Dez para a sete

Não gosto nada da ideia de ser apenas um “nome”…  olho no espelho e digo meu nome em voz alta, como quem aprende as letras… uma depois da outra – em fila, como se eu estivesse a escreve-lo em um pedaço de papel branco…

Cinco letras. Três consoantes. Duas vogais e pronto… é o que sou, mas há toda uma história por trás desse nome. São vinte e poucos anos de vida, mas a isso devo somar também os sonhos de outra pessoa, o projeto de vida e tudo que aconteceu até o exato instante em que fui catapultada ao ‘mundo das coisas e suas causas’.

Contudo, a realidade se limita ao que sou: um nome… dito em voz alta por outras pessoas, quando querem me chamar ou pelas meninas-meninos da Starbucks após finalizar minha bebida: latte branco extra hot…

Mas essa página é como um livro… e eu escolho os livros que leio com a ponta dos dedos. Um contato breve: apenas um toque. Depois sinto a textura da capa junto à mão. Leio as primeiras linhas e então o tomo para mim. O título quase sempre me escapa… feito gato em movimento pela casa a passear os pelos pela mão de seu humano…

O título mais perfeito de um livro para mim até hoje foi “noite e dia” de Virginia Woolf… tem qualquer coisa de poesia, plasticidade e perfeição — dois elementos que não se podem misturar, um continua o outro, mas também determina o outro. Sonoramente ele parece um sopro do vento no meio de uma tarde a se aprontar para uma tempestade… a nos confidenciar o que são seus personagens que não sabem exatamente o que querem um do outro, mas…

Como se escolhe o título de um livro? Penso. Respiro fundo — vou à cozinha. Água na chaleira. Erva escolhida. Xícara sobre a mesa. Alguns minutos depois o chá está pronto e a certeza já vive em mim: “não é nada fácil”.

Precisa existir qualquer coisa de conflito… que faça sangrar, doer, arder. É preciso um Norte… mas como escolher as consoantes e vogais perfeitas que caibam dentro do espaço de um olhar? Precisa ser a resposta para si mesmo.

Enfim, depois de algum tempo olhando para a tela, eu escolhi “ca-ta-ri-na”… Oito letras. Quatro consoantes e quatro vogais. Não é perfeito — tenho consciência disso —, mas é este o meu rótulo de momento e tenho consciência de que não poderia ser outro que não este…

Então pronto!

Anúncios

Primeiro…

…eu gosto de passar pela porta, ouvir o som da chave dentro do tambor, descer os pares de degraus que me levam até o portão e depois de ultrapassá-lo… pisar o chão quadriculado — sem bússolas ou mapas… apenas movimento de ruas-calçadas-esquinas. Gosto imenso de sentir os caminhos… perceber os atalhos e suas (im)possibilidades. Saber que estou a ir… ainda que não saiba absolutamente nada sobre lugar-chegar…

Aprendi na primeira infância a admirar as anatomias dos prédios: desenhos de portas-janelas, contornos de paredes-muros-jardins — desenhos de casas.

Depois de alguns passos… sempre me recordo do encanto que senti ao caminhar pelas carrugi e avistar no alto — pela primeira vez —, os estendais cheios de roupas pequenas-grandes-de-diferentes-formatos-coloridas — desenhos de pessoas.

Foi nesse tempo que aprendi a enfiar as mãos no bolso da calça — detendo os movimentos das mãos em regência verbal — e pregar os olhos nos arredores, não deixando escapar um único movimento de vida.

Às vezes, me distraia com as nuvens, as folhas das árvores, os vôos dos pássaros, o latido eufórico de um cão, crianças em bando a caminho da escola, velhos amigos a jogar cartas na praça, os barcos em seus movimentos de chegadas-e-partidas, os coletivos em seus quartos de horas, as senhoras com as listas e sacolas de pano em mãos, os homens da fé em seus percursos peregrinos, os meninos a caminho do campinho, as meninas sorridentes a espiar seus futuros — desenhos de sonhos…

Ao repassar esses meus movimentos de primeira infância, concluo que todos esses desenhos eram na verdade a minha premissa e devo afirmar que C., estava certa em suas afirmativas certeiras — mesmo assim eu fui em outras direções, antes de atracar nesse Porto.