 2

Que raízes são essas que se arraigam,
que ramos se esgalham” (…)
T.S.Eliot

Caríssimo,

O dia foi breve. Não o vi passar. Teve diferentes cores. Diversos aromas. Sensações muitas. Apreciei paisagens inteiras e algumas pela metade. Atravessei a Paulista de um lado ao outro. Me perdi em meio aos livros (voltei com alguns deles no “bolso”). Vi “lágrimas” escorrendo na vidraça do carro. Percebi coisas minhas. Outras de outros. Encontrei Eliot e a estranha sensação de ver a mim mesma ao longo dos dias descobrindo palavras, poetas, autores e me percebendo outra através deles…

Percebi tantas coisas e de repente, eu só queria me sentar aqui para te dizer tudo isso. Sem o olho no olho, apenas a certeza de que entenderá o que eu digo. Agora ouço Ney Matogrosso e parte de mim se desfaz como de costume. Sou outra. As dores que atravessam minha pele não me pertencem. O incomodo de ver aquela figura transbordando junto ao outro é um desenho sendo cerzido por minha mente.

Você parece distante. Você parece ausente. E ainda assim sei-te (percebo-te em mim) porque sou assim mesmo. E hoje não quero ser diferente disso. Quero ser exatamente assim. Porque minha pele vibra e o sorriso é objeto fácil em meus lábios – sinto tudo dentro de mim, feito a tempestade que se ocupou do céu de São Paulo no meio dessa tarde. É, disseram que era outono, mas o calor lembrou o verão e a tempestade lembrou aquela música do Tom. Lembra-se? Eu me lembro e sorri ao admirar aquele céu em meio a ausência de movimentos da cidade. Tanta gente apressada, fugindo de si mesmas, acreditando fugir da chuva… Eu já fui assim, um dia, mas descobri que não dá pra fugir da chuva e mais, as vezes é preciso ir lá pra fora e deixar se molhar para lavar a pele e a alma…

Será possível que eu tenha aprendido isso com você? (risos)

bacio
Lunna

Ps. Hoje, no meio da tarde, enquanto me ocupava de certos movimentos de um lado ao outro da Paulista, percebi o que me faltava. Entendi aquele meu personagem – eu o entendi (coisa que ainda não havia acontecido) e deve imaginar como estou me sentindo agora. Eu sei que sim. Há aquela inquietação natural dos dedos, dos olhos, da mente e um misto de sorriso infantil, quase inocente nos lábios. Há falta de sono. Ousadia. Vontade louca de gritar. E claro, vontade louca de dizer tudo que preciso dizer, mas os dedos nem sempre alcançam o que a mente “regurgita”… Estou bem (não pergunte, ou pelo menos tente não perguntar). Estou ausente de mim, da vida, porque agora eu o sei e a sensação de finalmente sabe-lo é aquela “um contentar descontente”.

boa noite

“a menina que um dia, eu fui”…

A culpa do escrito abaixo, é claro
que é sempre dela e dela também…

Lunna

Não tenho saudades da minha infância. Mas gosto de lembrar os meus dias de menina a quem a mãe perguntava pela manhã com um ar de preocupada e um olhar atento as reações “você dormiu?” e em meio a um sorriso levado eu respondia “uhummm”. Era uma resposta imprecisa, insensata. Que não dizia nada. Já o meu rosto vivia (ainda vive) com aquele desenho escuro ao redor dos olhos.

Eu não dormia. Ela sabia, mas como toda manhã fingia não saber. Entrava no meu quarto. Lia histórias e eu fechava os olhos. Se fossem os malditos contos de fada, fazia isso ainda mais rápido. Odiava-os, tanto quanto o rosa, as bonecas e as roupas de menina (saias, vestidos e sapatinhos). Eu fingia dormir. Fechada os olhos e suspirava fundo, como quem morre. As vezes dormia mesmo ou pensava que dormia. Nunca soube direito. Lembro que acordava no meio da noite e pegava a lanterna para iluminar o branco do teto. Ficava delirando. Inventava histórias. Inventava coisas. Viajava por por paisagens inteiras. As vezes abria a janela, sentava no parapeito e ficava espiando as estrelas e quando o dia chegava com sua brisa fria, sentia na pele um arrepio e corria para debaixo do edredom. Gostava de dormir quando tudo ficava claro. Eu nunca tive medo do escuro. Sempre gostei de sombras. Já o dia nunca me conquistou…

