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O Diário de uma solidão
São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02

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A sala de aula exibia uma agradável organização: a mesa das crianças, da professora, os desenhos pela parede, os livros na estante, o quadro negro, as janelas baixas com suas cortinas brancas. Ficou fácil perceber que todas aquelas coisas estavam exatamente como haviam sido deixadas por Don´Antônia. Também ficou fácil compreender porque nenhuma professora havia conseguido permanecer por ali, afinal, a maioria daquelas pessoas (as mais antigas e mesmo as mais novas) conviviam com o fantasma daquela mulher que era mantido por ali em cada gesto e em cada lembrança.

Fazia pouco tempo que Evangeline estava ali, andando de um lado para o outro, quando a sala foi invadida por três jovens arredias que se pareciam com Pretinha. Comportamento arisco. Nenhuma gentileza nos atos e tão pouco nas palavras. Elas já sabiam que “havia uma nova professora na fazenda”. Não era exatamente uma novidade. Todos que viviam ali naquela vila já sabiam da presença de Evangeline MacBrown – cujo nome era pronunciado com indiferença e pouco caso pelos arredores da fazenda.   Com toda certeza, estariam todos ali (mães, pais, filhos, netos) não para desafiá-la, mas para deixar bem claro que ela não era bem vinda. Seria exatamente assim: não fosse a festa de boas vindas para os italianos.

Evangeline não teve, nem por um segundo, sua confiança abalada. Exibiu seu melhor sorriso, cumprimentando-as gentilmente enquanto se sentia medida de cima em baixo por aqueles olhares ameaçadores que pareciam dispostos a correr com ela dali. “Ela não passa de uma intrusa” – gritavam aqueles olhares. Os braços cruzados a frente do corpo diziam “como ousava estar aqui neste templo sagrado? Você não pertence a esse lugar”. Uma delas deixou o silêncio de lado para demonstrar de forma incisiva o seu descontentamento “mas não sei perche seu Augustus insiste com essa idéia de ter uma professora aqui. Mas non dá certo e ele sabe disso. Nós tudo já falamos pra ele que damos conta de ensinar os mais novos”.

Evangeline apenas sorriu, de forma branda. Calma. Enquanto apreciava atentamente todos os detalhes daquela sala. Ela se movia de um lado para o outro, com passos lentos, movimentos tranquilos. Parecia flutuar por entre as mesas e cadeiras. Sentia os móveis com as pontas dos dedos – conhecendo a textura, sentindo toda a história daquele lugar. Verificou as personagens nas paredes. “Uma sala de aula tem tanto a dizer” – pensava ela em seu silêncio necessário. Tobias permanecia por ali, como  chapéu nas mãos. Ali não era uma igreja, mas tinha qualquer coisa de sagrado. Don´Antônia pedia aos senhores que tirassem o chapéu sempre que entravam na sala. Havia um cabideiro ao lado da porta para deixarem o chapéu por lá. Ela não era apenas uma professora de bê-á-bá. Ela também ensinava boas maneiras para serem usadas ao longo de um dia inteiro. Era gentil, educada, elegante e gostava de contar histórias que todos gostavam de ouvir. Tobias tinha um punhado de lembranças dos dias em que passava ali naquela sala, aprendendo. Um de seus desenhos estava preso na parede “este é seu” – disse Evangeline tão logo percebeu o nome do menino de treze anos que ficou orgulhoso por ser reconhecido.

_ Todos os alunos da Don´Antônia tem desenhos e cartas presos na parede. Nem pense em tirá-los… Ela deixou assim e é assim que  vai ficar.
_ Eu jamais pensaria em remover um só desenho ou uma só carta desta parede minha cara. Essa parede é como se fosse a página de um livro. Não se pode arrancar ou o livro perde o sentido. No caso, se eu cometesse tamanha barbaridade, essa sala toda perderia o seu sentido…

Tobias estava atento as atitudes daquelas meninas. Ele parecia um cão de guarda e estava pronto para correr com aquelas meninas abusadas dali, bastava um sinal – que não veio em momento algum. Ele respirava fundo enquanto pensava em seu Augustus que havia, pela primeira vez em muito tempo, demonstrado uma enorme confiança quanto a presença de Evangeline na fazenda que o fez dizer “dessa vez eu acertei Tobias. Não tem erro”.

