Lua de Papel

Apresentação

O amor, é um sentimento arisco, que provoca mudanças surpreendentes. No caso de Alexandra, protagonista de “Lua de Papel”, romance de Lunna Guedes que será lançado em 07 de Agosto, a transformação gera desconforto. Cheia de rótulos e oriunda de uma cidade pequena onde certo e errado são  vertentes comuns de seus moradores, a personagem, vê sua conturbada realidade ser esmigalhada por um sentimento, considerado “impróprio”. Alexandra finge, foge e sucumbe em si mesma. Com a verve poética que lhe é característica, a autora conta a história desse conflito interno que é aceitar as diferenças que norteiam o amor pelo outro, no caso, pela outra…

A narrativa de Lunna Guedes nos oferece desde a primeira linha o mundo de Alexandra Mendes, nos proporcionando sabê-la em suas limitações até o instante que surge Raissa Mendelson — a personagem que vem de outro mundo — sem regras ou preciosismo, vivendo por viver somente… e, que a cada  novo contato vai seduzindo Alexandra nessa experiência nova e inusitada. Aceitar-se, será, sem duvida, seu maior desafio.
Sem julgar as personagens em momento algum, Lunna traça o perfil dessas duas mulheres e, nos transporta com alguma naturalidade para esse mundo, nos envolvendo e, por alguns minutos, nos fazendo sentir as mesmas emoções…

Hellen Schimidt

 lua-de-papel-capa_thumb1

Trecho de Lua de Papel

…“Às vezes um silêncio crescente se apodera da paisagem e o único som a se repetir lá fora é o dos grilos… nessa hora as poucas luzes da cidade enfrentam a escuridão – dizem que os mortos se levantam e andam sob o luar – mas eu nunca dei por eles… vivo a espiar a rua pelas frestas de minha janela entre uma página ou outra dos livros que leio, mas o único movimento que percebo é de cão vira lata que veio não se sabe de onde há mais tempo que eu consigo contar – andando de um lado para o outro em busca de alimento nas latas de lixo enfileiradas sob as calçadas. Pela manhã ele esta deitado na porta do bar de meu pai que o alimenta e, trava com ele um estranho diálogo.

Mesmo sabendo não haver mortos não ouso visitar as poucas vias de Teodoro e, quando espio seus contornos pela frestas de minha janela o medo se precipita em mim dizendo fantasmas que essa gente inventou e eu agasalhei.

A cidade de Teodoro, e seu punhado de ruas, começa a esvaziar-se por volta das seis horas no inverno quando os dias são invariavelmente mais curtos e a sopa é servida pouco depois da ave-maria… Nos dias de verão, o horário é outro – oito horas – porque nesses dias, as senhoras levam para a calçada a cadeira, lãs, agulhas e uma interminável vontade de tagarelar dando um novo sentido a palavra “tricotar”… Falam da vida alheia como se falassem da novela das oito e seus personagens comuns. Inventam histórias. Acrescentam verdades pessoais e acusam os desafetos. Sempre achei estranho os sorrisos e os acenos que elas entregam para as vizinhas desprezadas por gestos, ditos, inconvenientes. No domingo, no entanto, sentam-se lado a lado e fazem o sinal da cruz para o homem de olhar amendoado no altar, pouco depois dizem amém, já estão livres para o pecar mais um punhado de vezes…

E eu, aqui nesse meu mundo pequeno-estreito me escondo a fim de sobreviver. Eu só penso em resistir para não desaparecer como fazem todos nessa cidade.

Na semana passada morreu Lurdes Maria – no velório discursou o padre Antônio com suas palavras de sempre que veem surgir novas pausas em cada frase – em dezesseis anos já ouvi dúzias de vezes aquele mesmo discurso demorado…

A cidade inteira participou do cortejo – rezando as mesmas preces – e no dia seguinte ela era apenas um nome na lápide ou o nome citado em tom de saudade no meio da conversa das senhoras desocupadas. Contudo, bastou um punhado de dias para que ninguém mais se lembrasse de quem ela era ou o que ela tinha feito… agora ela é apenas mais uma fotografia na parede da loja do Paulo que é esse homem que herdou do pai a profissão de fotografar os habitantes da cidade. O nome dele ninguém se lembra – Paulo era o nome do pai – o dele ninguém nunca soube porque nessa cidade existir e desaparecer é quase a mesma coisa”.

Um comentário sobre “Lua de Papel

Seja como o vento, cause tumulto em minhas cortinas e deixe um rastro para que eu possa te alcançar...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s