O tempo de Ricardo Novais

Eu sigo por aqui, contando os dias, implicando com as horas. Apreciando o som do carrilhão nos dias de ontem. Rabiscando páginas que aos poucos se desfazem do branco e suas linhas retas… Há desenhos de palavras… Há também o Ricardo Novais e sua filosofia de tempo. Estão ouvindo o pulsar dos ponteiros?

 

Doce passeio

 

Era um dia fresco, sol entre reconhecida garoa. A tarde caia boa, agradável a passeio em velho bairro onde nasci, cresci… Assim foi.

Logo que apontei na avenida principal, senti saudade de alguma boa história. Um Novo Horizonte de ideias antigas… Fui à banca de pastel, no mesmo local há anos. Não comi nada, cumprimentei o pasteleiro, que não é mais o mesmo de outro tempo, e fui à outra banca, a de jornal. Lá, o Alcides; há tempos não o via, a mesma cara de bom maluco, barba rala por fazer, sorridente e convidativo. Alcides é uma destas pessoas que ultrapassam a própria época, é quase uma instituição do bairro.

Depois de tomar um cafezinho quente na antiga padaria, julguei que deveria ir ao cabeleireiro aparar os bigodes que não tenho, e fui. Sim, querida dona leitora; não diga que não há muito que se possa fazer quanto à minha aparência; há sim, minha senhora! Mamãe e Maristela dizem que sou rapaz bem apessoado; embora se deva descontar os laços afetivos da primeira e os econômicos da segunda… Mas, vá lá, que isto nada tem que ver com a crônica; menos interessante também é o corte do cabelo, já que homem tem valor diverso de mulher em salão de embelezamento – ou restauração. Fila-te no que te digo, leitor; talvez  seja o único lugar do mundo onde a vaidade feminina seja maior que a masculina. De modo que minha atenção voltou-se para a espera do corte do cabeleireiro, onde se vê gente de todas as idades e rostos de todas as cores deixando-se aparar os pelos indesejados e quase desumanos.

Forçosamente guardei o tempo numa fila de doze revistas velhas e quinze pessoas impacientes – cinco senhores conservadores ainda querem corte feito pelo mesmo profissional das tesouras; creia que o barbeiro é bom. O recinto interno, comum, entre luzes débeis que insinuam ambiente limpo, cartazes de modelos belíssimas às paredes, catálogo de escovas e propagandas de produtos de estética capilar. No ambiente de espera, entre uma prosa boa e outra ruim, aquietei-me. Fiquei a fitar através da grande vidraça fechada, protegendo do ambiente violento, a avenida principal do bairro. Carros céleres cruzando em ambos os sentidos, levando por certo histórias passadas e outras novas; transeuntes pensativos carregando o próprio cadáver às costas, as mesmas caras minha reconhecida; cães e gatos escondendo-se de grandes ratazanas vindas do córrego sujo que vaza no rio morto. Assim estava o quarto de hora, quando, súbito, fixei meus olhos no prédio quase em frente: a casa de doce.

Não me pergunte, leitor com propensão à diabete, do por quê. Não sei qual motivo fiquei a admirar tanto aquilo, o edifício, a vitrine repleta de doces, as pessoas que de lá entravam, outras que saíam – tudo ali renascia. Futuro. Passado. Ali eu insistia em atar duas pontas de minha própria vida, a infância tão doce e a adulta tão presunçosa. Presente.

O julgamento que faço agora é crítica da razão prática, sempre apreciei os salgados da meninice e não creio que exista felicidade adulta.

Cabelo aparado, saí do salão. Atravessei a pé a grande avenida, desvencilhando-me dos automóveis cinza, e fui à casa de doce. Doce, doçura da crônica. Cumprimentei amigos, comprei um algodão-doce e uma maria-mole. Lancei-me à calçada sorridente com os brinquedos de comer à mão. Aquilatei-me tolo.

Andei sem que alma viva alguma elogiasse meu novo corte de cabelo; deixe quieto, querida leitora, não há de ser nada; e andando vagarosamente ao centro da calçada, eu vi, à esquerda, um velho com as mãos às costas, e vindo, à direita, belíssima moça. Felicitei o velho. Sorri à garota, e ela devolveu-me o sorriso. Reparei também em perfumes femininos, aromáticos e simpáticos, venderem-se a homens prósperos do bairro. Casais efêmeros encostando-se, sem pudores, às esquinas. Tudo em pleno vespertino. Não julguei mal, não julgo mais nada ruim nem bom; mas para não vexar a dona leitora, em consideração, preservo-lhe da lascívia.

