A poesia de Álvaro de Campos # 3

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E viro a página para dar continuidade a promessa. Um poema por dia. Uma voz que silencia em meu íntimo. Como ler Campos aos poucos? É o mesmo que tomar pílula para um mal que aflige o corpo. Não. Não é igual. Pois se fosse, o corpo seria curado no mesmo instante.

No poema a seguir, encontro novamente o devaneio da viagem em Campos. É uma espécie de “livro de bordo”do poeta – que narra seu cansaço, enfatizando tudo que vê. E ele vê muito além das coisas que há por aí e da superfície humana. 

“todo cais é uma saudade de pedra” diz o poeta.
E quando leio essas linhas dá vontade de respirar fundo e perceber na pele o movimento do mar/do trem junto aos trilhos. Viajo com o poeta? De certo que sim. E sinto com o poeta? Claro, sinto a saudade de coisa nenhuma – e a ansiedade por todas as coisas que ele vai descrevendo em cada linha do poema.

Campos procura o excesso como se tudo fosse falta. E o que encontro quando termino de ler? Encontro a tranquilidade de quem detém o movimento após o passo e se encerra diante da xícara ainda cheia (de chá) e a janela aberta (não apenas dos olhos) para onde me precipito num espirar de janelas e suas coloridas visões.

Mas a viagem de Campos ainda é outra: é descobrir-se – ao mesmo tempo que é perde-se. Ele quer se entregar as sensações, mas sem a consciência do sentir, afinal, as viagens todas já tinha sido feitas.

 

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Lentidão dos vapores pelo mar…
Tanto que ver, tanto que abarcar
No eterno presente da pupila
Ilhas ao longe, costas a despontar
Na imensidão oceânica e tranquila.

Mais depressa… Sigamos… Hoje é o real…
O momento embriaga… A alma esquece
Que existe no mover-se… Cais, carnal…
Para os botes no cais quem é que desce?
Que importa? Vamos! Tudo é tão real!

Quantas vidas que ignoro que me ignoram!
Passo por casas, fumo em chaminés
Interiores que adivinho! Choram
Em mim desejos lívidos resvés
Do tédio de ser isto aqui, e ali
Outro não-eu… Sigamos… Outras terras!

Quantas paisagens vivi!
Planícies! mares! serras
Ao longe! Pareceis com tanta curva,
Pinheirais! Igualdade das culturas!
Dias monótonos de chuva…
Noites de lua nova — canto de ruelas escuras

Antros… Dias de sol — de agasalho
De que o olhar abrasa e amodorrado
Mal tem espaço para desejar…
Campos cheios de vultos em trabalho
À sombra de um carvalho ali isolado
— Ah e eu passo! — um mendigo a descansar.
O longe! O além! O outro! A rota! Ir!
Ir absolutamente! ir entregadamente
Ir sem mais consciência de sentir
Que tem um suicida na corrente
Que passa a dor da morte na água a rir.

        Sonho-desolação!
Ó meu desejo e tédio das viagens,
Cansado anseio do meu coração —
        Cidades, brumas, margens
        De rios desejadas para  olhar…
        Costa triste, ermo mar
        Barulhando segredos,
Negrume cortiçado dos rochedos
D’onde pulsa chiando a espuma na água —
        — Frio pela consciência dos meus nervos —
        De não estar eu a ver-vos, ódio-mágoa!
Ó Tédio! só pensar estar a ver-vos…

Gozo gloriosamente estéril e oco
De encher de memórias de cidades,
De campos fugitivos, feitos pouco
Na fuga do comboio — sociedades
Só pensadas de velha bancarrota

Surpresas no olhar sobre colinas,
Rios sob pontes, águas instantâneas
Grandes cidades através neblinas
Fábricas — fumo e fragor — sonhos insónias…

Mares súbitos, através carruagens
Vistos por meu olhar sempre cansado
Tudo isto cansa, só de imaginado
Tenho em minha alma o tédio das viagens
Que quero eu ser? Eu que desejo querer?
Feche eu os olhos, e o comboio seja
Apenas um estremecimento a [encher?]
Meu corpo inerte, meu cérebro que nada deseja
E já não quer saber o que é viver…

Minuto exterior pulsando em mim
Minuciosamente, entreondulando
Numa oscilada indecisão sem fim
Meu corpo inerte… Sigo, recostando
Minha cabeça no vidro que me treme
De encontro à consciência o meu ser todo;
Para quê viajar? O tédio vai ao leme
De cada meu angustiado modo.