Evangeline tinha de fato qualquer coisa de diferente daquelas outras senhoras que ali estiveram em tempos idos. Havia nela, sensibilidade o bastante para perceber o recado que estava sendo dado a ela por aquela jovem, cheia de empáfia. Da mesma forma que tinha sensibilidade para saber que não deveria ocupar aquela linda mesa artesanal. Nada ali deveria ser mudado de lugar. Nada ali, em momento algum, pertenceria a ela. Seria assim, pelo menos até que todos se acostumassem com sua presença.

_ Tobias, será possível conseguir outra mesa? Ali naquele canto tem espaço para um mesa. – disse, apontando para o outro lado da sala, onde havia apenas uma lixeira. _ Acho que o Augustus se incomodaria de providenciar isso pra mim?

Tobias coçou a cabeça. Não entendeu o pedido feito por Evangeline. Caminhou até a mesa e pensou “é uma bonita mesa, por que será que ela não gostou? O Américo vai ficar magoado”. Todas as professoras que ali estiveram antes dela ficaram admiradas com a qualidade do trabalho feito pelo carpinteiro da fazenda. Foi um presente. Ele quis retribuir a dedicação da professora Don´Antônia para com todas as crianças da vila. Ele tinha oito filhos e todos foram alunos de Don´Antônia.

O que Tobias não desconfiava era que Evangeline parecia saber bem o que pretendia, afinal, tal comentário havia desarmado aquelas meninas que recuaram em seus dizeres e passaram a pensar que talvez, apenas talvez poderiam se acostumar com aquela senhora que usava óculos engraçados: arredondados. E chapéus sempre azuis. Era impossível precisar quantos anos tinha, mas era bonita e tinha um belo sorriso.

Nem é preciso dizer que tal informação se espalhou por todos os cantos daquela vila, desde os mais novos até o mais velhos…

Fim do segundo capítulo…

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O Diário de uma solidão
São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02

celeiroMergulhada em qualquer coisa de ausência e uma estranha sensação de conforto que há tempos não sentia, Evangeline buscou por um livro de versos e acabou adormecendo em meio a leitura. Despertou em meio a uma manhã de sol, com uma alegria tão próxima. Canções percorriam todos os arredores da fazenda. Havia uma festa em algum lugar e ela se lembrou de algo que Pretinha havia lhe dito sobre a chegada dos italianos.  O sol já estava alto e o relógio da sala avisava às nove horas matinais.

_ Como alguém consegue ser tão feliz a essa hora da manhã? – espreguiçou-se tentando afastar a preguiça que percorria cada pedaço dolorido de seu corpo. Ela havia dormindo de mau jeito, com roupas impróprias para o descanso e com a cabeça sobre o livro que havia caído de suas mãos.

O café da manhã havia sido deixado em cima de sua mesa: leite, frutas, pães e bolos. Ao ver aquela confusão desnecessária de cores ela riu, afinal, estava acostumada a uma simples xícara de café, uma fatia de pão e um aluno indócil batendo a sua porta por volta das onze, nunca antes disso…

Quando o relógio gritou na sala às dez horas da manhã, Evangeline finalmente apareceu e logo foi interpelada por Tobias que estava ali a sua espera. Augustus havia pedido a seu empregado de confiança que ficasse a disposição da professora e providenciasse tudo que ela pudesse vir a precisar, já que ele estaria ocupado.

_ Bom dia professora. Meu nome é Tobias e eu estou aqui ao seu dispor a pedido do seu Augustus. Se quiser posso levá-la agora mesmo pra conhecer a sala onde irá dar aulas para as crianças da fazenda. Acha oportuno, senhora?
_ Claro Tobias. Eu agradeço, mas pensei que fosse conhecer as filhas do Augustus, ainda não tive contato algum com elas. – lamentou-se enquanto lançava um olhar ao redor. Tudo vazio, já era tarde demais para aquela gente.
_ Eu sinto muito senhora, mas as meninas já estão longe a essa altura. A mais velha saiu bem cedo para os exercícios matinais. Ela adora cavalgar. A mais nova creio que nem dormiu em casa. Ela vive no bendito do celeiro que o pai deu de presente a ela em seu último aniversário.
_ Celeiro? – ela não conseguiu conter seu espanto diante daquela notícia, afinal, um celeiro até onde ela se lembrava não era exatamente o lugar para uma moça…

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São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02

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Eram quase sete e meia quando Pretinha bateu na porta do quarto de Evangeline e entrou sem esperar que fosse atendida. Trazia consigo uma bandeja com o jantar para a professora e também o seu destempero natural.

