Primeiro…

…eu gosto de passar pela porta, ouvir o som da chave dentro do tambor, descer os pares de degraus que me levam até o portão e depois de ultrapassá-lo… pisar o chão quadriculado — sem bússolas ou mapas… apenas movimento de ruas-calçadas-esquinas. Gosto imenso de sentir os caminhos… perceber os atalhos e suas (im)possibilidades. Saber que estou a ir… ainda que não saiba absolutamente nada sobre lugar-chegar…

Aprendi na primeira infância a admirar as anatomias dos prédios: desenhos de portas-janelas, contornos de paredes-muros-jardins — desenhos de casas.

Depois de alguns passos… sempre me recordo do encanto que senti ao caminhar pelas carrugi e avistar no alto — pela primeira vez —, os estendais cheios de roupas pequenas-grandes-de-diferentes-formatos-coloridas — desenhos de pessoas.

Foi nesse tempo que aprendi a enfiar as mãos no bolso da calça — detendo os movimentos das mãos em regência verbal — e pregar os olhos nos arredores, não deixando escapar um único movimento de vida.

Às vezes, me distraia com as nuvens, as folhas das árvores, os vôos dos pássaros, o latido eufórico de um cão, crianças em bando a caminho da escola, velhos amigos a jogar cartas na praça, os barcos em seus movimentos de chegadas-e-partidas, os coletivos em seus quartos de horas, as senhoras com as listas e sacolas de pano em mãos, os homens da fé em seus percursos peregrinos, os meninos a caminho do campinho, as meninas sorridentes a espiar seus futuros — desenhos de sonhos…

Ao repassar esses meus movimentos de primeira infância, concluo que todos esses desenhos eram na verdade a minha premissa e devo afirmar que C., estava certa em suas afirmativas certeiras — mesmo assim eu fui em outras direções, antes de atracar nesse Porto.

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