Por entre árvores — fumo…
Ó domésticos (…) escondidos!
Ó tédio… Ó dor… O vago é o meu rumo.
Viajo só pelos meus sentidos
Dói-me a monotonia dessa viagem…
Peso-me… Entreolho sem me levantar
Estações (…) … [Campolides?]… Reagem
Inutilmente em mim desejos de gozar…

Poesia – Álvaro de Campos – pág. 56, 57 e 58. 
Organização e notas de Teresa Rita Lopes
Companhia das Letras

O tempo nosso de cada dia

É novembro. E os carrilhões ressoam suas ilusões lá fora. As ruas estão adormecidas. Nem é dia ainda. Talvez seja pra você, mas não pra mim. Eu sigo celebrando. Acendendo uma vela por dia. E hoje o tempo é dela…

tempo perdido

Queria voltar no tempo e fazer diferente,
aprender a te gostar com calma,
aceitar seu jeito horrível de bajular
toda menininha que te diz oi.  (…)
Karla Tabalipa

A gente nasce e já começa a contagem regressiva.
Tem o tempo para ser dado o primeiro sorriso, o primeiro passo, a primeira palavra. Nem nos damos conta do que somos e já corremos contra ele, o tempo.
Os dias passam, e vamos crescendo evoluindo.
O corpo vai se formando, vamos construindo nossa anatomia, primeiro os hormônios comandam, depois o cérebro toma conta da situação, pelo menos para alguns.
Medimos a passagem deste tempo enumerando os anos que passam. Mas dentro de nós somos sempre a menina que sonha e a jovem que deseja.
Sonhei com os 5 anos para poder usar roupas coloridas, até então só vestia azul e branco. Queria chegar aos 7 por ser a idade da razão, mas perdi meu pai ao completa-la. Planejei os 15 anos para poder ir a festas, para vestir meu primeiro vestido de princesa. Ansiava pelos 18 anos para poder fumar e beber, e não fiz nada disso. Comemorei os 30 anos pensando que a partir dai minha vida seria configurada e nada mudou. Nunca pensei nos 40, mas foi ali que tudo começou! Hoje nem quero contabilizar quanto tempo já passou desde que minha mãe foi para maternidade!
Muitas vezes pensamos não ter tempo para realizar nossos sonhos  por que estamos ficando mais velhos mas aprendi com um filme bobo a contrariar esta máxima: “Não há um limite de tempo, comece quando quiser. Você pode mudar ou não. Não há regras. Podemos fazer o melhor ou o pior.”

Por Maggie May

Daquilo que vai…

nuvens 12A manhã começou com nuvens. Mas o sol já se exibe pela paisagem. Não sei, mas andam dizendo por aí que é primavera, quase verão. Eu confesso não saber nada sobre isso. Sei apenas de meu olhar pela janela. De minhas ilusões aos montes e dos cenários que vão se multiplicando em minha mente. Tudo é saudade de coisas antigas. Tudo é desconforto com gestos novos. Tudo é cansaço de palavras repetidas.

Segunda-feira. Novembro. O silêncio das horas. Tudo se precipita a mim. Eu gosto de ler poesias para dar boas vindas ao dia. Gosto de me perder entre os versos. Só não gosto de dizer o que eles me dizem. Sempre tropeço, afinal, poesia sempre foi silêncio pra mim…

Daquilo que vai
Luna Sanches

Faço de varal a linha tênue
que separa o ontem do nunca mais
e penduro ali as saudades que sinto
do que não cheguei a viver.

Uso prendedores coloridos mas,
numa sapequice premeditada,
prendo-as displicentemente,
como quem solta,
como quem alforria,
como quem liberta e se liberta.