_ Seu Augustus achou que seria melhor a senhora fazer a sua refeição aqui no quarto. Mas acho que não vai gostar do que eu trouxe, minha mãe fez polenta com molho de frango caipira. Deve estar acostumada com refeições mais requintadas. Soube que vivia na corte. – ironizou.

Evangeline apenas sorriu sem nada dizer. Estava faminta e não tinha disposição alguma para discutir seus gostos pessoais com aquela jovem arredia. O cheiro daquela refeição já havia tomado conta de todo o quarto, levando água a sua boca. Tudo que ela desejava naquele momento era se ver livre daquela jovem que deixou o quarto logo em seguida, afinal, ela não escondia sua insatisfação em ter que fazer serviços para aquela mulher que ocupou enorme à mesa, durante o jantar. Pérola, como de costume, respirou fundo enquanto lembrava-se de todas as professoras que já haviam passado por ali. Cecília reclamou, afinal, ela preferia os cavalos aos estudos. Mas Augustus seguia firme em seu propósito, muito mais por sua caçula, sempre tão dedicada aos livros…

A refeição não tomou quinze minutos do tempo de Evangeline que sentiu-se muito mais confortável após degustar aquele prato inédito até então e que se revelou um tanto saboroso. Mas não foi o único conforto que a noite revelou. Evangeline escreveu algumas linhas, leu algumas páginas, deu alguns passos pela casa que aquela altura já estava às escuras, apreciou os quadros espalhados pelo corredor que antes haviam passados despercebidos aos seus olhos. Caminhou pela varanda, sentiu o perfume da noite,  ouviu dúzias de barulhos estranhos que a fez rir e por fim, encontrou-se com Augustus na sala e estranhou vê-lo desperto.

_ Dificuldades para dormir? – indagou ao se levantar prontamente para convidá-la a sentar no sofá e em seguida oferecer um licor. Os dois convites foram aceitos e ele a acompanhou. _ É feito de um fruto brasileiro, mas não me pergunte o nome. Há palavras que são indóceis para o meu vocabulário e eu não gostaria de ofendê-la com tais erros de pronúncia. A senhora é uma professora.
_ Imagine Augustus, a sua pronúncia é exemplar. Ainda mais sendo um italiano. Percebo alguns fonemas, algumas palavras trocadas, mas o seu português é muito agradável. E eu admiro muito o idioma italiano, é muito sonoro e bastante agradável…
_ Então a professora parla italiano? Não estou surpreso com isso.

O olhar dos dois ficaram ali presos um ao outro, enquanto um sorriso ganhou seu devido lugar naqueles lábios que nada pressentiam além do prazer que sentiam na companhia um do outro. Não sentiam a mudança dos ventos, nem mesmo o frescor da noite. Nada sabiam um do outro e só se ocupavam com as descobertas que os diálogos permitiam. Ele lhe contava sua história, ela contava apenas o que julgava ser interessante de sua história.

Ela soube como Augustus conheceu sua Antônia, mas ele não soube como Evangeline conheceu Edouard. Soube que ela nunca teve os mesmo planos de suas irmãs. Sempre preferiu a independência e ela soube que desde sempre ele desejou amar e ser amado, ter uma família e um canto pra chamar de seu…

E a noite por pouco não passou longe dos dois que se deram conta do adiantado da hora e recolheram-se. Ele a entregou em seus aposentos, como se fosse um jovem a levar sua amada de forma segura a sua casa. Ela agradeceu como se fosse moça a admirar o galanteio de um cavalheiro.

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São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02

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Depois de se lavar, Evangeline perdeu-se na paisagem de sua janela e acabou se distraído com suas poesias favoritas que sempre a faziam suspirar, sorrir e sentir o vigor de sua juventude em sua pele. Era nesse momento que ela se dava conta do peso de sua idade e se ressentia consigo mesmo por ter desperdiçado tanto tempo ao lado daquele homem que ainda a fazia sonhar “ter pesadelos Evangeline McBrown. Pesadelos”  – repetia de forma firme, autoritária como se dessa uma ordem a si mesma. Se alguém ouvisse, de certo acharia graça ou esconderia os lábios para que ela não visse a ilusão de um sorriso, mas era de fato uma cena engraçada. Uma luta inglória, já que ela acordava suspirando quando sonhava com o autor do desenho que havia sido esquecido por ela sobre a cama, para a qual ela olhava com pesar.

