Vende-se o passado… alguém quer comprá-lo?

Sai para andar e acabei na Via Garibaldi… como se meus pés tivessem um ‘mapa secreto’ a me conduzir sempre ao mesmo lugar-café. Mas, enquanto degustava de meu líquido favorito em pequenos goles…  naveguei em outras direções.

Nos últimos dias… tenho passado um bom punhado de tempo com o olhar detido à janela. Há muitas vidas lá fora e de repente tenho me interessado por aqueles humanos fantasiados de pessoas. Eu sempre gostei de janelas — desde a infância… quando me deparava com dona M., que a bordo de seus quase setenta anos (tempo demais para uma menina de quase seis compreender) se dedicava a sua tarefa favorita: tomar conta da vida dos vizinhos. Ela sabia das chegadas-partidas. Ouvia conversas inteiras, pela metade e inventava possibilidades que, às vezes, determinava o caos em nossa rua.

Eu era a única a me divertir com aquela “figura mística”… que sabia se fazer ouvir. Sua voz alcançava as duas esquinas de nossa rua e invadia qualquer cômodo da nossa casa. Sempre acreditei que ela adorava quando um ou outro vizinho ralhava com ela. Tinha para mim que ela era solitária. Os dois filhos viviam em outro país e nunca a visitavam. O marido tinha morrido havia alguns anos — o coração parou… e ela ocupava a mesma casa-grande desde os anos quarenta. Pela manhã limpava os enormes cômodos e fazia bolinhos para ninguém. Sua casa era a única da rua a não receber visitas durante o ano.

E eu, às vezes, quando me sentava no portão de casa para esperar pelo babo… tinha vontade de ir até ela e dizer ‘olá’… mas C., não a suportava por causa das fofocas que fazia  então apenas lhe sorria e sentia qualquer coisa de empatia em seus gestos menores… qualquer coisa de sorriso em seus lábios, qualquer coisa de lágrimas em seus olhos.

Ela, mais que rapidamente, fechava as cortinas com as duas mãos num gesto rude… e desaparecia.

Ela foi a minha ‘primeira tela de Hopper’… e, às vezes, como hoje… lamento não ter lhe dito ‘olá’… de não oferecer a ela um instante de companhia. É estranho me deparar com a janela de sua casa fechada, o lugar abandonado e uma placa de ‘vende-se’ amarrada no portão…

Dia de chuva

Resolvi levar meu guarda-chuva para um passeio.
Foi agradável… passeamos pelas “carruggi” de Gênova.

Tudo cinza.
Inclusive as pessoas…
Os guarda-chuvas, contudo, tinham cores diversas.

Eu gosto da luz acesa em dias cinza… é interessante — nos permite aquela sensação gostosa de aconchego. Narrativa antiga. Escrita a luz de velas no tempo que não me pertence, mas desejo. Uma nostalgia abraça a pele e me leva para algum lugar distante da multidão…

A noite parece ter pressa de chegar… e vai se espalhando por todos os cantos da cidade, feito um vírus que a tudo contagia. As pessoas — indócis —, pouco habituadas a escuridão, desaparecem… restando apenas os fantasmas a assombrar as vias-urbanas-nada-humanas…