Na falta do vento uso meu próprio sopro.
Assopro.
Trago o ar dos pulmões
e me perdoo por ter sido forte,
por ter sido fraca,
por ter sido maior do que sou.

Tão bonitas as saudades assim,
dançando,
enfeitando um tempo que não existiu.

Uma ou outra foge do varal e vai pra longe.

Sorrio liquefeita.

Recolho as que sobraram e sigo mais leve,
mais sábia,
mais eu
porque também sei me orgulhar
dos meus vazios.

Hoje o verso é dessa menina que descobri há pouco: Luna Sanches. Não sei se foi ontem ou antes. Não importa. Importa mesmo a descoberta.
Eu fui ao encontro dela no meio de uma manhã de segunda-feira. Seu nome chamou por mim. Temos quase o mesmo nome, se não fosse um “n” a mais. Mas somos Lua. Noite. Madrugada. Cidade alta…
Ela é de novembro, assim como eu, mas eu sou sagitariana, ela não. É de escorpião: nascer, morrer, renovar, renascer, inventar, reinventar não são apenas crenças, são experiências cotidianas…
Ah! E eu fiquei sabendo (não posso dizer como) que essa menina tem um caso de amor, cheio de taras e fetiches com as palavras. E isso não é boato. É fato. Eu mesma já comprovei e pelo que posso perceber, você também…

Burnt Norton – as chamas de Eliot.

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Sim, hoje é segunda. Eu sei…
E estou aqui a ler poesias – a manhã de sol a arder no asfalto e criar sombras nas calçadas convidou e eu fui… O poema “Burnt Norton” estava sobre a mesa e eu corri os olhos por ele e acabei por lembrar-me de uma crítica feita (não lembro por quem) acerca do título do poema, que segundo a “lenda” é, o nome de uma casa de campo em Gloucester que foi consumida pelas chamas no século XVIII e que pertencia a um milionário.

Até ler isso, o poema “Burnt Norton” era pra mim apenas uma espécie de narrativa acerca das figuras femininas de Emily Hale e Mary Trevelyan que tiveram suas importâncias na vida de Eliot que escreveu mais de mil cartas a Emily e admitiu mais tarde ter se apaixonado por ela.

(…)
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
Mas com que fim
Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas,
Não sei.

(…)
Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro,
O que poderia ter sido e o que foi,
Convergem para um só fim, que é sempre presente.

Não sei. Indiferente a voz do crítico, o poema não mudou o seu sentido pra mim, mas ganhou mais corpo. Afinal, já chega dando intensidade as linhas que seguem. As pessoas gostam de falar do amor, da paixão. Desejam para si essa insanidade temporal que nada mais é que uma casa em chamas que arde e queima, as vezes, devasta. Cala…

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A poesia de Manuela Barroso

image          Eclipse Lunar 2011

Magia da Noite

Amo-te,
silêncio da noite!
quietude da noite!
solidão da noite!
Escuro peregrino
escorrendo nas pedras lavadas
em lágrimas azuis!
Amo-te,
lua
minha escrava
confidente
rainha…
Amo-te
pios nocturnos
mochos e corujas
em campanários de estrelas
E amo-te
sussurro vazio
que corres no fio da lua…
Que pare o dia
Que a noite é a rainha.!..
…E a noite vai caindo lentamente
acompanhando a quietude do pensamento
onde só a janelas dos olhos penetra…
lendo os compassos
e vicissitudes da vida
com mais paixão, mais lucidez…
…E tento penetrar nesta amálgama…
… A imaginação mergulha
e deixo-me viajar
aproveitando os ventos da solidão…
…E no canto de mim
guardo as memórias…
…E no canto de mim
florescem momentos de felicidade
que partilho em segredo
com os sabores da madrugada….
Deixo-me levar pela saudade
adormecendo nos seus braços.
Acordo na nuvem do tempo
que se desfaz
… com o pó do dia…
Vem…
oh, noite companheira
alimenta
esta magia!…

Manuela Barroso
In “Eu poético III”

Manuela Barroso. O que eu sei sobre ela? Sei apenas o que ela diz em seu blog: amo poesia, Prosa Poética, Poemas Oblíquos; gosto de refletir sobre o Universo, Infinito Deus… Energia… O Aqui, O Agora… E por fim confessa que o Silêncio é seu alimento; a Paz e a quietude são o seu refúgio…
É pouco, mas suas palavras me dão asas e as vezes eu nem sei se são apenas imaginárias. Sei apenas que me ausento de mim e de repente, lá estou a frente da tela, de volta ao meu lugar de sempre.