Era uma pequena tela onde a beleza de seu rosto estava eternizada. De todas as lembranças, aquela era a única da qual ela não conseguia se libertar. Era um esboço feito com carvão. O desenho havia surgido numa tarde chuvosa, numa calçada, próximo a um café e a uma dessas poças que se forma depois de uma tempestade. Ela sentara-se num banquinho após a insistência de Edouard que ficou admirado com a beleza da jovem Evangeline McBrown que ao observar aquela tela sobre sua cama, viu repetir-se em sua mente uma vez mais aquela cena que conferia a sua existência uma tristeza fina e uma alegria ainda inusitada “como esquecer um grande amor Evangeline? Como esquecer?” – indagava a si mesmo em meio a suspiro intenso e um cansaço natural que surgia em seu corpo em meio aquele desconforto de última hora que a fez deitar-se e adormecer por mais tempo do que de fato desejava.

Acordou assustada, com o corpo trêmulo. À noite, na fazenda, o frio aparecia e as janelas abertas deixaram seu corpo desconfortável. Ela precisou aquecer os braços com repetidas fricções das mãos que também estavam frias. As venezianas foram rapidamente fechadas, ela buscou por sua echarpe para aquecer-se e só então se deu conta do adiantado da hora o que a fez lembrar-se de Augustus e suas noções diferenciadas de realidade “as refeições nessa casa senhora McBrown são servidas diariamente às doze horas e as seis da tarde. O café da manhã às seis e meia”  – algo que definitivamente casou certa estranheza, afinal, ela não conseguia se lembrar de ter acordado tão cedo assim em toda a sua vida. A voz forte daquele homem seguia ditando suas regras, enquanto as mãos seguiam confortavelmente presas ao colete “a tarde, por volta das três horas é servido um lanche, algo que se repete por volta das nove horas, minutos antes de nos recolhermos. Alguma dúvida senhora?” – ela só tinha uma, desejava saber se ele sempre a iria chamar de senhora McBrown e foi a primeira vez que ela o viu sorrir, meio sem jeito, como se há tempos não fosse capaz de tal gesto. Seu corpo foi para a frente e para trás em cima dos calcanhares e ele finalmente disse “só se a senhora insistir em me chamar de senhor Alberoni” e o sorriso saltou para os lábios de Evangeline que em seguida ouviu a reclamação de seu estomago, mas não tinha coragem de aparecer na sala naquele horário.

_ Essa é a vida no campo Evangeline. Quero ver você se acostumar a isso. – ironizou enquanto cruzava os braços e imaginava o sabor de uma folha de papel.

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O Diário de uma solidão
São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02

baú

Recolhida em seus novos aposentos, ela observava a própria vida e parecia tão ingrato que seus quarenta e poucos anos coubessem toda dentro daqueles dois baús. Parecia tão pouco, mas era tudo que tinha pra chamar de seu.

O primeiro deles foi aberto com uma visível indiferença, ali estavam suas vestimentas, caixas com chapéus, fitas e mais fitas, corpetes, algumas caixas com sapatos e pequenas coisas do dia a dia de uma mulher. Tudo foi devidamente guardado no velho armário que tinha saquinhos perfumados espalhados pelas gavetas e demais superfícies do móvel. Tudo ali cheirava rosas. Era agradável, mas um tanto enjoativo depois de algum tempo. Para o mancebo, ao lado do guarda-roupa foram os quatro aventais, os melhores que tinha, embora dois deles já estivessem sujos pelo ofício. Ela costumava usá-los por sobre seus vestidos na hora das aulas, era mais barato fazer um avental que um vestido novo.

O segundo baú foi aberto com certa pressa, ali estavam seus livros, papéis em branco, as penas, os muitos frascos com tinta, dúzias de envelopes e aquela gravura que ela considerava como sendo a única paga recebida daquele homem a quem se dedicara cegamente… Havia ainda uma pequena caixa com material de costura: agulhas, linhas, furadores, botões, retalhos, e alguns bordados. Aquele material era todo ele utilizado na confecção de seus cadernos, arte que ela havia aprendido ainda na infância com o avô que era um apaixonado por livros e tinha uma pequena editora num dos quartos da casa.

Ela usou um bom punhado de horas para deixar aquele recinto com a aparência mais agradável: ao lado da cama, um pequeno livro de poesia, duas velas; um pequeno caderno artesanal de anotações. A gramática de língua portuguesa e francesa, além de uma corrente com seu nome que era presente de sua mãe. Ela nunca usava aquele objeto, mas sempre o deixava ao lado de sua cama para antes de dormir despedir-se dele. Era sua forma de amenizar a sua solidão e dizer adeus a alguém, mesmo que esse alguém não fosse mais que uma lembrança, uma saudade…

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São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02

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A pedido de Augustus, Pretinha acompanhou Evangeline até os aposentos preparados para ela sem descruzar os braços por um só minuto que fosse. Não havia um só movimento de satisfação naquela menina que havia sido criada com as filhas do patrão e tinha os mesmos privilégios que elas. O que serviu para deixá-la sempre a vontade para demonstrar suas emoções.

