Aconteceu novembro ainda há pouco…

Aconteceu novembro – lá fora e aqui dentro. Aconteceu de repente, no meio da tarde. As nuvens foram chegando por cima dos prédios. E de repente ouvi aquele som de asfalto molhado. Fechei os olhos para melhor perceber a chuva, o vento – a pele arrepiada e a alma em estado de espanto. Repeti pra mim mesma “aconteceu novembro” naquele silencio de quem não percebe o outro no cenário onde se está.

Em face de outros mil disfarces
que o tempo reassume a cada passo,
pode pensar-se em todas essas mãos
que emergem como sombras embaçadas
em milhares de quartos mobiliados.

Eliot – pág. 79

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E como aconteceu novembro, eu aconteço também – em linhas retas…
Eu sou aquela que acorda antes mesmo de ir dormir e se precipita em passos pela casa antes que os personagens despertem e saíam por aí fazendo algazarra em minha pele…

Eu não sou feita de “aurora” – disso eu tenho certeza porque me demoro a despertar. Demoro a existir. As primeiras horas da manhã, definitivamente, não são para mim. São para os outros. Eu vou lentamente sentindo o sabor dos aromas de manhãs, mas não essas de hoje em dia que cantam lá fora, com sol a brilhar. Tudo aqui dentro de mim é um combinado de coisas antigas: um velho baú de perdidas chaves; um bom punhado de pretéritos com seus muitos aromas: café preto no bule, pão deixado na porta e mesa posta na primeira hora. Tudo feito no escuro. De maneira silenciosa. Com cores se (re) inventando na janela lateral…

Meu café da manhã é servido pouco depois das cinco. São os meus últimos sabores antes do fechar dos olhos. Tudo feito em tom de despedida das coisas vividas na intensidade necessária dentro da noite e suas sombras…

Dentro de mim vive essa lembrança antiga, afável – quase posso tocá-la quando estendo a mão. Movimento engraçado que eu repito seguidas vezes.

O dia vem chegando com suas cores pelos cantos do mundo – vai entrando sem ser convidado pela porta do fundo, onde adormece serena a jabuticabeira. São outros dias – são outras sombras. Coisas de julho. Coisas da infância…

Me distraio e então percebo-me ali, junto a mesa quadrada da cozinha com seus móveis azuis. Tudo coisa antiga. Sinto todos os cheiros uma vez mais… Consigo tocar a velha toalha de crochê feita por mãos enrugadas nas noites anestesiadas de maio – a textura ainda é a mesma…

O tempo naqueles dias tinha outros sons e eu ainda consigo ouví-los, mas já naqueles dias eu trocava o dia pela noite. Antes de dormir, eu ouvia aquelas badaladas demoradas do carrilhão preso bem no meio da velha parede verde desbotado – pouco acima do velho sofá cor de mostarda…

Acordava pouco depois do meio dia…
Refeita, inteira – às vezes pela metade. Ficava na cama, em meio os lençóis finos a observar as figuras junto ao branco do teto. Delirando outras figuras, muitas. Coisas tantas. Sempre gostei de delirar após o despertar…

Às vezes, eu inventava de costurar nuvens com linhas de todas as cores, arrematando o que restava da manhã as primeiras horas de uma tarde ainda sem mapas – e se calhar, bordava um arco íris sobre a cidade, de um rio ao outro e pronto.

Dá pra imaginar tudo isso? Então saiba que lá se vão muitos anos e o mais engraçado é que pouca coisa mudou. É estranho dizer isso porque eu nunca gostei de rotinas, mas quanto mais eu me observo – mais eu percebo que pouca coisa mudou em mim.

Eu sigo sendo essa criatura noturna que pouco ou nada sabe acerca das manhãs e desperta junto às tardes com o sabor dos pretéritos na boca. Tudo coisa velha, guardada dentro de caixas escondidas na parte mais alta do armário que eu busco para saber-me nos dias de ontem que é quando eu me sentava nos degraus da escada para esperar por ele – o homem que me tirava do chão e me fazia voar. Com ele eu aprendi a ser gaivota e a arrulhar alto – zombando dos humanos que não saem do chão…

E eu ainda me sento nos degraus que tenho por perto nos fins de tarde. São outros, eu sei. Mas eu não dou por eles no tempo de hoje. Sou arredia. Fico com o que eu já tive e me contento em reviver inúmeras vezes essa sensação. Ainda agora, ao fechar os olhos eu posso vê-lo por alguns segundos – em sua marcha interrompida para abrir os braços para mim. Vejo-o ajoelhar-se para receber-me num abraço mágico. Alado. E sou menina outra vez, saltando para aquele vôo por cima de todas as coisas do mundo…

Eu respiro fundo e volto para cá, esse tempo de agora onde a noite acontece dentro desse novembro agridoce. Amanhã pode tudo acabar e vai – mas por enquanto, eu tenho tempo… Tempo para perceber em meus lábios esse sorriso branco, agradável. Alegre que se demora junto aos meus lábios, se espalha pela pele e depois pela alma.

Minha vida é esse sentir apertado – gostoso.
Com chá esfriando na xícara de um lado, livros de poesias em mãos e olhar pregado junto ao horizonte dessa cidade que exibe ainda um ou outro telhado vermelho, um bom punhado de prédios cada vez mais altos – dúzias de ruas com seus movimentos de fora para dentro, algumas esquinas e muitas calçadas…

E assim, vai acontecendo novembro mais uma vez e eu vou contando os dias, as horas e assim vou multiplicando as coisas que tenho para guardar dentro dessas caixas…

Aconteceu novembro agora há pouco,
espero que você tenha percebido…