A poesia contemporânea quase sempre me escapa, ou como costume dizer, as vezes, voa até a minha janela, mas não consegue avançar por suas frestas… Mas a poesia de Manuela encontrou minha janela aberta e me deu a mão…

Indócil como Hilda Hilst…

Depois de passar a manhã compondo outras coisas artificiais, precisei de uma pausa e Hilda Hilst escorregou pela derme, acariciando meus ciclos. Estou indócil e gosto de pensar que essa mulher poeta era assim: indócil…

 

sampa

 

Que boca há de roer tempo? Que rosto
Há de chegar depois do meu?
Quantas vezes
o tule do meu sopro há de pousar
Sobre a brancura fremente do teu dorso?
Quantas vezes dirás: vida, vésper, magma-marinha
E quantas vezes direi: és meu. E as distendidas
Tardes, as largas luas, as madrugadas agônicas
Sem poder tocar-te. Quantas vezes amor
Uma nova vertente há de nascer em ti
E quantas vezes em mim há de morrer.

Hilda Hilst

 

Hilda Hilst era poeta, dramaturga e ficcionista; nascida em Jaú (SP) no dia 21 de abril de 1930. Em 1966, mudou-se para a Casa do Sol, uma chácara próxima a Campinas (SP), onde residiu até a sua morte, deixando seus amigos (cães) na certeza de que teriam uma vida tranquila. Taxada desde sempre de “maldita”, “pornográfica”, “escandalosa”, Hilda foi, no entanto, uma das mais talentosas escritoras brasileiras: “a poesia de Hilda desenha um arco de coerência e inspiração sem igual em qualquer outro autor vivo no Brasil.”

Ninguém me leu, mas eu fui até o fim, fiz o trabalho. A gente tem de acreditar em si mesma. Eu sei que sou o maior poeta do país, não tem importância me chamarem de megalômana. Escrevi de um jeito que ninguém escreveu. Foi a única coisa que eu soube fazer na vida. (Hilda)

Ela dizia-se “megalomaníaca” ao classificar sua própria obra, como prova a estrofe colhida ao acaso em Da morte: “Porque conheço dos humanos/ Cara, Crueza/ Te batizo Ventura/ Rosto de Ninguém/ Morte-Ventura/ Quando é que vem?”.
Hilda nunca saía do sítio, próximo de Campinas, onde se recolhera, há tempos, qualquer que fosse o tipo de evento a que fosse convidada.

Aflição de ser eu e não ser outra.

Remate dos males, Mário de Andrade

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LOUVAÇÃO MATINAL (excerto)

Que a vida de cada qual seja um projeto de casa!
Sêco, o projeto agride o ôlho da gente no papel,
Porém quando a casa se agarra no lombo da terra,
Ela se amiga num átimo com tudo o que enxerga em volta,
Se adoça, perde a solidão que tinha no projeto,
Se relaciona com a existência, um homem vive nela,
E ela brilha da fôrça do indivíduo e o glorifica

Deflorar a virgindade boba do que tem de vir!…
Eu nunca andei metido em sortes nem feitiçarias,
Não posso contar como é a sala das cartomantes,
E minhas mãos só foram lidas pelos beijos das amadas,
Porém sou daqueles que sabem o próprio futuro,
E quando a arraiada começa, não solto a rédea do dia,
Não deixo que siga pro acaso, livre das minhas vontades.
O meu passado… Não sei. Nem nunca matuto nele.
Quem vê na noite? o que enxerga na natureza assombrada?
O que passou, passou; nossa vaidade é tão constante,
Os preconceitos e as condescendências são tão fáceis
Que o passado da gente não é mais
Que um sonho bem comprido aonde um poder de sombras lentas
Mostram que a gente sonhou. Porém não sabe o que sonhou…
Não recapitular! Nunca rememorar!
Porém num rasgo matinal, em coragem perpétua
Ir continuando o que um dia a gente determinou!