_ Vou logo tratando de avisá-la que não terei aulas com a senhora.
_ Como bem entender senhorita, – ela tentou se lembrar do nome da menina, mas rapidamente tomou ciência de não tê-lo ouvido. _ Desculpe, mas não ouvi o seu nome sendo pronunciado.
_ Pretinha.
_ Sim. Isso eu me lembro de ter ouvido, mas se trata de um apelido e eu prefiro me referir às pessoas pelos seus respectivos nomes.
_ Ninguém me chama de Luzia aqui na fazenda, professora, – continuou, em meio a uma arrogância natural que começava se impor em seu comportamento, sempre que Evangeline não estava olhando, ela fazia caretas, mostrando-lhe a língua as escondidas. _ nem eu mesma me lembro desse nome. É Pretinha para todos, inclusive para a senhora. Tenho esse apelido desde criança e gosto muito dele…
_ Entendo! – disse ao passar por ela que havia aberto a porta do quarto para que Evangeline entrasse e apreciasse o local, dizendo “é aqui que a senhora vai ficar”.

O quarto tinha um cheiro recente de jasmim, as roupas de cama haviam sido trocadas, tanto quanto as cortinas e ali, a frente da cama estavam seus dois baús: sua vida inteira. Tal constatação a fez respirar fundo enquanto lembrava-se de coisas que insistiam em não serem esquecidas.

_ Onde estão as filhas de Augustus?
_ As filhas do “seu” Augustus estão por aí. Elas são livres para irem onde quiserem ir. – respondeu de foram desavorada.
_ Eu só perguntei por que ainda não tive o prazer de conhecê-las…
_ Pois eu duvido que vá vê-las tão cedo. Amanhã mesmo chegam os novos empregados do seu Augustus e será dia de festa aqui na fazenda…
_ Festa? – estranhou.
_ Exatamente. E agora se a senhora me permite, eu vou me retirar porque eu tenho mais o que fazer.
_ Fique a vontade Luzia.
A menina que sabia ser abusada bufou ao ouvir seu nome sendo pronunciado por aquela mulher que estava se revelando cada mais desagradável. Mas ela deu de ombros antes de sair, afinal, tinha certeza de que a estadia dela naquela casa seria tão breve quanto foi a das outras.

 

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Augustus surgiu junto a porta da Professora McBrown numa manhã fria de quase primavera. Era final de agosto. Os dias de setembro já se anunciavam, mas os dias frios ainda estavam por lá com suas curtas rajadas de vento rompendo venezianas; levando tumulto as mesas e seus papéis.

Foi muito educado desde o primeiro instante. Retirou o chapéu tão logo a porta se abriu a sua frente, fazendo um breve movimento com a cabeça como forma de cumprimento tão logo percebeu que estava diante da jovem professora para logo em seguida fazer a pergunta certeira “Senhora Evangeline McBrown?” – ela nada disse, nem mesmo tentou imaginar o que pensava aquele homem a bordo de seus quase cinquenta anos ali a sua frente. Não, ela apenas abriu espaço para que ele entrasse, expondo o caminho com uma das mãos. Morava sozinha, num sobrado, com um enorme lance de escadas que dava para a rua. Descer para abrir a porta era um excelente exercício. Subir, no entanto, era um tanto cansativo e ainda requeria certos cuidados como elevar a saia do vestido para evitar desconfortos desnecessários.

Ela soube tão logo mostrou-lhe o sofá em sua pequena sala adaptada para as aulas que havia sido indicada a ele por um amigo da corte. Evangeline ouviu atentamente os dizeres daquele homem que era pai de duas meninas que careciam de uma educação exemplar. Ele parecia desgostoso por não conseguir alguém para cumprir tal tarefa que aos seus olhos era algo extremamente simples; mas durante toda aquela conversa, onde apenas ele falou, ela não conseguiu descobrir se havia algo de errado com as filhas do fazendeiro ou com as professoras que ele havia contratado anteriormente.

