O Diário de uma solidão
São apenas ventos de final de estação – Capítulo 02
A sala de aula exibia uma agradável organização: a mesa das crianças, da professora, os desenhos pela parede, os livros na estante, o quadro negro, as janelas baixas com suas cortinas brancas. Ficou fácil perceber que todas aquelas coisas estavam exatamente como haviam sido deixadas por Don´Antônia. Também ficou fácil compreender porque nenhuma professora havia conseguido permanecer por ali, afinal, a maioria daquelas pessoas (as mais antigas e mesmo as mais novas) conviviam com o fantasma daquela mulher que era mantido por ali em cada gesto e em cada lembrança.
Fazia pouco tempo que Evangeline estava ali, andando de um lado para o outro, quando a sala foi invadida por três jovens arredias que se pareciam com Pretinha. Comportamento arisco. Nenhuma gentileza nos atos e tão pouco nas palavras. Elas já sabiam que “havia uma nova professora na fazenda”. Não era exatamente uma novidade. Todos que viviam ali naquela vila já sabiam da presença de Evangeline MacBrown – cujo nome era pronunciado com indiferença e pouco caso pelos arredores da fazenda. Com toda certeza, estariam todos ali (mães, pais, filhos, netos) não para desafiá-la, mas para deixar bem claro que ela não era bem vinda. Seria exatamente assim: não fosse a festa de boas vindas para os italianos.
Evangeline não teve, nem por um segundo, sua confiança abalada. Exibiu seu melhor sorriso, cumprimentando-as gentilmente enquanto se sentia medida de cima em baixo por aqueles olhares ameaçadores que pareciam dispostos a correr com ela dali. “Ela não passa de uma intrusa” – gritavam aqueles olhares. Os braços cruzados a frente do corpo diziam “como ousava estar aqui neste templo sagrado? Você não pertence a esse lugar”. Uma delas deixou o silêncio de lado para demonstrar de forma incisiva o seu descontentamento “mas não sei perche seu Augustus insiste com essa idéia de ter uma professora aqui. Mas non dá certo e ele sabe disso. Nós tudo já falamos pra ele que damos conta de ensinar os mais novos”.
Evangeline apenas sorriu, de forma branda. Calma. Enquanto apreciava atentamente todos os detalhes daquela sala. Ela se movia de um lado para o outro, com passos lentos, movimentos tranquilos. Parecia flutuar por entre as mesas e cadeiras. Sentia os móveis com as pontas dos dedos – conhecendo a textura, sentindo toda a história daquele lugar. Verificou as personagens nas paredes. “Uma sala de aula tem tanto a dizer” – pensava ela em seu silêncio necessário. Tobias permanecia por ali, como chapéu nas mãos. Ali não era uma igreja, mas tinha qualquer coisa de sagrado. Don´Antônia pedia aos senhores que tirassem o chapéu sempre que entravam na sala. Havia um cabideiro ao lado da porta para deixarem o chapéu por lá. Ela não era apenas uma professora de bê-á-bá. Ela também ensinava boas maneiras para serem usadas ao longo de um dia inteiro. Era gentil, educada, elegante e gostava de contar histórias que todos gostavam de ouvir. Tobias tinha um punhado de lembranças dos dias em que passava ali naquela sala, aprendendo. Um de seus desenhos estava preso na parede “este é seu” – disse Evangeline tão logo percebeu o nome do menino de treze anos que ficou orgulhoso por ser reconhecido.
_ Todos os alunos da Don´Antônia tem desenhos e cartas presos na parede. Nem pense em tirá-los… Ela deixou assim e é assim que vai ficar.
_ Eu jamais pensaria em remover um só desenho ou uma só carta desta parede minha cara. Essa parede é como se fosse a página de um livro. Não se pode arrancar ou o livro perde o sentido. No caso, se eu cometesse tamanha barbaridade, essa sala toda perderia o seu sentido…
Tobias estava atento as atitudes daquelas meninas. Ele parecia um cão de guarda e estava pronto para correr com aquelas meninas abusadas dali, bastava um sinal – que não veio em momento algum. Ele respirava fundo enquanto pensava em seu Augustus que havia, pela primeira vez em muito tempo, demonstrado uma enorme confiança quanto a presença de Evangeline na fazenda que o fez dizer “dessa vez eu acertei Tobias. Não tem erro”.
Evangeline tinha de fato qualquer coisa de diferente daquelas outras senhoras que ali estiveram em tempos idos. Havia nela, sensibilidade o bastante para perceber o recado que estava sendo dado a ela por aquela jovem, cheia de empáfia. Da mesma forma que tinha sensibilidade para saber que não deveria ocupar aquela linda mesa artesanal. Nada ali deveria ser mudado de lugar. Nada ali, em momento algum, pertenceria a ela. Seria assim, pelo menos até que todos se acostumassem com sua presença.
_ Tobias, será possível conseguir outra mesa? Ali naquele canto tem espaço para um mesa. – disse, apontando para o outro lado da sala, onde havia apenas uma lixeira. _ Acho que o Augustus se incomodaria de providenciar isso pra mim?
Tobias coçou a cabeça. Não entendeu o pedido feito por Evangeline. Caminhou até a mesa e pensou “é uma bonita mesa, por que será que ela não gostou? O Américo vai ficar magoado”. Todas as professoras que ali estiveram antes dela ficaram admiradas com a qualidade do trabalho feito pelo carpinteiro da fazenda. Foi um presente. Ele quis retribuir a dedicação da professora Don´Antônia para com todas as crianças da vila. Ele tinha oito filhos e todos foram alunos de Don´Antônia.
O que Tobias não desconfiava era que Evangeline parecia saber bem o que pretendia, afinal, tal comentário havia desarmado aquelas meninas que recuaram em seus dizeres e passaram a pensar que talvez, apenas talvez poderiam se acostumar com aquela senhora que usava óculos engraçados: arredondados. E chapéus sempre azuis. Era impossível precisar quantos anos tinha, mas era bonita e tinha um belo sorriso.
Nem é preciso dizer que tal informação se espalhou por todos os cantos daquela vila, desde os mais novos até o mais velhos…