Digo apenas, por fim, que a garoinha que adentrou naquela tarde às narinas trouxe-me sensação afetuosa, suave, meiga perenemente; daquele momento em diante serei quase feliz. Mas nem tudo é tão meloso que perdure a eternidade, minha amiga, devo também dizer-lhe que fracassei na tentativa de atar as duas pontas da vida. Nem todo presente prospera.

Contagem regressiva:

Sim, faltam 07 dias…
E Álvaro de Campos (poema abaixo) está contando comigo.
Quem diria: estou dando corda nos ponteiros da minha história (risos)
Pode rir: não deixa de ser engraçado…

Lu 18

Estou cansado da inteligência
Pensar faz mal as emoções
Uma grande reação aparece.
Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá novo
Na casa antiga da quinta velha
Pára, meu coração!
Sossega, minha esperança factícia!
Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui…
meu sono bom porque tinha simplesmente sono
e não idéias que esquecer!
Meu horizonte de quintal e praia!
Meu fim antes do principio!
Estou cansado da inteligência.
Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa!
Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam a taça
Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.

O tempo nosso de cada dia

É novembro. E os carrilhões ressoam suas ilusões lá fora. As ruas estão adormecidas. Nem é dia ainda. Talvez seja pra você, mas não pra mim. Eu sigo celebrando. Acendendo uma vela por dia. E hoje o tempo é dela…

tempo perdido

Queria voltar no tempo e fazer diferente,
aprender a te gostar com calma,
aceitar seu jeito horrível de bajular
toda menininha que te diz oi.  (…)
Karla Tabalipa

A gente nasce e já começa a contagem regressiva.
Tem o tempo para ser dado o primeiro sorriso, o primeiro passo, a primeira palavra. Nem nos damos conta do que somos e já corremos contra ele, o tempo.
Os dias passam, e vamos crescendo evoluindo.
O corpo vai se formando, vamos construindo nossa anatomia, primeiro os hormônios comandam, depois o cérebro toma conta da situação, pelo menos para alguns.
Medimos a passagem deste tempo enumerando os anos que passam. Mas dentro de nós somos sempre a menina que sonha e a jovem que deseja.
Sonhei com os 5 anos para poder usar roupas coloridas, até então só vestia azul e branco. Queria chegar aos 7 por ser a idade da razão, mas perdi meu pai ao completa-la. Planejei os 15 anos para poder ir a festas, para vestir meu primeiro vestido de princesa. Ansiava pelos 18 anos para poder fumar e beber, e não fiz nada disso. Comemorei os 30 anos pensando que a partir dai minha vida seria configurada e nada mudou. Nunca pensei nos 40, mas foi ali que tudo começou! Hoje nem quero contabilizar quanto tempo já passou desde que minha mãe foi para maternidade!
Muitas vezes pensamos não ter tempo para realizar nossos sonhos  por que estamos ficando mais velhos mas aprendi com um filme bobo a contrariar esta máxima: “Não há um limite de tempo, comece quando quiser. Você pode mudar ou não. Não há regras. Podemos fazer o melhor ou o pior.”

Por Maggie May

A voz do tempo

Então é mais ou menos assim. Preste bem atenção porque eu só vou falar uma vez. O assunto é danado. Fale baixo para não assustar ninguém. É sobre o tempo. Tic tac. Tic tac.

tempo suspensoEu gosto da voz do tempo. E você? Eu sei que tem gente que não gosta. Na verdade não suporta… Mas eu gosto. Me lembra coisa da infância. Dias de carrilhão na noite. Uma dança. A atmosfera inteira participava daquele côro noturno. Eu ainda ouço o som em minha mente. Demmmmmmmmmmm Demmmmmmmmmm – a casa inteira cantava com ele. Eu escondia a cabeça embaixo do edredom. Mas não era só eu a fazer isso não. Descobri isso numa dessas conversas de adulto que um dia foram as crianças de ontem. Meninas e meninas que inventavam brincadeiras pelo quintal da casa. Que ouviam as histórias da nona. Que aprendiam coisas sobre cavalos com o nono. Tudo era mágico naquele tempo. Um simples sorriso resolvia qualquer coisa.

Mas sabe o que aconteceu com a gente? Um dia acordamos e lá estavam outros dias com suas horas a mais e nada de faz de conta.

