A maioria dos poetas que amo já desapareceram todos!

Antes de começar, já vou dizendo que a culpa é toda dela

Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
(…)

 

imageImagem. Lis Costa do blog Flor de Lis.

 

Pronto. Agora estou aqui pensando sobre a morte e suas analogias. Cada um tem a sua, pra mim a morte é apenas o mistério de estar aqui e amanhã não mais. Desaparecer. Algo que as pessoas não entendem. Olham e se perguntam “por que desaparecer?”. Oras, porque todos nós em algum momento desaparecemos.

Tom Jobim desapareceu, mas deixou um pouco do que foi o homem ou algo assim. Ele era o homem que me dizia “vem cá Luiza, dá-me a tua mão” e eu nem me chamo Luiza, mas o que importa o nome? Eu ia com ele. E pronto… Hoje a música se repete por aí, mas não vejo sua figura, ouço seus sons, seu sentir, mas o homem desapareceu…

E tanta gente seguiu o mesmo caminho. Tanta gente simplesmente desapareceu. Eu tenho uma lista inteira com nomes. Alguns me surpreenderam. Porque a gente espera por tudo, menos por isso. Alguém vem e te diz “ele morreu” – então acontece uma pausa natural. Leva alguns segundos pra que você entenda o real sentido daquela palavra. E só então você reage. Ou se trata de um espanto. Um desconforto. Descrédito… Enfim, nunca estamos prontos de fato.

O mais engraçado é que eu choro por qualquer coisa. Desenhos animados me fazem chorar. Filmes, seriados, livros…  Mas a morte. Bem, sempre que sei que alguém morreu, nada me ocorre. Lembro das lágrimas derramadas pelo Ayrton Senna (eu fiquei chateada porque esperava vê-lo correr mais). Mas não foi assim. Ele simplesmente desapareceu das manhãs de domingo. Mas você pode dizer que ao menos existiram aquelas manhãs em que carros se enfileiravam no grid e disputavam volta após volta o lugar mais alto no pódio. Sim, existiram aqueles dias, mas o homem e sua história ficou no passado. Perdeu-se. Desapareceu…

Enfim, a morte é esse mistério que a maioria de nós não alcança. Para um escritor a morte é um fascínio, afinal, somos deuses (não ria, o assunto é sério). Pense bem: criamos personagens, alinhavamos seus destinos. Determinamos o quanto irão sofrer até alcançar a utopia da vida: a tão sonhada felicidade. Determinamos cada ação e reação. Criamos um mundo inteiro para aquela figura que pode viver em tempos distintos ou tempos inexistentes nessa nossa realidade. Mas quando matamos um personagem, a descrição é simples, sem grandes latitudes porque estamos limitados pela vida. Incrivelmente limitados. Não é irônico? Sim. É completamente irônico. A vida nos limita. E até mesmo aqueles que ultrapassaram essa maldita barreira, dependeram de outros para descrever tal momento. Que o diga Virginia, Florbela, e tantos outros… A vida  limitando o individuo.

E claro, por favor, não me falem em psicografias. Elas não servem de alento para um autor, afinal, a consciência da escrita está no tempo de agora. Hoje. Não há conforto para aquele que consegue descrever a façanha da descoberta de um grande amor como tão bem o fez Jane Austen em Orgulho e Preconceito, embora me incomode e muito o fato de Lizziê só se dar conta do amor que sente por Mr. Darcy quando ela vê o tamanho de sua casa. Tudo bem. Há perdão nisso tudo porque eu percebi seus sentimentos por ele bem antes disso. Até porque eram assim o pensamento das senhoras do tempo de Austen que também sentiu na pele o drama de recusar o casamento. Há quem tenha esperado encontrar em suas missivas e diários um amor secreto. Um certo Mr. Darcy. Mas tudo isso desapareceu junto com a autora que deixou suas palavras, suas histórias, seus personagens. Mas ela em si, desapareceu…

É claro que ela continua, assim como eu continuo e muitos de nós continuam por aqui. O homem inventou a idéia de continuidade, para não fazer de sua existência algo deveras desagradável. Então, nascem os filhos e ali, naquela figura pequena está o milagre da continuidade. Quanto peso para alguém tão pequeno e já tão comprometido com uma ciência que nem ao menos o alcança…
Enfim, tudo entregue ao  amanhã que também apresentará o ponto final dos mistérios da vida para inúmeras figuras: eu, você e tantos outros porque desaparecer é uma consequência natural…

