Portas fechadas

Sexta-feira,

Andei pelos quatro cantos desse lugar e tive certeza de que não mais me pertence. Sinto-me em paz. Não era pra mim. Embora seja triste saber que amanhã ou depois vai virar qualquer coisa alheia. Enfim, a vida é isso. É o dia seguinte – e eu posso muito bem viver com isso…

Pela última vez passei por aquela porta e senti — não nego — o desconforto da última vez.  Saí de lá com uma caixa pequena em mãos… fechei a porta e entreguei as chaves (duas) ao novo (feliz) proprietário, que parecia saído de um filme antigo: relógio no bolso, calça, colete, paletó e chapéu em mãos…

Ao entregar as chaves nas mãos dele… me lembrei, de que eu nunca soube para que servia uma daquelas chaves. Eram duas. Mas apenas uma delas tinha utilidade: trancar-abrir a porta de entrada-saída. Todas as outras portas (internas) não tinham chave…

Durante três anos inteiros…  carreguei aquela chave comigo: para cima e para baixo…  e nunca me ocorreu descobrir para que ela servia.  Cheguei a casa com o braço cansaço… a caixa em si pesava mais que seu conteúdo.

E agora a pergunta que se faz necessária: o que faço eu da vida?…
Decidir o que não mais fazer foi a parte mais fácil.  O problema está em não saber o que será feito dos dias seguintes… aqueles que vêm para cima da gente com força e vontade. Mas não vou pensar nisso hoje… vou cumprir com a minha sina e deixar para amanhã porque hoje estou de luto por tudo que se fechou atrás de mim.

 

Ps. Que ninguém ouse me dizer que sempre que se fecha uma porta – outra se abre.

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Vende-se o passado… alguém quer comprá-lo?

Sai para andar e acabei na Via Garibaldi… como se meus pés tivessem um ‘mapa secreto’ a me conduzir sempre ao mesmo lugar-café. Mas, enquanto degustava de meu líquido favorito em pequenos goles…  naveguei em outras direções.

Nos últimos dias… tenho passado um bom punhado de tempo com o olhar detido à janela. Há muitas vidas lá fora e de repente tenho me interessado por aqueles humanos fantasiados de pessoas. Eu sempre gostei de janelas — desde a infância… quando me deparava com dona M., que a bordo de seus quase setenta anos (tempo demais para uma menina de quase seis compreender) se dedicava a sua tarefa favorita: tomar conta da vida dos vizinhos. Ela sabia das chegadas-partidas. Ouvia conversas inteiras, pela metade e inventava possibilidades que, às vezes, determinava o caos em nossa rua.

Eu era a única a me divertir com aquela “figura mística”… que sabia se fazer ouvir. Sua voz alcançava as duas esquinas de nossa rua e invadia qualquer cômodo da nossa casa. Sempre acreditei que ela adorava quando um ou outro vizinho ralhava com ela. Tinha para mim que ela era solitária. Os dois filhos viviam em outro país e nunca a visitavam. O marido tinha morrido havia alguns anos — o coração parou… e ela ocupava a mesma casa-grande desde os anos quarenta. Pela manhã limpava os enormes cômodos e fazia bolinhos para ninguém. Sua casa era a única da rua a não receber visitas durante o ano.

E eu, às vezes, quando me sentava no portão de casa para esperar pelo babo… tinha vontade de ir até ela e dizer ‘olá’… mas C., não a suportava por causa das fofocas que fazia  então apenas lhe sorria e sentia qualquer coisa de empatia em seus gestos menores… qualquer coisa de sorriso em seus lábios, qualquer coisa de lágrimas em seus olhos.

Ela, mais que rapidamente, fechava as cortinas com as duas mãos num gesto rude… e desaparecia.

Ela foi a minha ‘primeira tela de Hopper’… e, às vezes, como hoje… lamento não ter lhe dito ‘olá’… de não oferecer a ela um instante de companhia. É estranho me deparar com a janela de sua casa fechada, o lugar abandonado e uma placa de ‘vende-se’ amarrada no portão…

Não perdi o hábito de escrever em diários,

Sexta-feira/02.

Acordei no meio da tarde, com o sol invadindo as frestas da minha veneziana. Um livro de Campos (emprestado) adormecia no travesseiro ao lado. Restos de uma noite longa onde me dediquei aos desconfortos de uma vida inteira. Tudo fracionado, é claro. Uma xícara vazia. Um caderno vermelho, uma lapiseira antiga (pentel 05) e alguns rascunhos (isso eu tenho aos montes)…

Estou insatisfeita… mas isso não é novidade.
Estou cansada dos mesmos lugares e das muitas sombras nas quais esbarro quando saio as ruas desse lugar. Ocorre que não quero estar aqui, mas também não quero estar em outro lugar. Estou naquela fase de ficar trancada no quarto a espiar o teto com os meus olhos bem abertos até adormecer…

Eu ando sem argumento… me sinto ‘estrangeira’ em minha própria pele… essa terra de ninguém. pensei em viajar até um lugar escolhido a esmo no mapa que esta aberto em cima da mesa da sala. Era de mio babo… que gostava de espetar com um alfinete colorido os lugares onde pisou os pés-alma-olhar.

Talvez eu faça o mesmo… talvez (o mais provável) eu nada faça!