Era uma vez o tempo…
Sim, o tempo. E a pergunta feita antigamente era “o que vai ser quando crescer?” e as respostas variavam: professora, dentista, engenheira, psicóloga… Eu nunca disse que iria ser escritora. Eu nunca me imaginei passar horas sentadas diante da tela num lugar só meu – escrevendo histórias, inventando personagens.

Era uma vez o tempo…
Com seu pretérito, presente e futuro.
Quando eu olho para o ontem, vejo aquela menina de sorriso fácil, com dentes a menos na boca. Ela gosta de soprar pelo espaço entre os dentes e fico me perguntando “o que será que ela acha de mim?” – eu não tive medo da resposta. Até porque ela continua sorrindo…

Era uma vez o tempo…
Quantos anos você tem? Não precisa contar se não quiser. Tem gente que não gosta de contar essas coisas. É como se fosse uma doença fatal. Contagiosa. As vezes eu penso que é medo. Medo mesmo. Aquele que trava tudo. Medo de se acabar. Estranho, não é mesmo? Como eu nunca conto o tempo como se deve. Assim, de hora em hora, de dia em dia, de mês em mês… Ano em ano. Eu não sei nada sobre isso. Tentaram me ensinar uma vez (duas talvez) mas não houve meio de me fazer aprender isso…

Então ontem pela manhã, descobri que eu tenho quase trinta. Sim, três décadas. E sabe o que eu mais gostei nisso tudo? Foi da soma dos meus pretéritos (adoro essa palavra)…

E é justamente para festejar isso, que eu convidei algumas pessoas especiais para (foi quase um desafio) para falar dessa palavra que os homens inventaram e acho que ainda nem sabe bem pra que?

Enfim, uma vez inventada, a palavra deve ser usada (é isso?). risos

tempo, tempo, tempo

E para começar a brincadeira, apresento a vocês, o Tempo de Manuela Barroso – essa amiga portuguesa que surpreende não apenas os meus olhos, mas meus sentidos e minha alma, porque suas palavras (sejam em versos ou em linhas) são um sopro do vento num final de tarde, por entre as montanhas onde meus passos percorrerem trilhas…

 

ESCORRE O TEMPO
Manuela Barroso

Escorre o tempo pelas mãos vazias
No vazio do tempo que corre pelo ar
Escoa-se a vida numa miragem sombria
Como água da gruta, filtrada, fria
À procura de um oásis para repousar.

No tempo do tempo corremos atrás
Perdidos no tempo que também se desfaz
Aturdidos no tempo se vive e se ama
E é com o tempo que a Viagem nos chama!

Fev. 2006

 

TEMPO

Neste ruído silencioso, as horas perfuram o tempo cansado nas horas coladas em meu corpo.
Ninguém irá ouvir este grito de silêncio que morde a alma que já não sente.
Neste declive, escorrego com o tempo de encontro a um precipício vazio…
O dia é a hera que sobe nas horas onde me detenho, me debruço, para de
novo me pendurar nos braços do pensamento.
Os olhos percorrem a liberdade no voo plano das gaivotas indiferentes aos
raios clandestinos do sol, que pousa na copa inconsciente das árvores.
Folhas crestadas choram por uma vida roubada cedo demais.
E num adeus às alturas caem em baloiço no leito do verde-amarelo do
chão.

Agosto. 2011

A maioria dos poetas que amo já desapareceram todos!

Antes de começar, já vou dizendo que a culpa é toda dela

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
(…)

 

imageImagem. Lis Costa do blog Flor de Lis.

 

Pronto. Agora estou aqui pensando sobre a morte e suas analogias. Cada um tem a sua, pra mim a morte é apenas o mistério de estar aqui e amanhã não mais. Desaparecer. Algo que as pessoas não entendem. Olham e se perguntam “por que desaparecer?”. Oras, porque todos nós em algum momento desaparecemos.

Tom Jobim desapareceu, mas deixou um pouco do que foi o homem ou algo assim. Ele era o homem que me dizia “vem cá Luiza, dá-me a tua mão” e eu nem me chamo Luiza, mas o que importa o nome? Eu ia com ele. E pronto… Hoje a música se repete por aí, mas não vejo sua figura, ouço seus sons, seu sentir, mas o homem desapareceu…

E tanta gente seguiu o mesmo caminho. Tanta gente simplesmente desapareceu. Eu tenho uma lista inteira com nomes. Alguns me surpreenderam. Porque a gente espera por tudo, menos por isso. Alguém vem e te diz “ele morreu” – então acontece uma pausa natural. Leva alguns segundos pra que você entenda o real sentido daquela palavra. E só então você reage. Ou se trata de um espanto. Um desconforto. Descrédito… Enfim, nunca estamos prontos de fato.