Soube apenas que o destino estava dando a ela novas direções; teria dois dias para se preparar para a viagem e poderia levar o que quiser. Augustus se ocuparia totalmente de sua mudança; mas depois de muito observar aquele lugar, percebeu que precisaria apenas de dois baús…

E antes de sair definitivamente daquele casa para seguir rumo a fazenda Monte Sião, Evangeline respirou fundo e fez uma espécie de prece silenciosa consigo mesma. Ela nunca foi religiosa, mas naquele momento queria qualquer tipo de ajuda para esquecer o passado que insistia em ir com ela e parecia pesar bem mais que aqueles dois baús que agora era tudo que ela tinha.

Ela fechou a porta, entregou as chaves ao proprietário que lamentou muito perder tão boa inquilina, mas desejou-lhe sorte, deixando claro que se precisasse voltar, o imóvel seria dela sem demora. Ele ainda foi gentil ao ajudar-lhe a ocupar seu lugar junto a charrete de Augustus que seguiu pelas ruas lentamente, dando tempo a Evangeline de rever seus próprios passos, acenar para alguns conhecidos: antigos alunos, possíveis paixões e meros estranhos que sabiam mais dela que ela deles…

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São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02

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Evangeline McBrown tinha pouco mais de quarenta anos. Os últimos oito anos foram vividos na cidade do Rio de Janeiro para onde se mudou vindo de Paris. Para os amigos ela era Evie e para os alunos Professora McBrown.

Aceitar o convite feito por Augustus não foi custoso para ela que há tempos ensaiava deixar o Rio de Janeiro onde ela era a mulher que educava os filhos dos nobres, mas era também a mulher que já não encontrava motivos para estar numa cidade que seguia sendo o horizonte para o qual havia sido levada para supostos dias de felicidade. Uma promessa vazia. Tudo que teve foram dias de solidão que só não eram piores porque num momento de necessidade, ela havia descoberto sua segunda vocação: ensinar. Era assim que se mantinha.

Mas estava cansada. Há tempos andava inquieta com os rumos de sua vida. Foram muitas as vezes em que ao acordar sentiu vontade de fazer as malas e voltar para Paris; cidade que durante algum tempo foi considerada como sendo seu lar, sua casa, seu país, seu horizonte; mas foi justamente nas ruas parisienses que Evangeline descobriu o amor e a ilusão do prazer de ser amada. Um combinado de lembranças que amortecia sua pele e levava lágrimas aos seus olhos. Tudo isso, as vezes, a fazia repudiar a cidade luz. E o desejo de voltar se esvaía em segundos.

Ela sabia desde sempre que ele não a amava. Era um artista e ela por algum tempo foi sua musa, a quem ele rendia todos os seus melhores galanteios e gentilezas em troca da inspiração que ela parecia ser capaz de lhe dar. Tudo durou o tempo de uma saudade. Nada mais…

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São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02

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Dois baús. Foi tudo que Tobias, empregado de confiança de Augustus mandou levar para o quarto no final do corredor. De tão pesado que era um deles que foi preciso três homens fortes para levá-lo até lá e mesmo assim houve certo sofrimento. O outro era bem mais leve, só foi preciso quatro mãos.

Enquanto isso, na sala, já diante dos olhares atentos de Nhá Maria e sua filha Pretinha estava a dona dos baús: mulher fina, elegante, de gestos lentos e olhos tristes. Parecia cansada, afinal, a viagem havia sido longa. O calor estava em seu auge e o chapéu já parecia incomodar, mas removê-lo na presença de um homem, exibindo os longos cabelos negros despenteados era algo impensável.

O cansaço era evidente, mas mesmo assim ela movimentava seu leque seguidamente para refrescar-se, ao mesmo tempo em que observava atentamente aquele cenário  com suas figuras e símbolos. Nada escapou de seu olhar, tão pouco a forma pouco agradável como a empregada mais antiga da fazenda olhava para ela. Era fácil perceber que sua presença ali não causava nenhuma satisfação naquelas senhoras.

_ Providencie um desjejum para a professora Nhá Maria. A viagem foi bastante longa e ela deve estar faminta, além de muito cansada.
_ Outra professora tio Augustus? – indagou a filha de Nhá Maria, usando um tom de reprovação enquanto cruzava os braços a frente do corpo e fazia bico com os lábios.

Mas havia um motivo para isso, desde a morte de Don´Antônia que nenhuma professora tinha permanecido na fazenda por muito tempo. Nenhuma delas parecia capaz de dar às filhas do fazendeiro a educação que elas tanto precisavam…

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