Eu trago na vontade todo o futuro traçado!
Não turtuveio mais nem gesto meu para indeciso!
Passam por mim pampeiros de ambições e de conquistas,
Chove tortura, estrala o mal, serenateia a alegria,
Futuro está gravado em pedra e não se apaga mais!
Por isso é que o imprevisto é para mim mais imprevisto,
Guardo na sensação o medo ágil da infância,
Eu sei me rir! Eu sei me lastimar com ingenuidade!


Mário de Andrade, Poesias Completas,

Essa semana um e-mail veio lembrar-me do estilo de escrita de Mário de Andrade que preferia “dar voz ao povo” ou seja, ele não gostava do português dos catedráticos, tão difícil de se compreender. E como estava lendo “remate dos males” achei que seria de bom tom, explicar a essa “querida pessoa” alguns “senões”:

Claro, alguém aí já deve ter ouvido falar do famoso português arcaico, mas daí a dizer que é legal falar “dez real” ou “pobrema” chega a ser lamentável. Sim, há de se dar voz ao povo, mas achar gracioso que um Presidente da República seja um incapaz quanto ao uso de sua língua natal e admirarem-no por ele fazer o discurso na “língua do povo” é duplamente lamentável.

Até porque senhores, o homem teve tempo de sobra para resolver esse “pequeno problema” de comunicação e de certo não foi por falta de condições financeiras que não o fez. Sabemos todos… 

Agora, acho melhor ler Mário de Andrade antes de usá-lo em discursos a favor de uma suposta voz do povo porque já imaginou o referido presidente lendo “remate dos males”?

Wania Victoria

Dias desses chegou pelo correio o livro “maria clara – uniVersos femininos” onde autoras contemporâneas deixam seus versos. Não vou aqui classificar como sendo poesia feminina porque a discussão acerca do tema me cansa. O que não me cansa são os versos dessas meninas enluaradas. Você vai caminhando por versos e tudo vem vindo ao seu encontro: sentimentos, sensações, ilusões. É só manter a porta aberta e lá pela página 233 você se encontra com essa gaúcha que eu conheci através do seu blog e com quem tenho uma empatia natural. Há coisas que apenas são e você não pede pra ser, tão pouco questiona por assim o ser…Foto0120

Ao leste, ela é madrugada
Fresca, gelada, recém acordada
Branca página virada
Pronta para ser; ela plena do dia, lavrada.

Ao sul, é meio dia
Intensa, quente, sol a pinto
mesa sempre posta
Cereja servida ao marasquino

Ao oeste, é crepúsculo
Mansa, calada, introspectiva
Lago vidrado
Águas tintas de sangue, suor e saliva

Ao norte, é meia noite
Escura, densa, misteriosa
Dossel enluarado
Velando a gruta desejosa

Ela é a Rosa dos ventos
meia noite, meio dia
Crepúsculo, madrugada
Nem vento, nem a vida
Doma-lhe calada.

Wania Victoria – nascida em Porto Alegre. Sua infância foi muito rica de carinhos e vivências. Incentivada desde cedo pelos pais, desenvolveu o gosto pela leitura, o que a deixava sempre a um passo de querer escrever as suas próprias coisas. Curiosa e sonhadora, seu quintal foi sempre um excelente laboratório de experiências. Cresceu entre livros, diários, papéis, lápis e lembranças.

Cursou Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou em 1986, especializando-se em Pediatria. Há vinte anos trabalha na emergência de um grande hospital em Porto Alegre e é responsável pelo serviço de atendimento às crianças expostas ao vírus HIV no município de Viamão.