O mais engraçado é que eu choro por qualquer coisa. Desenhos animados me fazem chorar. Filmes, seriados, livros…  Mas a morte. Bem, sempre que sei que alguém morreu, nada me ocorre. Lembro das lágrimas derramadas pelo Ayrton Senna (eu fiquei chateada porque esperava vê-lo correr mais). Mas não foi assim. Ele simplesmente desapareceu das manhãs de domingo. Mas você pode dizer que ao menos existiram aquelas manhãs em que carros se enfileiravam no grid e disputavam volta após volta o lugar mais alto no pódio. Sim, existiram aqueles dias, mas o homem e sua história ficou no passado. Perdeu-se. Desapareceu…

Enfim, a morte é esse mistério que a maioria de nós não alcança. Para um escritor a morte é um fascínio, afinal, somos deuses (não ria, o assunto é sério). Pense bem: criamos personagens, alinhavamos seus destinos. Determinamos o quanto irão sofrer até alcançar a utopia da vida: a tão sonhada felicidade. Determinamos cada ação e reação. Criamos um mundo inteiro para aquela figura que pode viver em tempos distintos ou tempos inexistentes nessa nossa realidade. Mas quando matamos um personagem, a descrição é simples, sem grandes latitudes porque estamos limitados pela vida. Incrivelmente limitados. Não é irônico? Sim. É completamente irônico. A vida nos limita. E até mesmo aqueles que ultrapassaram essa maldita barreira, dependeram de outros para descrever tal momento. Que o diga Virginia, Florbela, e tantos outros… A vida  limitando o individuo.

E claro, por favor, não me falem em psicografias. Elas não servem de alento para um autor, afinal, a consciência da escrita está no tempo de agora. Hoje. Não há conforto para aquele que consegue descrever a façanha da descoberta de um grande amor como tão bem o fez Jane Austen em Orgulho e Preconceito, embora me incomode e muito o fato de Lizziê só se dar conta do amor que sente por Mr. Darcy quando ela vê o tamanho de sua casa. Tudo bem. Há perdão nisso tudo porque eu percebi seus sentimentos por ele bem antes disso. Até porque eram assim o pensamento das senhoras do tempo de Austen que também sentiu na pele o drama de recusar o casamento. Há quem tenha esperado encontrar em suas missivas e diários um amor secreto. Um certo Mr. Darcy. Mas tudo isso desapareceu junto com a autora que deixou suas palavras, suas histórias, seus personagens. Mas ela em si, desapareceu…

É claro que ela continua, assim como eu continuo e muitos de nós continuam por aqui. O homem inventou a idéia de continuidade, para não fazer de sua existência algo deveras desagradável. Então, nascem os filhos e ali, naquela figura pequena está o milagre da continuidade. Quanto peso para alguém tão pequeno e já tão comprometido com uma ciência que nem ao menos o alcança…
Enfim, tudo entregue ao  amanhã que também apresentará o ponto final dos mistérios da vida para inúmeras figuras: eu, você e tantos outros porque desaparecer é uma consequência natural…

Sim, há quem diga que há mais depois. Mas de certo mesmo, independente de crenças, é que temos o tempo presente, no qual pulsam corações, se atrevem olhares, se precipitam movimentos. A vida é o tempo presente. É consequência do agora. A vida é essa ciência que culmina no ato de desaparecer… Algo que eu considero poético, como os versos de um poeta qualquer que eu admiro.

Para fora de todas as casas, de todas as lógicas
e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa
mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida
.
(…) Álvaro de Campos – Passagem das  horas

Aviso. A maioria dos poetas que amo já desapareceram todos!

Vagando além dos nós…

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E nas esquinas dessa cidade se erguem sombras e inventam temporais. Eu sou pura semântica e passo por tudo isso como se ainda fosse aquela menina de poucos anos e meia dúzia de fios de cabelo.

Eu vou mais além: atropelo poças e tento saber quem sou. O espelho não diz absolutamente nada. Mas os pássaros cantam meu nome lá fora e eu vou com eles pelo infinito, passando por entre nuvens de cor cinza, feito fumaça…

Lá do alto vejo o telhado de casas antigas e me perco em possíveis cenários. Adoro interiores. Dizem tanto sobre essa gente estranha que vive por aí: móveis cor de mogno e objetos espalhados pelo cantos. tantas coisas escolhidas ao acaso…

Tic tac… Tic tac…
Ando cansada das horas inteiras, daqui pra frente só quero saber das meias horas!