Sim, há quem diga que há mais depois. Mas de certo mesmo, independente de crenças, é que temos o tempo presente, no qual pulsam corações, se atrevem olhares, se precipitam movimentos. A vida é o tempo presente. É consequência do agora. A vida é essa ciência que culmina no ato de desaparecer… Algo que eu considero poético, como os versos de um poeta qualquer que eu admiro.

Para fora de todas as casas, de todas as lógicas
e de todas as sacadas,
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa
mais parecida com o que eu penso,
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida
.
(…) Álvaro de Campos – Passagem das  horas

Aviso. A maioria dos poetas que amo já desapareceram todos!

Existir definitivamente “é sentir”…

Ela disse por lá que existir dói…

image

Eu lembro que um dia me sentei diante de uma janela e fiquei olhando a chuva mergulhar na vidraça. Era um fim de tarde lindo, com ventos agitando folhas, chuva lavando a paisagem e em mim uma dor aguda que deixava em meu âmago a vontade de lágrimas que se recusavam ao lado de fora. Estavam do lado de dentro apenas.. Acabei escrevendo em meu diário “existir definitivamente dói”… Eu estava com a alma em frangalhos, “sentindo todas as dores do mundo” – um exagero típico da idade que eu tinha naquele dia: quatorze anos…

O tempo passou e desde então, muitas coisas boas e ruins aconteceram comigo. Isso não é novidade, afinal, a vida de todo mundo é assim. A gente acorda pela manhã sem saber absolutamente nada sobre as alegrias e tristezas que nos esperam. Elas simplesmente acontecem e a gente colhe tudo que nos chega…

Mas eu acabei percebendo que viver é na verdade sentir e não dói exatamente como eu pensava. Na verdade, viver é uma combinação perfeita de certos elementos. Então temos os ingredientes, as panelas, os apetrechos, a receita e finalmente, temos a ilusão de sabores, aromas e tudo mais.

A cozinha é a vida e cada item por lá podem ser chamados de: alegrias, tristezas, felicidades, conquistas, derrotas, tropeços e pra cada prato desse há um segredo. A dedicação sua no preparo desse prato é o que conta de verdade no final… E quando levamos o prato para a mesa com todos aqueles ingredientes combinados, há duas possibilidades: o melhor dos pratos que aguça todos os seus sentidos, trazendo inclusive lembranças de outros tempos e de segredos que lhe foram passados por outros, o que torna tudo ainda mais saboroso ou então, a gente olha para o prato e vê uma combinação de coisas sem sal, sem tempero e o apetite vai para o ralo e a comido para o lixo. O cansaço a partir disso é sobrenatural e a gente nem consegue perceber que na verdade faltou alguma coisa.

Por isso que eu acredito que a cozinha precisa ser o melhor canto da casa, da mesma forma que a vida preciso receber o melhor de nós. E no final das contas, viver é sentir cada sabor, cheiro, cor, textura e sons… E não espere sentir sempre sabores doces, com aromas de chocolate, porque há muitos sabores amargos, que causam cara feia, caretas e no final, a gente busca por uma colher de açúcar porque como dizia Mary Popins antes do tempo das calorias “com um pouco de açúcar até remédio passa a ser bem gostoso de tomar”…

Noite e dia…

A noite estava muito serena, e em noites dessas, quando o trágego se resume a um fio, o pedestre toma conhecimento da lua na calçada, como se as cortinas do céu tivessem sido corridas, e o firmamento se mostrasse nú como se mostra no campo. O ar estava fresco e macio, e as pessoas que tinham ficado sentadas falando acharam agradável andar um pouco antes de parar para esperar um ônibus ou de encontrar luz outra vez, numa estação de metrô. (…)

Noite e Dia, Virginia Woolf – pág. 80 / capítulo V

Foto0116Eu vivo as voltas com a mesma questão desde que escrevi e-pifanias. Agora o Dr. Gustavo Andreatti também questiona-se nas linhas de Cara & Coroa “em quantas caixas cabem uma vida?”. Não sei. Eu prefiro acreditar que a vida precisa de baús e não de caixas e quero me fazer crer que a minha vida inteira cabe no baú que segue aqui ao lado desta mesa.

