E viro a página para dar continuidade a promessa. Um poema por dia. Uma voz que silencia em meu íntimo. Como ler Campos aos poucos? É o mesmo que tomar pílula para um mal que aflige o corpo. Não. Não é igual. Pois se fosse, o corpo seria curado no mesmo instante.
No poema a seguir, encontro novamente o devaneio da viagem em Campos. É uma espécie de “livro de bordo”do poeta – que narra seu cansaço, enfatizando tudo que vê. E ele vê muito além das coisas que há por aí e da superfície humana.
“todo cais é uma saudade de pedra” diz o poeta.
E quando leio essas linhas dá vontade de respirar fundo e perceber na pele o movimento do mar/do trem junto aos trilhos. Viajo com o poeta? De certo que sim. E sinto com o poeta? Claro, sinto a saudade de coisa nenhuma – e a ansiedade por todas as coisas que ele vai descrevendo em cada linha do poema.
Campos procura o excesso como se tudo fosse falta. E o que encontro quando termino de ler? Encontro a tranquilidade de quem detém o movimento após o passo e se encerra diante da xícara ainda cheia (de chá) e a janela aberta (não apenas dos olhos) para onde me precipito num espirar de janelas e suas coloridas visões.
Mas a viagem de Campos ainda é outra: é descobrir-se – ao mesmo tempo que é perde-se. Ele quer se entregar as sensações, mas sem a consciência do sentir, afinal, as viagens todas já tinha sido feitas.
3
Lentidão dos vapores pelo mar…
Tanto que ver, tanto que abarcar
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.Mais depressa… Sigamos… Hoje é o real…
O momento embriaga… A alma esquece
Que existe no mover-se… Cais, carnal…
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu… Sigamos… Outras terras!Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva…
Noites de lua nova — canto de ruelas escurasAntros… Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar…
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
Cidades, brumas, margens
De rios desejadas para olhar…
Costa triste, ermo mar
Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D’onde pulsa chiando a espuma na água —
— Frio pela consciência dos meus nervos —
De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos…Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrotaSurpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias…Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver…Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte… Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.Por entre árvores — fumo…
Ó domésticos (…) escondidos!
Ó tédio… Ó dor… O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem…
Peso-me… Entreolho sem me levantar
Estações (…) … [Campolides?]… Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar…Poesia – Álvaro de Campos – pág. 56, 57 e 58.
Organização e notas de Teresa Rita Lopes
Companhia das Letras