 

…desde outono de outubro
resgato-me
de tudo que em mim eu mesma rasguei
embora
cinza o mar
cinza o céu
cinza que piso
embora primavera aí
outono aqui
resgato-me
sirvo-me bolachas pardas
café claro
muita é a fome
deixo-lhe aí
uma nesga de pensamento meu
numa xícara do mais puro chá
claro feitos os dias aqui
mas em pétalas.

(suzana guimarães)

 

Já reparou baby que alguns poemas parecem terem sido escrito especialmente pra você? 
Fica parecendo que a moça escreveu sobre você, pra você…

 

 

 

O voo dos pássaros junto ao horizonte…

São Paulo, 07 de janeiro de 2010


Fotos. Zeus Humano 2010, Simone Huck

Manhã de janeiro, pulsando forte aqui dentro, se afastando para longe, seguindo a ordem dos ponteiros. O sol se arrisca num mergulho junto a paisagem. Tudo passageiro. As nuvens são a maioria e dançam pela paisagem em tons que sobressaltam em meio ao olhar desacostumado com as luzes do dia.

Está tudo tão claro que meus pensamentos não compreendem as ausências desenhadas pelo dia. Eu quero as sombras de volta, quero olhar para a paisagem ali de fora e ver o que os meus olhos vislumbram entre a realidade e a ilusão. Mas com tanta luz a minha volta só consigo ser humana e me precipitar sobre meus próprios enganos.

E o olhar para os ponteiros me levam de encontro as percepções antigas, quando um salto significava dar pulos sobre galhos, guias e poças d´água. Saudades minha cara… Saudades do tempo em que acordar pela manhã era apenas abrir os olhos para colorir os dias com lápis de cor e giz de cera e se libertar da falta de vontade de ir para escola para compreender geografias, histórias, gramáticas e matemática que depois de algum tempo passou a ser uma coisa infinitamente estupida. Saudades das horas inteiras passadas no campo, de frente para o lago, tentando ser um pássaro e voar alto, além das nuvens e mergulhar num voo suicida onde finalmente se compreende o sabor da liberdade. Saudades de ser apenas essa menina que inventa versos durante a lua negra e fica de péssimo humor nos dias de lua nova porque o novo pra ela é apenas uma fantasia da pele. Há de se continuar – repete ela, como se fosse um mantra que a acompanha desde sempre.

É preciso voltar ao presente e sepultar meus pés por aqui, mas as tormentas de um dia inteiro vagam nessa realidade cheia de luzes que fica difícil me conter. Quero ser pássaro ainda, sabe? E mergulhar lá do alto sobre todas as coisas demasiadamente humanas e depois imitar as gaivotas que arrulham lá do alto e eu sempre acho que elas zombam de nós e ontem quando li seu poema, tive certeza disso.

Janeiro escorre o que o silêncio não ousa dizer.
E a saudade,
coberta velha de apegos,
aquece a incoerência das coisas que deitam sombras.  

Nunca fomos imortais,
admita o que a sua ânsia omite.
Nem tão pouco,
dignos de não receber a migalha do perdão.  

Que super-homem habita o teu peito?
Do que é feito o orgulho que escarra pela sua boca quente?  

Janeiro era tão pouco para sermos muito.
E para ser muito, é preciso saber ser nada.
Uma redução de poeira e lembranças,
dentro do mesmo túmulo que abriga a sua maior dor.

Simone Huck

É minha cara, você me trouxe o silêncio das horas para dentro de mim. O carrilhão não soou no canto da sala e talvez a paisagem tenha feito uma pausa. É sexta-feira e soube que você não viu esses dias passarem por ti. Eu vi e posso lhe assegurar que não houve nada de excepcional: choveu desgraças humanas pelos quatro cantos da cidade. Nenhuma novidade, afinal, a força das águas sempre nos abraçam quando janeiro se desenha no calendário. E nós com a empáfia de sempre reclamamos daquilo que fingimos há tempos não entender. Invadimos os espaços que encontramos, violentamos os limites e ignoramos os avisos. Foi assim no ano passado e em anos anteriores também, mas tudo é novo, não é mesmo? Pra que se preocupar com as coisas de sempre?

O mais chato é que o ano é novo e meu porta retrato continua vazio no canto da mesa. Não sei o que de fato ele espera. Já fiz muitas fotos, mas parece que tudo é velho, antigo e tem sintomas de ontem… (risos) Acho que vou sair e encontrar alguns Deuses nas superficíes humanas…