Eu fui menina de jogar bola. De não usar maquiagem. De espiar a mãe se enfeitando para a sua vida de consultas. Ela era uma mulher e eu uma menina (meio moleque) meio arteira. Meio insatisfeita com as outras crianças – principalmente com as meninas que brincavam de bonecas. Eram bobas e queriam ser modelos – eu queria sim ser o modelo oposto. Queria me ver emburrada era me enfiar num vestido. Queria me ver feliz era me deixar vestir minha jardineira vermelha. Calçar meu tênis e sair correndo com a piparola. Chutando bola. Sentando na escada para esperar pelo babo. Inventando histórias, amigos ocultos. Conversando com adultos. Falando pouco e ouvindo muito. Inventando pessoas… Chacoalhando as pernas no ar. Observando o movimento do balanço sem nunca sentar nele – chupando sorvete e lambuzando a blusa. Pisando sobre poças… Fechando os olhos e abrindo os braços para voar, sabendo que a imaginação poderia me levar para todo e qualquer lugar…

Nos meus dias de menina, o meu quarto era o melhor lugar no mundo. Duas janelas e entre elas uma mesa. Primeiro foi uma máquina de escrever, depois um computador. O som sempre ligado em Chopin, Mozart e Bizet (entre outros). Os cadernos (mesmo em dias de computador) se acumulavam ao lado dos livros. Hoje, eu confesso, sinto saudades dos diários escritos ao longo da minha infância.

E ao lançar meu olhar para lá, percebo algo engraçado: a menina cresceu (mas não é uma certeza – as vezes duvido disso). Acontece que a menina que vive em mim hoje parece ser a mesma de ontem… Travessa. Feliz. Inconstante. Diferente das outras. Continuo gostando do vermelho e não tolerando o rosa e menos ainda as coisas de menina. Não pinto a cara. Não uso saias. Nem vestidos. Sou assim: menina de calças e camisetas, tênis e caretas… E palavras (claro)…

Missivas noturnas

São Paulo, no meio das sombras da cidade…
Entre um passo e outro,

Mas há a vida que é para ser
intensamente vivida,
E há o amor que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo. Não mata.
Clarice Lispector

Boa noite,

A noite já está presente neste meu cenário. Meu olhar percebe as luzes da cidade lá fora. As janelas começam a ganhar contornos internos. Adoro observar janelas enquanto imagino vidas inteiras em conformidades lá dentro. Sentei-me aqui para escrever esta breve missiva e confesso que não esperava que o destino de minhas palavras fossem você. Mas a tua lembrança povoou meus pensamentos e não resisti. Preparei uma xícara de chá que segue esfriando aqui ao lado da mesa: soltando aquela fumaça leve e perfumada pelo ar (tão gostosa de espiar) enquanto reviro as minhas lembranças todas: você sabe (eu sei que sabe) que o mês de maio é o mês da minha pele: o ritmo da palavra, a empatia dos dias, o simbolismo da estação. Tantos detalhes que culminam numa sensação agradável que me faz desejar que haja mais que apenas trinta e um dias em sua paisagem… Mas não importa, porque maio desaparece feito um sopro dado por cima da palma da mão, carregando seja lá o que… Maio carrega-me com ele, fico sem uma parte de mim.