Dentro dele encontrei o livro de Virginia Woolf – “noite e dia”. Há algo poético nisso…
O que não é poético é dizerem que Virginia “imita” Jane Austen nas linhas desse livro. Há semelhança de estilo, mas é tudo tão diferente. Os personagens de Viriginia nada sabem do amor, ao contrário dos de Jane. O amor para Ralph e Katharine é uma incognita. Eles não se entendem e tão pouco entendem o que de fato sentem. Pensam amar ao outro, as vezes, um ao outro, mas estão tão confusos com suas condições e verdades que não entendem o que vai por dentro e penso que nem o que vai por fora…

Noite e Dia não é um romance por assim dizer, se você entende que todo romance precisa do argumento principal: o amor porque em suas linhas, o amor não é a figura principal, nem de longe. O antagonista é tão confuso que em determinado momento se deixa convencer que não ama a quem pensava amar e sim, ama a outra que até então nem estava lá.

As vezes, dá vontade de pegar o personagem de Virigina e chacoalhar o infeliz pra ver se ele acorda e percebe a si mesmo, ainda que seja no espelho, mas acho que eles não se olham no espelho e quando chega ao final das suas seiscentas e poucas páginas, eles ainda estão confusos e tudo que tenho de meu é um sorriso irônico. Virginia não tentou nem de longe ter seu momento Jane Austen porque o que Virginia leva dúzias de linhas para dizer (e o faz com argumentos deliciosos) Jane simplesmente o faz (com argumentos ainda mais deliciosos) em bem menos linhas. Uma fala da confusão dos sentimentos e a outra fala do sabor dos sentimentos. Em tempos diferentes, narram noites e dias de uma vida intima…

A grande diferença talvez seja a loucura.
Virginia precisava respirar após se doar a grandes escritos porque sua mente não suportava a dor que sua escrita lhe causava, então, entre uma genialidade e outra, escrevia coisas mais simples como “noite e dia”. Como se ao fazê-lo, simplesmente se abandonasse as suas próprias margens, respirando lentamente os ares de outono…

Mas me ocorre perguntar “quantos de nós, confusos quanto ao amor, já não ficou a esperar em janelas pela visão que conforta o sentir?” - Ralph Denham (personagem principal de “noite e dia”) teria passado sua vida inteira ali, na janela, a espiar Katharine? As vezes, quando espio o azul do livro, penso que sim e não tenho dúvida alguma quanto a isso.

Em algum lugar de mim…

image

Hoje eu acordei com saudades do tempo da minha infância. Eu não queria abrir os olhos, quis ficar presa aquela paisagem antiga que tem seu aconchego nos dias de ontem… Lembro-me que assim que chegava abril começava a contagem regressiva para julho: eram as famosas férias de verão… Durante muitos anos, esse foi o mês da minha vida. A sensação que eu tive pela manhã era que quando eu abrisse meus olhos eu estaria de volta àquela velha casa com quintal grande, chão feito de tijolos de construção, mastro de Santo Antonio, rosas vermelhas na lateral da casa e jabuticabeiras crescendo forte ao lado da laranjeira… Foi lá que eu percebi que jamais iria crescer.

Encontrávamos-nos anualmente no mesmo dia, como se combinássemos alguma coisa. Chegavamos um por vez e de repente a casa estava repleta de crianças. 

Foi lá também que eu aprendi que varanda é um objeto precioso na composição de uma casa. O café da manhã na casa do nono era regado a raios de sol ou gotas de chuva numa velha mesa feita de por ele. Era o lugar das refeições, de leituras, do jogos de fim de tarde, dos contos e causos. Do silêncio antes da volta pra casa quando as férias acabavam…