A poesia é sua filha mais nova, chegou há poucos anos em sua vida. Foi concebida depois de alguns namoros entre a prosa e o conto em oficinas literárias das quais participou. A gestação deve ter sido longa, mas o parto foi normal e sem fórceps. Cresceu livre e, hoje, em plena adolescência, não se mostra nada obediente: tem vontade própria. Tanto insistiu que fez do seu blog o seu palco e inspirada por Mário Quintana, Cecília Meireles, Adélia Prado, Manoel de Barros, Fabrício Carpinejar, Fernando Pessoa e Maria Teresa Horta, entre outros tantos, dança e canta ainda sem desenvoltura, mas jura que quer seguir bailarina.

Leia mais de sua poesia em:
www.encantaventos.blogspot.com

Ana Cristina Cesar

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Decidi ler Ana Cristina Cesar no decorrer dessa semana. O livro estava na prateleira há tempos e hoje ele me chamou sem cerimônia alguma. “inéditos e dispersos” é um dos livros publicados após a morte da poeta. Foi organizado por Armando Freitas Filho e qual não foi a minha surpresa ao encontrar logo nas primeira página um poema cujo título me remeteu a mim mesma.

A terceira noite

Era uma terceira noite.
O giroscópio girava girando.
Minha gravata balouçava no ar.
Meus guizos tocavam tocando.
Meu coração batia batendo.

Subi as escadas da noite.
Desci as escadas do dia.
Fui descendo para cima,
E subindo para baixo!

Mas num dado momento,
Eis que sibila o vento
As escadas corrompem
O quarto dia despenca
E a nova noite aqui fica

Biografia. Ana Cristina nasceu em 1952, desde cedo mostrou talento para esse indócil mundo das artes. Sua vida pode ser contada e sentida em versos. Viveu fazendo prosa poética dos seus dias e nos deixou sem critério algum no ano de 1983.

Ela era exatamente como sua escrita: concisa, cristalina, preciosa e solitária. Sua enorme beleza não se limitava aos seus traços, se espalhava por todas as linhas de sua história, mesmo que breve. Sua escrita é tão íntima que as vezes faz lembrar uma missiva traçada naquele instante em que se precisa tanto de alguém que te ouça que o único caminho é um envelope, deixado por descuido ali no canto da mesa.

Sua morte foi um salto pela janela, por assim dizer, conclui-se que ela se deu asas e voou para longe por não resistir a violência com a qual sua geração foi forjada que faz com que a vontade de viver não consiga ser maior que a dor que se acumula no avesso.

Flores de Maio…

Outono na janela e na porta
O olhar pedindo silêncio, o sol que vai e vem, a chuva que parece chegar pelos cantos do céu e o novo mês que já ensaia passos pelas calçadas do bairro. A pressa dos outros se transforma em demora. As vias estão cheias. Um corpo fica pelo caminho. Ninguém tem tempo de sobra para dar atenção a quem atravessa a rua sem olhar para os lados… Que gente mais estranha é essa que vive lá fora, mas enfim, maio chegou na minha janela e eu sou pessoa de dentro, com poesia minha, com poesia dos outros.

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Poema.
Nuvens correndo num rio

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

Natália Correia, embora nascida nos Açores/Portugal, foi considerada a menina mais bonita de Lisboa, mesmo tendo quem a chamasse de “Rosa dos Açores”. Para muitos, indiferente de títulos e alcunha, ela era sem dúvida alguma a sombra da escrita contemporânea.  É um desses seres que não cabem no espaço que lhes foi destinado “não me arrependo do que vivi” dizia a poeta inúmeras vezes e ao se descrever, lançava mãos de seus versos que diziam:

Espáduas brancas palpitantes / asas no exilio dum corpo / Os braços calhas cintilantes / para o comboio da alma / E os olhos emigrantes no navio da pálpebra / encalhado em renúncia ou cobardia / Por vezes fêmea. Por vezes monja / Conforme a noite. Conforme o dia / Molusco / Esponja / embebida num filtro de magia / Aranha de ouro / presa na teia dos seus ardis / E aos pés um coração de louça / quebrado em jogos infantis.

* * * * *

Tinha o tamanho da praia / o corpo era de areia / Ele próprio era o início / do mar que o continuava / Destino de água salgada / principiado na veia. (…)