Acho que isso é coisa de “escrevinhadores”.
Mário de Andrade gostava de abril. Não sei porque. Não pergunte. Apenas sei. Seus versos vem falando desse mês e a palavra “abril” parece ter o ritmo de suas linhas. Então quanto leio seus versos é como se abril se apoderasse da paisagem, desafiando o calendário… Lá estão os dias de abril com aquele sabor de outono, bolo de milho, broa sobre a mesa. Coisas antigas, um rapaz a rascunhos palavras numa folha de ontem que chega até mim nos dias de hoje…

Eu tenho essa mania, acho que já deve saber: interpretar a alma das pessoas em minhas linhas. É como se eu saísse de mim e por um instante (breve) eu conseguisse ser outra pessoa. Sentindo todas as coisas que aquele corpo a minha frente sente. Pensando o que ela pensa. Fico em um estado de dormência. Não sinto os músculos e tão pouco toco as superfícies nas quais habito. Sou outra e pronto… Quando o transe passa, o papel se enche de palavras e eu finalmente volto a ser essa figura inacabada que te abraça no começo das manhãs, no final da tarde ou no meio da noite. Insanidade. Dirão muitos. Eu já me acostume, mas e você? (risos)

Bem, a solidão já se acomodou aqui junto a mim. Sua companhia faz da noite um momento único. Posso ver e sentir a escuridão penetrando minhas falanges, dando aconchego ao meu existir e perfumando minhas laterais. Sou outra. Uma figura humana atraída pelo fascínio das sombras que se arrastam pelas calçadas e pelas ruas. Aos poucos percebo que o silêncio irrompe a cidade e os humanos vão desaparecendo aos poucos.

Hoje estou aqui ouvindo a mesma canção. Você sabe bem o que isso significa, não é mesmo? Não sou eu aqui a escrever-te. Não de todo… Não há lua lá fora, nem estrelas. Esta nublado. É dezembro (estou repetindo isso sem parar na tentativa de me convencer, mas está difícil). Não sei, deve ser porque não gosto de dezembro. Não sei mesmo e não vou procurar uma resposta porque hoje eu estou assim. Acordei como quem desfalece e demorou um bom tempo até que eu voltasse a vida. Sei lá, há momentos que nem mesmo as palavras me salvam. Eu apenas desfaleço e pronto. Me esqueço em algum canto e sou outra. Qualquer uma. Vazia de sensações e tudo mais… Mas aconteceu que de repente eu estava lá nos teus braços. Você se lembra? Foi no meio da manhã. Estávamos deitados, vendo qualquer coisa na televisão e eu me perdi por um segundo nos teus braços. Pareceu uma vida inteira. Queria ficar ali, mas o dia estava nos chamando para fora e você saltou dali para a vida que se conta através das horas. Senti você escorrendo pela vidraça da janela do quarto. Como chuva…

Não choveu! Sabemos disso e eu precisei sair por aí. As ruas resmungam qualquer coisa sobre pessoas, cães e paisagens. Tudo sem eficiência alguma. Até o segundo passo quando encontrei aquele rapaz que conduzia uma senhora (sua avó por certo) pelo braço. Uma cena delicada que me dizia tanto. Ainda percebo os detalhes daquela caminhando pela calçada que vinha de encontro aos meus pés. Por deus, eu poderia escrever qualquer coisa sobre aquele momento. Eu me apaixonei de imediato. Percebi aquela doçura daquelas almas. Fiquei lá imaginando os caminhos, colhendo os pequenos movimentos até que o rapaz percebeu a mim ali, no meio do passo e acho que ele pensou qualquer coisa estranha, alheia a mim e o conto que surgia em minha mente ficou ali por cima das faixas brancas da rua que eu atravessei. Eu odiei aquele rapaz com todas as minhas forças por alguns segundos. Parecia tão perfeita aquela cena até ele descobrir meu olhar para cima deles. Mas a culpa foi minha. Fui tão afoita no meu olhar… O que fazer? Meu olhar hoje está afoito. E não chove… (risos) Há nuvens no céu, mas não há prenúncio de chuva, não sinto no ar aquele perfume de terra molhada, de folhas banhadas, de aroma de laranjeira… Não sinto a presença molhada das águas… Saudades. É o que sinto daquelas tardes úmidas cheirando a bolo e colhendo diálogos nossos na cozinha. Você se lembra? Parece que foi há um milhão de anos. Algumas coisas andam mesmo distantes de mim…

O clima anda rebelde. Já percebemos isso. Eu e você. Num mesmo dia vivemos dúzias de estações. Parece que não nos contentamos apenas com quatro, não é mesmo? Tivemos até algumas tempestades. Ouvi alguns trovões no meio da tarde e sei que você também ouviu… Mas tudo se esparramou pela paisagem e nada aconteceu.