image

Aquela casa guarda tantas lembranças, que eu acho que  quem mora por lá hoje deveria saber que na sala tinha um relógio insano que cantava de hora em hora e fazia a casa inteira cantar com ele e que o nono o acertava pontualmente as sete da manhã… Deveriam saber que o bendito som do carrilhão atordoava a todos nós na primeira noite. Era tão difícil dormir com aquele som que fazia a casa inteira cantar junto com ele. A gente cobria a cabeça com a coberta como se ao fazer isso estivessemos a salvo. E claro, deveriam saber também que há muitos passos felizes pelo terreiro e mãos apressadas a colher os frutos da jabuticabeira. Vez ou outra algumas crianças (as mais ousadas) escalavam os galhos da frondosa árvore só pra comer os frutos dos galhos mais altos. Eram os mais doces. Pode ter certeza de que vão ouvir gritos apavorados de um nono ressabiado, que ressoavam por todo o quintal e pela vizinhança também. Ele queria fazer seus bambinos descerem de lá de qualquer jeito. Santo medo que exercita a voz. Acho que também devem saber que naquela casa tem muitos esconderijos, todos inventados no meio de uma dessas tardes de julho… E tem o latido de um cão brincalhão que corre atrás de suas crianças e mesmo estando velho, abana o rabo e espera ano após ano por elas nas férias. Ele senta-se lá perto do velho portão que range ao ser aberto (a casa não tem campainha, mas o portão cumpre bem o papel de anunciar a chegada dos visitantes) e fica lá a esperar por suas crianças que correm para abraçá-lo. Há uma menina de perninhas tortas que sempre leva biscoitos no bolso pra ele e se senta na escada dos fundos, ao seu lado, e lê pra ele as poesias de Emily Dickinson e ele ouve atentamente. Com toda certeza eles não fazem idéia que os ossos desse cão estão lá no fundo do quintal, ao lado da jabuticabeira que prometeu rezar por ele. Então é bem provavel que alguém, vez ou outra, ouça um latido amigo por lá, na certa, ele está a chamar pelas crianças que simplesmente desapareceram do seu quintal…

image

É justo dizer que o rompimento desta época tenha sido pela morte. Ainda me lembro da última vez que estivemos todos lá. Já não eramos mais crianças e fora as lembranças da infância, já não tinhamos mais nada em comum. O caixão estava bem no meio da sala. Eu o vi de relance. As pessoas estavam todas fantasiadas de luto, pareciam tristes e eu não quis me juntar a elas, na verdade, eu nunca tive uma relação amigável para com essa forma de morte, sempre me pareceu algo injusto.

Fui para o quintal e fiquei por lá ao lado da “menina dos meus olhos”. Nunca entendi porque não colocaram os ossos do nostro nono ali aos seus pés. Acho que ainda hoje não entendo, afinal, o nosso amigo de quatro patas estava lá. Seria justo, mas não foi assim… Ao inves disso, meias dúzia de homens levaram o caixão para o cemitério e novamente eu não quis fazer parte desse tolo ritual. Preferi ficar junto da jabuticabeira com minhas lembranças e saudades; recordando dias felizes de julho e gosto de acreditar que nos reunimos lá “os meninos e meninas” de ontem recordando tombos, brigas bobas que se resolviam com abraços, brincadeiras inventadas, esconderijos secretos, lugares preferidos, jogos de carta na sexta à noite, olhares perdidos, latidos, músicas, palavras… Tantas coisas boas. Quero acreditar que fizemos uma promessa silenciosa de não mais nos perdemos uns dos outros e claro que não cumprimos porque os adultos são assim mesmo: nunca cumprem as promessas feitas.

image

É justo dizer que de certa forma, aquela casa não existe mais: nem o céu que a cobria, nem a jabuticabeira, os caminhos que levavam até ela, as portas, os canteiros de rosas e cristas de galo, as venezianas, a varada, o cão… Absolutamente tudo se desfez a partir daquele dia… É como um sonho e sei que se passar em frente dela hoje, não vou reconhecê-la, tão pouco sabê-la, mas a saudade prevalece, inteira aqui dentro.

Diário das Estações, pág 85.
Autoria. Lunna Guedes
Coletânea Artesanal, 2009/2010

Beltane – o fogo de Bel…

clip_image005clip_image006

Lembro-me com facilidade que quando menina ouvia o chamado da Nona com seu gesto rápido, toda faceira a nos convidar para um passeio pelos arredores de sua casa. Saíamos com embornal em mãos, recolhendo gravetos, pedras, folhas e tudo mais que encontrássemos pelo caminho. A brincadeira ocupava boa parte da manhã… Voltávamos para casa com a alma satisfeita e com a colheita feita.

