Dia de chuva

Resolvi levar meu guarda-chuva para um passeio.
Foi agradável… passeamos pelas “carruggi” de Gênova.

Tudo cinza.
Inclusive as pessoas…
Os guarda-chuvas, contudo, tinham cores diversas.

Eu gosto da luz acesa em dias cinza… é interessante — nos permite aquela sensação gostosa de aconchego. Narrativa antiga. Escrita a luz de velas no tempo que não me pertence, mas desejo. Uma nostalgia abraça a pele e me leva para algum lugar distante da multidão…

A noite parece ter pressa de chegar… e vai se espalhando por todos os cantos da cidade, feito um vírus que a tudo contagia. As pessoas — indócis —, pouco habituadas a escuridão, desaparecem… restando apenas os fantasmas a assombrar as vias-urbanas-nada-humanas…

Não perdi o hábito de escrever em diários,

Sexta-feira/02.

Acordei no meio da tarde, com o sol invadindo as frestas da minha veneziana. Um livro de Campos (emprestado) adormecia no travesseiro ao lado. Restos de uma noite longa onde me dediquei aos desconfortos de uma vida inteira. Tudo fracionado, é claro. Uma xícara vazia. Um caderno vermelho, uma lapiseira antiga (pentel 05) e alguns rascunhos (isso eu tenho aos montes)…

Estou insatisfeita… mas isso não é novidade.
Estou cansada dos mesmos lugares e das muitas sombras nas quais esbarro quando saio as ruas desse lugar. Ocorre que não quero estar aqui, mas também não quero estar em outro lugar. Estou naquela fase de ficar trancada no quarto a espiar o teto com os meus olhos bem abertos até adormecer…

Eu ando sem argumento… me sinto ‘estrangeira’ em minha própria pele… essa terra de ninguém. pensei em viajar até um lugar escolhido a esmo no mapa que esta aberto em cima da mesa da sala. Era de mio babo… que gostava de espetar com um alfinete colorido os lugares onde pisou os pés-alma-olhar.

Talvez eu faça o mesmo… talvez (o mais provável) eu nada faça!