Bem, vou colher algumas sombras ao longo do caminho e ir ao teu encontro, me perder em teus braços como sempre faço. Quem sabe a noite confecciona ilusões de sombras minhas e suas e fiquemos então (eu e você) pelo chão da nossa memória a degustar o que sempre seremos…

Ps. Ainda lamento ter perdido o conto, a imagem daqueles dois corpos caminhando pela calçada, virando a esquina ainda permanece aqui e em mim e eu nada posso fazer porque me falta o argumentos que ele roubou de mim com sua tola apresentação “me chamo Ednei” disse ele, arrancando qualquer coisa de mim (que não foi devolvida). Estranho olhar o humano no mundo real das coisas, quando são ilusões apenas são figuras silenciosas que nada podem dizer ou fazer sem que eu permita…

Enfim, meu silêncio vai pousar em seus lábios e eu vou esquecer-me desse dia em algum momento. Tudo será saudade ou simples lembrança que não se alcança…

Sua, sempre sua…

A partir do mundo dela eu iria desenhar o meu…

India 2001Enquanto isso…
Eu imaginava cores fortes, roupas barulhentas e movimentos sensuais que seduziam até mesmo os mais distraídos. E cheiros fortes de incenso e ervas.
Bastou um segundo e eu viajei através da lembrança daquela cultura que saltou por cima dos meus olhos durante aquela viagem… A realidade da Índia me chocou quando lá estive, mas ainda tenho na memória certos costumes que me ajudou a perceber que a simplicidade tem o seu charme, o seu encanto e claro: a sua utilidade.

Talvez por isso seja impossível esquecer que foi através daquela mulher com gosto refinado que eu descobri Emily Dickinson e seu olhar atento sobre o “índian´s Summer” – Mário de Andrade e sua paixão pelas coisas regionais. Sim, eu me encantei com Macunaíma e suas estripulias típicas de um “herói brasileiro” – Virgínia Woolf e sua sonorida, sua certeza quanto ao seu próprio fim. Ela não quis deixar para a vida decidir. Ela quis decidir por si mesma e o fez…  – E tantos outros mais…

Então foi assim…
Eu estava sentada num café quando uma senhora sentou-se próxima a minha mesa e ficou me olhando. Eu estava atenta ao livro que tinha em mãos (desfiz 75 anos de Rubem Alves), mas sempre que virava a página, eu a percebia ali com o olhar mergulhado em minha figura.
Pois bem, lá pelas tantas, ela veio até a minha mesa e perguntou-me “o que você lia quando era criança?” a resposta veio depois de um sorriso torto e da tentativa de entender o motivo daquela invasão em forma de pergunta: “mitologia grega” e ponto final. Não queria dar a ela a possibilidade de novas perguntas. Não iria dizer para ela que eu simplesmente adorava ver o mundo através de todos aqueles dizeres. Não. Contudo, ela franziu a testa, arregalou os olhos e por fim sorriu. Pude imaginar seu pensamento, mas não queria diálogo com aquela senhora. Então virei a página, mas isso não a levou para longe de mim. Muito pelo contrário. Sem pedir licença, puxou a cadeira. Sentou-se ao meu lado e começou a falar de suas aventuras de menina. Falou-me de Reinações de Narizinho – justamente pra mim que não suporto Monteiro Lobato. Me esqueci dela ali. Não mais percebi sua figura. Não ouvi mais nada do que disse. Lembrei de cores e cheiros… Me perdi em sorrisos de orelhas e me lembrei de cores, sons e do prazer que eu sentia em olhar para o alto e ver aquela mulher de gosto refinado que segurava minha mão e sorria ao me apresentar o mundo. O seu mundo, que jamais seria o meu. Mas a partir do mundo dela era que eu iria desenhar o meu… E isso, com toda certeza, ela o sabia.

Eu sei que comecei tudo pelo fim, mas é que o começo não me pareceu interessante…

Ps. Antes que alguém pergunte. Não, eu não sei o que aconteceu com aquela senhora inconveniente. Talvez ela nem tenha existido, não é mesmo?