Ela nunca disse a nenhum de nós que toda aquela “brincadeira” era na verdade um ritual. A gente se sentava no quintal dos fundos, próximo a jabuticabeira. Espalhava pelo chão as nossas conquistas e atentos a tudo, vislumbrava as nossas conquistas. Pedras de diferentes tamanhos, gravetos peculiares, folhas de tons inusitados e pétalas cheias de nuances. Pequenas coisas cheias de significado e sentido.

A tarde ardia nos telhados avermelhados enquanto a gente brincava com fitas coloridas, linhas, agulhas, pedaços de panos ao som de músicas antigas e iguarias preparadas pela Nona e suas amigas mais velhas. O cheiro do bolo de aveia e do pão redondo tomava conta da casa. Elas recitavam versos, cantavam e brindavam o amor dos deuses. Era tempo de Beltane…

Beltane – o fogo de Bel (ou Belenus) é sem dúvida alguma, um dos mais bonitos festivais e muitas de suas tradições chegaram ao Brasil e são festejadas pelo interior nas tradicionais festas juninas. O Sabbat de Beltane comemora a união entre a Deusa e o Deus, representando a fertilidade dos animais e as colheitas do próximo ano. É a celebração da união entre o feminino e o masculino. Justamente o significado da quadrilha.

A palavra Beltane vem do nome do Deus céltico “Bel”, que era o senhor da vida, da morte e do mundo dos espíritos. “Tane” é uma palavra céltica que significa “fogo”. Logo, Beltane quer dizer “Fogo de Bel”.

Beltane é um dos poucos festivais pagãos que sobreviveram a época pré-cristã. Sua origem está na Florália, um antigo festival romano dedicado a Flora, a Deusa sagrada das flores. Em tempos mais antigos, esse festival era dedicado a Plutão, o senhor romano do Submundo, correspondente do Deus Hades da mitologia grega.

O primeiro dia de maio era também aquele em que os antigos romanos queimavam olíbano e o selo-de-salomão, pendurando guirlandas de flores diante de seus altares em honra aos espíritos guardiães que olhavam e protegiam suas famílias e suas casas nas próximas estações.

clip_image002

Pacote de Beltane
Quando sentávamos no quintal, o “pacote de beltane” era um dos itens feitos por nós. Reuníamos nove gravetos de madeira, colhidos durante a nossa caminhada matinal. A Nona nos dizia que era preciso recolher do chão e não colher diretamente das árvores. Cada graveto representa um momento especial da sua vida. Então na hora de confeccionar o “pacote de beltane” para cada graveto a gente contava uma história nossa, sobre um dia especial, uma lembrança gostosa ou uma memória que pudesse estar esquecida e de repente voltasse a baila. Depois disso, amarrávamos os gravetos com uma fita (na cor do elemento) e enfeitava-o, dando a ele a importância necessária que cada momento da nossa vida merece ter.
Quando o crepúsculo desenhava-se no alto céu, a fogueira era acesa e nós lançávamos o “pacote de beltane” nas chamas, dizendo:

“Pacote de Beltane queime nas chamas.
Enfeitado com flores e com muitas cores
Queime no fogo as lembranças de ontem
Para que o amanhã seja o meu destino de hoje”.

clip_image001

Amuleto sagrado de Beltane
Outro item preparado por nós era o “amuleto de beltane”. Como dizia Nona “toda forma de magia depende dos nossos atos”. Um pedaço qualquer de pano onde era colocado: pedrinhas, ervas, contas, pétalas, pequenos gravetos e tudo mais que pudesse representar os nossos desejos manifestados. Para cada item colocado no centro do pedaço de pano, um pensamento, um desejo e uma vontade silenciosa. Ao terminar, fechávamos o pano, formando uma espécie de saquinho que era amarrado com uma fita na cor do elemento. Nesse momento repetíamos os versos ensinados pela Nona.

“Esse pano eu vou tecer
Para os meus desejos esconder
A Natureza eu vou entregar
Para tudo se realizar”

Depois de queimar o “pacote de beltane” saíamos para caminhar e cada um procurava uma árvore, onde pendurávamos o nosso amuleto, ou seja, nossos desejos e vontades, pedindo ao espíritos da Natureza que protegessem os nossos desejos, permitindo a realização de todos eles. 

clip_image004

Mastro de Maypole
Outra brincadeira divertida que nos fazia sorrir e se enroscar uns nos outros era o “mastro de maypole” (lê-se meipoule). A tarde começava a se ausentar dos céus e as fitas eram presa no alto da jabuticabeira, cada fita tinha um símbolo.

May Pole vem do Inglês e quer dizer Mastro de Maio. É um tronco que é enfeitado com fitas coloridas que serão trançadas para celebrar a união entre o Deus e a Deusa. O mastro torna-se um símbolo masculino (o falo) enquanto as fitas o símbolo feminino (vulva), ou seja, é uma dança que representa o acasalamento, a continuidade da espécie. A dança é feita em círculo, sendo homens num sentido e mulheres em outro:

“Beltane, Beltane,
Beltane que chegou
Festejamos a continuidade
Celebramos o amor”.

imageCrédito da Imagem

Pra finalizar, é preciso dizer que não importa qual seja a sua crença, a magia é unânime porque ela não é além de nós, muito pelo contrário, ela é parte de nós. A magia está em cada ato, palavra ou pensamento desde a Aurora até o Crepúsculo. Ela não reza diferentes credos e tão pouco diz ser a única direção possível. Ela é a vida que arde em nosso interior e pulsa forte através desse músculo involuntário que chamamos coração.

Feliz Beltane a todos que sabem dar valor aos desejos e vontades, manifestados ou não…
Lunna

Lua Cheia…

Loucas Noites (Wild Nights)
Emily Dickinson

A Natureza é a mais elevada das artes.
      Ver o céu de verão já é poesia.
           Viver é tão surpreendente que deixa pouco espaço para outras ocupações.

            Se leio um livro e ele me deixa o corpo inteiro tão gelado que não há fogo que possa me aquecer, sei que isso é poesia. Se sinto, fisicamente, como se o topo da minha cabeça fosse arrancado, sei que isso é poesia. São essas as minhas únicas maneiras de saber. Haverá alguma outra? [Emily]

120420111299(rascunho de uma segunda-feira: há um poema nascendo em mim)

O desenho da Lua se ampliou no céu de Abril. Não sei a razão, mas as flores de maio floresceram em Abril. O sol anda caramelando a paisagem e o outono anda cultivando ausências. As brancas nuvens não vestem a paisagem e o calor se espalha pelos cantos da minha existência… Ao menos tenho os livros e a poesia que povoa suas páginas.

Notas da Lua Cheia.
- Dona Borboleta, lembra-se da embriaguez de minha solidão? Aquela melancólica da qual falei? Pois bem, ela permanece, mas já tem nome, cores, perfumes e ando conversando com ela. A loucura já se estabeleceu…

- Su, caríssima: fiquei feliz com seu e-mail no começo da noite de ontem. Saber de suas poesias em série me fez caminhar pela casa em busca de uma taça de vinho com um sorriso de orelhas nos lábios…

- A todos que aqui chegam: o incenso de ervas foi aceso a meia noite. As velas de cores distintas (verde, vermelha, azul e amarelo) foram acesas pouco depois. O sino soou gentilmente anunciando que era noite de Lua Cheia. Em minhas mãos, o athame “rasgou” o véu da noite e o caldeirão ganhou chamas sob as bênçãos da Lua que estava linda  no negro véu: as vezes por entre as nuvens. As vezes em meio as folhas, telhados e antenas. O vento norte soprou sua magia e eu invoquei a presença da Sagrada Magia Natural. Bebi o licor da vida, silenciei todas as palavras para ouvir apenas a batida do meu coração e ao fazê-lo lembrei-me de versos antigos que ouço e repito desde a infância.

Que a estrada se abra à sua frente,
Que o vento sopre levemente em suas costas,
Que o sol brilhe morno e suave em sua face,
Que a chuva caia de mansinho em seus campos,
E, até que nos encontremos, de novo…
Que Deus lhe guarde nas palmas de suas mãos
!

Que a magia da Lua Cheia se manifeste em todos nós hoje e sempre.
Boa semana a todos.

 

Uma “missiva secreta” escrita pra você…

clip_image001Sentei-me aqui para ler o horizonte e a varanda começou a contar-me de ti em meio aos seus contornos antigos. Tem tanto de mim aqui nesses cantos. Tem tanto de outras pessoas, algumas delas já se foram. Outras apenas passam por aqui quando não tem outros lugares para ir. Tanto desse lugar já está em repouso, em silêncio e não sei se irá despertar. Creio que o sono profundo será seus sons daqui pra frente. Sinto na pele um anúncio de despedida. Ele parece acenar para mim com todos os seus pretéritos.

clip_image001[8]Os degraus ali debaixo contam lendas sobre uma menina e seus cachos que nunca tinham ido muito além de meia dúzia de esquinas até chegar até aqui dias antes do primeiro inverno branco de sua vida. Contam também encontros de braços que se vestiam de forma simples e natural. Sorrisos surgiam em meio a palavras carinhosas ofertadas por estranhas meninas das quais os nomes pareciam conhecidos como se o vento falasse delas há tempos… Falam ainda de um velho homem de aparência redonda e amável que movimentava todos os músculos de seu corpo quando gargalhava e levava todos com ele porque aquele som era contagiante. Ele se foi num dia de chuva, como gostava, cavalgando; estava ele em busca de um cavalo assustado, na certa iria acalmá-lo e traze-lo de volta pra casa. Ele sabia como poucos o que eles diziam e pobre daquele que dissesse “cavalos não falam nono” ele nada dizia, mas seu silêncio era feito faca afiada a atravessar as entranhas. Gostava daquele olhar livre de maldade, vestindo apenas descaso. Acho que herdei isso dele. Gosto de pensar que sim…

A casa agora está vazia, silenciosa. Falta o cão a andar de um lado para o outro e sinceramente faltam muitas outras coisas também. Já não é mais como antes. É apenas uma casca com recordações minhas e de tantos outros. Mas as últimas visitas parecem ter ofendido todas essas memórias. Lembro de quanto essa varanda reunia dúzias de olhares, centenas de sorrisos e a felicidade daquele homem que tinha ali naqueles movimentos a sua realização. Ele era feliz na maior parte do tempo e gostava da casa cheia, de amigos, mas preferia os cavalos, como eu prefiro os cães. Tem uma foto dele ao lado da lareira, é onde ficam as fotos das pessoas que já se foram. Uma alusão ao fogo e sua perversa motivação. Tudo dura pouco, não é mesmo? As coisas se acabam e você nem se dá conta disso. Quando abre os olhos numa manhã, percebe a casa vazia, ausente de passos e mesmo assim espera. Fica a centímetros da porta de entrada esperando que todos voltem; mas o passado não é um ioiô e só volta em partes, nada físico, apenas metafísico….

E a paisagem se perde do lado de dentro da gente. As lágrimas visitam a face e a pele fica inebriada. A melancolia toma conta do corpo e você aos poucos vai ouvindo aquelas conversas de fim de tarde, com xícaras e livros na mesa da varanda. A escada desenha passos e trás de volta a ilusão daqueles que não estão mais aqui. O sorriso da menina de cachos floresce por alguns segundos e eu a vejo ali, sentada, com seu livro ao lado daquela dama que ela tanto admirava, esperando pelo homem que hoje é apenas um mito, uma lenda que não desaparece porque ela o leva consigo em suas margens. Eu o vejo chegar com seus braços abertos para onde ela salta com toda a segurança porque sabe que ele a fará voar por cima de todas as coisas demasiadamente humanas.

clip_image001[4]

Mas basta uma leve distração pra tudo voltar ao vazio sem sons ou movimentos. De real, apenas o maldito carrilhão com seus sons que ultrapassam tempo e espaço. Ele assustava a menina em suas primeiras horas, depois passou a ser música para embalar uma juventude que teve suas euforias, seus dramas, decepções, mudanças. Teve tantas coisas e ele narrou a maioria delas. Hoje ele é apenas um móvel articulado que serve para despertar o que ainda resta de ilusão.

A casa está vazia e o eco dos meus passos me incomodam. Quero ir embora e dizer que não vou mais voltar, mas é mentira porque por enquanto esse cenário é tudo que eu tenho de meu. Minha história passa por aqui e essa história que me levou até você. Lembra? Você deu uma dúzia e meia de passos em minha direção e me presentou com o seu abraço. Há tempos que alguém não me abraçava porque eu não queria proximidade com humanos. Até você chegar, eu achava que eu tinha uma maldição reinando em minha derme. Mas você com seu sorriso de menino, seu abraço de homem e seu olhar canino foram ficando e hoje, não importa a distância, sempre há algo para te contar ou algo a ouvir de você…

Menina no sótão…

Feliz Ano Velho…

image

Falta pouco, 2010 já escorrega pelas paredes de ontem…

Só mais algumas badaladas e estaremos em 2011: vamos estourar o champanhe, soltar fogos, abraçar uns aos outros porque tudo é novo. Novo??? Mas o que há de novo nessa paisagem insistentemente rebuscada, cheirando a mofo?

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” – já cantava Elis em meados da década de 80  que segue sendo cantada como sendo a melhor de todas as décadas e desde então vimos nascer e morrer mais de uma dúzia e meia de anos e o que foi que realmente mudou?

Fazemos as mesmas promessas feitas por nossos avós e enchemos a cara com espumante barato, pulamos 7 ondas, não comemos aves que ciscam para trás, preparamos lentilhas e sujamos o mar com oferendas a Iemanjá. Mas e nós? Para onde é que vão os nossos passos? Em que direção caminha essa massa??? Daqui a pouco começa outro ano e tudo continua exatamente como era antes…

O ano é novo, você deve estar aí se vestindo branco, olhando insistentemente para o relógio…
Mas o que de fato me assusta são as teias de aranha. É tudo estupidamente igual ao ontem: pessoas seguem dizendo o que as outras devem fazer, como fazer e seguem condenando “o que não é o mesmo velho” aquele que chamam de novo e fantasiam de branco.

O planeta esta a deriva e seus humanos fazem festa como se tudo estivesse predestinado a ser tudo resolvido no último segundo… Se é assim: comecem logo a  tal contagem regressiva. Contam os maiorais: dez, nove, oito, sete, seis… E não ouse ser diferente, não há lugar nesse barco pra quem não segue as regras estabelecidas no tempo de ontem por essa dita “ordem mundial”. Então não seja feio, nem negro, gordo, judeu ou pobre. Gay então, nem pensar. Inteligente demais ou de menos não é aconselhável… E não esqueça a bíblia. Justiça seja feita: é pecado não rezar para o Deus dos homens. Também é pecado ser feliz se sua felicidade não for autorizada pelos cardeais.

Então simplifique a vida, acorde pela manhã sem se lembrar absolutamente de nada, com a cara amassada e uma desculpa no bolso: é ano novo; deixe tudo pra mais tarde, ou pra depois…

E quando finalmente se der conta que o ano já começou: recolha os restos da ceia, das pessoas… Guarde a roupa branca, esconda a decoração inquietante de final de ano e se convença que tudo realmente é novo, ciente de que esse ano, com toda certeza: será diferente.

“Vou colecionar mais um soneto,
outro retrato em branco e preto
a maltratar meu coração”

Tudo isso definitivamente causa um enorme cansaço em minhas artérias, afinal, quantos de nós sabem o som das marés, o sabor das nuvens? E quantos de nós já parou por um segundo que seja para apreciar o movimento dos ventos junto as folhas? Mas sabemos décor a vida do outro que insiste em ser feliz com sua vida desbotada. Quanta ousadia… Não se pode ser diferente: é preciso ser igual. Então arrume uma roupa branca e faça parte do coro.

“Arranca, vida, estufa, veia; e pulsa, pulsa, pulsa, pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais. nem que todos os barcos recolham ao cais
Que os faróis da costeira me lancem sinais
Arranca, vida, estufa, vela, me leva, leva longe
Longe, leva mais”

E como o diferente sempre encontra eco em mim, que seja como deve ser.

Feliz ano velho para todos nós…

Bacio